segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Para driblar os espertinhos da rede

Entraremos em ano eleitoral em 2018, e nosso espaço virtual precisa ser preservado do "efeito manada", tão comum e, infelizmente, tão eficiente para transformação de atitudes e posicionamentos. Esse efeito é conseguido pela atuação maciça e sem filtros de perfis (nem sempre associados a um único indivíduo, ou a algum indivíduo) que invadem nossas postagens em blogues e redes sociais para, sem nossa autorização e sem nenhum respeito por nossa disposição (ou não disposição) para o debate e a polêmica, insuflarem ideias que lhes interessam. Normalmente, uma ideia qualquer precisa de um trabalho intenso, estratégico e contínuo para se tornar viral nas cabeças e bocas de quem a recebe. Esse trabalho é profissional, estudado, calculado, e muitas vezes remunerado. Nós, meros usuários comuns da rede, normalmente caímos como patinhos da FIESP nessas armadilhas virtuais, e acabamos por dar pauta, ibope e visibilidade a quem não queríamos. Acredito, assim, que seja hora de investir em estratégias para qualificar o debate dentro e fora da sua timeline, e de aproveitar o que realmente pode ser aproveitado da discussão saudável de conceitos e posicionamentos. Algumas dessas dicas eu descobri, inclusive, quando foram aplicadas contra minha falta de noção e minha impertinência. Ou seja, funcionaram contra mim.
Se as minhas regrinhas não servirem para você, tudo bem. Às vezes eu mesmo as descumpro, por relaxamento da vigilância e por ímpeto de expressão. O importante é que a gente consiga se entender, e se você perceber que a gente não consegue, talvez possa compreender as razões disso conhecendo o meu lado e os meus princípios dentro da confusão de informações do universo virtual.
Sete regras:

1) não agredir ninguém;
2) apagar tudo o que você não quer em seus espaços virtuais;
3) apoiar os apoiadores, em vez de enfrentar os adversários;4) publicar o que pensa sem medo;5) expressar dúvidas;6) ignorar intimidações;7) reconhecer o espaço da arte e da inventividade.



1) Não agredir ninguém. 
E aqui eu sugiro até a ideia cristã de oferecer a outra face, visto que o tapa virtual é simbólico. Não usar linguagem agressiva e sempre pensar se o que se diz fere o outro. É um processo de autovigilância dificílimo, mas imprescindível.
Por que isso é importante?
Isso é importante porque a virulência e a agressividade desviam as pautas da racionalidade e mesmo do bom senso mais basicão. Ainda mais: elas são capazes de introduzir pautas insignificantes ou irrelevantes, ou transformar questões pequenas em questões gigantescas. Quando alguém, por exemplo, quer desviar a atenção da mídia ou de um grupo específico de pessoas dos problemas efetivos e reais que elas poderiam estar enfrentando, nada melhor do que vociferar contra um alvo escolhido, postar palavras fortes, usar de kkkkks, expressões indicativas de desprezo ou outros modos de supostamente humilhar e diminuir o adversário. Isso mexe com nossa vaidade, nosso orgulho e nossos brios, e, num piscar de olhos, estamos perdendo preciosos minutos, e até horas, nos defendendo ou defendendo nossos pontos de vista. Acontece que você jamais responde tudo, nem de maneira completa, por várias razões. Uma, que você tem que trabalhar ou estudar, ou tem mais o que fazer. Duas, que o troll do outro lado por vezes toma a provocação e o bate-boca como missão (paga, determinada ou assumida pela falta do que fazer ou pelo fanatismo ideológico). Se você disser x, ele diz y, e z, e n, e não vai parar nunca. E ele vai assumir seu silêncio como derrota de argumentação, na linha do "vence quem der a última palavra".
No fim de tudo, você retorna ao tema do debate e percebe que ele muitas vezes é óbvio, irrelevante para o contexto de sua vida ou simplesmente sem propósito. Você não convenceu ninguém, ele não convenceu você, e muita informação fundamental de fato deixou de ser articulada.

2) Apagar tudo o que você não quer em seus espaços virtuais. 
Ou, mais simples, apagar tudo o que você quiser. Se você tem um perfil no Face, um blogue, um site, um perfil no Sararah, ou qualquer espaço virtual que seja, você (e só você) decide o que é público e o que não é. O que você não quer compartilhar, não compartilhe.
A popularidade das postagens que colocamos na rede depende de comentários e curtidas. Mas comentários podem ser curtidos, curtidas podem ser negativas, e assim vai. Quando você posta algo que muita gente curte, transforma sua postagem em "palco" para os comentadores, que vão procurar curtidas dentro das curtidas ou não curtidas ou leituras que você recebeu. É o prato cheio para provocações, discordâncias sem leitura e desvios totais daquilo que você expressou no texto principal. Em nome da democracia, você aceita isso, e responde, certo? Errado. A democracia não é o acesso de todos a tudo que lhes interessa. A democracia depende do estabelecimento de contratos. O espaço virtual é seu. Ponto. Você tem um contrato com a prestadora que lhe garante isso. Se você apagar comentários e as pessoas ficarem ofendidas, o problema é delas. Elas têm o espaço virtual delas para postarem o que desejarem. Não precisam pegar carona na sua relevância. Se, por exemplo, alguém lhe atacar por meio da sua página pessoal, apague o ataque. Se alguém escrever algo indesejado, apague o que a pessoa escreveu. Se for ameaçador, printe, salve e apague. Não poupe nem mesmo a leitura enviesada mal intencionada, porque ela pode não ser violenta, mas causa estragos. E não se sinta mal se o outro apagar algo que você escreveu na página dele. Respeite os espaços individuais e as decisões dos que os gerenciam.

3) Apoiar os apoiadores, em vez de enfrentar os adversários.
Em vez de responder diretamente, reforçar a opinião que lhe contempla. Ou seja, em vez de entrar no comentário agressivo e "upar" com mais virulência, procurar um comentário que esteja alinhado com sua visão e valorizá-lo.
Por que isso? Por duas razões principais. Primeiro, porque você dá apoio a quem constrói argumentação; assim, pode refinar suas parcerias, alinhar melhor suas ideias e contribuir para que elas sejam mais conhecidas, de forma positiva e bem arregimentada. Segundo, porque você nega ao promotor da luta tudo que ele mais quer, que é a visibilidade do embate. Você não precisa provar no tatame ou arena virtual que é intelectualmente mais forte ou mais fraco. Isso é vaidade, é bobagem. Você precisa pensar com calma e profundidade nas questões importantes para sua vida, e, para isso, é mister construir o pensamento sem pressa, sem pressão, sem fatores desviantes menores. Quando você, em vez de direcionar uma resposta, apoia ou melhora um argumento anterior, você diz o que quer dizer sem precisar "esfregar na cara" de ninguém, e consegue se expressar de maneira mais lúcida.
Há uma terceira razão. Comentários muito respondidos (por exemplo, aqueles em que as pessoas atacam o comentador e ele vai respondendo todo mundo, sem exceção) são colocados entre os mais relevantes, mesmo que não acrescentem grande coisa ao debate. Ao respondê-los pelo ímpeto de aceitar a provocação ou contestar o absurdo, em vez de valorizar aqueles coerentes, equilibrados e com abertura ao diálogo, você está dando a esses de menor qualidade ética a visibilidade e a força que procuram, da qual tirarão proveito para suas estratégias de persuasão pela repetição.

4) Publicar o que pensa sem medo.
Expressar a própria opinião ainda que, aparentemente, ninguém concorde.
É muito comum que, quando acontece alguma coisa com repercussão midiática imediata, enxurradas de postagens e comentários invadam a internet com opiniões vazias e apressadas que se encontram em algum ponto de "sim" e "não" urgentes. Às vezes, essa enxurrada de opiniões nos intimida, porque não pensamos daquela forma, mas não queremos que nossos familiares ou amigos saibam de nossa discordância, porque parece que eles também aderiram à unanimidade instantânea. Em consequência, bloqueamos nossa opinião e nos calamos, para não sermos confrontados.
Acontece que a internet é termômetro para muita coisa, mas para muitas outras, não. Primeiro, porque nem todo mundo acessa a mesma coisa. Segundo, porque nem todo mundo se relaciona com o mundo virtual da mesma maneira. Terceiro, porque a opinião pública é mais complexa, mais volátil e menos uniforme do que parece. Quando achamos que uma gritaria cibernética colocou todo o país em uma direção, eis que pesquisas realizadas por institutos renomados apontam para outra, completamente diferente. Às vezes a mídia aposta firmemente em uma figura, e ela não convence, não emplaca. Às vezes, um fenômeno novo, não previsto, não projetado, ganha espaços impensáveis. E as opiniões são muito flutuantes. Quem não vota em X, por exemplo, pode ser por achá-lo imprestável, por discordar do programa dele, por não entender o que ele quer, ou até mesmo por gostar dele, mas considerar que outra alternativa é melhor. Quem apoia uma causa Y, por exemplo, pode acreditar muito nela, considerá-la importante e não urgente, considerá-la desimportante mas apoiá-la mesmo assim, ou até apoiá-la apenas porque isso traz visibilidade e aceitação. Nem tudo envolve extremos, e, mesmo quando envolve, nem sempre esses extremos são opiniões sólidas.
Se você coloca sua opinião de maneira equilibrada, coerente e não invasiva, você pode afastar os veementes (pró e contra), mas talvez você atraia os conscientes (pró e contra), porque sentem que podem dialogar com propriedade. E acredite, pessoas que chegaram a ser agressivas e virulentas na discordância podem apertar a sua mão depois, na concordância. E nem demora muito.

5) Expressar dúvidas.
Não ter medo de não ter certeza. Dizer "não sei", "não pensei sobre isso", "não entendi" e "quero saber mais" faz bem à saúde.
Quando alguém não nos convence de alguma coisa, pode ser que não tenhamos entendido direito, e pode ser que a ânsia de se posicionar tenha atrapalhado. Mas pode ser também que o argumento pareça convincente, numa primeira aproximação, mas não nos mova interiormente. Pode ser que aquilo que não entendemos seja uma fraqueza de exposição da ideia ou mesmo da própria ideia que nos chegou. Como saber? Só perguntando, lendo, pesquisando.
Nos últimos anos, em que a espetacularização tomou conta de todos os setores da sociedade, as pessoas viraram produtos de supermercado, com qualidades muito definidas e propriedades muito evidentes. Há grande perigo nisso, porque a falibilidade do homem é um de seus encantos indisfarçáveis, e uma de suas maiores virtudes existenciais. Essa produção de figuras vendidas como invulneráveis potencializa-se no mundo virtual, porque perfis não são pessoas. E por essa razão, podem ser mais fabricados ainda.
Desconfie de quem não erra, não titubeia, não se corrige, não se envergonha, não se irrita, não teme, não foge, não se incomoda, não muda de opinião, não perde a linha. Via de regra, esse é aquele que também não ouve. E não existe, de fato: apenas projeta essa imagem na mídia, para seu benefício e sua popularidade.
Pessoas de verdade não são donas da verdade.
Ninguém está certo só porque parece estar certo. Ninguém está com a verdade só porque afirma coisas com tanta convicção que parece que está com a verdade.
Saber tudo e estar certo o tempo todo é uma vaidade paranoica. Estamos sempre aprendendo, e não precisamos apagar esses rascunhos de pensamento em processo, desde que sejamos intelectualmente honestos.

6) Ignorar intimidações.
Não se sentir obrigado a publicar ou silenciar nada em função de uma intimidação. Ou seja, não moldar seu pensamento pelas limitações e contradições que você não reconheceu como válidas, e que lhe foram apresentadas de forma peremptória.
O mundo não é binário. Se você não apoia x, não quer dizer que apoie y. Você precisa ser convencido de que x e y são opostos, e isso não se dá simplesmente com a afirmação "x e y são opostos". Se você é conservador, não é necessariamente defensor de ditaduras. Se você é antipetista, não é necessariamente peessedebista. Se você gosta da DC, não é necessariamente anti-Marvel. Quando vierem com essa falácia para cima de você, entenda que isso serve apenas para: a) fazer você falar que é algo que não é; 2) constranger e calar sua opinião.
No primeiro caso, trata-se de enganar você. É aquela história de "ou você está com a gente, ou está com os maus". E aí você levanta uma bandeira com a qual não concorda. Quando menos espera, está contando como defensor de um conjunto de ideias estranhas e alheias, porque não quer ser associado ao outro lado, seja qual for. Não é porque você não defendeu o prefeito, o governador ou o presidente em alguma coisa que você está contra ele, ou não vai votar nele, ou vai votar no adversário dele. Se alguém induz essa oposição para forçar sua defesa de algo que você não quer defender, não se deixe confundir.
No segundo caso, cabe um exemplo. Muitos liberais defendem políticas sociais, algumas até relativamente avançadas comparadas ao retrocesso em que vivemos; mas haverá quem diga que você é comunista porque defende políticas sociais liberais (!). E isso não vai acontecer porque a pessoa se preocupe realmente com sua postura ideológica. O que ela quer é que você não defenda essas políticas, com medo de ser chamado de comunista.
Normalmente, rótulos e estereótipos não servem para muita coisa nos debates sérios e profundos, e são usados como etiquetas ideológicas vazias de sentido, como se fossem ofensas em brigas de criança. Com leitura, estudo, debate e construção de argumentos, não tem como falar de oposições de forma tão maniqueísta e primitiva.
Ademais, ainda que você pense que ser rotulado é perigoso para sua segurança, saiba que é exatamente isso que os extremistas querem quando fazem ataques maciços a alvos ideológicos determinados. A ideia é dizer "amanhã pode ser com você". Mas não se intimide, e conte com quem ouve, dialoga e respeita para se proteger da insanidade.

7) Reconhecer o espaço da arte e da inventividade.
Entender que nem tudo deve ser lido como literal ou verossímil: existem arte, humor, ironia, ficção. Você pode acreditar piamente em uma história de fantasia, mas saiba que isso é problema seu.
Quando as pessoas não entendem que a arte é um espaço diferenciado, costumam ter reações completamente descabidas. Não tem sentido avaliar "Senhor dos Anéis" pela possibilidade de que todos os seus detalhes sejam verossímeis em relação à geografia do planeta. Ou seja, não faz sentido achar que a história é boa porque poderia ter acontecido, ou pode acontecer na realidade. Se você levar ao pé da letra tudo o que está sendo expresso, não vai entender nada de quase nenhuma obra artística, nem de quase nenhuma piada ou quase nenhuma expressão figurada de sentimento. Assim, se você escreveu um poema, não cabe muito confirmar ou negar o conteúdo escrito, mas sim entender quais elos e jogos foram estabelecidos ali, e de que forma eles tocam em coisas importantes para nós. Nem sempre a arte tem uma posição explícita, direta e evidente sobre os temas que aborda, e nem sempre concordamos com a visão de mundo de um artista que podemos, ironicamente, admirar ou aplaudir.
A arte é livre, e reconhecer seu espaço implica suspender a ânsia de posicionamento em favor de uma fruição mais atenta e receptiva. A ficção não tem compromisso com as regras do mundo, e pode, inclusive, criar seu próprio mundo. O humor e a ironia são essenciais para suportarmos os problemas do cotidiano.
Então, fique esperto. Nem sempre o "eu" da obra é o "eu" do autor. Mostrar algo não é necessariamente defender nem negar algo, na arte. Pode ser "fazer pensar sobre algo". E às vezes pensar incomoda, e alguns não culpam o pensamento, mas o artista que o estimulou. Cuidado com isso.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Sem pacto. Só impacto.

Quando eu era criança, em tempos de crise e recessão, as pessoas usavam muito a expressão "pacto social", que significaria um acordo em que vários segmentos da sociedade (empregados, empregadores, governo, funcionários públicos, ricos e pobres, classes A,B,C,D) teriam de fazer concessões individualmente para que se conseguisse um quadro melhor da economia que beneficiaria a todos.
Essas concessões seriam negociadas, é bom que se entenda.
Admitindo que essa ideia nunca realmente vigorou, e que os de menor renda sempre foram mais prejudicados, devo dizer que me espanta que, no quadro atual, a desfaçatez seja tamanha que nem esse tipo de pacto tenha sido proposto. Não há negociação, as concessões são praticamente todas dos empregados e funcionários públicos, e não há sequer a preocupação de se apresentar isso como um esforço de todos de "apertar os cintos".
Pelo contrário, trata-se às vezes de ameaça e chantagem explícita, via propaganda, como quando se diz que, se não for do jeito que o governo quer, o trabalhador perderá o benefício ou o direito que até então tinha. Se não mexer nos direitos (do trabalhador), não vai ter emprego. Se não cortar benefícios (do trabalhador), não vai ter educação e saúde. Ninguém fala de rever a alíquota do IR, ou de taxar grandes fortunas, ou de limitar a especulação financeira, medidas essas que seriam concessões dos mais ricos (e de uma parcela bem pequena deles, até). Não há mais a preocupação de convencer as pessoas de que todos estão no mesmo barco. Isso ao mesmo tempo em que se paga uma dívida interna irreal, se congelam investimento sociais e se perdoam dívidas de teles, agronegócio etc.
Sem proposição de pacto, sem esforço de persuasão e sem nenhum incômodo sequer para os que têm dinheiro e poder, olha só quanta coisa tem ido pro ralo para a minha e a sua vida:
- tempo para aposentadoria aumentará (muito);
- leis trabalhistas (acordos com patronato passam a ter valor de lei);
- CLT está sob ameaça;
- o mínimo aumentou menos do que era previsto;
- as contas de tudo subiram;
- salários de funcionários públicos não são pagos;
- salários congelados por anos;
- transportes subiram;
- vagas em universidades públicas sendo diminuídas;
- orçamento da educação sendo cortado;
- contratações de funcionários suspensas;
- discute-se mudar leis para poder pagar menos e demitir funcionários estáveis;
- nem os seus atenuadores de humor, como a Netflix e outros, estão garantidos, uma vez que haverá limitação da banda larga;
- e tudo isso no mesmíssimo mar de corrupção que sempre caracterizou a coisa pública brasileira, inclusive com as mesmas figuras de sempre ocupando cargos-chave no Congresso e no Planalto.
Esqueça o teatrinho político por um momento. Não defenda a espoliação dos seus direitos em função de "gostar" ou não de governante X ou Y, o de ter defendido X em determinada ocasião e agora se sentir comprometido com as escolhas que fez então. Pense que os nomes, as pessoas e as intenções estão a serviço de ideias e ações, e são estas que ficam. Não defenda nenhuma ideia ou ação que não traga benefícios a pessoas como você, seja quem for a figura pública envolvida.
Ou nos unimos em torno de ideias e questões específicas, da defesa dos nossos direitos, ou vamos perder todas as conquistas de anos para o país sair da crise (o que não é garantido) e deixar a gente, mesmo com a economia mais saudável (o que, de novo, não é garantido), em condição bem pior do que estávamos antes (o que é garantido e permanente com essas mudanças que estão sendo feitas).

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Voto e propaganda

Quando as pessoas se digladiam em ofensas ou argumentações incisivas, às vezes fico pensando se elas acreditam que conseguirão persuadir seu interlocutor dessa maneira. Tenho observado, nesses últimos anos, um curioso fenômeno ligado ao debate político que faz com que eu coloque em dúvida essa possibilidade de convencimento.
Noto que determinadas candidaturas vencem pela simpatia do eleitor com elas. O eleitor gosta da "cara" daquela candidatura e se predispõe a dar seu voto a ela. A partir daí, esse eleitor não se preocupa mais em discutir propostas ou programas ou históricos de ação, mas apenas em defender a escolha subjetiva e emocional que realizou. 
Quando isso acontece, não há argumentação que mude aquela forma de pensar (ou não pensar). Esse eleitor "fechado" com a possibilidade que lhe inspira mais simpatia passa a colecionar argumentos para defender sua opção sem avaliá-los ou pesar sua relevância. Ele sempre tem algo a dizer sobre o candidato escolhido, mas quase nunca é uma ponderação racional, e sim a repetição de mantras publicitários, argumentos pobres (por vezes desumanos ou falaciosos) e imprecações violentas contra adversários. Para quem não conhece embate de ideias de verdade, essa massa de informações, que mais parece uma competição de prolixidade e grito que um diálogo sobre os rumos da coisa pública, ganha o estatuto imerecido e indevido de "debate político". Parece-me que essa confusão é tudo o que os marqueteiros querem, e que se configura como um dos maiores desserviços à população que se pode imaginar.
Por muitas vezes, nesse contexto, percebo a irritação e o desespero de quem leva argumentos racionais e bem construídos, baseados em fatos e informações fidedignas, aos que não querem mudar de ideia de jeito nenhum. E percebo um erro estratégico complicado, que é a ingenuidade de achar que, vencendo um debate, você muda a atitude do derrotado. Muitas pessoas que conheço ficam felizes por destruir a argumentação de um adversário nas redes sociais, como se isso mudasse uma predisposição de apoio ideológico, que tem muito mais a ver com fatores subjetivos manipulados pela propaganda. Não quero dizer, com isso, que não adianta argumentar. Quero dizer que o problema não é só argumentar, mas trazer a discussão para um patamar de interesse comum. E, ao fazer isso, mostrar que esse interesse comum não é contemplado quando a discussão é pautada pela mídia corporativa e pelos marqueteiros.
Tomemos, por exemplo, a questão da educação pública, laica, gratuita e de qualidade. Se temos essa pauta em mente, e conseguimos mostrar que é relevante também para o nosso interlocutor, partimos de um ponto em que a avaliação de candidaturas passa por compreender qual o compromisso que elas têm com essa demanda. E então podemos mostrar que nenhuma candidatura atende totalmente aos interesses comuns, tal como nenhuma os desconsidera totalmente. Podemos estabelecer graus de proximidade de interesses, que nos ajudam a buscar o que nos favorece, enquanto trabalhadores e cidadãos, dentro de qualquer gestão eleita, seja mais próxima ou mais distante de nossas preferências.
Quantas vezes eu vejo as pessoas discutirem questões dificílimas e cheias de nuances, como o aborto, os rumos da economia, a distribuição de energia, a mudanças de leis trabalhistas, todas elas trazidas para as conversas como amontoados de raciocínios incompletos repetidos sem leitura e aprofundamento, associados, via de regra, a um viés partidário de preferência? Por vezes parece que as pessoas não veem contradição alguma em apoiar medidas que as prejudicam enormemente se defendidas por candidatos de sua preferência pessoal. Por outro lado, essas mesmas pessoas não conseguem elogiar ou apoiar medidas importantíssimas para elas e para os outros quando assumidas por candidatos do campo antagonista. Fica parecendo que, se o candidato querido disser que bois voam, o seu eleitor deve repetir essa argumentação até a exaustão, mesmo que tenha consciência de que ela é ridícula. Cria-se um compromisso de torcedor, e não de cidadão politicamente participante.
Acredito no diálogo, mas não acredito que o formato de interlocução oferecido pelas redes sociais ou pelos canais de televisão e rádio seja, de fato, favorável ao aprofundamento das questões mais importantes. Não compartilho do otimismo das pessoas que citam a amplitude da rede virtual e a velocidade da circulação das informações como benefícios imediatos à construção de consciências. Precisamos ter estratégias para navegar nesse mar de vozes, e a confrontação verborrágica orgulhosa e soberba só trará mais rusgas. Para mim, é preciso voltar às bases: procurar conhecer as demandas das pessoas ANTES de configurados quaisquer processos eleitorais, estudar as questões mais prementes, fazer leituras, grupos de estudo, grupos de discussão, problematizar a pauta da mídia antes de assumir uma posição em relação ao que ela oferece, criar uma pauta comum e dialogada como alternativa àquela estabelecida pelos que podem fazê-lo.
Sem isso, ficaremos na mesma.

Esta postagem é só um desabafo pessoal. Para pensar esse tema com mais consistência, recomendo a leitura das obras políticas de Noam Chomsky.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Dylan é Nobel de Literatura, e eu aplaudo de pé

Estou em estado de grande alegria pela premiação de Bob Dylan com o Nobel de Literatura. Acredito que esse não seja um prêmio apenas de Dylan. Agraciando um compositor popular, a Academia Sueca mostrou que um trabalho profundo e comprometido com a canção pode ter impacto e relevância cultural nas mesmas dimensões de uma grande obra literária. De certa forma, entendo que esse prêmio é uma vitória da canção, esse produto pop que transcendeu a música, a poesia e a fala e transformou-se numa linguagem com possibilidades quase infinitas, inclusive de abrigar a beleza poética e a profundidade literária. Esse reconhecimento a Dylan é também um reconhecimento a Lennon, Chico Buarque, Atahualpa Yupanqui, Leonard Cohen, Violeta Parra e tantos outros que optaram por fazer o artesanato da palavra dentro da canção, no universo da música popular.
Se Dylan não se destaca por vendagem ou pela celebração de livros pela crítica, isso não o diminui enquanto artista. Muitos dirão que ele não é um escritor, é um músico, e que o prêmio deveria ser dado a alguém ligado à produção de livros reconhecidos por uma qualidade estritamente literária. Acontece que a palavra "músico" é traiçoeira quando usada para definir Dylan. Beethoven, Bach, Stravinsky são músicos imortais e espetaculares, mas ninguém em sã consciência daria um Nobel de Literatura a eles, por razões óbvias: suas sinfonias, óperas, sonetos, corais, são de excelência incontestável no plano musical, mas não os fazem mestres ou artesãos da palavra escrita, de forma alguma. Dylan é um cancionista, e a canção não é só música, como sabemos já há algum tempo. A figura de Dylan, para mim, está mais próxima dos trovadores e menestréis que dos romancistas e poetas. Escrever canções não é simplesmente colocar letras em músicas. Há todo um elemento de persuasão que passa pela possibilidade de os segmentos verbais convencerem emocionalmente, poderem ser assimilados como recortes de fala natural. Quando Dylan canta, você se convence de que ele está dizendo algo, e esse convencimento acontece por meio de recursos específicos acionados pelo fazer específico ligado à produção de canções.
O que quero dizer é que é perfeitamente possível ser um mestre ou gênio da palavra dentro da canção. E que isso tem de ser percebido por meio da fruição da canção. Não adianta pegar um monte de letras de Dylan, colocar num livro e querer que elas causem a impressão de poemas geniais (ainda que muitas possam, eventualmente, provocar essa reação). O talento do cancionista enquanto compositor popular não é revelado nessa leitura fria. Esse talento se revela na percepção de que as escolhas de palavras, de frases, de conteúdos, de ritmos, de entonações e de recursos de oralização, todas profundamente ligadas ao trabalho com a linguagem verbal, são pensadas dentro de um contexto musical, dentro de um limite de tempo de execução e de um limite associado às escolhas na melodia.
É um músico que ganhou o Nobel de Literatura? Sim. Mas um músico que não é só músico. É também um tremendo artista da palavra, num nível tal que sua produção alcança patamares geralmente associados à produção de poetas, romancistas e contistas. Mas, que fique claro, alcança esses patamares enquanto produção de canção, dentro da lógica e do artesanato das canções. Há, na premiação de Dylan, uma concessão importantíssima, que assume que o manejo inteligente da palavra dentro de roteiros de cinema, letras de canções ou discursos públicos possa ser pensado também como espaço de construção de belezas poéticas e literárias. O que não deveria ser nenhuma novidade, visto que estudamos como grandes escritores, muitas vezes, pessoas que nunca escreveram livros, e lemos como obras escritas muitos textos que eram cantados ou oralizados e só sobreviveram em virtude de registros realizados sem a participação de seus autores. Talvez um dia um roteirista de televisão ou um orador comunitário ou um outro mestre da palavra fora dos livros possa receber o reconhecimento mais que merecido de Dylan.
Entendam, por favor, que isso é muito diferente de dar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras para pessoas com grande importância política, mas que nunca produziram nada que se possa considerar minimamente literário ou de relevância intelectual. Entendam, também, que o prêmio não define os melhores, que também tem suas jogadas políticas, e que não tem como reconhecer artistas que estão tão à frente de seu tempo que só serão valorizados muito depois de sua morte, ou artistas que morreram cedo demais para receber todo o reconhecimento que mereciam. Há limites claros nessas premiações. O que não impede que eu considere justo, bacana e importante premiar o gênio extraordinário de Dylan, e elevar a canção pop ao patamar de valor literário que todos sabemos que ela historicamente tem.

sábado, 9 de abril de 2016

Coração profético


Na iminência de algo acontecer, percebe-se que sempre algo pode acontecer. A sensação de perigo é apenas a consciência das possibilidades que ora estão mais evidentes, ora mais latentes. Viver é muito perigoso, como diz Guimarães Rosa, porque viver é estar na iminência de algo que, por mais que queiramos profetizar, sempre aparece sob um véu. Não escondido, não de surpresa: apenas obnubilado.
Mas meu coração é profético, no sentido bíblico. Seus batimentos formam uma sinfonia em Braille, que às vezes nem eu mesmo consigo decifrar. E ele sente coisas que existem, ainda que eu não possa precisá-las.
Nesses dias, sinto necessidade de dizer que a maior vitória que podemos imprimir a nossos adversários no campo das ideias é a alegria de viver. Mostrar que podemos viver alegres, contentes (não digo felizes, mas iluminados pelo bom humor) e produtivos, com valores diferentes daqueles que nos querem fazer assimilar, é o ato mais revolucionário de um ser humano. E é também a forma mais sóbria de lidar com as iminências da vida. Mostrar e experimentar um caminho é também ousar e empunhar um caminho quando as mentalidades são fechadas e excludentes.
Nesses dias atuais, sinto necessidade de dizer que acredito na arte como modo de vida, e na alegria como antídoto contra a loucura. As canções, as encenações, as filmagens, os poemas, as prosas, as instalações, as intervenções, as melodias, as composições plásticas, tudo isso tem servido muito mais para abrir meus olhos que para enfeitar um mundo paralelo de alienação e fuga. Quando as pessoas entram em contato, elas sabem ser pessoas no mundo do espetáculo óbvio; quando os artistas profundos entram em contato com o público, tanto eles quanto o público desaprendem seus papéis e reescrevem suas narrativas. 
Tenho vontade de dizer que ouço vozes e vejo olhares que expõem sentimentos fortes e valorosos. E que existem, sim, boa vontade, generosidade, gratidão, desprendimento e altruísmo. Que tudo isso está difuso e perdido entre outros estímulos e projeções, mas que a determinação pode garimpar essas belezas nas margens do rio de vaidades e excessos que nos arrasta. 
Tenho confiança de que a educação e a arte podem interferir no sistema. Posturas mais críticas, mais autocríticas, mais questionadoras, mais observadoras, podem desativar o preconceito, o machismo, o hedonismo, a egolatria, a discriminação, o racismo. Sensibilizar corações não é para vender produtos nas livrarias: é para salvar vidas, salvar identidades e alteridades, congregar mais corpos na festa do presente. Sobretudo, a alegria, enquanto afirmação de outros valores, agregadores, igualitários, isentos das marcas de fabricação da sociedade ao mesmo tempo líquida e psicótica, enfim, a alegria compartilhada e compartilhável é a maior arma que temos contra o medo, o ódio e a exclusão. O fascismo bebe deles; a alegria transborda e os recobre. Precisamos ser mais altos que fascismo.
Tenho necessidade de dizer que, como os antigos, acredito ver além. Não a verdade do que está além dos olhos, mas a luz no fim do túnel que a escuridão engoliu, mas que podemos reativar antes mesmo de alcançá-la. As profecias não são do futuro. Porque o futuro não está em nenhum outro lugar que não seja matéria do presente. Nesse sentido, vale o coração profético. A dor da lucidez precisa dele.
Venha o que vier, minhas armas estão prontas. Eu sei quem tenho em mim.


sábado, 26 de dezembro de 2015

É preciso urgentemente requalificar o espaço de comentários nos blogues: ele se tornou profissionalizado, inútil e pernicioso


Para quem viveu a empolgação da possibilidade de troca de informação na internete, e mais ainda a empolgação da descoberta dos blogues como recursos de expressão baratos, rápidos, eficientes e com muitas facilidades de interação, é completamente decepcionante perceber que boa parte das conquistas em termos de liberdade e possibilidade de diálogo podem estar indo para o ralo por puríssima falta de bom senso no uso.

Alguns blogueiros e páginas que acompanho frequentemente desativaram o espaço de comentários, sem mais. Ninguém pode culpá-los nem criticá-los por isso. Eles não estão fugindo do debate de ideias, mesmo porque esse debate simplesmente não acontece. O que eles fazem é evitar o dissabor das agressões verbais e da falta de senso de internautas sem civilidade. A prova de que a coisa está nesse nível é que mesmo os grandes portais, que via de regra abrem espaço em suas publicações para comentários dos internautas, já criaram maneiras de filtrar certas inserções, bloqueando palavras, limitando intervenções ou até suprimindo a possibilidade de comentário, tal como os blogueiros a que me referi. E leve-se em conta que esses grandes portais pagam funcionários para cuidar desses espaços virtuais.

Essa tendência de intervenção desqualificada (em alguns casos, até doentia) dos leitores de textos de internete talvez seja apenas reveladora da deterioração geral da urbanidade numa sociedade individualista, competitiva, violenta e frustrada. Em grande parte, creio que isso é verdade. Por outro lado, há outras motivações por trás da mediocridade, às vezes tão medíocres quanto as intervenções agressivas, às vezes inteligentes a ponto de apenas utilizá-las, sem se confundir com elas.

Percebo em portais como UOL, Terra e Yahoo a presença maciça de comentaristas profissionais, preparados para inserir ideias fixas (verdadeiramente fixas) em quaisquer espaços em que for possível. Essas ideias são em boa parte assustadoras, em sua maioria são apenas medíocres, algumas podem ser apenas irrelevantes, e algumas poucas são válidas e sensatas. Não há muito como medir isso, depende de fazer um levantamento e uma análise minimamente isentas e fundamentadas, e eu mesmo não teria essa condição. Mas não é preciso mais que alguns minutos de leitura para que se perceba que o perfil convicto-agressivo-arrogante é o que predomina, infelizmente. 

Esse perfil de comentarista não é, de forma alguma, ingênuo, nem age de forma aleatória. Há comentaristas que emitem sua opinião, reforçam, e depois conseguem tempo para atacar sistematicamente toda e qualquer opinião divergente que seja postada. Creio que a sistematicidade seja a característica que melhor se apresenta na ação desses internautas. Parece que suas energias são claramente direcionadas para: a) ocupar um determinado espaço de escrita dentro de um veículo, seja uma postagem, seja uma notícia, seja outro espaço qualquer; b) postar ideias que reforcem determinadas visões fechadas e definitivas de mundo - raríssimas vezes você vê esse perfil equilibrando prós e contras, ou fazendo perguntas, ou questionando seu próprio raciocínio e suas limitações de compreensão; c) dar sempre a última palavra sobre um assunto ou numa sequência de argumentações, se possível desqualificando, ridicularizando e silenciando a posição adversária, colocando-a como absurda ou medíocre - as risadas, as ironias e a distorção do que foi escrito são estratégias comuns para esse fim; d) cercar os perfis com opiniões diferentes e combatê-los ou agredi-los sistematicamente, não permitindo que nenhuma ideia levantada possa ficar sem resposta; e) unir-se a perfis semelhantes e atuar de forma a estabelecer um "efeito manada", como se a quantidade de postagens ou respostas pudesse substituir a qualidade da argumentação.

Sem toda essa sistematização, essa forma de ocupar o espaço virtual não seria possível, pois estaria fadada ao fracasso ao ser identificada como autoritária, paranoica e altamente desagradável para quem lê. E essa necessária sistematização pressupõe a profissionalização do perfil comentarista: é preciso que alguém tenha tempo, incentivo e recursos para não perder nenhuma postagem adversária. Assim, quando as organizações ou estruturas de poder que sustentam esses perfis elegem um adversário ideológico, procuram adentrar seu espaço virtual e realizar uma espécie de estratégia de "terra arrasada", destruindo toda e qualquer possibilidade de equilíbrio no debate de ideias. Isso também pode ser percebido de forma muita evidente: basta acessar rapidamente a rede para notar que há notícias e blogues que ninguém comenta, ao passo que há espaços em que parece estar havendo uma nova guerra de nervos a cada publicação. 

- Ora, isso tudo é parte do embate político de ideias - poderia dizer o meu interlocutor imaginário. Concordo. Mas até a política tem de ter regras de civilidade para se estabelecer. Na história, abominações como extermínios em massa e guerras de conquista são parte de políticas de Estado, por exemplo, mas isso não as torna mais legítimas. Agressões, intimidações, humilhações são parte das estratégias de manipulação na comunicação humana, é fato. Mas não há outras estratégias? Não há uma riqueza enorme de possibilidades nesse sentido, dentro do diálogo, da interlocução respeitosa, da conversa para enriquecimento mútuo?

O que acaba acontecendo é que esse perfil de comentarista torna-se um propagador violento e autoritário de ideias fixas, às vezes polêmicas, às vezes meramente agressivas, mas nunca ingênuas nem despropositadas. E ele transforma o espaço de debate em um espaço de escrita virulenta, por vezes covarde, porque a distância física e a possibilidade do anonimato garantem uma postura irresponsável em relação ao que publica. Para quem mantém blogues, o resultado é por vezes desastroso, em especial para pessoas não profissionais como eu, que escrevem de vez em quando e não têm como abandonar as outras atividades que garantem seu sustento para cuidar do que está acontecendo em suas postagens. O que acontece, muitas vezes, é que uma postagem que seria boa, se tomássemos só o texto, torna-se intragável quando lidos os comentários. Em certos casos, os comentários nada têm a ver com o espírito nem da postagem nem do blogue, ou nada acrescentam a uma determinada questão, servindo apenas para marcar posição; são, assim, irrelevantes e inúteis. Mas pode ser ainda pior, porque muitas vezes, além de serem descartáveis para o debate, os comentários desviam da ideia principal de tal forma que acabam se focando em ataques ad hominem e agressões desvairadas. Nesse caso, eles são, sem dúvida, perniciosos para quem escreve, para quem lê e sobretudo para quem os recebe em seu blogue.

O que fazer contra esse troll profissional, que transforma um espaço de debate em um espaço de exclusão, violência e impraticabilidade do diálogo? Não há soluções fáceis, admito. Creio que, em primeiro lugar, nunca se deve entrar na "pilha" do comentador mal educado, porque isso é tudo o que ele quer. Uma vez que ele está "equipado" para a guerra, tentar confrontá-lo é dar-lhe crédito em seu campo, e perder tempo, energia e disposição. Recomendo uma frieza quase didática se se considerar que uma resposta vale a pena. Em segundo lugar, é preciso desarmá-lo de sua postura, e uma boa maneira de fazer isso é expor sua estratégia. Isso pode ser feito quando isolamos as palavras agressivas para comentá-las, ou questionamos a caixa alta e as risadas, ou detectamos o "efeito manada" na atuação de distintos perfis. De novo, é necessário sangue frio, e preparação para o revide, porque expor as inconsistências de discurso ou intenções subjacentes de um interlocutor normalmente tende a incomodá-lo. Em terceiro lugar, acredito que seja saudável e importante localizar, selecionar e divulgar, ou até mesmo construir, espaços virtuais públicos de discussão ampla sobre determinados assuntos. Quando um engraçadinho quisesse fazer um bate-boca sobre alguma questão com a intenção clara de perturbar um internauta, ele poderia ser remetido a um desses espaços, para testar suas ideias dentro de um ambiente mais amplo. Responder a uma postagem arrogante com o link de um especialista ou de um fórum sobre a questão pode ser um bom método de qualificar a discussão, ou obrigar o interlocutor a responder não aos argumentos do blogueiro, e sim aos de muitas outras pessoas que se debruçaram sobre o assunto. Por fim, acredito que seja legítimo, em grande parte dos casos, simplesmente não responder, apagar o comentário ou mesmo responder em particular, se se sentir que isso é possível. Boa parte dos blogues são espaços pessoais, embora com exposição pública. Ninguém pode ser obrigado a aceitar atitudes desrespeitosas, que acabam ganhando uma publicidade indevida, e que muitas vezes são realizadas justamente para obter essa publicidade. Ademais, o comportamento de muitos dos perfis na internete chega a ser psicótico, e não são todas as pessoas que conseguem lidar com esse padrão de comportamento. 

Em complemento a esta postagem, vou colocar alguns exemplos de comentário pernicioso nos vários portais e blogues que acompanho, apenas para que não pareça que esse é um incômodo exclusivamente meu, ou relacionado a uma situação específica. Vou fazer isso aos poucos. O importante é que decidi não mais prestigiar a ignorância. Ou será remetida a um debate qualificado, ou será desprezada. É isso.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Linguagem, escolhas e notícias

Acabei de fazer uma consulta rápida às minhas fontes e verifiquei que o continente americano possui mais de 900 milhões de habitantes. É muita gente.

Imagino que, dentro desse imenso contingente populacional americano, não sejam todas as pessoas que tenham condições de ser atletas. Muito menor deve ser o número de atletas de destaque. Muito menor ainda o de atletas em condições de representar seu país. E deve ser ínfimo, para esse contingente, o número de atletas em condições de disputar e vencer uma medalha nos Jogos Panamericanos.

Na verdade, eu não estava pensando a respeito disso até deparar com a manchete do portal Terra que aparece na figura abaixo:



Não farei aqui nenhuma avaliação sobre a conveniência ou inconveniência dos termos empregados. Mas chamo a atenção do leitor para a posição do autor da matéria em relação às informações selecionadas para compor o texto. Repare como a escolha das palavras determina um viés de interpretação em relação ao que é e o que não é importante.

Primeiro, vamos à notícia. Mayra Aguiar conquistou medalha de prata no judô no Pan. A medalha de ouro foi conquistada por Kayla Harrison. As duas já se enfrentaram anteriormente diversas vezes. Essas informações podem ser recuperadas de diversas formas, a partir de distintas escolhas de linguagem. Cada escolha reforçará uma ideia, e não será neutra, pois implicará seleção de informações mais específicas para complementar a ideia das informações principais.

Começo destacando o termo "jejum". Ele aparece como primeira palavra da manchete, e está semanticamente associado a "fome", "falta" e "período de tempo". Com sentido evidentemente negativo, ele está associado à não conquista da medalha de ouro pela atleta. Especificamente da medalha de ouro, porque Mayra Aguiar já havia conquistado prata no Pan de 2007 e bronze no Pan de 2011. Seria possível destacar a sequência histórica de conquistas de medalhas, mas a opção recai na sequência de não conquistas da medalha de ouro.

A ideia de "derrota" que se amplia no tempo (veja o uso do verbo "continua" associado a "jejum") estabelece uma direção para o texto, que tende a se uniformizar em sua construção. É importante ressaltar que essa ideia é evidentemente polêmica, como vimos, pois a definição de sucesso está atrelada tão somente à conquista da medalha de ouro. A despeito disso, a manchete permanece fiel à negatividade anunciada na primeira frase, reforçando com a expressão "perde mais uma". É como se as lutas perdidas estivessem sendo contadas, e as vencidas fossem menos importantes.

Adiante, ainda na manchete, utiliza-se o vocábulo "algoz". O Dicionário Houaiss define "algoz" como "carrasco, executor da pena de morte ou de outras penas capitais". Essa metáfora, comum no jornalismo esportivo, é dramática e hiperbólica, e poderia passar como licença poética se não reforçasse, no contexto empregado, a ideia de insucesso, atribuindo muito maior poder a quem vence (metaforicamente, aquele que mata) e muito menor poder a quem é vencido (metaforicamente, aquele que morre).

Para que não se pense que a análise atribui mais peso aos termos do que eles possuem, consideremos que não se trata de usar ou não a ideia de "algoz", mas de fazê-lo junto com as ideias de "jejum", de perder "mais uma" e de ser "novamente derrotada" (expressão presente no lide). Todas essas expressões, que semanticamente reforçam os traços relativos à derrota, são compensadas apenas pela única informação não negativa, a da medalha conquistada, de "prata". Interessante notar que mesmo a informação da medalha de prata aparece negativizada pelo texto, pois não é apresentada como conquista, e sim como consequência de um fracasso.

O texto desenvolve-se com esse viés e há poucas concessões à positividade da campanha realizada pela judoca. Quanto à ideia da série histórica de derrotas, a matéria aponta para um saldo negativo a partir de uma interpretação sobre os resultados anteriores dos confrontos entre Kayla e Mayra. Note-se que o viés adotado estabelece que dados se deve recuperar da informação e como comentar esses dados:


No caso do trecho selecionado, a primeira informação dá conta de que Mayra havia vencido sete vezes Kayla, uma a mais que a adversária. Portanto, com o resultado da final do Pan, estabelece-se um equilíbrio na disputa, um empate. Entretanto, o autor desconsidera os números da série histórica de confrontos porque, apontando esse empate, eles não reforçam sua ideia central, associada às noções de derrota e fracasso. Para manter a coerência com o viés adotado, recupera apenas duas competições indicadas como "grandes eventos", o Pan de Guadalajara e a Olímpíada de Londres. Com isso, pode falar de "retrospecto negativo": ele não se refere ao histórico dos confrontos, mas às disputas realizadas em "grandes eventos". O recorte da informação consolida a ideia negativa, que poderia ser afastada pelos dados mais amplos. Também é importante notar que a redação considera que o leitor tenha a mesma opinião do autor do texto sobre o que seriam "grandes eventos".

O que estou tentando mostrar com isso? O seguinte:

1) nenhum texto jornalístico é neutro, porque a língua não é um recorte neutro do mundo;
2) há muitas formas de lidar com dados, informações e números; portanto, é preciso cuidado quando as pessoas dizem que "contra fatos/números não há argumentos";
3) não é possível que três medalhas conquistadas em três edições do Pan por uma judoca possam ser vistas como "jejum" ou possam ser associadas a "retrospecto negativo";
4) dentre 900 milhões de americanos, a atleta brasileira habilitou-se para a conquista de uma medalha de prata em uma modalidade de judô, tendo sido derrotada apenas na final da competição por uma atleta estado-unidense, e isso é lembrado por um grande portal de mídia como fracasso;
5) não sei qual a cartilha dos jornalistas de hoje em dia, e menos ainda em relação ao portal de onde extraí a notícia, mas há claramente um viés de desvalorização do atleta na forma como a informação é noticiada; 
6) não acho que é justo estendermos a nossos atletas esse complexo de inferioridade que caracteriza boa parte do pensamento de nossa sociedade, e que não se justifica de maneira alguma.

O pior não é isso. O pior é que essas escolhas de linguagem, articuladas a matérias lidas muitas vezes de forma apressada e irrefletida, produzem um certo "senso comum" para o público em geral, que assimila esse viés de desvalorização como se ele fosse de fato uma abordagem neutra e objetiva. E aí é dose: atletas como Mayra Aguiar, medalhistas em Pan, Mundiais e Olimpíada, têm sua imagem associada ao fracasso. O que é quase um crime numa sociedade que, via de regra, só apoia com patrocínios e investimentos, no esporte, os que já venceram ou têm enormes chances de vencer, deixando em segundo plano aqueles que lutam com gigantesca dignidade, mas que não têm a oportunidade de subir em pódios.




quinta-feira, 9 de julho de 2015

O dom de cantar e o dom de saber usar esse dom



Lembro-me de ouvir, sobre meu ídolo esportivo de sempre, Roger Federer, que algumas vezes ele se perdia durante as partidas que disputava por uma razão até meio bisonha. O tenista suíço é, indiscutivelmente, o mais talentoso jogador de tênis de todos os tempos; em função disso, a cada jogada, duas ou três diferentes soluções poderiam passar por sua cabeça, todas passíveis de serem realizadas por seu braço. O que ouvi de algum comentarista cujo nome me falha na memória é que Roger, às vezes, não encontrava a melhor das soluções possíveis, e acabava perdendo para adversários que, por limitações técnicas, faziam exatamente a mesma coisa em todas as situações dadas, mas sem vacilar. 
Eu fiquei pensando sobre essa questão na tarde hoje, e refleti que o talento, ou o dom, ou a capacidade maior ou menor de fazer alguma coisa (não me importa se pensada como natural ou desenvolvida) é uma condição do indivíduo que pode ajudar ou atrapalhar. Sem dúvida, eu e muitas outras pessoas admiramos quem tem esses talentos. Gostaria muito de ter a habilidade com as palavras que vejo em muitos escritores, a potência e extensão de voz de muitos cantores, a musicalidade de muitos instrumentistas que conheço. Mas ter essas capacidades não quer dizer, de forma alguma, que eu poderia produzir com elas realizações como as que sempre sonhei para minha vida. A distância entre uma coisa e outra é muito grande.
Há algum tempo, eu e meu professor de canto, o Dudé, conversávamos sobre o fantástico Glenn Hughes, vocalista de capacidades impressionantes, virtualmente ilimitadas. O Dudé me dizia que o que havia de melhor em Hughes é que ele, mesmo podendo usar a extraterrestre voz de cinco oitavas e as dezenas de diferentes técnicas de canto, fazia escolhas que limitavam esse potencial para poder dar destaque às canções. É incrível vê-lo buscar notas absurdas em "Mistreated" ao vivo, mas também é incrível ver como respeita canções natalinas, por exemplo, quando as interpreta em um álbum como "A Soulful Christmas". Não importa, nesse trabalho, demonstrar quanto ele "pode" ou "alcança". Importa mostrar quanto ele entende que pode contribuir para o espírito de cada faixa, de cada canção. E o resultado é belíssimo.
Voltando à minha reflexão, meditei que Hughes, ao "economizar" voz e firulas na interpretação das músicas natalinas, entendeu à sua maneira aquilo a que vinha me referindo anteriormente: seus dons podem atrapalhar, nesse caso. Explorar todo o seu potencial de voz em canções singelas fere justamente o que elas têm de mais bonito, e o resultado artístico, embora pudesse ser uma verdadeira aula de canto, tornar-se-ia ao mesmo tempo uma lição de mau gosto estético. 
Dessa forma, acredito que seja missão do intérprete, vocalista ou cantor, em primeiro lugar, saber usar sua voz como recurso para um projeto estético maior. Se ocorrer o contrário, se o projeto estético for utilizado como recurso para promoção da voz, o efeito é egótico e redutor, e ainda que impressione a curto prazo, torna-se cansativo para o ouvinte. Por isso, creio que o grande talento ou dom a ser desenvolvido pelo cantor, que deve estar associado ao seu autoconhecimento e apuro técnico e à sua formação cultural e musical, é aquilo que vou chamar de talento de gerenciar os próprios talentos. Ou dom de saber usar o dom de cantar. 
O nome pode parecer meio maluco, mas acredito que ele represente uma capacidade à parte, tão importante quanto os recursos técnicos e físicos e, até diria, mais fundamental do que eles, considerando que artistas sem muitas qualidades vocais mas com grande inteligência musical para usar as que têm também podem alcançar excelentes resultados a partir da consciência das próprias limitações. Estendendo essa reflexão para além das questões da voz, penso que o artista, em geral, precisa encontrar, dentro de si, a medida da entrega que não comprometa o conjunto da obra. Talvez isso não seja tão óbvio nem tão fácil de fazer em um mundo que associa cada vez mais a arte, e principalmente a produção de consumo, a perfis individuais, isolados, artificiais e egocentrados, com os quais a sociedade individualista está apta a se identificar imediatamente. Mas se não for assim, o que se produz não se sustenta, e acaba caindo na vala comum da descartabilidade e irrelevância, como muito material que vemos por aí.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Incompreensível para mim


Vamos lá, bem simples.

1) Prefiro a palavra "impedimento", já devidamente aportuguesada, à palavra "impeachment".

2) Fui governado 8 anos por FHC, em quem não votei, já tendo idade para votar. Houve corrupção no governo FHC? Houve (compra de votos da reeleição, privatizações etc.). Em algum momento eu pedi o impedimento dele? Não.

3) Fui governado 4 anos por Celso Pitta, DEP, em quem não votei. Houve corrupção no governo dele? Nem precisa responder. Em algum momento pedi o impedimento dele? Não.

4) Fui governado mais de vinte anos por Serra, Alckmin, Covas. Houve corrupção durante esse período? Sim (caso Siemens). Em algum momento pedi impedimento de qualquer um deles? Não.

5) Fui governado por caras em quem votei, vários. Covas, Fleury, Lula, Dilma, Marta. Houve corrupção nesses governos? Sim, sem dúvida. Senti-me enganado, traído, humilhado e diminuído em minhas escolhas? Não. Tenho consciência de que voto em partidos e estruturas ideológico-políticas, e não em perfis vendidos por marqueteiros. Alguma vez pedi o impedimento de quaisquer dessas pessoas? Não.

6) Por que não pedi o impedimento de todos esses caras, se admito que em todos esses governos houve corrupção? Porque uma coisa não tem nada a ver com a outra. Impedimento é uma medida legal que recai sobre quem comprovadamente cometeu um crime. Precisa de um julgamento, com direito a ampla defesa e contraditório. Leva tempo, e tem de ser assim. 

7) E mais: impedimento é da pessoa, não da organização político-partidária. Essa permanece, porque o povo a elegeu. Se o povo elegeu Pitta, e o vice do Pitta é o Kassab, significa que o impedimento do Pitta coloca o Kassab no poder para realizar o programa de governo... do Pitta! 

8) Democracia implica saber perder. Quem não sabe perder, não sabe ganhar. E isso é perigoso. Se Alckimin, por exemplo, por qualquer razão, deixar de governar São Paulo, quem tem de assumir? Alguém do PSDB, ou da coligação, óbvio. Por quê? Porque houve uma eleição majoritária que prestigiou essa coligação, e isso tem de ser respeitado. Essa eleição prestigiou um programa de governo, uma maneira de pensar, e não um indivíduo isolado. Eleições são pra isso.

9) E se eu acaso não gosto do PSDB? Eu tenho o direito de cobrá-lo, pressioná-lo, questioná-lo, e organizar minhas forças para vencê-lo. Mas politicamente, na negociação, no embate de interesses. Tirá-lo do poder, só daqui a quatro anos, quando houver nova eleição, se for do meu interesse e se eu conseguir que a maioria das pessoas concorde comigo. Democraticamente, pelo debate, pela organização, pela persuasão.

10) Passar por cima de tudo isso, de toda uma estrutura democrática que levou anos para ser construída, em nome de espasmos de tensão indignada causados pela leitura de postagens no Face é algo que estou tentando entender há algum tempo. Que está acontecendo com as pessoas? 
Eu entendo perfeitamente a mídia manipular sua cabeça pelos interesses dos grandes grupos econômicos. Eu não consigo entender você se deixar levar por tanta bobagem num momento em que a informação pode ser buscada, discutida, conferida e analisada como nunca fora antes.

São dias difíceis. Espero que as pessoas saibam o que estão fazendo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A superintelingência


Às voltas com a redação de minha tese de doutorado, que vem fluindo com consistência nos últimos dias, recordei-me de uma figura estranha, bizarra, fascinante e ao mesmo tempo escandalosa e ridícula que habitou o centro da tela da TV no programa do Jô por duas noites de entrevista. Tratava-se do malandro Alexandre Selva, transformado pelo talento de interpretação em reencarnação do poeta Omar Kayyam. 

Quando vi aquela figura dando entrevistas, fiquei com a antena ligada, principalmente por causa das afirmações extraordinárias que fazia. Era sem dúvida um super-herói da sapiência. Dizia que lia em 10 minutos o conteúdo de qualquer livro de 100 páginas. Dizia que falava 105 línguas e idiomas. Dizia que possuía 107 títulos de Doutor Honoris Causa. Dizia que se lembrava com clareza de todas as suas encarnações anteriores. Dizia isso na maior cara lavada e sem nenhuma contestação do entrevistador, que parecia torcer para que tudo aquilo fosse verdade.
No fundo, eu também torcia, e torço, para que exista alguém assim, por uma questão de complexo de inferioridade e de transferência. Sempre me senti intelectualmente limitado em relação àquilo que queria e sonhava produzir. Por mais que estudasse, lesse, refletisse, não me via atingindo o patamar de realizar alguma obra fundante ou revolucionária. E de repente aparecia na televisão alguém  com dons que, bem utilizados, permitiriam grandes conquistas, grandes descobertas, grandes reflexões. Alguém com potenciais ilimitados no campo da inteligência.

Obviamente, esse sentimento de admiração com a fantasia de HQ criada por Alexandre Selva esbarrava no senso de ridículo mais rasteiro: nenhuma das afirmações restava comprovada, ou sequer verificada, pela produção do programa, e nada do que era dito pelo falso guru sequer chegava perto da imagem construída pela autopromoção. Nem um grãozinho de nada: porque existem mesmo caras como Kim Ung Yong, que são supergênios, sabem mais de dez línguas e tal. Mas mesmo esses caras têm seus limites nos recordes, e não seriam nada para a personagem interpretada por Selva. Uma pena que um falsário tenha produzido uma personificação tão interessante, uma pena mesmo. 

Eu projeto minhas inconsistências e limitações nessas figuras, confesso. Gostaria muito de ter maior agilidade mental para escrever, ler, pensar e dar conta das inúmeras atividades que realizo dia após dia. Gostaria de saber que posso mais do que tento, e que isso faz diferença para os outros. Uma superinteligência seria bem-vinda para que eu pudesse escrever poemas mais belos, para compor argumentos mais eficientes sobre temas relevantes, para confrontar a manipulação e a intimidação com mais força etc. Se não fosse para tudo isso, pelo menos para que o sofrimento de escrever uma tese de doutorado decente não me consumisse tanto em momentos como este...

Na verdade, repensando essa condição de inteligência privilegiada, fica fácil saber que pessoas como Selva são farsantes. Em minha opinião, e considerando a loucura toda do mundo, se alguém possuísse capacidades tão notáveis, creio que dificilmente se exporia à mídia, exatamente porque compreenderia o que é a mídia, o que são os valores da sociedade em que vive, o que se passa na cabeça da maioria das pessoas. Se existe de fato alguém assim, esse super-herói da inteligência está silenciosamente construindo obras que colaboram com a vida de milhões de pessoas e que fazem com que a humanidade caminhe adiante, sem pensar nos louros dessas conquistas. Porque um ser superinteligente já superou seu complexo de inferioridade, já sabe que não pode pautar seus valores em suas frustrações, e já compreendeu que o valor da vida está muito além do valor das rotinas que julgamos defini-la. Sua inteligência estará além dos idiomas que domina, dos títulos que possui, e das teses que eventualmente precise redigir.


sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Este homem

Um passante livre de preocupações e compromissos poderia ter visto esse homem em sua glória, sentado numa mesa de um espaço de alimentação, tomando café e saboreando um pão na chapa com toda a autoridade de sua fome. Provavelmente, não concentraria o olhar. Se concentrasse, talvez pudesse se perguntar sobre as vestes despojadas, o chinelo de dedo, os olhos pensativos e os cabelos bagunçados que singularizam a figura observada. Talvez atribuísse mentalmente alguns estereótipos a esse homem: um trabalhador desempregado? Um homem com a cabeça na lua? Um intelectual arrogante? Um rapaz desleixado e sem ambições? 
Esse homem continuará saboreando a delícia de um pão na chapa. Mil tentativas talvez não fossem suficientes para acertar o que ele é. Ele não se preocupa com isso, por certo, senão se vestiria de outra forma, e teria uma postura mais vigiada e tensa. Mas se não fosse possível saber quem ele é, talvez o curioso passante pudesse tentar descobrir o que se passa na cabeça de alguém assim. O que está rolando lá dentro daquela cachola: canções? Poemas? Obrigações? Acertos? Erros? Planos?
O pobre passante teria, agora, ainda menos chance. Sim, muitas coisas fluem por aquele mundo de ideias, mas pouquíssimas podem se fixar nesse momento. São quarenta anos de tudo o que a vida poderia oferecer a alguém. E, nesse fluxo interminável, muitas imagens vêm e vão, e algumas conseguem se estabelecer por um pouquinho mais de tempo dentro dos olhos que pairam fixos, como que olhando para uma projeção vinda do profundo do peito.
Foram sins e nãos. Direitos e deveres. Acertos e erros. Falas e emudecimentos. Ímpetos e raciocínios. Risos e choros. Aproximações e distanciamentos. Medos e ousadias. Incertezas e convicções. Pessoas o aconselharam bem, pessoas o aconselharam mal. Pessoas o quiseram bem, pessoas ele quis bem. Houve música, muita. Poesia, muita. Houve livros, discos, materiais de estudos. Muitas pessoas o ouviram, e ele nem sabe o que elas pensam. Ele ouviu muitas pessoas, e às vezes também não sabe o que elas pensam. Foram coisas bem feitas e coisas mal feitas. Muita coisa sem terminar. Muita coisa por dizer, muita coisa por fazer, muita coisa por criar. Graças a Deus.
No meio disso tudo, de todo esse turbilhão de fatos e feitos, foram muitos anos se tornando professor e se mantendo aluno. Muitos outros aprendendo a não ter medo de cantar e escrever. Muitos ainda descobrindo o que o coração dizia sobre o amor, e tentando traduzir em ações efetivas. Os rótulos, afinal, podem colar: professor, cancionista, cabeludo, rockeiro, poeta, desencanado, descolado, hippie, esquerdista, nem aí, místico, coração mole etc. etc. etc. Nada definiria com precisão.
Talvez seja melhor ficar com a imagem, e só com a imagem, que o passante curioso pode captar na totalidade: esse homem sentado na mesa de um espaço de alimentação toma café e come um pão na chapa em estado de glória. Sim, glória.
Ele, depois de quarenta anos, sabe que seu caráter não deve nada à sua consciência.


ESTE homem de quarenta anos nada deve à própria consciência. O resto é resto.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A "certeza" do bem e do mal e o medo que tenho do que vem por aí


Vez por outra, apareço por aqui para tentar elucidar, por meio da escrita, sentimentos que me incomodam. Não é sempre que consigo, e acredito que desta vez não conseguirei. Hoje, gostaria de escrever sobre o radicalismo e a desumanidade.
Convido a você, leitor, que traga à sua mente as pessoas de seu dia a dia de que você consegue agora se lembrar. Com certeza, são muitas, por muitas razões. Se você fizer um esforço de cinco minutos anotando em uma folha de papel, entre as pessoas de seu convívio, poderia listar mais de uma centena. 
Pois bem, imaginemos que você tivesse agora a tarefa de pegar uma outra folha e fazer da forma mais simples possível um risco no meio, dividindo-a em duas partes. Imaginemos que você escrevesse no alto de uma das partes a expressão "pessoas totalmente boas" e no alto de outra das partes a expressão "pessoas realmente más". Agora, imaginemos que você tivesse a incumbência de passar os nomes listados para a parte correspondente.
Nem é preciso tentar fazer isso para perceber, imediatamente, que você não conseguiria enquadrar a grande maioria das pessoas em algum dos lados. Você teria dúvidas, você teria questionamentos, você compararia a ação dessas pessoas às suas ações. Mesmo que as etiquetas da divisão fossem apenas "pessoas boas" e "pessoas más", você não conseguiria, por mais rígidos que fossem seus princípios e mais convictos que fossem seus julgamentos, empreender essa separação.
Ora, se isso acontece com pessoas, isso também acontece com valores, com ideias, com instituições, com grupos, com partidos, com ideologias, com obras de arte, com gostos, com personalidades, com referências. Você jamais conseguirá traçar, de maneira imediata e convicta e sem reparos ou injustiças uma lista perfeitamente fidedigna do que você considera bom ou mau em nenhum setor da civilização, em nenhum âmbito da vida. 
Óbvio? 
Parece que não.
Os tempos são estranhos nesse sentido. A facilidade com que as pessoas determinam o bem e o mal é assustadora. A facilidade com que encontram justificativas para suas questionáveis valorações é assustadora. A facilidade com que simplesmente ignoram os questionamentos ao seu simplismo primário tanto de raciocínio quanto de postura diante do mundo é assustadora.
O mundo parece a certas pessoas tão claramente dividido entre bem e mal que se torna impossível a compreensão de que há outros valores envolvidos nas relações entre os homens, como o certo e o errado, o justo e o injusto, o belo e o feio, o necessário e o desnecessário, o relevante e o irrelevante.
Exemplo: eu praticamente calei meu Face com a prática de retirar da lista de atualizações os perfis que reproduzissem memes degradantes, desumanos, insensíveis em relação ao próximo. Sobrou muito pouca gente. Mas minha saúde mental melhorou muito. É insuportável receber mensagens agressivas contra políticos, celebridades, indivíduos que por alguma razão foram parar na mídia, todo dia, toda hora, sem nada a acrescentar nem uma palavra que remeta à reflexão ou que mobilize para alguma coisa mais dignificante. É horrível gente brincando com a possibilidade de morte de uma pessoa. É horrível gente apontando para defeitos físicos de seus desafetos. É horrível gente alarmando gente com informações não verificadas. É assustador o grau de irresponsabilidade que as pessoas demonstram com os seres humanos com os quais travam contato.
Mas o Face é só um reflexo da face real das pessoas. Isso é mais assustador.
As pessoas realmente acreditam que Deus é evidente e o Diabo também é evidente. 
É incrível como o fundamentalismo encontrou terreno na nossa cultura, sempre tão reconhecida pela diversidade, pela miscigenação, pela mescla. Sim, eu sei, ele sempre esteve lá, no preconceito, na segregação, na violência. Mas como ele conseguiu essa complacência coletiva, esse estatuto de normalidade, depois de tantos anos, e num contexto de ampliação do acesso à informação?
As pessoas podem gostar, por exemplo, de um clube de coração. Isso não lhes dá o direito de agredir, humilhar, ou denegrir indivíduos ligados a um clube adversário. As pessoas podem ter convicção de uma ideologia. Isso não lhes dá o direito de demonizar a ideologia adversária ou distorcer suas propostas. As pessoas podem não gostar dos tucanos ou dos petistas. Isso passa muito longe de frases de efeito cretinas e estúpidas como "todo petista é vagabundo" ou "todo tucano é canalha", ou qualquer predefinição medíocre da grandeza de um ser humano. Às vezes, as pessoas agem como se os outros tivessem obrigação de pensar o que elas pensam ou de agir como elas agem. Pior: agem como se os outros, os diferentes, fossem um obstáculo a ser superado, um erro na marcha do progresso, ou algo parecido. 
Não se pode conceber que um indivíduo seja desumanizado, reduzido em sua condição de dignidade, porque tenho diferenças legítimas de valores com ele. 
Nós, professores, sabemos que vamos ministrar aulas a pessoas com todo o tipo de formação, e zelamos pelos conteúdos que ministraremos. Assim, se a ciência histórica se desenvolveu a partir de uma visão que envolve pensadores de esquerda, temos a obrigação de considerar esses desenvolvimentos. Se a Biologia, em seus desenvolvimentos, apontou para a seleção natural como solução para explicar nossa ancestralidade, temos o dever de apresentar essa teoria. Se Freud percebeu que grande parte de nossas ações conscientes está pautada em informações mentais a que muitas vezes não temos acesso imediato, temos o dever de trazer isso à baila. Esse zelo é respeito pelo aluno. Que nos ofenderá, talvez, por acreditar que Marx é um monstro, que Darwin era ateu ou que Freud era tarado. Mas que, nem por isso, deixará de receber, de nossa parte, tratamento digno de quem merece o que a ciência pôde produzir de melhor.
Eu não aceitaria que um professor fosse humilhado por falar da teoria da evolução, em nenhuma circunstância, nem mesmo por convicções de grupos contrários.
Assim como seria inaceitável que um policial fosse agredido por proteger um criminoso de ser linchado em praça pública. Ou, inversamente, se um policial fosse aplaudido por abusos praticados contra um indivíduo já preso, já apto a ser submetido a um julgamento legal;
Assim como seria inaceitável e desumanizante que uma pessoa fosse ofendida, agredida ou abusada pelas roupas que usa ou deixa de usar.
Assim como seria inaceitável e desumanizante e monstruoso que um ser humano fosse espancado por sua aparente orientação sexual (que, sendo um fenômeno íntimo e particular dos seres humanos, não precisa estar necessariamente atrelada a quaisquer estereótipos sociais consolidados).
Assim como é inaceitável que um profissional, na honrada atitude de deslocar-se geograficamente para exercer sua profissão, seja hostilizado por sua origem geográfica ou suposta vinculação ideológica. Seja ele um nordestino querendo construir um comércio em São Paulo, um turco procurando serviço na Alemanha, um trabalhador juntando dinheiro em condições subumanas na metrópole para sustentar sua paupérrima família na Bolívia, um eletricista brasileiro tentando a vida em Londres a despeito das desconfianças de uma polícia truculenta, ou um médico cubano que tenha vindo prestar seus serviços no Brasil.
Todos esses são seres humanos.
Nossas convicções de bem e mal não estão acima da humanidade dessas pessoas.

É isso.

Não, não é só isso.

Estou com um medo danado do que vejo por aí, e do que virá. Se essa loucura toda for uma tendência, e recebo sinais de que talvez seja, as consequências devem ser tenebrosas. Até diria inimagináveis.



sábado, 11 de maio de 2013

Como perder minha consideração

Este texto não é aviso nem alerta para ninguém, e nem pedido, e nem afirmação positiva das minhas idiossincrasias. O sentido deste texto é lamentoso. Infelizmente, não tenho desenvolvida ao nível mais justo a capacidade de perdoar as pessoas, e muitas delas, em função disso, acabam enfrentando minha ira, o que é menos mal, e posteriormente o meu desinteresse, o que é lamentável, mas factual. 

Há coisas em mim relacionadas a complexos, carências e medos que pude perceber conforme aprendi que tenho de escolher o que melhorar, visto que não se pode ser bom em tudo, e às vezes convém lutar para ser bom em pelo menos alguma coisa. Assim, há situações com as quais simplesmente não sei lidar, provavelmente não aprenderei a fazê-lo e, sinceramente, não serão minhas prioridades para as próximas etapas da vida. Dou-as ao conhecimento dos que nutrem alguma simpatia ou carinho por mim. 

1 - Não suporto futilidade como opção de vida. 

Será muito difícil que eu mantenha uma amizade de longo tempo com alguém que não tenha, nem que seja em dose mínima, profundidade e interesse em temas reflexivos. Não adianta, não sei lidar com quem não tem problemas. Na verdade, talvez isso derive da minha crença de que todos temos problemas, só que temos a opção de mascará-los ou procurar crescer por meio deles. Se sinto que uma pessoa não tem nenhuma outra preocupação em sua vida a não ser obter mais prazer e alienação para ter de se sentir menos responsável pelo que é e pelo mundo em que vive, eu posso respeitá-la, mas dificilmente conseguirei conviver com ela. E isso, bem sei, é enorme fator de isolamento para mim. 

2 - Não aguento maldade. 

Todos temos nossos momentos de pequenez, mesquinhez, vileza, e isso não é de todo mau, porque nos faz ficar alerta para os perigos gerados por esses comportamentos. Há, entretanto, pessoas que têm enorme prazer na maldade, a ponto de protegê-la com mil justificativas toscas, ou mesmo camuflando-a. Não sei lidar com isso. Na verdade, morro de medo dessas pessoas, pois enfrentá-las exigiria de mim certa dose de agressividade que não é fácil liberar. Assim, não sou a criatura mais indicada para o trato político, ou para o enfrentamento de pessoas claramente mal intencionadas. Isso me torna em grande medida covarde diante de injustiças, mas não menos indignado. 

3 - Não gosto de ser menosprezado ou ridicularizado ostensivamente. 

Parece uma coisa óbvia, mas para mim é mais complicado que para as outras pessoas. Dizem que quem tem alma de artista é carente por natureza e demanda ser querido por todos. Tenho um pouco disso, mas tenho também uma forte aversão a quem tira sarro da minha cara ou me despreza ostensivamente. E essa última palavra é importante. Porque uma brincadeira irônica ou uma crítica bem colocada e utilizada para expressar uma preocupação são normalmente bem-vindas (nem sempre, confesso). Mas um discurso agressivo com a finalidade de diminuir o que sou, é intragável, por mais sutil que queira soar. E tanto mais intragável quanto mais demandar o contexto de um público igualmente venenoso. Quer me criticar? Fale comigo primeiro, e com jeito. Não me humilhe diante dos outros, porque isso não me ajuda em nada.
Dentro deste tópico, deve incluir também as situações em que pessoas humilham outras pessoas com a simples preocupação de parecerem melhores ou mais inteligentes ou qualquer porcaria do tipo. Mesmo que essas situações não aconteçam comigo, eu as tomo como pessoais, e fico decepcionado com quem agiu dessa forma. Lembro bem de uma pessoa que me contou, há muito tempo, que escrevia livros de autoajuda, e ganhava dinheiro com isso, mas considerava os que liam seus livros como "idiotas". Lembro claramente do riso de superioridade que sucedeu essa afirmação, o último de qualquer conversa que com ela tive.

4 - Não gosto de que me acusem de algo que não fiz 

Na verdade, não gosto que me acusem de nada, mesmo do que eu tenha feito realmente. Mas em relação ao que não fiz, é ainda pior. Se a pessoa age assim por ignorância, tendo a me afastar dela até que outras atitudes revelem que ela se arrependeu ou reconheceu o erro. Se ela me acusa de forma falaciosa intencionalmente, nesse caso afasto-me em definitivo dela, e não há volta: ela perde tudo o que construiu comigo. Sim, sei, preciso ser menos radical, mas é como acontece comigo, infelizmente. 

5 - Não gosto de que critiquem meu corpo 

Tive grandes dificuldades na vida para me aceitar do jeito que sou, e houve fases em que não tive condições físicas, financeiras e materiais de zelar por minha aparência tanto quanto deveria. Numa sociedade baseada em imagem, isso acaba sendo pior do que bater na própria mãe. Tenho por princípio falar apenas do que vejo de belo nas pessoas, porque sei que o mundo as cobra demais nesse sentido. E porque sei que há muitos tipos de beleza que não são valorizados, e são justamente os que singularizam as pessoas no que elas têm de melhor. Acabou se transformando, para mim, em índice do nível de idiotice de uma pessoa a tendência que ela apresenta por medir as outras em padrões que são os dela (e que, diga-se de passagem, ela mesma via de regra não sustenta). Quer perder pontos comigo? Fale da minha barriga, da cor da minha pele, do bagunçado dos meus cabelos, das imperfeições do meu rosto, das minhas olheiras. Não gosto disso, nem de brincadeira, e não faço com ninguém. Constrangi muitas pessoas por causa dessa postura, mas ainda sou inseguro, e creio que isso não mudará tão rápido. 


Enfim, são esses meus limites de tolerância para pessoas à minha volta. Quero finalizar dizendo que muitas vezes eu mesmo faço com os outros o que não suporto que seja feito comigo, e fico muito desgostoso quando percebo isso. Mas fico feliz de saber que as pessoas são mais fortes e seguras do que eu, porque elas me perdoam em situações nas quais eu não consigo, ainda, perdoar quem me magoou. É parte do meu aprendizado na vida observar como elas conseguem fazer isso, e tentar fazer da mesma forma, tanto quanto possível.

sábado, 27 de abril de 2013

Outro tempo

Cá estou, escrevendo sobre sentimentos e experiências, como faço desde a adolescência. E fazendo isso, como sempre fiz, dentro do meu tempo, que teimo em tentar controlar.
Meu computador foi o mesmo durante pelo menos seis anos, e só recentemente comprei um modelo um pouco mais atual. Mas a minha impressora tem pelo menos oito anos. Na estante da sala, há livros de quando comecei a faculdade, outros que comprei para meus estudos e muitos referentes a assuntos com os quais já não trabalho. Foi também bem recentemente que resolvi trocar o aparelho de televisão por um digital, sem tubo; ainda não me acostumei com todas as vantagens da imagem mais nítida e perfeita. Meu celular é o melhor modelo que eu poderia conseguir gratuitamente com a minha operadora e, portanto, é uma porcaria tecnológica: não faz quase nada além de atender as chamadas (quando não falha nisso também). Eu só o troquei, há alguns anos, porque meu celular anterior pifou, e descobri que era possível pegar outro sem pagar, ou pagando uma taxa simbólica.  Meu aparelho de telefone fixo, por sua vez, é primitivo e não tem integração com nenhum dos meus outros aparelhos em casa. 
Eu poderia ter lançado meu livro, ano passado, em versão digital, para download. Preferi a forma tradicional impressa, encapada, com orelhas e possibilidade de entregar com dedicatória. Ainda não consumo muitos livros digitais, pois não gosto de ler nada na tela do computador. Durante muito tempo tive enormes desconfianças das compras pela internet, mas sinto-me mais seguro atualmente. Quanto a transações bancárias, ainda tomo cuidados paranoicos de vez em quando. Eu não sigo ninguém no Twitter de verdade, porque não gosto do Twitter, e não consigo acompanhar a vida real de ninguém sem ficar entendiado. Mesmo depois de dez anos de exibição, continuo detestando o Big Brother e os programas do gênero. Abandonei o orkut porque as pessoas migraram para o Facebook, mas penso que o Facebook é menos aberto ao debate de temas relevantes que o orkut. Não assino nenhuma petição online de nada e não acredito em nada que me mandam sem examinar por pelo menos uns dez dias. 
Tudo isso poderia ser resumido em uma constatação maldosa: estou envelhecendo e não consigo me adaptar às mudanças cotidianas da sociedade e da tecnologia. Repare que usei a palavra poderia. Condicional. E usei porque penso, sinceramente, que não é essa a questão. 
Pois, com todas essas resistências que citei acima, ainda consigo gerenciar cursos online, produzi-los, trabalhar dentro de sua plataforma. Consigo trabalhar com programas relativamente complicados para o usuário leigo não programador. Consigo entender a lógica de várias novidades em tecnologia, e visualizo sua utilidade. Não sou inimigo das mudanças.
O que ocorre é que vivo em outro tempo em relação às pessoas. Sempre vivi, desde quando os meninos iam aos bailinhos pegar menininhas e eu preferia ficar em casa com meus livros e meus discos. Desde quando senti o deslumbramento de entender uma aula bem ministrada e a diferença que isso fazia na minha vida, e que isso praticamente destruía o sentido de todos os outros microprazeres. Desde quando descobri que não tinha a menor vocação de acompanhar as modas e os padrões de comportamento vigentes e que não me sentia pior por isso (talvez solitário e desconfortável, mas nunca pior que ninguém). Essa insistência de falar do que ninguém está falando e não falar do que todo mundo está falando deixa as pessoas de fora do tempo presente, sancionado coletivamente, e sei disso desde o primeiro sorriso de deboche que enfrentei em rodinhas de garotos.
Como não acredito em progresso como linha contínua, não faz sentido dizer que estive e estou deliberadamente atrasado, ou arrogantemente adiantado em relação à média dos meus contemporâneos. Não é assim. Quando digo que vivo em outro tempo, não creio que seja em relação à noção de "atualidade" como sendo o tempo absoluto de tudo, que todos devem assimilar. Entendo que o ritmo com que experimento o mundo não é o ritmo com que o mundo me oferece experiências. E gosto disso, e não quero mudar.
Não li, por exemplo, os "Cinquenta tons de cinza". Não li, vi muita gente lendo e comentando, mas continuei desinteressado. Se lesse, teria assunto com mais pessoas. Postaria comentários sobre o livro e teria mais acessos em meus blogues. Pareceria atualizado com o mercado editorial. Mas nenhuma dessas possibilidades condiz com meus valores mais profundos.
Em lugar de ler esse livro que todos estão lendo, resolvi retornar a algumas releituras: os primeiros livros da Bíblia, os Analectos de Confúcio, Alice. Talvez você argumente que tenho algum tipo de fechamento em relação ao novo. Na verdade, o que tenho é uma reverência fiel às obras de arte que considero profundas e aos produtos da cultura e da história que me fascinam. É mais fácil para mim rever Psicose pela enésima vez que arriscar um Brinquedo Assassino 5 ou 6 só para ver do que se trata. Esse é meu tempo: Alice nunca se esgotou para mim, é sempre um prazer retornar a esse livro. Relê-lo é mais produtivo e satisfatório que ler uma obra mais recente e mais superficial.
Minha relação com as coisas funciona dessa forma que exemplifiquei. Eu não quero o novo pela embalagem de novo, eu quero o novo pela força de sua relevância. Fui um dos primeiros a baixar, ouvir e comentar o In rainbows, do Radiohead. Porque era novidade? Não. Se fosse desinteressante, fraco, sem graça, seria uma audição e nada mais. Mas ouço esse álbum até hoje, e percebo nele sempre uma coisinha a mais que não havia percebido antes. É esse tipo de novidade que me satisfaz: a que se dá a partir do aprofundamento das experiências.
Em relação às maravilhas da internet, das redes sociais, e da informática em geral, só faço questão daquilo que considero útil. O resto, sei que existe, e está bom. Twitter não serve pra mim? Prefiro o Face para divulgar minhas coisas? Sem problemas, ficamos no Face. Celulares de última geração acessam milhões de coisas extraordinárias. Preciso delas no momento? Sim? Não? Isso define minha necessidade do aparelho. 
Ser desatualizado tecnologicamente não significa, de forma alguma, ser alienado. Você pode passar o dia inteiro conectado aos conteúdos veiculados por seu celular e continuar sem saber nada de política, de ética, de economia, de ciência. Eu não sei nada de um monte de disciplinas. Mas minha opção, parte consciente, parte espontânea, é pelo aprofundamento, pela seleção, pela triagem. Então, demoro mais em tudo: sei das coisas depois, aprendo a manusear depois, incorporo no meu cotidiano depois. No entanto, via de regra, sei das coisas que valem saber, aprendo a manusear melhor, e deixo minhas energias para experenciar o que posso consumir, e não o que me consome. Prefiro adaptar a tecnologia a meu modo de vida que adaptar meu modo de vida à tecnologia.
Há muitos mais como eu. Que preferem filmes antigos. Que reveem os mesmos filmes várias vezes. Que curtem bandas que não existem mais. Que persistem e propagam ideias consideradas ultrapassadas. Que mergulham em obras até o limite da compreensão possível. Que retornam ao mesmo, enquanto o trem da história segue seu rumo em ritmo inadiável. 
Como eles, eu desci na estação que me convém. O mundo é redondo, o trem vai ter de voltar um dia. Quero estar preparado.