sábado, 26 de dezembro de 2015

É preciso urgentemente requalificar o espaço de comentários nos blogues: ele se tornou profissionalizado, inútil e pernicioso


Para quem viveu a empolgação da possibilidade de troca de informação na internete, e mais ainda a empolgação da descoberta dos blogues como recursos de expressão baratos, rápidos, eficientes e com muitas facilidades de interação, é completamente decepcionante perceber que boa parte das conquistas em termos de liberdade e possibilidade de diálogo podem estar indo para o ralo por puríssima falta de bom senso no uso.

Alguns blogueiros e páginas que acompanho frequentemente desativaram o espaço de comentários, sem mais. Ninguém pode culpá-los nem criticá-los por isso. Eles não estão fugindo do debate de ideias, mesmo porque esse debate simplesmente não acontece. O que eles fazem é evitar o dissabor das agressões verbais e da falta de senso de internautas sem civilidade. A prova de que a coisa está nesse nível é que mesmo os grandes portais, que via de regra abrem espaço em suas publicações para comentários dos internautas, já criaram maneiras de filtrar certas inserções, bloqueando palavras, limitando intervenções ou até suprimindo a possibilidade de comentário, tal como os blogueiros a que me referi. E leve-se em conta que esses grandes portais pagam funcionários para cuidar desses espaços virtuais.

Essa tendência de intervenção desqualificada (em alguns casos, até doentia) dos leitores de textos de internete talvez seja apenas reveladora da deterioração geral da urbanidade numa sociedade individualista, competitiva, violenta e frustrada. Em grande parte, creio que isso é verdade. Por outro lado, há outras motivações por trás da mediocridade, às vezes tão medíocres quanto as intervenções agressivas, às vezes inteligentes a ponto de apenas utilizá-las, sem se confundir com elas.

Percebo em portais como UOL, Terra e Yahoo a presença maciça de comentaristas profissionais, preparados para inserir ideias fixas (verdadeiramente fixas) em quaisquer espaços em que for possível. Essas ideias são em boa parte assustadoras, em sua maioria são apenas medíocres, algumas podem ser apenas irrelevantes, e algumas poucas são válidas e sensatas. Não há muito como medir isso, depende de fazer um levantamento e uma análise minimamente isentas e fundamentadas, e eu mesmo não teria essa condição. Mas não é preciso mais que alguns minutos de leitura para que se perceba que o perfil convicto-agressivo-arrogante é o que predomina, infelizmente. 

Esse perfil de comentarista não é, de forma alguma, ingênuo, nem age de forma aleatória. Há comentaristas que emitem sua opinião, reforçam, e depois conseguem tempo para atacar sistematicamente toda e qualquer opinião divergente que seja postada. Creio que a sistematicidade seja a característica que melhor se apresenta na ação desses internautas. Parece que suas energias são claramente direcionadas para: a) ocupar um determinado espaço de escrita dentro de um veículo, seja uma postagem, seja uma notícia, seja outro espaço qualquer; b) postar ideias que reforcem determinadas visões fechadas e definitivas de mundo - raríssimas vezes você vê esse perfil equilibrando prós e contras, ou fazendo perguntas, ou questionando seu próprio raciocínio e suas limitações de compreensão; c) dar sempre a última palavra sobre um assunto ou numa sequência de argumentações, se possível desqualificando, ridicularizando e silenciando a posição adversária, colocando-a como absurda ou medíocre - as risadas, as ironias e a distorção do que foi escrito são estratégias comuns para esse fim; d) cercar os perfis com opiniões diferentes e combatê-los ou agredi-los sistematicamente, não permitindo que nenhuma ideia levantada possa ficar sem resposta; e) unir-se a perfis semelhantes e atuar de forma a estabelecer um "efeito manada", como se a quantidade de postagens ou respostas pudesse substituir a qualidade da argumentação.

Sem toda essa sistematização, essa forma de ocupar o espaço virtual não seria possível, pois estaria fadada ao fracasso ao ser identificada como autoritária, paranoica e altamente desagradável para quem lê. E essa necessária sistematização pressupõe a profissionalização do perfil comentarista: é preciso que alguém tenha tempo, incentivo e recursos para não perder nenhuma postagem adversária. Assim, quando as organizações ou estruturas de poder que sustentam esses perfis elegem um adversário ideológico, procuram adentrar seu espaço virtual e realizar uma espécie de estratégia de "terra arrasada", destruindo toda e qualquer possibilidade de equilíbrio no debate de ideias. Isso também pode ser percebido de forma muita evidente: basta acessar rapidamente a rede para notar que há notícias e blogues que ninguém comenta, ao passo que há espaços em que parece estar havendo uma nova guerra de nervos a cada publicação. 

- Ora, isso tudo é parte do embate político de ideias - poderia dizer o meu interlocutor imaginário. Concordo. Mas até a política tem de ter regras de civilidade para se estabelecer. Na história, abominações como extermínios em massa e guerras de conquista são parte de políticas de Estado, por exemplo, mas isso não as torna mais legítimas. Agressões, intimidações, humilhações são parte das estratégias de manipulação na comunicação humana, é fato. Mas não há outras estratégias? Não há uma riqueza enorme de possibilidades nesse sentido, dentro do diálogo, da interlocução respeitosa, da conversa para enriquecimento mútuo?

O que acaba acontecendo é que esse perfil de comentarista torna-se um propagador violento e autoritário de ideias fixas, às vezes polêmicas, às vezes meramente agressivas, mas nunca ingênuas nem despropositadas. E ele transforma o espaço de debate em um espaço de escrita virulenta, por vezes covarde, porque a distância física e a possibilidade do anonimato garantem uma postura irresponsável em relação ao que publica. Para quem mantém blogues, o resultado é por vezes desastroso, em especial para pessoas não profissionais como eu, que escrevem de vez em quando e não têm como abandonar as outras atividades que garantem seu sustento para cuidar do que está acontecendo em suas postagens. O que acontece, muitas vezes, é que uma postagem que seria boa, se tomássemos só o texto, torna-se intragável quando lidos os comentários. Em certos casos, os comentários nada têm a ver com o espírito nem da postagem nem do blogue, ou nada acrescentam a uma determinada questão, servindo apenas para marcar posição; são, assim, irrelevantes e inúteis. Mas pode ser ainda pior, porque muitas vezes, além de serem descartáveis para o debate, os comentários desviam da ideia principal de tal forma que acabam se focando em ataques ad hominem e agressões desvairadas. Nesse caso, eles são, sem dúvida, perniciosos para quem escreve, para quem lê e sobretudo para quem os recebe em seu blogue.

O que fazer contra esse troll profissional, que transforma um espaço de debate em um espaço de exclusão, violência e impraticabilidade do diálogo? Não há soluções fáceis, admito. Creio que, em primeiro lugar, nunca se deve entrar na "pilha" do comentador mal educado, porque isso é tudo o que ele quer. Uma vez que ele está "equipado" para a guerra, tentar confrontá-lo é dar-lhe crédito em seu campo, e perder tempo, energia e disposição. Recomendo uma frieza quase didática se se considerar que uma resposta vale a pena. Em segundo lugar, é preciso desarmá-lo de sua postura, e uma boa maneira de fazer isso é expor sua estratégia. Isso pode ser feito quando isolamos as palavras agressivas para comentá-las, ou questionamos a caixa alta e as risadas, ou detectamos o "efeito manada" na atuação de distintos perfis. De novo, é necessário sangue frio, e preparação para o revide, porque expor as inconsistências de discurso ou intenções subjacentes de um interlocutor normalmente tende a incomodá-lo. Em terceiro lugar, acredito que seja saudável e importante localizar, selecionar e divulgar, ou até mesmo construir, espaços virtuais públicos de discussão ampla sobre determinados assuntos. Quando um engraçadinho quisesse fazer um bate-boca sobre alguma questão com a intenção clara de perturbar um internauta, ele poderia ser remetido a um desses espaços, para testar suas ideias dentro de um ambiente mais amplo. Responder a uma postagem arrogante com o link de um especialista ou de um fórum sobre a questão pode ser um bom método de qualificar a discussão, ou obrigar o interlocutor a responder não aos argumentos do blogueiro, e sim aos de muitas outras pessoas que se debruçaram sobre o assunto. Por fim, acredito que seja legítimo, em grande parte dos casos, simplesmente não responder, apagar o comentário ou mesmo responder em particular, se se sentir que isso é possível. Boa parte dos blogues são espaços pessoais, embora com exposição pública. Ninguém pode ser obrigado a aceitar atitudes desrespeitosas, que acabam ganhando uma publicidade indevida, e que muitas vezes são realizadas justamente para obter essa publicidade. Ademais, o comportamento de muitos dos perfis na internete chega a ser psicótico, e não são todas as pessoas que conseguem lidar com esse padrão de comportamento. 

Em complemento a esta postagem, vou colocar alguns exemplos de comentário pernicioso nos vários portais e blogues que acompanho, apenas para que não pareça que esse é um incômodo exclusivamente meu, ou relacionado a uma situação específica. Vou fazer isso aos poucos. O importante é que decidi não mais prestigiar a ignorância. Ou será remetida a um debate qualificado, ou será desprezada. É isso.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Linguagem, escolhas e notícias

Acabei de fazer uma consulta rápida às minhas fontes e verifiquei que o continente americano possui mais de 900 milhões de habitantes. É muita gente.

Imagino que, dentro desse imenso contingente populacional americano, não sejam todas as pessoas que tenham condições de ser atletas. Muito menor deve ser o número de atletas de destaque. Muito menor ainda o de atletas em condições de representar seu país. E deve ser ínfimo, para esse contingente, o número de atletas em condições de disputar e vencer uma medalha nos Jogos Panamericanos.

Na verdade, eu não estava pensando a respeito disso até deparar com a manchete do portal Terra que aparece na figura abaixo:



Não farei aqui nenhuma avaliação sobre a conveniência ou inconveniência dos termos empregados. Mas chamo a atenção do leitor para a posição do autor da matéria em relação às informações selecionadas para compor o texto. Repare como a escolha das palavras determina um viés de interpretação em relação ao que é e o que não é importante.

Primeiro, vamos à notícia. Mayra Aguiar conquistou medalha de prata no judô no Pan. A medalha de ouro foi conquistada por Kayla Harrison. As duas já se enfrentaram anteriormente diversas vezes. Essas informações podem ser recuperadas de diversas formas, a partir de distintas escolhas de linguagem. Cada escolha reforçará uma ideia, e não será neutra, pois implicará seleção de informações mais específicas para complementar a ideia das informações principais.

Começo destacando o termo "jejum". Ele aparece como primeira palavra da manchete, e está semanticamente associado a "fome", "falta" e "período de tempo". Com sentido evidentemente negativo, ele está associado à não conquista da medalha de ouro pela atleta. Especificamente da medalha de ouro, porque Mayra Aguiar já havia conquistado prata no Pan de 2007 e bronze no Pan de 2011. Seria possível destacar a sequência histórica de conquistas de medalhas, mas a opção recai na sequência de não conquistas da medalha de ouro.

A ideia de "derrota" que se amplia no tempo (veja o uso do verbo "continua" associado a "jejum") estabelece uma direção para o texto, que tende a se uniformizar em sua construção. É importante ressaltar que essa ideia é evidentemente polêmica, como vimos, pois a definição de sucesso está atrelada tão somente à conquista da medalha de ouro. A despeito disso, a manchete permanece fiel à negatividade anunciada na primeira frase, reforçando com a expressão "perde mais uma". É como se as lutas perdidas estivessem sendo contadas, e as vencidas fossem menos importantes.

Adiante, ainda na manchete, utiliza-se o vocábulo "algoz". O Dicionário Houaiss define "algoz" como "carrasco, executor da pena de morte ou de outras penas capitais". Essa metáfora, comum no jornalismo esportivo, é dramática e hiperbólica, e poderia passar como licença poética se não reforçasse, no contexto empregado, a ideia de insucesso, atribuindo muito maior poder a quem vence (metaforicamente, aquele que mata) e muito menor poder a quem é vencido (metaforicamente, aquele que morre).

Para que não se pense que a análise atribui mais peso aos termos do que eles possuem, consideremos que não se trata de usar ou não a ideia de "algoz", mas de fazê-lo junto com as ideias de "jejum", de perder "mais uma" e de ser "novamente derrotada" (expressão presente no lide). Todas essas expressões, que semanticamente reforçam os traços relativos à derrota, são compensadas apenas pela única informação não negativa, a da medalha conquistada, de "prata". Interessante notar que mesmo a informação da medalha de prata aparece negativizada pelo texto, pois não é apresentada como conquista, e sim como consequência de um fracasso.

O texto desenvolve-se com esse viés e há poucas concessões à positividade da campanha realizada pela judoca. Quanto à ideia da série histórica de derrotas, a matéria aponta para um saldo negativo a partir de uma interpretação sobre os resultados anteriores dos confrontos entre Kayla e Mayra. Note-se que o viés adotado estabelece que dados se deve recuperar da informação e como comentar esses dados:


No caso do trecho selecionado, a primeira informação dá conta de que Mayra havia vencido sete vezes Kayla, uma a mais que a adversária. Portanto, com o resultado da final do Pan, estabelece-se um equilíbrio na disputa, um empate. Entretanto, o autor desconsidera os números da série histórica de confrontos porque, apontando esse empate, eles não reforçam sua ideia central, associada às noções de derrota e fracasso. Para manter a coerência com o viés adotado, recupera apenas duas competições indicadas como "grandes eventos", o Pan de Guadalajara e a Olímpíada de Londres. Com isso, pode falar de "retrospecto negativo": ele não se refere ao histórico dos confrontos, mas às disputas realizadas em "grandes eventos". O recorte da informação consolida a ideia negativa, que poderia ser afastada pelos dados mais amplos. Também é importante notar que a redação considera que o leitor tenha a mesma opinião do autor do texto sobre o que seriam "grandes eventos".

O que estou tentando mostrar com isso? O seguinte:

1) nenhum texto jornalístico é neutro, porque a língua não é um recorte neutro do mundo;
2) há muitas formas de lidar com dados, informações e números; portanto, é preciso cuidado quando as pessoas dizem que "contra fatos/números não há argumentos";
3) não é possível que três medalhas conquistadas em três edições do Pan por uma judoca possam ser vistas como "jejum" ou possam ser associadas a "retrospecto negativo";
4) dentre 900 milhões de americanos, a atleta brasileira habilitou-se para a conquista de uma medalha de prata em uma modalidade de judô, tendo sido derrotada apenas na final da competição por uma atleta estado-unidense, e isso é lembrado por um grande portal de mídia como fracasso;
5) não sei qual a cartilha dos jornalistas de hoje em dia, e menos ainda em relação ao portal de onde extraí a notícia, mas há claramente um viés de desvalorização do atleta na forma como a informação é noticiada; 
6) não acho que é justo estendermos a nossos atletas esse complexo de inferioridade que caracteriza boa parte do pensamento de nossa sociedade, e que não se justifica de maneira alguma.

O pior não é isso. O pior é que essas escolhas de linguagem, articuladas a matérias lidas muitas vezes de forma apressada e irrefletida, produzem um certo "senso comum" para o público em geral, que assimila esse viés de desvalorização como se ele fosse de fato uma abordagem neutra e objetiva. E aí é dose: atletas como Mayra Aguiar, medalhistas em Pan, Mundiais e Olimpíada, têm sua imagem associada ao fracasso. O que é quase um crime numa sociedade que, via de regra, só apoia com patrocínios e investimentos, no esporte, os que já venceram ou têm enormes chances de vencer, deixando em segundo plano aqueles que lutam com gigantesca dignidade, mas que não têm a oportunidade de subir em pódios.




quinta-feira, 9 de julho de 2015

O dom de cantar e o dom de saber usar esse dom



Lembro-me de ouvir, sobre meu ídolo esportivo de sempre, Roger Federer, que algumas vezes ele se perdia durante as partidas que disputava por uma razão até meio bisonha. O tenista suíço é, indiscutivelmente, o mais talentoso jogador de tênis de todos os tempos; em função disso, a cada jogada, duas ou três diferentes soluções poderiam passar por sua cabeça, todas passíveis de serem realizadas por seu braço. O que ouvi de algum comentarista cujo nome me falha na memória é que Roger, às vezes, não encontrava a melhor das soluções possíveis, e acabava perdendo para adversários que, por limitações técnicas, faziam exatamente a mesma coisa em todas as situações dadas, mas sem vacilar. 
Eu fiquei pensando sobre essa questão na tarde hoje, e refleti que o talento, ou o dom, ou a capacidade maior ou menor de fazer alguma coisa (não me importa se pensada como natural ou desenvolvida) é uma condição do indivíduo que pode ajudar ou atrapalhar. Sem dúvida, eu e muitas outras pessoas admiramos quem tem esses talentos. Gostaria muito de ter a habilidade com as palavras que vejo em muitos escritores, a potência e extensão de voz de muitos cantores, a musicalidade de muitos instrumentistas que conheço. Mas ter essas capacidades não quer dizer, de forma alguma, que eu poderia produzir com elas realizações como as que sempre sonhei para minha vida. A distância entre uma coisa e outra é muito grande.
Há algum tempo, eu e meu professor de canto, o Dudé, conversávamos sobre o fantástico Glenn Hughes, vocalista de capacidades impressionantes, virtualmente ilimitadas. O Dudé me dizia que o que havia de melhor em Hughes é que ele, mesmo podendo usar a extraterrestre voz de cinco oitavas e as dezenas de diferentes técnicas de canto, fazia escolhas que limitavam esse potencial para poder dar destaque às canções. É incrível vê-lo buscar notas absurdas em "Mistreated" ao vivo, mas também é incrível ver como respeita canções natalinas, por exemplo, quando as interpreta em um álbum como "A Soulful Christmas". Não importa, nesse trabalho, demonstrar quanto ele "pode" ou "alcança". Importa mostrar quanto ele entende que pode contribuir para o espírito de cada faixa, de cada canção. E o resultado é belíssimo.
Voltando à minha reflexão, meditei que Hughes, ao "economizar" voz e firulas na interpretação das músicas natalinas, entendeu à sua maneira aquilo a que vinha me referindo anteriormente: seus dons podem atrapalhar, nesse caso. Explorar todo o seu potencial de voz em canções singelas fere justamente o que elas têm de mais bonito, e o resultado artístico, embora pudesse ser uma verdadeira aula de canto, tornar-se-ia ao mesmo tempo uma lição de mau gosto estético. 
Dessa forma, acredito que seja missão do intérprete, vocalista ou cantor, em primeiro lugar, saber usar sua voz como recurso para um projeto estético maior. Se ocorrer o contrário, se o projeto estético for utilizado como recurso para promoção da voz, o efeito é egótico e redutor, e ainda que impressione a curto prazo, torna-se cansativo para o ouvinte. Por isso, creio que o grande talento ou dom a ser desenvolvido pelo cantor, que deve estar associado ao seu autoconhecimento e apuro técnico e à sua formação cultural e musical, é aquilo que vou chamar de talento de gerenciar os próprios talentos. Ou dom de saber usar o dom de cantar. 
O nome pode parecer meio maluco, mas acredito que ele represente uma capacidade à parte, tão importante quanto os recursos técnicos e físicos e, até diria, mais fundamental do que eles, considerando que artistas sem muitas qualidades vocais mas com grande inteligência musical para usar as que têm também podem alcançar excelentes resultados a partir da consciência das próprias limitações. Estendendo essa reflexão para além das questões da voz, penso que o artista, em geral, precisa encontrar, dentro de si, a medida da entrega que não comprometa o conjunto da obra. Talvez isso não seja tão óbvio nem tão fácil de fazer em um mundo que associa cada vez mais a arte, e principalmente a produção de consumo, a perfis individuais, isolados, artificiais e egocentrados, com os quais a sociedade individualista está apta a se identificar imediatamente. Mas se não for assim, o que se produz não se sustenta, e acaba caindo na vala comum da descartabilidade e irrelevância, como muito material que vemos por aí.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Incompreensível para mim


Vamos lá, bem simples.

1) Prefiro a palavra "impedimento", já devidamente aportuguesada, à palavra "impeachment".

2) Fui governado 8 anos por FHC, em quem não votei, já tendo idade para votar. Houve corrupção no governo FHC? Houve (compra de votos da reeleição, privatizações etc.). Em algum momento eu pedi o impedimento dele? Não.

3) Fui governado 4 anos por Celso Pitta, DEP, em quem não votei. Houve corrupção no governo dele? Nem precisa responder. Em algum momento pedi o impedimento dele? Não.

4) Fui governado mais de vinte anos por Serra, Alckmin, Covas. Houve corrupção durante esse período? Sim (caso Siemens). Em algum momento pedi impedimento de qualquer um deles? Não.

5) Fui governado por caras em quem votei, vários. Covas, Fleury, Lula, Dilma, Marta. Houve corrupção nesses governos? Sim, sem dúvida. Senti-me enganado, traído, humilhado e diminuído em minhas escolhas? Não. Tenho consciência de que voto em partidos e estruturas ideológico-políticas, e não em perfis vendidos por marqueteiros. Alguma vez pedi o impedimento de quaisquer dessas pessoas? Não.

6) Por que não pedi o impedimento de todos esses caras, se admito que em todos esses governos houve corrupção? Porque uma coisa não tem nada a ver com a outra. Impedimento é uma medida legal que recai sobre quem comprovadamente cometeu um crime. Precisa de um julgamento, com direito a ampla defesa e contraditório. Leva tempo, e tem de ser assim. 

7) E mais: impedimento é da pessoa, não da organização político-partidária. Essa permanece, porque o povo a elegeu. Se o povo elegeu Pitta, e o vice do Pitta é o Kassab, significa que o impedimento do Pitta coloca o Kassab no poder para realizar o programa de governo... do Pitta! 

8) Democracia implica saber perder. Quem não sabe perder, não sabe ganhar. E isso é perigoso. Se Alckimin, por exemplo, por qualquer razão, deixar de governar São Paulo, quem tem de assumir? Alguém do PSDB, ou da coligação, óbvio. Por quê? Porque houve uma eleição majoritária que prestigiou essa coligação, e isso tem de ser respeitado. Essa eleição prestigiou um programa de governo, uma maneira de pensar, e não um indivíduo isolado. Eleições são pra isso.

9) E se eu acaso não gosto do PSDB? Eu tenho o direito de cobrá-lo, pressioná-lo, questioná-lo, e organizar minhas forças para vencê-lo. Mas politicamente, na negociação, no embate de interesses. Tirá-lo do poder, só daqui a quatro anos, quando houver nova eleição, se for do meu interesse e se eu conseguir que a maioria das pessoas concorde comigo. Democraticamente, pelo debate, pela organização, pela persuasão.

10) Passar por cima de tudo isso, de toda uma estrutura democrática que levou anos para ser construída, em nome de espasmos de tensão indignada causados pela leitura de postagens no Face é algo que estou tentando entender há algum tempo. Que está acontecendo com as pessoas? 
Eu entendo perfeitamente a mídia manipular sua cabeça pelos interesses dos grandes grupos econômicos. Eu não consigo entender você se deixar levar por tanta bobagem num momento em que a informação pode ser buscada, discutida, conferida e analisada como nunca fora antes.

São dias difíceis. Espero que as pessoas saibam o que estão fazendo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A superintelingência


Às voltas com a redação de minha tese de doutorado, que vem fluindo com consistência nos últimos dias, recordei-me de uma figura estranha, bizarra, fascinante e ao mesmo tempo escandalosa e ridícula que habitou o centro da tela da TV no programa do Jô por duas noites de entrevista. Tratava-se do malandro Alexandre Selva, transformado pelo talento de interpretação em reencarnação do poeta Omar Kayyam. 

Quando vi aquela figura dando entrevistas, fiquei com a antena ligada, principalmente por causa das afirmações extraordinárias que fazia. Era sem dúvida um super-herói da sapiência. Dizia que lia em 10 minutos o conteúdo de qualquer livro de 100 páginas. Dizia que falava 105 línguas e idiomas. Dizia que possuía 107 títulos de Doutor Honoris Causa. Dizia que se lembrava com clareza de todas as suas encarnações anteriores. Dizia isso na maior cara lavada e sem nenhuma contestação do entrevistador, que parecia torcer para que tudo aquilo fosse verdade.
No fundo, eu também torcia, e torço, para que exista alguém assim, por uma questão de complexo de inferioridade e de transferência. Sempre me senti intelectualmente limitado em relação àquilo que queria e sonhava produzir. Por mais que estudasse, lesse, refletisse, não me via atingindo o patamar de realizar alguma obra fundante ou revolucionária. E de repente aparecia na televisão alguém  com dons que, bem utilizados, permitiriam grandes conquistas, grandes descobertas, grandes reflexões. Alguém com potenciais ilimitados no campo da inteligência.

Obviamente, esse sentimento de admiração com a fantasia de HQ criada por Alexandre Selva esbarrava no senso de ridículo mais rasteiro: nenhuma das afirmações restava comprovada, ou sequer verificada, pela produção do programa, e nada do que era dito pelo falso guru sequer chegava perto da imagem construída pela autopromoção. Nem um grãozinho de nada: porque existem mesmo caras como Kim Ung Yong, que são supergênios, sabem mais de dez línguas e tal. Mas mesmo esses caras têm seus limites nos recordes, e não seriam nada para a personagem interpretada por Selva. Uma pena que um falsário tenha produzido uma personificação tão interessante, uma pena mesmo. 

Eu projeto minhas inconsistências e limitações nessas figuras, confesso. Gostaria muito de ter maior agilidade mental para escrever, ler, pensar e dar conta das inúmeras atividades que realizo dia após dia. Gostaria de saber que posso mais do que tento, e que isso faz diferença para os outros. Uma superinteligência seria bem-vinda para que eu pudesse escrever poemas mais belos, para compor argumentos mais eficientes sobre temas relevantes, para confrontar a manipulação e a intimidação com mais força etc. Se não fosse para tudo isso, pelo menos para que o sofrimento de escrever uma tese de doutorado decente não me consumisse tanto em momentos como este...

Na verdade, repensando essa condição de inteligência privilegiada, fica fácil saber que pessoas como Selva são farsantes. Em minha opinião, e considerando a loucura toda do mundo, se alguém possuísse capacidades tão notáveis, creio que dificilmente se exporia à mídia, exatamente porque compreenderia o que é a mídia, o que são os valores da sociedade em que vive, o que se passa na cabeça da maioria das pessoas. Se existe de fato alguém assim, esse super-herói da inteligência está silenciosamente construindo obras que colaboram com a vida de milhões de pessoas e que fazem com que a humanidade caminhe adiante, sem pensar nos louros dessas conquistas. Porque um ser superinteligente já superou seu complexo de inferioridade, já sabe que não pode pautar seus valores em suas frustrações, e já compreendeu que o valor da vida está muito além do valor das rotinas que julgamos defini-la. Sua inteligência estará além dos idiomas que domina, dos títulos que possui, e das teses que eventualmente precise redigir.


sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Este homem

Um passante livre de preocupações e compromissos poderia ter visto esse homem em sua glória, sentado numa mesa de um espaço de alimentação, tomando café e saboreando um pão na chapa com toda a autoridade de sua fome. Provavelmente, não concentraria o olhar. Se concentrasse, talvez pudesse se perguntar sobre as vestes despojadas, o chinelo de dedo, os olhos pensativos e os cabelos bagunçados que singularizam a figura observada. Talvez atribuísse mentalmente alguns estereótipos a esse homem: um trabalhador desempregado? Um homem com a cabeça na lua? Um intelectual arrogante? Um rapaz desleixado e sem ambições? 
Esse homem continuará saboreando a delícia de um pão na chapa. Mil tentativas talvez não fossem suficientes para acertar o que ele é. Ele não se preocupa com isso, por certo, senão se vestiria de outra forma, e teria uma postura mais vigiada e tensa. Mas se não fosse possível saber quem ele é, talvez o curioso passante pudesse tentar descobrir o que se passa na cabeça de alguém assim. O que está rolando lá dentro daquela cachola: canções? Poemas? Obrigações? Acertos? Erros? Planos?
O pobre passante teria, agora, ainda menos chance. Sim, muitas coisas fluem por aquele mundo de ideias, mas pouquíssimas podem se fixar nesse momento. São quarenta anos de tudo o que a vida poderia oferecer a alguém. E, nesse fluxo interminável, muitas imagens vêm e vão, e algumas conseguem se estabelecer por um pouquinho mais de tempo dentro dos olhos que pairam fixos, como que olhando para uma projeção vinda do profundo do peito.
Foram sins e nãos. Direitos e deveres. Acertos e erros. Falas e emudecimentos. Ímpetos e raciocínios. Risos e choros. Aproximações e distanciamentos. Medos e ousadias. Incertezas e convicções. Pessoas o aconselharam bem, pessoas o aconselharam mal. Pessoas o quiseram bem, pessoas ele quis bem. Houve música, muita. Poesia, muita. Houve livros, discos, materiais de estudos. Muitas pessoas o ouviram, e ele nem sabe o que elas pensam. Ele ouviu muitas pessoas, e às vezes também não sabe o que elas pensam. Foram coisas bem feitas e coisas mal feitas. Muita coisa sem terminar. Muita coisa por dizer, muita coisa por fazer, muita coisa por criar. Graças a Deus.
No meio disso tudo, de todo esse turbilhão de fatos e feitos, foram muitos anos se tornando professor e se mantendo aluno. Muitos outros aprendendo a não ter medo de cantar e escrever. Muitos ainda descobrindo o que o coração dizia sobre o amor, e tentando traduzir em ações efetivas. Os rótulos, afinal, podem colar: professor, cancionista, cabeludo, rockeiro, poeta, desencanado, descolado, hippie, esquerdista, nem aí, místico, coração mole etc. etc. etc. Nada definiria com precisão.
Talvez seja melhor ficar com a imagem, e só com a imagem, que o passante curioso pode captar na totalidade: esse homem sentado na mesa de um espaço de alimentação toma café e come um pão na chapa em estado de glória. Sim, glória.
Ele, depois de quarenta anos, sabe que seu caráter não deve nada à sua consciência.


ESTE homem de quarenta anos nada deve à própria consciência. O resto é resto.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A "certeza" do bem e do mal e o medo que tenho do que vem por aí


Vez por outra, apareço por aqui para tentar elucidar, por meio da escrita, sentimentos que me incomodam. Não é sempre que consigo, e acredito que desta vez não conseguirei. Hoje, gostaria de escrever sobre o radicalismo e a desumanidade.
Convido a você, leitor, que traga à sua mente as pessoas de seu dia a dia de que você consegue agora se lembrar. Com certeza, são muitas, por muitas razões. Se você fizer um esforço de cinco minutos anotando em uma folha de papel, entre as pessoas de seu convívio, poderia listar mais de uma centena. 
Pois bem, imaginemos que você tivesse agora a tarefa de pegar uma outra folha e fazer da forma mais simples possível um risco no meio, dividindo-a em duas partes. Imaginemos que você escrevesse no alto de uma das partes a expressão "pessoas totalmente boas" e no alto de outra das partes a expressão "pessoas realmente más". Agora, imaginemos que você tivesse a incumbência de passar os nomes listados para a parte correspondente.
Nem é preciso tentar fazer isso para perceber, imediatamente, que você não conseguiria enquadrar a grande maioria das pessoas em algum dos lados. Você teria dúvidas, você teria questionamentos, você compararia a ação dessas pessoas às suas ações. Mesmo que as etiquetas da divisão fossem apenas "pessoas boas" e "pessoas más", você não conseguiria, por mais rígidos que fossem seus princípios e mais convictos que fossem seus julgamentos, empreender essa separação.
Ora, se isso acontece com pessoas, isso também acontece com valores, com ideias, com instituições, com grupos, com partidos, com ideologias, com obras de arte, com gostos, com personalidades, com referências. Você jamais conseguirá traçar, de maneira imediata e convicta e sem reparos ou injustiças uma lista perfeitamente fidedigna do que você considera bom ou mau em nenhum setor da civilização, em nenhum âmbito da vida. 
Óbvio? 
Parece que não.
Os tempos são estranhos nesse sentido. A facilidade com que as pessoas determinam o bem e o mal é assustadora. A facilidade com que encontram justificativas para suas questionáveis valorações é assustadora. A facilidade com que simplesmente ignoram os questionamentos ao seu simplismo primário tanto de raciocínio quanto de postura diante do mundo é assustadora.
O mundo parece a certas pessoas tão claramente dividido entre bem e mal que se torna impossível a compreensão de que há outros valores envolvidos nas relações entre os homens, como o certo e o errado, o justo e o injusto, o belo e o feio, o necessário e o desnecessário, o relevante e o irrelevante.
Exemplo: eu praticamente calei meu Face com a prática de retirar da lista de atualizações os perfis que reproduzissem memes degradantes, desumanos, insensíveis em relação ao próximo. Sobrou muito pouca gente. Mas minha saúde mental melhorou muito. É insuportável receber mensagens agressivas contra políticos, celebridades, indivíduos que por alguma razão foram parar na mídia, todo dia, toda hora, sem nada a acrescentar nem uma palavra que remeta à reflexão ou que mobilize para alguma coisa mais dignificante. É horrível gente brincando com a possibilidade de morte de uma pessoa. É horrível gente apontando para defeitos físicos de seus desafetos. É horrível gente alarmando gente com informações não verificadas. É assustador o grau de irresponsabilidade que as pessoas demonstram com os seres humanos com os quais travam contato.
Mas o Face é só um reflexo da face real das pessoas. Isso é mais assustador.
As pessoas realmente acreditam que Deus é evidente e o Diabo também é evidente. 
É incrível como o fundamentalismo encontrou terreno na nossa cultura, sempre tão reconhecida pela diversidade, pela miscigenação, pela mescla. Sim, eu sei, ele sempre esteve lá, no preconceito, na segregação, na violência. Mas como ele conseguiu essa complacência coletiva, esse estatuto de normalidade, depois de tantos anos, e num contexto de ampliação do acesso à informação?
As pessoas podem gostar, por exemplo, de um clube de coração. Isso não lhes dá o direito de agredir, humilhar, ou denegrir indivíduos ligados a um clube adversário. As pessoas podem ter convicção de uma ideologia. Isso não lhes dá o direito de demonizar a ideologia adversária ou distorcer suas propostas. As pessoas podem não gostar dos tucanos ou dos petistas. Isso passa muito longe de frases de efeito cretinas e estúpidas como "todo petista é vagabundo" ou "todo tucano é canalha", ou qualquer predefinição medíocre da grandeza de um ser humano. Às vezes, as pessoas agem como se os outros tivessem obrigação de pensar o que elas pensam ou de agir como elas agem. Pior: agem como se os outros, os diferentes, fossem um obstáculo a ser superado, um erro na marcha do progresso, ou algo parecido. 
Não se pode conceber que um indivíduo seja desumanizado, reduzido em sua condição de dignidade, porque tenho diferenças legítimas de valores com ele. 
Nós, professores, sabemos que vamos ministrar aulas a pessoas com todo o tipo de formação, e zelamos pelos conteúdos que ministraremos. Assim, se a ciência histórica se desenvolveu a partir de uma visão que envolve pensadores de esquerda, temos a obrigação de considerar esses desenvolvimentos. Se a Biologia, em seus desenvolvimentos, apontou para a seleção natural como solução para explicar nossa ancestralidade, temos o dever de apresentar essa teoria. Se Freud percebeu que grande parte de nossas ações conscientes está pautada em informações mentais a que muitas vezes não temos acesso imediato, temos o dever de trazer isso à baila. Esse zelo é respeito pelo aluno. Que nos ofenderá, talvez, por acreditar que Marx é um monstro, que Darwin era ateu ou que Freud era tarado. Mas que, nem por isso, deixará de receber, de nossa parte, tratamento digno de quem merece o que a ciência pôde produzir de melhor.
Eu não aceitaria que um professor fosse humilhado por falar da teoria da evolução, em nenhuma circunstância, nem mesmo por convicções de grupos contrários.
Assim como seria inaceitável que um policial fosse agredido por proteger um criminoso de ser linchado em praça pública. Ou, inversamente, se um policial fosse aplaudido por abusos praticados contra um indivíduo já preso, já apto a ser submetido a um julgamento legal;
Assim como seria inaceitável e desumanizante que uma pessoa fosse ofendida, agredida ou abusada pelas roupas que usa ou deixa de usar.
Assim como seria inaceitável e desumanizante e monstruoso que um ser humano fosse espancado por sua aparente orientação sexual (que, sendo um fenômeno íntimo e particular dos seres humanos, não precisa estar necessariamente atrelada a quaisquer estereótipos sociais consolidados).
Assim como é inaceitável que um profissional, na honrada atitude de deslocar-se geograficamente para exercer sua profissão, seja hostilizado por sua origem geográfica ou suposta vinculação ideológica. Seja ele um nordestino querendo construir um comércio em São Paulo, um turco procurando serviço na Alemanha, um trabalhador juntando dinheiro em condições subumanas na metrópole para sustentar sua paupérrima família na Bolívia, um eletricista brasileiro tentando a vida em Londres a despeito das desconfianças de uma polícia truculenta, ou um médico cubano que tenha vindo prestar seus serviços no Brasil.
Todos esses são seres humanos.
Nossas convicções de bem e mal não estão acima da humanidade dessas pessoas.

É isso.

Não, não é só isso.

Estou com um medo danado do que vejo por aí, e do que virá. Se essa loucura toda for uma tendência, e recebo sinais de que talvez seja, as consequências devem ser tenebrosas. Até diria inimagináveis.