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sábado, 26 de dezembro de 2015

É preciso urgentemente requalificar o espaço de comentários nos blogues: ele se tornou profissionalizado, inútil e pernicioso


Para quem viveu a empolgação da possibilidade de troca de informação na internete, e mais ainda a empolgação da descoberta dos blogues como recursos de expressão baratos, rápidos, eficientes e com muitas facilidades de interação, é completamente decepcionante perceber que boa parte das conquistas em termos de liberdade e possibilidade de diálogo podem estar indo para o ralo por puríssima falta de bom senso no uso.

Alguns blogueiros e páginas que acompanho frequentemente desativaram o espaço de comentários, sem mais. Ninguém pode culpá-los nem criticá-los por isso. Eles não estão fugindo do debate de ideias, mesmo porque esse debate simplesmente não acontece. O que eles fazem é evitar o dissabor das agressões verbais e da falta de senso de internautas sem civilidade. A prova de que a coisa está nesse nível é que mesmo os grandes portais, que via de regra abrem espaço em suas publicações para comentários dos internautas, já criaram maneiras de filtrar certas inserções, bloqueando palavras, limitando intervenções ou até suprimindo a possibilidade de comentário, tal como os blogueiros a que me referi. E leve-se em conta que esses grandes portais pagam funcionários para cuidar desses espaços virtuais.

Essa tendência de intervenção desqualificada (em alguns casos, até doentia) dos leitores de textos de internete talvez seja apenas reveladora da deterioração geral da urbanidade numa sociedade individualista, competitiva, violenta e frustrada. Em grande parte, creio que isso é verdade. Por outro lado, há outras motivações por trás da mediocridade, às vezes tão medíocres quanto as intervenções agressivas, às vezes inteligentes a ponto de apenas utilizá-las, sem se confundir com elas.

Percebo em portais como UOL, Terra e Yahoo a presença maciça de comentaristas profissionais, preparados para inserir ideias fixas (verdadeiramente fixas) em quaisquer espaços em que for possível. Essas ideias são em boa parte assustadoras, em sua maioria são apenas medíocres, algumas podem ser apenas irrelevantes, e algumas poucas são válidas e sensatas. Não há muito como medir isso, depende de fazer um levantamento e uma análise minimamente isentas e fundamentadas, e eu mesmo não teria essa condição. Mas não é preciso mais que alguns minutos de leitura para que se perceba que o perfil convicto-agressivo-arrogante é o que predomina, infelizmente. 

Esse perfil de comentarista não é, de forma alguma, ingênuo, nem age de forma aleatória. Há comentaristas que emitem sua opinião, reforçam, e depois conseguem tempo para atacar sistematicamente toda e qualquer opinião divergente que seja postada. Creio que a sistematicidade seja a característica que melhor se apresenta na ação desses internautas. Parece que suas energias são claramente direcionadas para: a) ocupar um determinado espaço de escrita dentro de um veículo, seja uma postagem, seja uma notícia, seja outro espaço qualquer; b) postar ideias que reforcem determinadas visões fechadas e definitivas de mundo - raríssimas vezes você vê esse perfil equilibrando prós e contras, ou fazendo perguntas, ou questionando seu próprio raciocínio e suas limitações de compreensão; c) dar sempre a última palavra sobre um assunto ou numa sequência de argumentações, se possível desqualificando, ridicularizando e silenciando a posição adversária, colocando-a como absurda ou medíocre - as risadas, as ironias e a distorção do que foi escrito são estratégias comuns para esse fim; d) cercar os perfis com opiniões diferentes e combatê-los ou agredi-los sistematicamente, não permitindo que nenhuma ideia levantada possa ficar sem resposta; e) unir-se a perfis semelhantes e atuar de forma a estabelecer um "efeito manada", como se a quantidade de postagens ou respostas pudesse substituir a qualidade da argumentação.

Sem toda essa sistematização, essa forma de ocupar o espaço virtual não seria possível, pois estaria fadada ao fracasso ao ser identificada como autoritária, paranoica e altamente desagradável para quem lê. E essa necessária sistematização pressupõe a profissionalização do perfil comentarista: é preciso que alguém tenha tempo, incentivo e recursos para não perder nenhuma postagem adversária. Assim, quando as organizações ou estruturas de poder que sustentam esses perfis elegem um adversário ideológico, procuram adentrar seu espaço virtual e realizar uma espécie de estratégia de "terra arrasada", destruindo toda e qualquer possibilidade de equilíbrio no debate de ideias. Isso também pode ser percebido de forma muita evidente: basta acessar rapidamente a rede para notar que há notícias e blogues que ninguém comenta, ao passo que há espaços em que parece estar havendo uma nova guerra de nervos a cada publicação. 

- Ora, isso tudo é parte do embate político de ideias - poderia dizer o meu interlocutor imaginário. Concordo. Mas até a política tem de ter regras de civilidade para se estabelecer. Na história, abominações como extermínios em massa e guerras de conquista são parte de políticas de Estado, por exemplo, mas isso não as torna mais legítimas. Agressões, intimidações, humilhações são parte das estratégias de manipulação na comunicação humana, é fato. Mas não há outras estratégias? Não há uma riqueza enorme de possibilidades nesse sentido, dentro do diálogo, da interlocução respeitosa, da conversa para enriquecimento mútuo?

O que acaba acontecendo é que esse perfil de comentarista torna-se um propagador violento e autoritário de ideias fixas, às vezes polêmicas, às vezes meramente agressivas, mas nunca ingênuas nem despropositadas. E ele transforma o espaço de debate em um espaço de escrita virulenta, por vezes covarde, porque a distância física e a possibilidade do anonimato garantem uma postura irresponsável em relação ao que publica. Para quem mantém blogues, o resultado é por vezes desastroso, em especial para pessoas não profissionais como eu, que escrevem de vez em quando e não têm como abandonar as outras atividades que garantem seu sustento para cuidar do que está acontecendo em suas postagens. O que acontece, muitas vezes, é que uma postagem que seria boa, se tomássemos só o texto, torna-se intragável quando lidos os comentários. Em certos casos, os comentários nada têm a ver com o espírito nem da postagem nem do blogue, ou nada acrescentam a uma determinada questão, servindo apenas para marcar posição; são, assim, irrelevantes e inúteis. Mas pode ser ainda pior, porque muitas vezes, além de serem descartáveis para o debate, os comentários desviam da ideia principal de tal forma que acabam se focando em ataques ad hominem e agressões desvairadas. Nesse caso, eles são, sem dúvida, perniciosos para quem escreve, para quem lê e sobretudo para quem os recebe em seu blogue.

O que fazer contra esse troll profissional, que transforma um espaço de debate em um espaço de exclusão, violência e impraticabilidade do diálogo? Não há soluções fáceis, admito. Creio que, em primeiro lugar, nunca se deve entrar na "pilha" do comentador mal educado, porque isso é tudo o que ele quer. Uma vez que ele está "equipado" para a guerra, tentar confrontá-lo é dar-lhe crédito em seu campo, e perder tempo, energia e disposição. Recomendo uma frieza quase didática se se considerar que uma resposta vale a pena. Em segundo lugar, é preciso desarmá-lo de sua postura, e uma boa maneira de fazer isso é expor sua estratégia. Isso pode ser feito quando isolamos as palavras agressivas para comentá-las, ou questionamos a caixa alta e as risadas, ou detectamos o "efeito manada" na atuação de distintos perfis. De novo, é necessário sangue frio, e preparação para o revide, porque expor as inconsistências de discurso ou intenções subjacentes de um interlocutor normalmente tende a incomodá-lo. Em terceiro lugar, acredito que seja saudável e importante localizar, selecionar e divulgar, ou até mesmo construir, espaços virtuais públicos de discussão ampla sobre determinados assuntos. Quando um engraçadinho quisesse fazer um bate-boca sobre alguma questão com a intenção clara de perturbar um internauta, ele poderia ser remetido a um desses espaços, para testar suas ideias dentro de um ambiente mais amplo. Responder a uma postagem arrogante com o link de um especialista ou de um fórum sobre a questão pode ser um bom método de qualificar a discussão, ou obrigar o interlocutor a responder não aos argumentos do blogueiro, e sim aos de muitas outras pessoas que se debruçaram sobre o assunto. Por fim, acredito que seja legítimo, em grande parte dos casos, simplesmente não responder, apagar o comentário ou mesmo responder em particular, se se sentir que isso é possível. Boa parte dos blogues são espaços pessoais, embora com exposição pública. Ninguém pode ser obrigado a aceitar atitudes desrespeitosas, que acabam ganhando uma publicidade indevida, e que muitas vezes são realizadas justamente para obter essa publicidade. Ademais, o comportamento de muitos dos perfis na internete chega a ser psicótico, e não são todas as pessoas que conseguem lidar com esse padrão de comportamento. 

Em complemento a esta postagem, vou colocar alguns exemplos de comentário pernicioso nos vários portais e blogues que acompanho, apenas para que não pareça que esse é um incômodo exclusivamente meu, ou relacionado a uma situação específica. Vou fazer isso aos poucos. O importante é que decidi não mais prestigiar a ignorância. Ou será remetida a um debate qualificado, ou será desprezada. É isso.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O que é informação?

Deve haver um volume da antiga coleção Primeiros Passos (muito boa, por sinal)com esse título. Se há, eu não li, e lerei quando tiver acesso, pela curiosidade em relação ao assunto. Disso o leitor pode depreender, de imediato, que sou um leigo abordando uma questão da qual pouco sei. Mas considero minhas dúvidas pertinentes.
Lamento por meus amigos jornalistas, pessoas sérias e competentes, que não merecem ler isto, mas a pauta jornalística com que me deparo diariamente parece fictícia. Durante muito tempo, entre as décadas de 80 e 90, circulou a fantasiosa noção de que qualquer criança pequena dos tempos atuais estaria lidando com uma gama muito mais ampla e complexa de informações que os adultos do passado. Sempre achei isso um exagero, mas é incrível como a maioria das pessoas creem piamente que seus filhos são mais brilhantes porque sabem lidar melhor com novas tecnologias e coisas que os circundam. Não é que eu tenha dúvidas a esse respeito: eu tenho certeza de que isso é bobagem. Essa certeza vem da experiência de longos anos ministrando aulas para meninos e meninas na Prefeitura de São Paulo.
Fato: há mais mídia, e maior presença da mídia. Você senta num restaurante, e a TV está ligada. Você anda nas ruas, e elas estão repletas de pessoas com fones de ouvido e celulares. Você liga o computador, e ele tem quase infinitas possibilidades para seu entretenimento ou para sua atualização. Você tem mais opções de mídia em casa, fora de casa, no caminho de casa...
Além disso, é perceptível que a mídia torna determinadas questões importantes, em detrimento de outras. E que isso passa a ser não uma questão de escolha dos indivíduos, mas uma questão de possibilidade social de interação. As pessoas sabem que se não assistem determinados programas, se não repetem determinados chavões e se não embarcam em determinadas ondas, não conseguem se comunicar.
É nesse ponto que entra o questionamento que venho me fazendo: como fica a informação nesse contexto? Digamos que um coelhinho atravesse um vagão de metrô na Tailândia, e isso se torne um hit no YouTube ou seja um quadro do Fantástico. Isso é informação? Isso é relevante? Eu quero falar disso com meus amigos? Provavelmente não. Não é informação porque não acrescenta nada em termos de conhecimento, e nem é realmente útil para o que faço. Não é relevante porque não se relaciona a nenhum dos valores sobre os quais é pertinente refletir sempre. Não quero falar disso com as pessoas porque valorizo o tempo que tenho em suas companhias, e quero compartilhar o que tiver de melhor, e não isso. Mas, em determinado momento, você conversa com as pessoas, e elas falam desse vídeo de coelhinho. E esperam que você se posicione em relação a isso, que compartilhe dessa experiência, que pelo menos saiba algo a respeito para poder sustentar a conversação. E você não sabe.
Quando você se dá conta de que vai ficar isolado se não estiver "por dentro" dessas falsas informações, você começa a tentar conhecê-las. Se você possuir uma monstruosa inteligência emocional, conseguirá articulá-las como itens de comunicação interpessoal, na mesma categoria do "bom dia" ou "vai chover hoje". Mas se você afrouxar a vigilância interior, logo vai concordar com o festival de afirmações cretinas, disparatadas e sem noção que o rodeia. E lá se vão as pessoas repetindo coisas como "o problema do Brasil são os marajás", "o bug do milênio destruirá tudo", "funcionário público é tudo vagabundo" e coisas do gênero. Afirmações que cinco minutos de raciocínio simples, ou dez minutos de leitura de informação de verdade, destruiriam sem deixar vestígios.
Não, amigos, nada disso é informação. Isso é distração, entretenimento travestido de informação.
E é muito duro ficar sozinho no meio de tudo isso. Mas o dia chega. E quando ele chega, você não consegue mais achar que é preciso saber das últimas fofocas da rabuda da vez, ou da última porcaria sem letra nem melodia que "todo mundo está ouvindo". Você quer falar de bandas com músicas sensíveis e trabalhadas, mas as pessoas não conhecem, e - pior - têm medo de que conhecer e gostar delas torne-se fator de isolamento. Você quer falar de livros, mas as pessoas não leem nada, e evitam aquilo que pode ser relevante e, consequentemente, polêmico. Você quer falar de religião, política, futebol, mas as pessoas não querem lidar com discordâncias. Você quer contar histórias, mas ninguém está disposto a ouvir mais do que cinco minutos de absolutamente nada. As pessoas têm tanta pressa de preencher seus vazios que acabam esquecendo de conferir se eles realmente foram preenchidos.
A não ser que você considere que se possa chamar de informação a compra de um mamão na feira por uma celebridade, ou declarações completamente estapafúrdias de pseudoespecialistas, eu creio que não estamos sendo bombardeados de informação pela mídia. Nós estamos sendo enganados, e estamos aprendendo a desconfiar dessa enganação. Mas ainda de forma muito tímida, e com alguns retrocessos, como se pode perceber pelas últimas "febres" nas redes sociais.

sábado, 28 de agosto de 2010

Lá vem porrada

Eu sou do tempo da internete discada com computador lento e família toda querendo usar. Talvez por isso tenha desenvolvido alguns ranços ou preconceitos que provavelmente já não fazem sentido para usuários mais familiarizados com a eficiência hodierna da tecnologia.
Uma coisa que ainda não aprendi a tolerar é o que chamo de "mensagem bonitinha" no orkut. Trata-se daqueles recados que vêm cheios de desenhinhos saltitantes e engraçadinhos, com mensagens de alegria ou saudações triviais. Quantas vezes não tive problemas de travar tudo por causa de mensagens assim! Quantas vezes não acordei meus parentes porque as mensagens traziam "musiquinhas" que explodiam na caixa de som antes que eu desse conta da altura do volume! Peguei birra, e adotei um critério radical: elimino todas. É um posicionamento certamente lamentável em relação às pessoas que as enviam de muito boa vontade, com a melhor das intenções, porque têm sensibilidade para essas artes gráficas de internete e querem agradar de alguma forma compartilhando-as. Lamento. Não é pessoal. É quase um ato reflexo de quem cansou de perder tempo com carregamento de imagens pesadas enquanto tentava responder a um recado importante o mais rapidamente possível.
No e-mail, também criei bronca de uma coisa: daquelas mensagens enviadas para toda a lista da pessoa, geralmente recebidas de outro internauta que também as enviou para toda sua lista. Há uma marca distintiva dessas mensagens, que é a primeira que meu cérebro procura localizar. Trata-se do FW:. Quando aparece uma mensagem com FW: na minha caixa postal, eu penso: lá vem porrada. E quase automaticamente olho para a seguinte. Essas são as últimas mensagens que vejo, quando vejo; sim, porque se é algo do tipo "FW: Jesus te ama" ou "FW: a verdade sobre Dilma", eu nem abro. Esse comportamento é resultado de centenas de imbecilidades lidas com a maior atenção em meu tempo de internauta inexperiente, que provocavam a sensação de que, ou quem enviou queria tirar sarro da minha cara, ou não tinha lido com atenção o que enviara. Quase 99% do que recebo com FW: não tem nada a ver comigo, não foi solicitado, já foi lido em outra oportunidade ou é vírus. Automatizei, então, o desprezo por esse tipo de mensagem. Também lamento por esse procedimento. Deixei de ler muita coisa importante em função disso, bem sei. Mas a relação tempo/benefício precisa ser positiva no meu caso, e isso implica, necessariamente, algum critério de seleção.
Se você, leitor, reenviou para mim alguma mensagem dessas que se espalham na internete ou deixou um recado doce, delicado e cheio de pixels na minha página do orkut, e fez isso com a melhor das intenções, eu peço desculpas por ser tão bicho do mato com essas coisas. Mas tenha a certeza de que, se foi algo relevante e isso estava explícito no assunto da mensagem, há grandes chances de que eu tenha pelo menos dado uma olhada. Estou me vigiando para ser menos radical nessa seara cibernética.

domingo, 22 de agosto de 2010

Impressões do Encontro de Blogueiros - 2010

Participei ontem e hoje do I Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas. Verdadeiramente enriquecedor.
Conheci blogueiros de alto nível, como Rodrigo Vianna, Lola, Cloaca. Conversei com pessoas de vários lugares do Brasil. Descobri gente bacana, como a Gilmara, o Sérgio, a Serena. Encontrei até figuras que fizeram parte da minha adolescência, como meu ex-professor Laerte, da Escola Técnica Federal de São Paulo, atual Instituto Federal de Educação.
Destaco dois momentos muito fortes nesse encontro.
O primeiro foi a leitura de uma carta do blogueiro Lucio Flávio Pinto, por seu filho, no sábado. Muito tocante. Percebi o quanto a coragem de denunciar, de enfrentar, mesmo de dizer a verdade pode ter um preço alto no Brasil. A leitura fluiu pesada, comovida, angustiada, e eu passei uns quinze minutos sentindo o efeito daquele texto profundamente revelador. Doeu, mas doeu para o bem, para ampliar a percepção sobre o significado de estar ali.
O segundo foi quando, no domingo, o Rildo, um dos organizadores do nosso grupo de discussão, foi às lágrimas ao falar de sua opção pela formação em Pedagogia, curso que concluirá este ano. Fiquei com vergonha. Não só porque sou um professor já lutando contra o desestímulo e o ceticismo em relação às propostas dos governos. Corei de vergonha porque criei um blogue para falar da valorização dessa profissão tão fundamental e digna, e não consigo fazer isso. Meus textos, já há algum tempo, expressam muito mais indignação e decepção que paixão pelo que faço. Não que a última me falte, mas sinto que tenho tido uma postura muito menos otimista do que julgava poder ter. A fala do Rildo, por algum motivo, trouxe-me luz sobre o porquê de continuar, de seguir adiante, de acreditar apesar de tudo. Foi uma fala que conseguiu fazer o que meus muitos textos não conseguiram, pelo menos em meu coração.
Houve muito mais, sem dúvida. Lembrarei no momento devido. Por ora, quero apenas saudar a vida por mais essa oportunidade de crescimento. Como lição de casa, fica visitar os blogues das belas e inspiradoras pessoas com quem pude conviver por esses dois dias. Trarei novidades sobre isso em breve.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Uma honra

Na segunda-feira passada, dia 21 de junho, posso dizer que consegui demonstrar pessoalmente minha admiração por dois grandes cabeças da internete atual. No Sindicato dos Engenheiros, pertinho da Câmara Municipal, pude assistir a um debate de alto nível sobre a imprensa e a blogosfera, a propósito do lançamento do livro Liberdade de Expressão X Liberdade de Imprensa, do professor Venício Lima. Infelizmente - e um tanto vergonhosamente também - não pude adquirir o livro, pois pensei que poderia comprá-lo com cartão de crédito e levei pouco dinheiro. O leitor compreenderá que não foi sovinice da minha parte, apenas precaução, pois andar a pé no centro da cidade, à noite, com somas consideráveis de dinheiro, não é nada recomendável.
Na mesa de debatedores, estavam presentes algumas das cabeças mais brilhantes que conheço, como o professor Venício, autor do livro, e primeiro a chamar minha atenção para a diferença entre direito individual e direito corporativo de expressão de ideias; o grande jornalista Mino Carta, reserva moral da imprensa brasileira; o professor e pensador Fábio Konder Comparato, reserva de lucidez no debate da ciência política. Mas devo confessar que, embora admire esses homens que citei, meu interesse estava focado nas falas de Paulo Henrique Amorim e, principalmente, Luis Nassif. E não por considerá-los mais brilhantes ou mais inteligentes que Mino ou Konder (para os quais penderia a balança na comparação, em função do peso da história de sua atividade intelectual); admiro-os porque acompanho seus blogues e julgo que eles - incluindo aí também o Azenha - foram os primeiros a compreender a nova estrutura de gerenciamento de informação trazida pela internete, e os primeiros a empreender uma ocupação efetiva desse espaço. A fala de Nassif foi um alento de clareza nesse sentido: segundo ele, o jornalismo tem de se transformar, porque a informação passará a vir de diversas fontes, todas acessíveis ao leitor, e o mais importante não será consegui-la na frente de todos, mas sim saber interpretá-la adequadamente dentro de uma grande massa de dados recolhidos de vários espaços e produtores.
Não sou disso de tietagem, mas fiz questão de cumprimentá-los pessoalmente no fim do evento, e dizer que acompanho seus textos. Eles provavelmente não sabem que este blogue existe, mas efetivo esta postagem como um segundo gesto de admiração, respeito e apoio.
E juro que vou comprar o livro pela internet. Senão fica chato, né?

sábado, 2 de janeiro de 2010

Sobre os limites do estilo Letterman de entrevistar

Vi ontem uma das mais comentadas entrevistas dos últimos meses, a que Joaquin Phoenix concedeu a David Letterman no programa de variedades do sujeito. Como as pessoas tiraram muito sarro do visual e do comportamento de Phoenix durante algum tempo (até Ben Stiller brincou com isso no Oscar), achei que assistiria a um show de impaciência e má vontade do ator. Não li dessa forma. Letterman lidou com um indivíduo que estava pouco à vontade, e não teve competência para destravá-lo nem para conduzi-lo a um ponto em que se tornasse acessível. Ele simplesmente perdeu a entrevista. Preocupou-se em fazer gracinhas, em manter um clima up para sua plateia e para o espectador, e descambou para a grosseria e a provocação barata a la Pânico e CQC. Seria possível fazer daquelas análises detidas, colocando cada cutucada do apresentador e o momento cronometrado em que aparece no vídeo, mas não vou fazê-lo por preguiça. Foi provocação sistemática do princípio ao fim. Letterman terminou lamentando ironicamente que Phoenix não pudesse ter comparecido ao programa. Na verdade, Phoenix compareceu; foi Letterman que não o deixou entrar.
Ninguém tem obrigação de compreender a proposta de um entrevistador. Ele é que tem de se fazer claro, e tem de deixar o entrevistado à vontade, ainda mais num programa que se propõe a ser de humor, e que é conduzido por um humorista. Detonar uma pessoa que não reage não é engraçado, e esperar que ela entre esponeamente no clima de tiração de sarro é sempre um risco. O entrevistador não é o centro do processo, ele apenas o conduz. Se não conseguir extrair nada do entrevistado, nenhuma reação, nenhuma informação consistente, não tem gracejo que salve sua pele.
Não gosto do estrelismo que vejo em muitas figuras de mídia (jornalistas ou não) que trazem "convidados" ao seu programa. Eles são tratados como se fosse um grande favor recebê-los, e muitas vezes o papo vai para caminhos que absolutamente nada têm a ver com o trabalho que querem mostrar. Algumas intervenções grosseiras, deselegantes ou constrangedoras são vistas como "engraçadas", como meras brincadeiras para descontrair. Mas por que cargas d'água é preciso criar sempre esse clima de descontração em detrimento do conteúdo, que via de regra é muito mais interessante (podendo ser, inclusive, mais divertido)? E por que o entrevistado precisa necessariamente entrar nesse jogo? Por mais estranho que tenha sido o comportamento de Phoenix, o fracasso da entrevista não se deve a isso, e sim à incapacidade de Letterman de respeitar essa postura e lidar com ela de forma produtiva. Assim eu percebi.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Microcontos, Sérgio Sant'Anna e as "grandes novidades"

Ontem meu irmão me falou que a nova onda nos meios literários é um tal de microconto, nada mais que uma pequena história contada em menos de 240 toques, se não me engano. É interessante, mas isso não tem nada de novo.
Quem, como eu, teve a curiosidade e oportunidade de apreciar a força da escrita de Sérgio Sant'Anna em Notas de Manfredo Rangel, repórter, (a respeito de Kramer), de 1974, deve ter se impressionado com a maestria com que são contadas as pequenas histórias de amor presentes no conto "Romeu e Julieta", um dos 21 que compõem o livro. Se não me engano, dando uma fuçada no Google, dá para achar algumas delas.
Eu não sei bem o que é essa onda de microcontos, mas se a questão é apenas o tamanho e o poder de concisão, Sérgio é, sem dúvida alguma, o precursor mais ilustre disso. Minha dissertação de mestrado foi a respeito do Notas, e lembro bem que, ao analisar o conto que sugeri acima, cheguei a grafar essa classificação (microcontos) e mostrar ao meu orientador. Lembro de ele ter me dito para não usá-la, porque não era consagrada pela tradição, nem muito precisa do ponto de vista da terminologia. Risquei, e acabei nem aproveitando na redação final o que tinha escrito. Ficou lá, nas minhas anotações, nesses arquivos não publicados perdidos nos back-ups da vida. Como não publiquei, não posso dizer oficialmente que antecipei a configuração do gênero. Posso apenas brincar interiormente com aquela história do "tá vendo,eu já sabia!", e ficar elocubrando sobre minha dissertação ter sido mais lida se eu tivesse achado um jeito de incluir a análise do "Romeu e Julieta".
Mas não quero chamar a atenção para minhas sortudas intuições de análise, e sim para as competentes intuições de escrita de Sérgio. Que pelo menos reconheçam a primazia dele, a capacidade de buscar e enformar a concisão máxima de enredo num tempo em que nem se sonhava com internet, tuíter, e essas coisas.