domingo, 26 de fevereiro de 2012

Impressões do Oscar 2012


Vi toda a cerimônia do Oscar, de ponta a ponta. Aqui vai um breviário das coisas que senti.

Pré-festa: só vi três filmes este ano dos que concorriam, Meia noite em Paris, Os descendentes e O artista. Gostei dos três. O do Woody Allen, como sempre, era o mais inteligente. O filme do Clooney não era ruim, também; a proposta era sensível e a condução, condizente. Mas O artista tinha a pegada mais ousada e interessante dos três. Um filme com grandes méritos estéticos, na minha opinião. Eu torcia por ele.

Tapete vermelho: Angelina Jolie fez escolhas certas, e estava muito bonita. George Clooney é elegância e simpatia em pessoa.

Prêmios técnicos: o filme do Scorcese parece que ganhou quase tudo nos quesitos técnicos. Não faço ideia do que seja, mas gosto muito do cinema dele. Se é realmente tão bem feito tecnicamente, com certeza valerá o ingresso, porque duvido que o roteiro e a direção sejam meia-boca.

Prêmio de canção: deveriam cantar as canções no Oscar. Pelo menos um trechinho. Nada contra Sergio Mendes, mas eu estranharia se Carlinhos Brown ganhasse um prêmio que Chico, Caetano, Milton, Gil, Tom e até Paul McCartney nunca conquistaram. Mas não torci contra não; só achava que a chance era zero, mesmo.

Prêmios principais: O Oscar para Meryl Streep, segundo fontes seguras, é merecido. Parece, entretanto, um Oscar pelo conjunto da obra cinematográfica. Meryl é, provavelmente, uma das maiores atrizes de todos os tempos. Já a vi fazendo de tudo: papel sério, papel trágico, papel cômico, cantando, chorando, seduzindo. Tudo com talento. Às vezes, o Oscar não premia o talento, e algumas figuras insossas e sem mérito ganham mais ibope do que deveriam. Este ano, justiça foi feita.
Tudo o que O artista conquistou está em boas mãos. Se houvesse um Oscar para Melhor Bichinho, estaria em boas patas também. Considero muito curioso, significativo e simbólico o fato de que as duas produções mais premiadas, A invenção de Hugo Cabret, do Scorcese, e O Artista, funcionam como uma espécie de Alfa e Ômega da história do cinema: o filme francês vai buscar no cinema mudo as tensões trazidas pelas transformações tecnológicas decorrentes da sonorização; o filme americano, pelo que soube, procura traduzir ideias esteticamente consistentes na linguagem tecnologicamente inovada do cinema 3D. Ironias. E o passado é quem levou a melhor nesse embate.
O prêmio de roteiro para Woody Allen funciona como compensação da série histórica de injustiças cometidas pela Academia contra o melhor escritor do cinema americano atual. Ele também merecia por Vicky, Match Point e Reconstruindo Harry.

Intervalos: Vi a premiação na TNT e passava, o tempo todo, uma propaganda da Loreal com a Paola Oliveira, que me fazia pensar: as nossas são tão lindas quanto as deles. Até mais.

Cerimônia: Billy Cristal tem a medida do Oscar. Nem mais, nem menos: apresentação equilibrada, sem agredir o espectador com forçadas de barra. O momento em que o diretor iraniano recebeu a estatueta foi o mais bonito, porque ele dedicou a vitória ao povo de seu país e depois a todas as culturas e civilizações. O Cirque de Soleil mandou bem. O Oscar ficou mais clean este ano, mas também menos intenso, o que talvez reflita a qualidade da relação das novas gerações com o cinema em tempos de YouTube e vídeos medíocres disseminados aos milhões.

Saldo: Não sinto que tenha perdido tempo. O filme do Scorcese despertou meu interesse, o da Meryl Streep também, e, além deles, o do Brad Pitt. Uma das animações, a que tem livros voando, parece ser bem bonitinha. Tenho de ver tudo isso e voltar para reavaliar a justiça ou injustiça das premiações. Se não puder, confio no faro do Rubens Ewald.

Ano que vem, estamos aí de novo.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

As vantagens do anonimato

Quando era criança, e depois mais ainda na minha longa adolescência, tive o sonho de ser um artista famoso por sua música. A palavra "famoso" é a mais apropriada, sem dúvida. O desejo que movia minhas dedicadas horas de concentração ao violão era um desejo de reconhecimento e popularidade. Não exatamente de sucesso, porque há muitas formas de sucesso. Fazer uma boa música com boas ideias é, de certa forma, atingir algum sucesso, ainda que restrito, pessoal e sem holofotes. Não, naquele tempo não era isso o que eu mais queria.
Porque já naquele tempo as pessoas, praticamente todas as pessoas ao meu redor, já tinham como certeza uma das maiores inverdades que conheço. As pessoas tinham certeza da relação inegável e inquestionável entre fama, sucesso e talento. Algo como: aquele que pode fazer bem, inevitavelmente fará bem e será reconhecido como alguém que faz bem. Em certa medida, isso funciona, como no caso dos Beatles ou de Elvis, ou Chico Buarque. Mas, falando do circuito musical que vivenciei desde aqueles anos, posso testemunhar centenas de casos em que isso simplesmente não aconteceu.
 Mas como as pessoas não questionam muito a qualidade nem a seleção que fazem dos produtos que consomem desde que eles não as incomodem, eu ouvi essa ladainha por anos e anos e anos, até que ela se encaixasse em definitivo na minha cabeça. Era uma ideia que tinha uma logica clara: eu tinha algum talento, eu poderia depurá-lo com o trabalho, eu seria reconhecido. Mas era uma ideia vazia: o que exatamente era depurar um talento? Qual era exatamente meu talento? Como exatamente esse trabalho todo corresponderia às exigências e demandas de um público?
 Com o tempo, fui descobrindo outras coisas que podia fazer (e afinal de contas, tinha de fazer, porque precisava ganhar a vida) e fui deixando esses sonhos de fama de lado. Recentemente, voltei a estudar música e percebi que ainda posso produzir algo de bom e bacana dentro do que me proponho a criar. As aulas de canto e o estudo semiótico da canção me reencorajaram a trabalhar com música de novo. Mas não terei nunca mais a gana e o ímpeto de adolescente. E quer saber? Graças a Deus! E quer saber por quê? Porque um dos elementos da fórmula está riscado para sempre do rol de meus valores. Eu não quero mais ser famoso.
Ter um público fiel, tocar minhas músicas, curtir bons momentos com o que faço, atingir emocionalmente pessoas, tudo isso é maravilhoso. Mas eu gostaria de poder fazer tudo isso sem essa necessidade esquizofrênica de popularidade e essa superexposição dilacerante que acontece com os que resolvem levar a mídia a sério. Quando saio de um ensaio com a minha banda, posso sentar num bar qualquer e comer um pastel de carne falando sobre os arranjos que fizemos e os que queremos mudar. Eu posso, de manhã, sentar numa padaria e tomar um café sem que ninguém me perturbe. Eu vou para a academia e ninguém olha na minha cara (gordinhos, descabelados e não-bajuladores de gostosas não têm vez nesses ambientes); e eu acho isso um horror de falta de educação, mas no fundo é muito bacana, pois ninguém me incomoda. Se eu vou a uma feira, a um evento, a um show, não tem ninguém me filmando, me fotografando, prestando atenção no que falo ou em quem está comigo. Quando vou à praia, ninguém tira foto do meu corpo sem autorização. Se resolvo gastar dinheiro num lugar mais chique (dentro das minhas possibilidades), fico em absoluta tranquilidade. Ninguém quer saber quem é a minha mulher ou por que estou com ela. Ninguém quer saber como está minha relação em casa ou com minha família. Poucas pessoas leem meus blogues, e tenho certeza de que os leem porque gostam. Poucas pessoas me convidam para eventos, e tenho certeza de que o fazem porque querem minha presença. A mulher que me ama me ama pelo que sou, as pessoas que se interessam por mim se interessam pelo que tenho interiormente, e minha música precisa ser bem feita e realmente comover, porque não tenho máquina de divulgação para provar, pela insistência, a qualidade do que faço. Se eu atravessar um farol vermelho, xingar alguém que quase me atropelou ou tropeçar num buraco de bueiro, ninguém além de mim vai saber. Meus problemas não serão problemas dos outros, minha vida íntima será efetivamente pessoal e privada, minhas manias poderão ser preservadas da curiosidade alheia, e tudo isso será subordinado a minhas próprias decisões sobre o que quero ou não contar aos que me rodeiam.
Perguntaria o provocador: então você não quer dinheiro, prestígio, facilidades em conseguir coisas, pessoas apaixonadas suspirando aos seus pés? Você não quer que sua vida seja mais fácil, que as portas se abram sem ter de empurrá-las?
Não, provocador. A vida não é assim. Esses são alguns elementos possíveis da fama. Mas não representam um quadro consistente dessa condição.
As pessoas se enganam. A fama pode atender aos desejos mais agudos de espíritos vaidosos e carentes, mas quando as pessoas resolvem seus fantasmas interiores, ela pode se tornar um empecilho tremendo ao equilíbrio interior. Sim, amigo, você pode ser famoso e profundamente infeliz. Isso é possível. Há quem desenvolva tamanha covardia de si próprio que seja incapaz de conviver com momentos de menor exposição e menor popularidade. Há quem procure, depois de ter sentido o gosto dos holofotes e do assédio constante de outras pessoas, uma maneira de preservar um espaço próprio, íntimo, de reconstrução interior, e não consiga nunca mais. Há quem, no desespero de aproveitar tudo o que uma fama percebida como imerecida oferece, mergulhe em todas as possibilidades de conseguir prazer fácil e sem compromisso no tempo em que está em evidência, tornando-se uma criatura sem caráter nem consistência.
 Se posso dizer que aprendi algo com a vida, digo que aprendi a cuidar de mim. E que, para cuidar de mim, preciso de silêncio, alguma solidão, paz de espírito e tempo para me recriar. A fama definitivamente não me serve. Sucesso, para mim, hoje, é fazer um bom trabalho, dentro do que considero um bom trabalho. Alguém há de gostar, mas definitivamente não quero ficar pensando nisso. Boas críticas são sempre bem vindas, e ponto. Sucesso é isso, e talento é o que chamo de verdade interior. Se eu tiver os dois, não preciso de fama. Aliás, no meu caso, acho que ela só atrapalharia. Entre uma fama que atrapalhe meu equilíbrio de alma e um anonimato consciente e produtivo, fico com o segundo. Só não abro mão da liberdade de expressão artística; o resto, eu resolvo comigo.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O que é informação?

Deve haver um volume da antiga coleção Primeiros Passos (muito boa, por sinal)com esse título. Se há, eu não li, e lerei quando tiver acesso, pela curiosidade em relação ao assunto. Disso o leitor pode depreender, de imediato, que sou um leigo abordando uma questão da qual pouco sei. Mas considero minhas dúvidas pertinentes.
Lamento por meus amigos jornalistas, pessoas sérias e competentes, que não merecem ler isto, mas a pauta jornalística com que me deparo diariamente parece fictícia. Durante muito tempo, entre as décadas de 80 e 90, circulou a fantasiosa noção de que qualquer criança pequena dos tempos atuais estaria lidando com uma gama muito mais ampla e complexa de informações que os adultos do passado. Sempre achei isso um exagero, mas é incrível como a maioria das pessoas creem piamente que seus filhos são mais brilhantes porque sabem lidar melhor com novas tecnologias e coisas que os circundam. Não é que eu tenha dúvidas a esse respeito: eu tenho certeza de que isso é bobagem. Essa certeza vem da experiência de longos anos ministrando aulas para meninos e meninas na Prefeitura de São Paulo.
Fato: há mais mídia, e maior presença da mídia. Você senta num restaurante, e a TV está ligada. Você anda nas ruas, e elas estão repletas de pessoas com fones de ouvido e celulares. Você liga o computador, e ele tem quase infinitas possibilidades para seu entretenimento ou para sua atualização. Você tem mais opções de mídia em casa, fora de casa, no caminho de casa...
Além disso, é perceptível que a mídia torna determinadas questões importantes, em detrimento de outras. E que isso passa a ser não uma questão de escolha dos indivíduos, mas uma questão de possibilidade social de interação. As pessoas sabem que se não assistem determinados programas, se não repetem determinados chavões e se não embarcam em determinadas ondas, não conseguem se comunicar.
É nesse ponto que entra o questionamento que venho me fazendo: como fica a informação nesse contexto? Digamos que um coelhinho atravesse um vagão de metrô na Tailândia, e isso se torne um hit no YouTube ou seja um quadro do Fantástico. Isso é informação? Isso é relevante? Eu quero falar disso com meus amigos? Provavelmente não. Não é informação porque não acrescenta nada em termos de conhecimento, e nem é realmente útil para o que faço. Não é relevante porque não se relaciona a nenhum dos valores sobre os quais é pertinente refletir sempre. Não quero falar disso com as pessoas porque valorizo o tempo que tenho em suas companhias, e quero compartilhar o que tiver de melhor, e não isso. Mas, em determinado momento, você conversa com as pessoas, e elas falam desse vídeo de coelhinho. E esperam que você se posicione em relação a isso, que compartilhe dessa experiência, que pelo menos saiba algo a respeito para poder sustentar a conversação. E você não sabe.
Quando você se dá conta de que vai ficar isolado se não estiver "por dentro" dessas falsas informações, você começa a tentar conhecê-las. Se você possuir uma monstruosa inteligência emocional, conseguirá articulá-las como itens de comunicação interpessoal, na mesma categoria do "bom dia" ou "vai chover hoje". Mas se você afrouxar a vigilância interior, logo vai concordar com o festival de afirmações cretinas, disparatadas e sem noção que o rodeia. E lá se vão as pessoas repetindo coisas como "o problema do Brasil são os marajás", "o bug do milênio destruirá tudo", "funcionário público é tudo vagabundo" e coisas do gênero. Afirmações que cinco minutos de raciocínio simples, ou dez minutos de leitura de informação de verdade, destruiriam sem deixar vestígios.
Não, amigos, nada disso é informação. Isso é distração, entretenimento travestido de informação.
E é muito duro ficar sozinho no meio de tudo isso. Mas o dia chega. E quando ele chega, você não consegue mais achar que é preciso saber das últimas fofocas da rabuda da vez, ou da última porcaria sem letra nem melodia que "todo mundo está ouvindo". Você quer falar de bandas com músicas sensíveis e trabalhadas, mas as pessoas não conhecem, e - pior - têm medo de que conhecer e gostar delas torne-se fator de isolamento. Você quer falar de livros, mas as pessoas não leem nada, e evitam aquilo que pode ser relevante e, consequentemente, polêmico. Você quer falar de religião, política, futebol, mas as pessoas não querem lidar com discordâncias. Você quer contar histórias, mas ninguém está disposto a ouvir mais do que cinco minutos de absolutamente nada. As pessoas têm tanta pressa de preencher seus vazios que acabam esquecendo de conferir se eles realmente foram preenchidos.
A não ser que você considere que se possa chamar de informação a compra de um mamão na feira por uma celebridade, ou declarações completamente estapafúrdias de pseudoespecialistas, eu creio que não estamos sendo bombardeados de informação pela mídia. Nós estamos sendo enganados, e estamos aprendendo a desconfiar dessa enganação. Mas ainda de forma muito tímida, e com alguns retrocessos, como se pode perceber pelas últimas "febres" nas redes sociais.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Reciclagem de lixo (a que funciona)

O lixo aparece. Feio, sem graça, sem trazer nada de novo, sem acrescentar nada. Era simples: jogar na lata ou na trituradora.
Aí, o espertalhão vem com uma excelente ideia: por que não ganhar dinheiro com esse lixo? Os não-espertalhões argumentam: ora, porque isso é lixo; é feio, não tem graça, não traz nada de novo e não acrescenta nada. O espertalhão preferiria não responder, mas responde: "e daí? O importante é que eu vou ganhar dinheiro!".
E então o lixo, em vez de ir para a lata ou a trituradora, vai para o computador. O computador se esforça: melhora infinitamente a imagem, melhora o som, melhora a narrativa. O lixo fica parecendo produto. Continua feio, sem graça, sem trazer nada de novo e sem acrescentar nada. Mas vira um lixo apresentável.
O problema é que geralmente o lixo tem um dono. E não dá para reciclar o lixo sem reciclar o dono. O computador sabe que, para achar mais lixo, as pessoas procurarão o dono. As pessoas não sabem que, para achar mais lixo, podem procurar milhares de outros donos de lixo, tão competentes em fazer coisas feias, sem graça, sem trazer nada de novo e sem acrescentar nada quanto quaisquer outras.
Mas o computador tem até fórmulas para o dono do lixo: assessoria de imprensa, aulas de etiqueta e um monte de coisas, respostas padrão para jornalistas não encomendados. O computador manda colocar uma roupinha da moda, se é dono, e uns silicones, se é dona. Pronto, o dono já é tão apresentável quanto seu lixo.
Agora é hora de replicar o lixo. Não, não é reciclar: é replicar. É mostrar o lixo na mão de gente sorrindo. É jogar o lixo na mídia. É fazer gente conhecida dizer que o lixo é bom. É associar o lixo a "estar na onda" ou "estar por dentro". É tornar impossível a quem não liga para o lixo de ficar indiferente a ele. Aos que tentarem resistir, replicar, mais e mais. Naturalizar o lixo. Fazer com que o lixo seja um padrão, algo a ser copiado. Parabenizar publicamente o dono do lixo. Pagar puxa-sacos e liberar otários para pedirem mais lixo ao dono do lixo. Convocar intelectuais para afirmarem o direito ao lixo e condenarem como antidemocráticos e atrasados os que chamam o lixo de lixo. Criar uma polêmica sobre a qualidade do lixo, e obrigar os que não gostam do lixo a consumir o lixo para terem autoridade ao criticá-lo. Escrever sobre o lixo, justificando-o, reconhecendo que ele tem aspectos sadios para a cultura, apesar de ser feio, sem graça, sem novidade e sem nada a acrescentar.
E se o dono do lixo concordar em continuar revirando seus estrumes e porcarias para oferecer lixo dentro desse esquema, ele pode se tornar um verdadeiro lixo humano. Uma celebridade, idolatrada, querida. Feia, sem graça, sem trazer nada de novo e sem acrescentar nada a ninguém, mas querida.
Mas pode ser que o dono do lixo julgue ter direitos. Ou o direito de criar mais lixo sem recurso ao computador, ou o direito de não fazer mais lixo. Então, está na hora de procurar outro lixo para reciclar. De pegar o dono do lixo e jogar na lata ou na trituradora. De jogá-lo fora e ainda continuar lucrando com o lixo dele. Porque o espertalhão não curte lixo. Ele vende lixo para poder comprar o que não é lixo. Ele pode se desfazer do dono do lixo, porque o espertalhão é dono de algo maior: da estrutura toda da reciclagem. Então, não é preciso nem muito esforço. Basta ele parar o processo, e dono do lixo não é mais apresentável. As pessoas não procurarão mais o dono do lixo, porque os jornalistas não farão mais perguntas, os puxa-sacos não aparecerão mais, não haverá mais orientação para nada. Mas o lixo continuará apresentável e apresentado, gerando dinheiro. Feio, sem graça, sem trazer nada de novo e sem acrescentar nada, mas gerando dinheiro.
E quando o lixo gastar (porque a embalagem feita pelo computador é rapidamente degradável), não tem problema. O espertalhão sabe que lixo é fácil de achar, daqui a pouco aparece mais.
E aparece o lixo. E começa tudo de novo. Por isso é que se chama reciclagem.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Por que os bichinhos me comovem?

Meus amigos e meus inimigos têm uma senha para me ganhar, dominar ou expor. Eles sabem que sou muuuuuito emotivo. E que choro fácil, fácil.
Isso desde criança, e não exatamente porque seja um menino mimado (pelo menos não tanto quanto outros que tenho conhecido ultimamente), mas porque talvez esse seja um daqueles traços que são da pessoa, que vêm com a história de vida e as disposições de espírito de cada um, e que não podem, mesmo com toda a terapia do mundo, ser apagados sem prejuízo da integridade.
O mais interessante - e talvez mais perigoso - dessa emotividade é que ela se associa a coisas curiosas, inusitadas e incomuns. O megaexemplo seria minha paixão pelos bichinhos: cães, gatos, coelhos, lagartixas, tigres, sapos, formigas etc. Observar os animais, para mim, é de certa forma ser absorvido por seus dramas de existência, suas lutas, suas dores, suas sortes e azares. E - perdoem-me a afirmação provavelmente exagerada - sinto-me mais humano vivenciando essa experiência do que me sentiria em certas situações cotidianas entre humanos. Talvez porque os animais são o que são, sempre; e os humanos esforçam-se, muitas vezes, em ser alguma coisa que não são, e não chegarão de fato a ser.
Eu não posso ver filmes como "Marley e eu". Eles me fazem chorar, eu fico automaticamente apaixonado pela personagem principal. Não precisam nem ser grandes filmes, como de fato esse não é, mas basta que tenham a sensibilidade de mostrar a natureza sem disfarces nem meias verdades dos bichos para que eu me entregue por inteiro. Esses dias o filme passou de novo. Consegui ver até as cenas em que ele começa a envelhecer. Depois, fui fazer outra coisa, porque sabia que desabaria no final.
A série "No reino dos Suricatos" é outro exemplo. Como me comove! Como torço por aqueles animaizinhos simpáticos, gregários e expostos à toda aridez e inospitalidade do deserto! Certos episódios são mesmo impossíveis de ver, para mim, sem chorar, ou pelo menos ficar perto de derrubar algumas lágrimas.
Um amigo meu de profissão me disse que uma das melhores sensações de sua vida era observar, por horas e horas, caracóis, formigas, caramujos percorrendo o campo aberto das terras do interior. Isso é realmente uma experiência única. Só consegui fazer isso na infância, mas reconheço-me inteiramente nesse prazer que ele me descreveu.
E eu poderia ficar aqui enumerando muitas outras situações, com gatos abandonados, cachorros de rua, pombos e pássaros caídos, e outros. Há algo em mim que se mobiliza em prol dessas criaturas.
Evidentemente, amo os seres humanos também, tanto que mergulho na cultura historicamente produzida como quem salta em uma piscina de mel. A questão é que, por alguma razão que não sei dizer, os bichinhos muitas vezes parecem mais indefesos diante do mundo, e ao mesmo tempo mais fortes e resilientes em sua batalha pela continuidade da espécie. Enfim, é inútil explicar.
Como todas as coisas da minha vida, essa facilidade de comoção está eivada de contradições. Perguntariam, com razão, vários de meus amigos: mas, se você compreende a dignidade e a integridade dos animais, por que não se torna vegano, ou vegetariano? Olha... eu tentei. Não consegui. Mas não descarto tentar de novo. Na verdade, tenho enorme admiração pela minha prima Estela e meu amigo Cesar, que levam esses princípios muito a sério em suas vidas. Talvez eu precise de mais tempo; talvez seja esse um dos meus desafios a vencer. Evidentemente, se minha saúde ficasse comprometida, ou se houvesse necessidade de consumo, para alguma carência do organismo, de elementos de origem animal, eu os consumiria, mas evitando ao máximo ampliar essa necessidade ao ponto de transformar em hábitos descuidados.
Mas essa é uma outra questão. O que quero deixar claro nesta postagem é que meu coração é dos cães, gatos e suricatos, mesmo quando não os compreendo ou tenho medo de suas reações. Ou posso até dizer: justamente porque eles guardam certo mistério da vida, que é divino em sua manifestação.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Deus

Se você colocasse uma câmera em um lugar qualquer do mundo não imediatamente acessível ao ser humano, provavelmente conseguiria filmar algum tipo de vida formando-se e protegendo-se em grupos e sistemas. Que tipo de vida seria esse? Poderiam ser criaturas como pequenos insetos, peixes circulando em cardumes, plantas parasitando outras plantas, mamíferos em semivigília para antecipar o ataque dos predadores. Seja qual for o formato desse ser, seja qual for a enformação dessa vida, o fato é que ela estará, sempre, fragilmente, equilibrando-se sobre uma corda bamba. Para esses notáveis batalhadores, conviver com a iminência do desaparecimento, da morte, da destruição, é parte de uma experiência evolutiva instintiva da qual, mesmo não tendo consciência, eles são os legítimos atualizadores e mantenedores em sua singularidade individual.
Quando um bando de roedores atravessa desavisadamente um caminho cheio de sinuosidades e esconderijos, onde uma serpente silenciosa posiciona-se para obter sua presa do dia, não há garantias, nem seguros, nem leis, nem justiça, nem nada. Daqueles vinte ou trinta que passarão, um ficará, e não é possível dizer qual seja. Aos outros, restará a fuga, a reorganização do grupo, a triste percepção da perda de um membro, e a continuidade da jornada. E a inteligência do instinto, a avisar: deve-se estar atento, pois é preciso que continuemos no mundo.
Por que aquele, e não outro? Por que x e y sobrevivem a uma inundação, e não a ou b? Por que, das tantas moscas que sobrevoam os restos nos matagais, justamente aquelas tinham de enredar numa teia de aranha, e outras prosseguiriam com sua rotina de alimentação e reprodução? Não sei se é possível responder a essas especulações, e talvez elas nem façam realmente sentido, uma vez que procuram encontrar padrões numa realidade ainda não suficientemente desvendada. O que considero, na verdade, mais intrigante nisso tudo é que, embora tenhamos muitas vezes a convicção de que, pelo menos no espaço de tempo em que realizamos nossas atividades cotidianas, nosso lugar no universo está garantido, estamos, provavelmente, na mesma situação dos roedores do parágrafo anterior. Vivemos num mundo em que, caminhando por dentre multidões, ou fechados em fantasias de segurança, somos absolutamente vulneráveis. Menos que as moscas, que os coelhos, que a plantas? Talvez. Mas quando um atirador anônimo invade um espaço em que você está, num momento de delírio psicótico, caberá uma mesma indagação aplicável ao reino animal: por que fiquei, e outro se foi? Por que alguns são pegos de surpresa por coisas tão absurdas quanto uma bala perdida ou uma queda aparentemente trivial, enquanto outros escapam de guerras sanguinárias e condições completamente desfavoráveis?
Creio que somos animais, antes de tudo, e que tenhamos essa bela e sábia condição de seguir em frente, sobrevivendo, dando continuidade à espécie. Mas nossa relativa segurança física para o prosseguimento da experiência da vida, construída pelo engenho de inúmeras gerações de nossos antepassados, talvez tenha nos dado uma percepção arrogante do mundo, camuflando a irmandade que temos com todos os seres subsistentes que nos rodeiam, que é baseada, justamente, na quase insignificância perante o todo, aliada à extrema singularidade de permanecer uno e respirando apesar de todas as possibilidades em contrário. É um milagre estar aqui blogando e dividindo a sensação da própria finitude com outros da mesma espécie, num planeta tão rico de vidas e experiências do existir. Se somos animais antes de tudo, somos homens, acima de tudo, e espíritos, em meio a tudo, e expressões de uma inteligência superior, a despeito de tudo.
Nisso se fundamenta meu amor por Deus.

sábado, 5 de novembro de 2011

Pontos a esclarecer

Esses dias, indignado com a confusão e a loucura que se estabeleceram no prédio da faculdade responsável pela minha formação, desabafei em forma de piada no Facebook. Escrevi que a PM da USP tinha achado o assassino de Salomão Hayala (o vilão da novela das 11), com a intenção de dizer que tinha cometido exagero na atuação contra os estudantes pegos com maconha. Não sei se houve ou não exagero na abordagem, mas tenho certeza de que houve na condução.
Enfim, isso pouco importa. O que importa é que alguns leram a piada que fiz, que evidentemente implicava a incorporação de uma voz social conservadora atacando os uspianos, sem compreender a ironia das palavras, ou seja, o fato de que eu me solidarizava com os estudantes. Esse mal entendido gerou desconforto para mim, e tive de tirar a piada do ar, porque os comentários levavam a crer que eu tinha dito uma outra coisa.
Em função disso, quero esclarecer alguns pontos do meu pensamento, para que nada fique por interpretar, e as pessoas tenham clareza de algumas posições.
Primeiro, não sou a favor nem contra a PM no campus da USP. Não tenho nada, a princípio, contra a PM (talvez contra alguns PMs, mas que não creio representarem a insituição como um todo). Só que ainda não me convenci da efetiva necessidade dela, se por tantos anos tivemos uma guarda universitária que, bem ou mal, dava conta do recado. Não era mais simples equipar, preparar e reorganizar a guarda universitária? Mas, enfim, não é, no meu caso, nem questão de rancor, nem de medo, nem de nada. Apenas de entendimento.
Segundo, sou a favor da descriminalização do uso da maconha. Se o policial, na USP ou em qualquer outro lugar, ficar preocupado em prender quem está fumando um baseado, não tem polícia para tanta gente. E acredito que um sujeito enchendo a cara num barzinho e depois saindo com seu carro na madrugada é muito mais pernicioso que alguém que fuma maconha. A polícia precisa se focar em coisas mais importantes e perigosas para a sociedade.
Terceiro, não julgo o caráter das pessoas pelo uso ou não uso de nenhum tipo de droga, ou remédio, ou estimulante. Há canalhas abstêmios e pessoas indescritivelmente lindas que fumam, ou bebem, ou cheiram, ou injetam anabolizantes, ou abusam de remédios. O verdadeiro problema é o tráfico de drogas, não o usuário.
Quarto, acredito que as pessoas acabam criando, pelos padrões de comportamento socialmente observáveis dos estudantes, um estereótipo geral de quem frequenta cada faculdade. O perfil da FFLCH, para a maioria das pessoas, é de um frequentador mais desencanado, questionador, e zeloso da liberdade individual. O do Mackenzie, será outro, o da PUC, outro; e, mesmo dentro da USP, o da Medicina ou do Direito, outro e outro. Quando aconteceram as confusões dentro do campus, vi, li e ouvi pessoas querendo preconceituosamente desqualificar, com base em interpretações pobres e distorcidas derivadas desses estereótipos, tanto o aluno da FFLCH quanto o da USP como um todo. Não acho que podemos coadunar com esse tipo de pensamento. Não somos "vagabundos maconheiros", como algumas pessoas deixaram entender. Somos estudantes. Trabalhamos, lutamos por ideais, produzimos conhecimento, atuamos em vários setores da sociedade. E se alguns ou muitos de nós fumam maconha, não creio que a porcentagem seria diferente se pegássemos festas de elite nos bairros chiques de São Paulo ou pancadões na periferia, ou escolas de luxo e caríssimas e escolas públicas, como parâmetros de comparação. Fuma-se tanto na USP quanto em qualquer outra instituição de ensino, ou de qualquer outra coisa, no Brasil. Se a droga é um problema, é um problema da sociedade como um todo e não de uma suposta impertinência de um grupo social específico.
Quinta e última coisa, só para que fique claro o lugar de onde falo, e não porque eu sinta necessidade de me defender da hipocrisia alheia: eu nunca fumei maconha, eu não bebo, eu nunca utilizei drogas ilícitas. E não acho que seja melhor que ninguém por causa disso.