sábado, 10 de outubro de 2009

ENEMigos da própria intenção crítica

Rolou uma manifestação na Paulista esses dias, em que estudantes protestaram contra o adiamento do ENEM. Eles aproveitaram para protestar também contra o Sarney no Senado e a corrupção, e colocaram como lema da grita que fizeram a frase "Somos ENEMigos da corrupção". O jogo de palavras foi infeliz, na minha opinião. A palavra inventada "ENEMigo", que indica oposição a "corrupção", contém a sigla "ENEM". Mas na pauta de reclamações da garotada, "ENEM" está no mesmo grupo de ideias de "corrupção", ou seja, algo a ser questionado. O "inimigo" está no campo positivo, mas o "ENEM" (ou seu adiamento) está no campo negativo, e há uma fusão de ambos numa única palavra. Essa ambiguidade enfraquece o efeito contestador da brincadeira.
Do ponto de vista político, também achei a manifestação infeliz, não pela pertinência das reclamações em si, mas porque deu a impressão de não ter foco, nem objetivo definido, nem sequer uma reivindicação central. Protestar contra Sarney é legítimo, assim como reclamar do adiamento do ENEM. Tentar sintetizar as duas coisas num protesto único, entretanto, é inadequado. O vazamento do ENEM não é um problema de corrupção, nem de nepotismo, nem de picaretagem governamental. Também não se trata de um problema relacionado à linha ideológica de atuação, pois, se é certo que o governo apoiou Sarney no Congresso, não seria lúcido dizer que apoiou o roubo da prova do ENEM. Com um pouco de esforço, poderíamos achar que ambas as críticas visam mostrar a incompetência do governo atual, que não consegue acabar com a corrupção nem fazer o ENEM na data certa. Ainda assim haveria dois problemas: o de mostrar que as duas questões têm importância equivalente e grau, no mínimo, semelhante de responsabilidade por parte da administração federal, e o de dispor de um discurso em que se costurassem essas críticas isoladas a um quadro de erros e trapalhadas grande o suficiente para um veredito negativo justificável. A meu ver, não é possível, porque o caso do Sarney é muito mais grave e complicado que o vazamento do ENEM, e porque a responsabilidade do governo no roubo das provas não é a de conivência ou de aceitação. E ainda mais: como é duvidoso acenar para uma incompetência generalizada do governo federal, visto que a economia caminha bem e há no mínimo tantos acertos quanto erros na atuação da equipe de gestão, a manifestação acaba ficando vazia, uma espécie de "Cansei 2", em que o discurso não fere ninguém porque não sabe quem quer atingir, e em que não há noção de algo palpável a ser reivindicado ou negociado, mas apenas um sentimento difuso de indisposição contra tudo que vem do Planalto.
Mas não foi isso o que mais me impressionou.
O que me deixou boquiaberto foi o fato de que essa manifestação mereceu um link de destaque no Yahoo e no Terra no dia em que aconteceu. (O Yahoo e o Terra alimentam-se de notícias do Estadão, é bom salientar). E essa manifestação, que mereceu destaque no Yahoo e no Terra e uma reportagem no Estadão, reuniu... 100 estudantes. Menos pessoas que em uma reunião de pais na escola em que trabalho. Menos estudantes que os que assistem minhas aulas na faculdade semanalmente. O equivalente a oito ou dez grupos de RPGistas, ou a um festival de música alternativa sem público. Um décimo do meu perfil no Orkut.
Eu não entendo o critério editorial do jornal e dos portais. Quando, afinal, se deve considerar uma manifestação como noticiável? Tenho certeza de que qualquer ato de bancários ou trabalhadores dos correios tem muito mais importância política e impacto na vida das pessoas do que esse dos estudantes, sem contar o fato óbvio de que junta muito mais gente. A escolha da mídia, nesse caso, me passa a mesma sensação de vazio que citei acima: atribui-se importância e oferece-se repercussão a tudo o que questiona o governo atual, independente da consistência ideológica ou da representatividade política quantitativamente verificável da manifestação. E isso não funciona.

Não achei mais o link do Yahoo. O do Terra é este aqui.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Nei

Meu tio Nei (cujo verdadeiro nome é Francisco), entre outros talentos que possui, é capaz de emitir o som mais agudo, incômodo e desesperadamente horroroso que uma voz humana já pôde emitir: a sua imitação de galo. Em momentos em que quer chamar a atenção, ele solta um cacarejar que assusta, dói nos ouvidos de tão alto e deixa a gente fora de si de raiva. E ele atinge seu objetivo plenamente, pois, depois de tomar uma bronca daquelas, sai rindo, satisfeito.
Meu tio Nei também é conhecido por ser fã inveterado de café, chegando a fazer pequenos serviços em bares e restaurantes - geralmente a varredura do chão - para ganhar uma xicarazinha da bebida. Em casa, sempre bebeu café de forma frenética, chegando a secar garrafas inteiras, se permitíssemos ou ficássemos de bobeira. Talvez isso ajude a explicar um pouco de seu comportamento insone: durante alguns anos, ele se distraía na madrugada, na varanda da casa de meus tios, tocando gaita por horas a fio (na verdade, assoprando e puxando a mesma nota durante boa parte desse tempo).
O Nei também é conhecido por sua atração por mulheres bonitas. Quando alguma delas aparece para visitar minha família, ele não a deixa em paz, e quer constantemente cumprimentá-la com apertos de mão e beijos no rosto. É sabido por nós que, de vez em quando, mas não na nossa frente, nem com nossas amigas, ele oferece dinheiro a alguma mulher para, digamos, ter uma liberdade maior de aproximação. Falta-lhe, evidentemente, noção do risco, e às vezes ele se dá muito mal, outras muito bem. Às vezes, também, excede o comportamento cavaleiresco que geralmente tem, e é devidamente repreendido por seus familiares. Mas, no geral, consegue ser, a despeito de algumas inconveniências, muito mais agradável que a maioria dos homens que conhecemos.
Caminhando pelo bairro em busca de novidades, o Nei é uma das figurinhas carimbadas do Jardim Triana. Não há quem não o conheça, quem não brinque com ele, quem ele não cumprimente. Ele vai de padaria a padaria, de casa a casa, de praça a praça, gesticulando e articulando sons às vezes inteligíveis, às vezes só decodificados por quem já o conhece bem. Nesse sentido, cabe dizer que meu tio é, sem dúvida, o ser mais comunicativo da família inteira, a despeito de suas limitações.
Nós, da terceira geração a partir de seu Otávio, crescemos aprendenddo a respeitar o Nei e a gostar dele com todas as suas peculiaridades. Quando crianças, frequentemente perguntávamos aos adultos porque ele era daquele jeito, diferente. E precisamos nos tornar adultos também para compreender que o Nei teve, desde a infância, problemas físicos, como uma quase surdez dos dois ouvidos, e mentais, com atrasos evidentes, que se tornaram mais problemáticos depois de estadia de anos no Hospital Psiquiátrico de Franco da Rocha, no qual era tratado com grande desprezo, chegando a desaprender as regras mínimas de convivência civilizada. Foi minha mãe que resolveu trazê-lo de volta e bancou seu retorno ao convívio com a família, que não foi fácil e trouxe, sem dúvida, uma série de complicações e responsabilidades adicionais para todos nós.
Entretanto, de nada podemos reclamar. O tempo nos ensinou a amá-lo e a tolerar, respeitar e até admitir algumas das esquisitices que nos incomodavam.
Um dia, quando eu era criança, eu lia uma revista da Superinteressante, que fazia parte de uma coleção que vinha fazendo. Saí da sala por alguns instantes para comer algo na cozinha. Voltando, vi o Nei folheando a revista. Entrei num estado de grande agitação e agonia, pois sabia que o interesse dele nos materiais impressos passava muitas vezes por rasgar páginas para guardar figuras que lhe interessassem. Argumentei e tentei mostrar de várias formas que a revista era minha e que ele tinha de devolvê-la, mas foi em vão. Sem saber o que fazer, voltei para a cozinha, sentei, coloquei o rosto por entre as mãos e comecei a chorar, menos pela revista em si e mais pela sensação de fracasso em conseguir me comunicar com ele, o que se configurava para mim, naquele momento, um problema permanente. Dali a alguns minutos, ele tocou no meu ombro. Devolveu a revista, deu um beijo no meu cucuruto e sinalizou, com os braços, que aquilo tinha acabado e que eu não chorasse, porque ele não ia fazer nada com as folhas. Fiquei muito agradecido. E fiquei impressionado com a compaixão que ele tivera por meu choro, porque, muitas vezes, eu não tivera sentimento semelhante para com meus irmãos, primos e amiguinhos. Creio que fiquei positivamente impressionado com a compreensão que ele teve da linguagem das emoções. Foi uma lição de vida.
Tio Nei foi definido uma vez por um amigo do meu pai como "um excepcional feliz". Creio que sua convivência com a família trouxe-lhe a condição de se humanizar, tanto nas virtudes quanto nos defeitos. A verdade é que gostamos dele como um irmão mais velho de todos, que precisa de ajuda, conselho, carinho, apoio e, principalmente, compreensão. Penso que ele contou, de nossa parte, e na medida do possível, com um esforço sincero de oferecer essas condições mínimas para uma vida digna no decorrer dos anos. E ofereceu-nos a oportunidade de amar um bom ser humano e aprender a conhecer seu mundo diferente, tornando-nos mais inteligentes e acolhedores.

sábado, 3 de outubro de 2009

A intervenção cirúrgica no HU - parte 2

Quando comecei a escrever esta história, o companheiro de equipe do Massa para 2010 ainda era o Kimi, para vocês terem uma ideia... Mas vamos nessa. Antes tarde do que nunca.
Aconteceu que, na data prevista, fui encaminhado ao hospital no dia da cirurgia, despido, medido, analisado, rapado na axila (porque nenhum pelo podia ficar lá de bobeira). Doutor Dino acompanhou todo o procedimento até alguns minutos antes da anestesia. O fato é que, para me tranquilizar, ele garantiu que daria tudo certo, que era uma operação com poucos riscos. Mas alertou, sem alterar o semblante:
- O máximo que pode acontecer de errado é voce perder os movimentos do braço esquerdo, e ter de fazer uma fisioterapia.
Jesus Cristo, eu tremi na base! Nossa, saber desse risco alguns minutos antes de operar me fez suar frio. Como eu ia tocar violão? Eu ia ficar torto? Eu não conseguiria mais me mexer direito? Deu vontade de chorar. Mas eu corria risco de vida, não podia voltar atrás. Hoje entendo muito bem porque isso foi dito só naquele momento. Doutor Dino fez bem: se havia risco, era melhor só me preocupar com isso quando não houvesse nenhuma possibilidade de desistir. Eu teria de conviver com a dúvida por alguns minutos apenas; depois, fecharia os olhos para apenas abri-los quando já não houvesse dúvida.
A descrição acima parece referir-se à vida depois da morte. Intencional. Aquelas horas de cirurgia, aqueles momentos na mesa de operação, foram para mim um apagão total. Não lembro de ter visto, nem ouvido, nem sequer sonhado nada. O sentimento mais próximo da morte que já vivenciei.
Abri os olhos dentro de uma sala escura, com um aparelho ligado ao meu peito e um bipe constante na tela. No outro leito, um sujeito urrava de dor desesperadamente. Eu fui recobrando a consciência aos poucos. Estava todo costurado, cheio de agulhas enfiadas pelo corpo, e com uma máscara no meu rosto. "Penso, logo existo", passou pela minha cabeça, "acho que deu certo". E foi então que recordei das palavras do Doutor Altmann antes da cirurgia, sobre os movimentos do braço. Subiu uma agonia na minha garganta, e sem pensar se podia ou devia fazer aquilo, tentei mover o ombro esquerdo cheio de costuras e curativos e quase que imobilizado de tanta parafernália sobre ele. Ergui só um pouquinho. O suficiente para me considerar o sujeito mais feliz da face da terra. Tinha dado realmente tudo certo. Em breve, eu estaria pronto para a próxima, sem perder nenhum movimento do corpo. A sensação de pensar isso, naquele momento, era a de descobrir que se não morreu, ou o mais perto disso que já cheguei.
Tive de ficar ainda uns dias de recuperação. Manhoso, mimado e exagerado, sei que dei trabalho às enfermeiras, às quais peço desculpas publicamente agora, mesmo que nem lembrem de mim nem nunca leiam este blog. A cena mais terrível que protagonizei foi minha enjoada e contínua reclamação de dor de barriga no primeiro dia pós-operação. Toquei tantas vezes a campainha em cima da cabeceira que devo ter deixado a moça de mau humor. Quando ela veio, disse que minha barriga doía. Ela se prontificou a resolver meu problema. Dali a pouco, voltou com uma injeção de Voltarem, que lascou no meu bumbum. A aplicação da injeção doeu três vezes mais que a dor na minha barriga. Em verdade, devo dizer que até esqueci a dor de barriga, porque a dor no meu traseiro ficou incomodando por algumas horas. Tanto que, um pouco mais tarde, quando a enfermeira voltou com a segunda dose de Voltarem, eu fiz um esforço de sorriso para dizer:
- Não precisa, minha barriga não está doendo mais.
Graças a Deus ela acreditou em mim. E, por incrível que pareça, durante todo esse processo que aqui descrevi, foram essas as duas únicas dores que senti. O ombro, mesmo, nunca doeu, nem quando estava inchado, nem durante, nem depois da operação.
Por desleixo meu e falta de orientação adequada, acabei tendo problemas com o dreno e a cicatrização, o que acarretou o desenvolvimento de uma marca bem maior do que a prevista. Revi o Doutor Dino para refazer os pontos da cirurgia, tomei a bronca devida, voltei para casa, retirei o dreno depois de um tempo e nunca mais tive qualquer problema que fosse com o ombro.
Doutor Dino, a partir de então, ficou na minha memória como um benfeitor longínquo, e eu tinha até perdido alguns detalhes da fisionomia dele, quando, afortunadamente, vi que ele falava na televisão, a respeito do jogador Serginho, do São Caetano. O caso da morte do rapaz era bem triste, mas o ser humano pode sentir várias coisas ao mesmo tempo, e percebi certa alegria no meu coração em poder vê-lo atuando com a competência habitual. E, algum tempo depois, quando posso revê-lo cuidando de Felipe Massa, cedendo entrevistas à TV sobre o quadro de saúde do piloto, fico mais contente ainda, por perceber que o tempo coroou sua capacidade médica e seus méritos foram reconhecidos. Massa está em boas mãos. Agradeça esse homem por nós dois, Felipe, com suas vitórias e sua saúde exuberante nas pistas. Eu agradecerei com este texto e uma oração esta noite, com a mão direita sobre meu ombro esquerdo.

sábado, 1 de agosto de 2009

A intervenção cirúrgica no HU - parte 1

O que temos em comum Felipe Massa e eu?
Para quem nunca me viu, preciso adiantar que somos bem diferentes fisicamente. Financeiramente, a diferença é abissal. Além disso, não manjo nada de carros, quanto mais carros de corrida.Por outro lado, não me consta que o Felipe tenha querido alguma vez lecionar Literatura, nem que componha canções e faça poemas. Cada um na sua, não é?
Pois é, tudo isso é fato,mas... temos uma coisa em comum. Que descobri recentemente, em virtude desse infeliz acidente que ele sofreu (aliás, que azar que o Massa deu, né?). O médico particular do Felipe é, nada mais, nada menos, que o Doutor Dino Altmann. E quem é o Doutor Dino Altmann? É o grande responsável pela retirada de um higroma linfático no meu ombro esquerdo, no ano de 1996.
Nessa época, eu estudava Filosofia na USP, e ainda não tinha engrenado no curso. Desempregado, sem namorada e deprimido com minha autoimagem, resolvi praticar um pouco de musculação. Acontece que, aos 10 anos, eu tinha feito cirurgia para tirar água de uma bolha formada a partir de um vaso linfático rompido. Criança arteira, bati o ombro numa viga de madeira e vi surgir um calombo gigantesco na minha homoplata. Levado ao hospital, sofri uma cirurgia que esvaziou a bolsa, mas não a retirou. O resultado foi que, 12 anos mais tarde, a fricção do músculo provocou novo preenchimento daquele espaço vazio. Resumindo: meu ombro ficou inchado e torto.
Como tinha direito ao bom renomado Hospital da USP, o HU, marquei uma consulta para avaliar o caso. O médico que me atendeu disse que a deformação no ombro não era perigosa para minha saúde, sendo apenas acúmulo de líquido, e que eu poderia conviver com aquilo quanto tempo quisesse pela vida afora. Disse também que seria possível fazer uma cirurgia, cuja função seria meramente estética, e que isso seria decisão exclusiva minha.
Pensei, pensei, pensei... Ia ser tudo de graça. E eu não queria aquele troço no meu ombro. E, de mais a mais, aquilo não era normal mesmo, sabe-se lá que consequências teria posteriormente.
Resolvi fazer a cirurgia. E essa decisão teve o dedo de Deus, como se verá adiante.
Havia duas datas possíveis para ir para a mesa de operação: uma nas férias que se aproximavam, outra dali a seis meses. Resolvi fazer o quanto antes porque não tinha viagem nem atividade programada. Fizemos os primeiros exames. Tomografias, chapas de pulmão. E a cada exame realizado, a cara dos médicos me parecia mais fechada.
Eu não entendia bem o que estava acontecendo, mas sentia algo estranho no ar. Em determinado momento, depois de passar por distintas opiniões de especialistas de várias áreas, um dos médicos que cuidava do meu caso afirmou:
- Ainda bem que você decidiu operar agora. Terá de ser às pressas, seu quadro se agravou muito. Você tem um higroma já de 17cm, crescendo e achatando seu pulmão.
Quem já leu "Pneumotórax", do Bandeira, pode tentar recuperar o clima daquele poema quando aparecem as pausas e o tracejado antes da segunda parte para entender um pouquinho do que eu senti ao ouvir aquilo. Posso dizer, simplificando, que tomei um susto e fiquei sem ação. Não houve tempo nem de me preparar psicologicamente: na mesma semana, estava internado para procedimento de emergência. E recebendo todas as orientações e todo o acompanhamento do então médico do HU encarregado de realizá-la: por sorte, o Doutor Dino Altmann.

Continua...

domingo, 26 de julho de 2009

Todos choram na TV

Estive de cama estes últimos três dias. Em tempos de gripe suína, a gente não pode bobear. Com o corpo doendo, e problemas de respiração, me coloquei em estado de observação, até melhorar ou ir definitivamente ao médico. Nesse período de repouso, li uns livros, assisti a alguns filmes, mas, principalmente - coisa que só tem como acontecer nas férias - vi vários programas de televisão.
Fiquei incomodado com o fato de muitos dos programas que vi insistirem numa mesma fórmula apelativa: fazer chorar seus participantes. Na TV por assinatura, vi dois programas relacionados à aparência das pessoas, um chamado "10 anos mais jovem" e o outro "Esquadrão da moda". As meninas que protagonizaram esses programas queriam mudanças em seu visual, para parecerem mais belas ou mais sexys. São reality-shows interessantes, sem dúvida, cujos ápices são as transformações finais e o ganho de autoestima das participantes. Pergunto: nos dois casos, qual foi a reação que coroou essa mudança para melhor diante das câmeras? Resposta: o choro agradecido de ambas.
Além desses programas estrangeiros, vi os shows de auditório de Luciano Huck, Netinho de Paula, Silvio Santos, e outros de que não me lembro o nome. Em quase todos, há alguém despossuído, pobre ou desempregado solicitando algo, que lhe será dado em frente às câmeras - em troca de alguma apresentação, ou mesmo sem contrapartida - para que esse ser humano possa se sentir melhor de alguma forma. Novamente me chamou a atenção que o clímax dessa boa-vontade televisiva é, em 100% dos casos, o choro, mais ou menos contido, do beneficiado.
É impressionante o quanto o choro das pessoas comuns é explorado nos programas de televisão a que assistimos. Se é, na maioria dos casos, um choro de comoção pela conquista de algo, menos mal. Mas, depois de algumas horas na frente da tela, o telespectador fica com a impressão de que já viu aquela cena, e não poucas vezes. Será que a comoção não perde um pouco de seu efeito quando fica inserida numa lógica tão evidente, pouco criativa e previsível?
É curioso isso me incomodar, porque sou extremamente emotivo e choro com facilidade. Se o choro parece um recurso superexplorado até para alguém como eu, é porque tem havido, por certo, exagero. Creio que há outras manifestações da emoção humana tão transbordantes quanto as que tem sido exaustivamente exploradas pelos "shows da vida" que invadem nossas casas.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Três reflexões a partir de Barry Lyndon

Barry Lyndon é um belíssimo filme do diretor Stanley Kubrick, menos celebrado que O iluminado, 2001, e outras obras-primas, mas igualmente brilhante. Redmond Barry é o protagonista da história, que se passa na Europa do Antigo Regime, e mostra o percurso de um homem em sua tentativa de estabelecer-se social e financeiramente.
Com música e cenários primorosos, narra-se a pequena odisseia desse homem comum, suas aventuras, seus amores, seus desafetos, sua busca incessante de colocação. Não vou contar nada do enredo, isso é feio de fazer. Mas proponho três questões para discutir a atualidade da obra.
1) Kubrick trabalha o tempo todo com a ideia de que, para Barry, a inserção no mundo da elite europeia, ao qual aspira, depende de um esforço descomunal e de uma esperteza atenta aos vícios e concupiscências dos seus membros. Barry alcança estabilidade financeira porque se especializa no jogo de cartas e em seus truques, aproveitando-se do vício irrefreável de apostas comum a tantos nobres daquele tempo. Penso se não podemos traçar um paralelo entre esse comportamento e aquilo que vemos, por exemplo, em relação aos poderes paralelos da sociedade atual. Por exemplo, quando vemos traficantes e chefes de facções manipularem uma rede de influências que abarca advogados, juízes, policiais, deputados, empresários. Quando vemos, por exemplo, espertalhões que enriquecem com contrabando sendo chancelados, defendidos e até admirados pela alta sociedade, como no caso da Daslu. Pergunto-me se essa figura meio gatuna, meio bajuladora, meio bandida, uma espécie de penetra intocável, seria a resposta velhaca dos excluídos à hipocrisia vaidosa das elites, patente no descompasso entre o discurso de validação do poder e o violento processo histórico de consolidação dessa condição.
2) Kubrick, no finzinho do filme (isso posso contar porque não tem influência na história) coloca uma frase bonita, mais ou menos assim: "Bonitos ou feios, ricos ou pobres, bons ou maus, estes homens e mulheres aqui retratados são, hoje, todos iguais". Não sei se posso dizer que se trata da questão da morte como fator de nivelamento último dos homens. Acho que é mais que a morte: é a finitude da vida. Seja quem for, seja qual for a época em que viveu, cada ser humano é limitado por um tempo de estar no mundo, e um de seus maiores desafios é dar um sentido a essa limitação. A busca por esse sentido, que é diferente para cada indivíduo, é o que de certa forma o singulariza perante os outros. Mas, por outro lado, é também aquilo que ele tem mais evidentemente em comum com outros indivíduos, de outras épocas e lugares. Creio que, no fundo, quando nossas vidas forem olhadas da distância de séculos, pareceremos, em todas as nossas peculiaridades e escolhas, homens procurando algo, homens aprendendo a viver, homens descobrindo a si próprios. Será que essa é uma noção que não temos porque não olhamos nossas vidas de fora, nem de um tempo posterior, no qual já não estaríamos preocupados com o sentido imediato das coisas, e sim com o sentido que elas têm para o conjunto de nossa obra?
3) Barry, no filme, chega a cidades esvaziadas, onde encontra mulheres cujos maridos foram à guerra para retorno incerto. Com elas, tem relações passageiras, fugazes, desenganadas. O narrador diz que, para essas mulheres, foi necessário aprender a amar com certo despreendimento, para que pudessem tocar a vida sem a mágoa da perda (isto é uma paráfrase, mas o sentido é mais ou menos esse). Fiquei pensando se essa não seria uma reflexão sobre relacionamentos amorosos: se as formas de amar, ou aquilo que nós identificamos como amor, não dependem também, em grande medida, de nossas experiências históricas, de nossa cultura, das particularidades do tempo em que vivemos. Será que verdadeiramente compreendemos o modo de amar dos gregos, dos povos pré-colombianos, dos celtas? Se pensarmos que cada indivíduo tem uma história de vida a considerar: será que entendemos o que é o amor para outras pessoas? Se pensarmos que mesmo os conceitos têm uma história a considerar: será que isso que chamamos de amor é uma boa generalização para tantas formas diferentes de lidar com as paixões pelos outros?
Não cobro de Kubrick que essas questões sejam respondidas satisfatoriamente. Ele não precisa nem me dar pistas. Barry Lyndon tem tudo o que espero de um grande filme: ele me pede que eu reconsidere o que sou. Ele conversa com minhas inquietações.
Se você não viu, vale a pena.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Homens bonitos

Vivo numa geração em que problemas com a própria aparência são coisa tão universal que nem vale a pena falar deles. Como muitíssimos adolescentes hoje trintões, foi complicado para mim aceitar minha magreza (depois, meu peso excessivo), minha pele cheia de espinhas, minhas cicatrizes de operação no ombro, minha brancura. Eu não tinha problema com nada disso, na verdade, mas não sabia como lidar com as críticas que tocavam nesses pontos. Como muitos rapazes introvertidos sem olhar 43 que os salvassem, essas críticas me fizeram crer que eu não poderia ser atraente para as garotas, que, provavelmente, prefeririam os caras fortões, malhados, bem nutridos e bem vestidos.
Ocorre que os anos me fizeram descobrir que as coisas não são bem assim, que há muitas belezas possíveis para um indivíduo e - a mais encantadora das descobertas que fiz nesse sentido - que as mulheres em particular têm uma sensibilidade especial para identificar atrativos diferenciados nos homens.
Há um tempo atrás, li uma postagem do Idelber em que ele falava da beleza das mulheres de BH, comparada à aparência não destacável dos homens (na verdade, Idelber não cita esse aspecto, mas a tendência de eles serem desinteressantes no geral; eu já estive em BH, e fica por minha conta afirmar, pelo que vi, que, realmente, as mulheres de lá são muito mais atraentes que os homens, rsrs), e ressaltava que, nessa cidade, era muito comum ouvir a frase "mas o que essa mulher extraordinária está fazendo com esse zé-mané?". O texto era muito divertido, falava de homens e mulheres de várias partes do mundo. Mas, de tudo o que li, foi essa frase que me ficou na cabeça, talvez porque, no fundo, em algumas das situações por que passei, achei que ela pudesse se aplicar a mim...
Penso que essa sensibilidade diferenciada feminina que citei anteriormente faz com que a figura do homem-objeto sexual, fisicamente atraente, seja menos universalmente desejada que a da mulher-objeto sexual, com as mesmas características. Na academia que frequento, há muitos homens muito sarados, alguns com corpo totalmente trabalhado. É curioso notar que boa parte deles não faria nenhum sucesso com a maioria das mulheres do meu círculo de amizades. Qualidades como gentileza, bom gosto, erudição, delicadeza, têm muito mais condição de chamar a atenção dessas mulheres que um bíceps torneado. Sei que isso está longe de ser regra, mas percebo que há vários exemplos de homens que não são padrões de beleza mas são sempre citados como atraentes, em função de certos traços de suas imagens públicas que têm um apelo intenso, por vezes indefinível. Vou citar alguns, e vou tentar explicar o que vejo neles, que pode ser o que as mulheres veem também.
1) Ferreira Gullar. Esse homem, já na casa dos 70, é um grande poeta, um grande intelectual, mas ele tem um algo mais. Ele, falando, é muito envolvente, muito bonito. Ele deixa transbordar o sentimento do que fala. Lembro de ter ido a uma palestra que ele fez na USP. Em dado momento, ele disse que era, por sorte, casado com uma poetisa bem mais jovem do que ele. Não acho que seja sorte. Gullar encanta as pessoas com sua experiência de vida e a intensidade que emite. Talvez seja sorte dos dois. A verdade é que muitas pessoas concordam comigo nesse ponto: ele é um homem bonito, com seus longos cabelos brancos e seu rosto envelhecido, que parecem trazer ainda mais intensidade à sua figura.
2) Roger Federer. Outro dia vi Federer numa lista de homens mais elegantes do mundo. Em segundo lugar, mais precisamente. Não acho que ele seja nenhum modelo fotográfico. Se você vasculhar o tênis atual, vai descobrir corpos muito bem talhados, como o de Nadal, ou caras muito bonitos no geral, como Tommy Haas. Mas pergunte às fãs de tênis qual o tenista preferido. A resposta, aposto, será Federer. A chave desse sucesso está, acredito, no charme desse cara: ele é elegante jogando, falando, caminhando, atendendo fãs, chorando, fazendo o que quer que faça. É alguém que emana boas vibrações, que se mantém sempre sereno, que respeita os adversários e que tem uma postura absolutamente invejável para quem sofre a pressão do esporte de ponta. E é alguém que tem muito sucesso no que escolheu fazer, aspecto que, de forma alguma, pode ser considerado irrevelante. É alguém que tem elementos de sobre para ser admirado. E a admiração pode muito bem servir ao desejo, como sabemos.
3) Bono Vox. Bono tem traços de rosto superfortes, e creio que não teria tanto cartaz com as garotas se só o conhecêssemos pelas fotos. Mas Bono é extremamente carismático. É um tipão, inteligente, articulado, com um ar meio sério, meio irônico, meio misterioso. Quando ele sobre no palco, não há como desgrudar os olhos dele. Sem contar que se trata de um ser humano muito rico, cheio de ideias e boas intenções, e de um cara talentoso pra burro. Admito, ele sabe construir uma imagem bacana também, com um figurino sempre meio rebelde, e aparições constantes nos mais diversos eventos politicamente corretos. Eu acrescentaria uma outra coisa: acho que ele tem algo de intenso, de bruto, de explosivo, que também contribui para a construção de um aspecto másculo de sua personalidade.
Vou ficar com esses três exemplos, mas teria muitos outros. Em relação a estes, o que fica para mim é a noção de que, se as mulheres são, como dizem, misteriosas em seus desejos, talvez haja uma chance de homens que não são padrões de beleza terem alguma coisa mais intimamente deles e menos visivelmente de todos capaz de dialogar com esse mistério feminino.
Eu diria, assim, que a expressão que o Idelber citou como comum em BH é perfeitamente justificável em relação aos homens a que me referi. Se, para esses casos, eu ouvisse um: "Como pode aquela mulher com aquele cara?", teria como responder: "Pode, sim, meu amigo".
O machismo muitas vezes nos cega para a beleza dos outros homens, nas várias formas que ela pode tomar. Ter descoberto isso depois de adulto pode não ter sido tão grande vantagem no fim das contas, mas com certeza serve para orientar uma opção permanente pela autenticidade e pela confiança no próprio potencial, e para repensar essa paranóia coletiva da indústria do corpo perfeito.

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A Manu também leu a postagem do Idelber, e se manifestou aqui, como boa belorizontina que é. Obrigado, Manu. Seu comentário, aliás, me fez perceber que a parte final do texto, mais especificamente o vocativo "meu amigo", pode dar a entender que estou criticando o Idelber, como se ele subscrevesse o machismo a que me refiro adiante no texto. Só para não ficar parecendo outra coisa: o "meu amigo" é para o indivíduo que não se permite ver as belezas não padrão de outros homens. O Idelber, como fica bem claro na postagem, não é desse tipo, e não usa a expressão que destaquei no sentido que eu quis aproveitar aqui no blog. Para deixar isso mais evidente no texto, fiz umas alterações em azul, mantendo o original em negro, tanto quanto possível, e recuperando o que o Idelber escreveu com mais justiça e precisão.
Viva, Manu! Saúde e felicidade a minha querida amiga de BH!