Houve uma limpa na parte de cima dos armários da faculdade, na qual muitos professores, eu incluso, deixavam materiais que não cabiam nos espaços a que tinham direito. Nessa brincadeira, dei conta de que não estava achando o livro Obras completas de Camões. Procurei como um doido. Olhei tudo, no trabalho, em casa, na escola da Prefeitura. Perguntei aos inspetores, perguntei aos colegas, aos alunos, aos vendedores dos estabelecimentos por que passei. Nada de achar o livro.
Aquele exemplar pode ser comprado novamente com facilidade. Mas duvido que o encontre nas mesmas circunstâncias em que o adquiri, novo, por um terço do preço, numa dessas promoções espetaculares que a gente tem de aproveitar imediatamente para não se arrepender depois. O que mais me agoniava, entretanto, era perder uma edição tão bonita do meu poeta preferido. Puxa, justo Camões! Justo o cara que venho redescobrindo com os alunos, canto a canto nos Lusíadas, verso a verso na lírica, passo a passo na biografia! Justo um dos livros de que mais gostava!
Nos dias que antecederam o Natal, sonhei que tinha encontrado o livro. Geralmente, não lembro as coisas que sonho, mas essa cena ficou gravada com espantosa nitidez na mente. Senti de novo a textura do papel em minhas mãos, olhei de novo as letras miudinhas, a beleza das ilustrações, sondei de novo as possibilidades listadas nos índices. Só faltava sonhar com Papai Noel me entregando o livro em pessoa. Acho que só não rolou porque nunca fui muito ligado nessa coisa de Papai Noel.
Ainda não comprei o livro de novo. Vou esperar uma promoção como aquela (este esperar é de esperança, além de espera). Tenho fé nisso. Basta vir a oportunidade. Esse é, literalmente, meu sonho de consumo. É o que inconscientemente pedi a um simbólico "meu Papai Noel".
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Alguém pode estranhar a postagem sobre um sonho alegre e recompensador relacionado a livros, não a pessoas de meu convívio. Sustento que isso é coerente, se pensarmos a relação que mantenho com objetos de desejo.
Para mim, livros se tornam pessoas quando me acostumo com eles e quero-os do meu lado. Tenho ciúme deles, tenho uma relação que não pode ser maculada com a interferência de postits ou grifos alheios, por exemplo. Por outro lado, quanto mais conheço uma pessoa, mais entendo que ela é mais que só uma pessoa. Quanto mais me acostumo com ela, mais entendo suas necessidades, e menos faço exigências de exclusividade.
Quero que as pessoas apareçam de vez em quando porque querem, porque gostam de mim. Por outro lado, quero que os livros não desapareçam nunca, porque os quero, porque gosto deles. Livros, eu os quero só meus. Pessoas, eu as quero bem, e só.
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
domingo, 27 de dezembro de 2009
Deixem Tiger Woods em paz
Nas últimas semanas, vingou uma onda de recriminações a Tiger Woods, por conta de seus casos extraconjugais. Tenho uma postura radical a respeito desse tipo de polêmica, postura que é baseada, inclusive, em minha experiência marital. Em poucas palavras: não recrimino Tiger em nada a esse respeito. Nem a ele, nem a ninguém.
O que penso é o seguinte: houve agressividade, rispidez, mágoa, adultério, deslealdade, decepção, incompatibilidade de gênios ou descompasso sexual? Problema do casal. Ponto final. A pessoa resolve com seu parceiro. Acabou. Não interessa e não diz respeito a mais ninguém. Isso não é notícia, não é do interesse público, não tem nada a ver com o direito à informação. Uma coisa é olhar para uma relação como parte interessada (amigo, família, padrinho) e tentar entender que realmente está acontecendo. Outra coisa é massacrar as pessoas com bisbilhotices, procurando sinais que servem tão somente a especulações e julgamentos descabidos.
A verdade é que ninguém sabe o que uma pessoa vive ou viveu em seu relacionamento amoroso, e isso não pode ser simplesmente deduzido a partir dos sinais exteriores. Houve adultério? Como posso saber se isso é um acordo a dois, uma vingança, uma escapada, ou uma profunda insatisfação interior? Como posso saber se isso não é doença, vício em sexo, incapacidade de lidar com a estabilidade? Como posso julgar o indivíduo se desconheço sua psicologia (e não se engane: o que as pessoas falam ou fazem em público NÃO É o que elas são em seu íntimo, por mais que queiramos nos iludir)? Que afirmações posso fazer acerca da intimidade de um casal com o qual não partilhei nada a não ser fotos e fofocas? Que direito tenho de avaliar um comportamento de um indivíduo quando desconheço os jogos de poder, sedução, chantagem, assédio e pressão psicológica a que ele possa ter sido submetido? Indo até mais longe: por que é necessário justificar, ou absolver, ou condenar, uma atitude da vida pessoal de alguém que não tem nenhuma relação com minha vida pessoal? Tenho certeza de que, se as pessoas soubessem um décimo do que acontece nos relacionamentos, renegariam no mínimo metade das afirmações que fizeram sobre eles.
Mas a questão é outra: as pessoas não têm de saber dessas coisas. Deixem Tiger em paz! Ele tem de jogar golfe, e nisso ele é fantástico. O resto não interessa. Não diz respeito a ninguém além dele e da mulher. Não somos nós que temos de achar certo ou errado o que ele fez; é ele, só ele. Nós, que gritamos, mentimos, traímos, forjamos cenas, omitimos verdades, inventamos, que fazemos de tudo isso um pouco, nós não gostaríamos de nos ver resumidos a esses aspectos que podemos, sem muito esforço, apontar em nosso comportamento. As coisas que fiz de errado na minha vida, ou mesmo no meu casamento, não me definem, de maneira alguma. Fui capaz de superar muitas delas, sou capaz de conviver com outras tantas, e qualquer um que procurasse projetar meu caráter a partir das falhas que apresenta erraria feio. Da mesma forma, penso que é uma hipocrisia tirar patrocínios do cara, cortar publicidades, cancelar entrevistas. Quer dizer que o homem que teve outras mulheres não tem coração nenhum? Por que as entidades assistenciais não devolvem o dinheiro que ele deu? Por que os fãs não devolvem os autógrafos e renegam todo o carinho que o golfista teve com eles no decorrer desses anos todos?
É totalmente ridículo, na era pós-revolução sexual em que vivemos, reduzir um sujeito àquilo que instâncias hipócritas definiram como sendo sua imagem pública. Acho que deve doer demais reconhecer que os indivíduos não cabem nos rótulos em que se quer colocá-los. Quando se trata de relacionamentos e seus problemas, na imensa maioria das vezes, quem fala a respeito não faz a mínima ideia do que está acontecendo, e poderia perfeitamente abster-se de emitir julgamentos. Até porque, para o universo das experiências amorosas, desregradas e anticonvencionais por excelência, esses julgamentos não fazem a menor diferença.
O que penso é o seguinte: houve agressividade, rispidez, mágoa, adultério, deslealdade, decepção, incompatibilidade de gênios ou descompasso sexual? Problema do casal. Ponto final. A pessoa resolve com seu parceiro. Acabou. Não interessa e não diz respeito a mais ninguém. Isso não é notícia, não é do interesse público, não tem nada a ver com o direito à informação. Uma coisa é olhar para uma relação como parte interessada (amigo, família, padrinho) e tentar entender que realmente está acontecendo. Outra coisa é massacrar as pessoas com bisbilhotices, procurando sinais que servem tão somente a especulações e julgamentos descabidos.
A verdade é que ninguém sabe o que uma pessoa vive ou viveu em seu relacionamento amoroso, e isso não pode ser simplesmente deduzido a partir dos sinais exteriores. Houve adultério? Como posso saber se isso é um acordo a dois, uma vingança, uma escapada, ou uma profunda insatisfação interior? Como posso saber se isso não é doença, vício em sexo, incapacidade de lidar com a estabilidade? Como posso julgar o indivíduo se desconheço sua psicologia (e não se engane: o que as pessoas falam ou fazem em público NÃO É o que elas são em seu íntimo, por mais que queiramos nos iludir)? Que afirmações posso fazer acerca da intimidade de um casal com o qual não partilhei nada a não ser fotos e fofocas? Que direito tenho de avaliar um comportamento de um indivíduo quando desconheço os jogos de poder, sedução, chantagem, assédio e pressão psicológica a que ele possa ter sido submetido? Indo até mais longe: por que é necessário justificar, ou absolver, ou condenar, uma atitude da vida pessoal de alguém que não tem nenhuma relação com minha vida pessoal? Tenho certeza de que, se as pessoas soubessem um décimo do que acontece nos relacionamentos, renegariam no mínimo metade das afirmações que fizeram sobre eles.
Mas a questão é outra: as pessoas não têm de saber dessas coisas. Deixem Tiger em paz! Ele tem de jogar golfe, e nisso ele é fantástico. O resto não interessa. Não diz respeito a ninguém além dele e da mulher. Não somos nós que temos de achar certo ou errado o que ele fez; é ele, só ele. Nós, que gritamos, mentimos, traímos, forjamos cenas, omitimos verdades, inventamos, que fazemos de tudo isso um pouco, nós não gostaríamos de nos ver resumidos a esses aspectos que podemos, sem muito esforço, apontar em nosso comportamento. As coisas que fiz de errado na minha vida, ou mesmo no meu casamento, não me definem, de maneira alguma. Fui capaz de superar muitas delas, sou capaz de conviver com outras tantas, e qualquer um que procurasse projetar meu caráter a partir das falhas que apresenta erraria feio. Da mesma forma, penso que é uma hipocrisia tirar patrocínios do cara, cortar publicidades, cancelar entrevistas. Quer dizer que o homem que teve outras mulheres não tem coração nenhum? Por que as entidades assistenciais não devolvem o dinheiro que ele deu? Por que os fãs não devolvem os autógrafos e renegam todo o carinho que o golfista teve com eles no decorrer desses anos todos?
É totalmente ridículo, na era pós-revolução sexual em que vivemos, reduzir um sujeito àquilo que instâncias hipócritas definiram como sendo sua imagem pública. Acho que deve doer demais reconhecer que os indivíduos não cabem nos rótulos em que se quer colocá-los. Quando se trata de relacionamentos e seus problemas, na imensa maioria das vezes, quem fala a respeito não faz a mínima ideia do que está acontecendo, e poderia perfeitamente abster-se de emitir julgamentos. Até porque, para o universo das experiências amorosas, desregradas e anticonvencionais por excelência, esses julgamentos não fazem a menor diferença.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Feliz Natal 2009 e Feliz Ano Novo 2010
Agradeço a todos os que frequentaram este blog e colaboraram com apoio e comentários construtivos. Estou feliz com o crescimento que conseguimos. Espero poder alcançar mais pessoas em 2010,e aumentar a frequência de postagens neste e em meus outros blogs.
Grande abraço, até breve.
Grande abraço, até breve.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Memória seletiva
Hoje, enquanto esperava minha mulher finalizar as compras de Natal, fiquei fazendo nada na Saraiva do Shopping. Enquanto não fazia nada, deu tempo de ler "Relato de um certo oriente", do Milton Hatoum (ótimo), algo sobre figuras de linguagem, e as orelhas de uns livros de poesia. Como estava com sono, me rendi à publicidade do café Starbuck, grandão e chamativo, que se vende lá dentro. Pedi um Frapuccino Mocha do maior, porque o sono era bravo.
Assim que comecei a sorver o líquido, constatei duas coisas. Primeiro, que aquilo era um horror, não tinha gosto nem de café, nem de shake, nem de nada que me comovesse, e ainda por cima era caro pra dedéu. Mas a segunda constatação foi a mais interessante.
Tão logo o gosto terrível da bebida da moda arrepiou meus cabelos, lembrei-me de que já havia experimentado uma vez a mesma bebida, e já tinha achado horrível. Simplesmente me esqueci disso quando comprei: que o produto já havia me decepcionado. Não sei se não achei tão ruim a ponto de gravar um gigantesco "não compre" no meu cérebro, ou se justamente achei tão ruim que apaguei a sensação relacionada àquela experiência. O fato é que só fui lembrar que não gostava daquilo quando experimentei de novo.
Sou um consumidor preguiçoso e tenho dificuldade de guardar marcas, ou associá-las a características que as singularizam. Mas nunca pensei que pudesse ser tão distraído a ponto de fazer a mesma besteira duas vezes. A verdade é que nem pensei em nada, minha preguiça me disse "vai no primeiro café que você vir na frente" e fui com tanta fé que me esqueci justamente do mais importante, que não gostava daquele. O pior é que tomei quase tudo, porque sou daqueles que, depois de pagar, não aceitam jogar nada fora. E o meu nem veio com chantilly, porque estava em falta...
Li numa página da net coisas interessantes sobre inibição latente, um processo psicológico que faz com que percebamos as coisas a nosso redor de acordo com as nossas necessidades e interesses. Seria assim: um cozinheiro, por dever de profissão, prova um determinado prato e diz, pelo paladar, quais ingredientes foram utilizados e em que proporção. Eu, que não cozinho, só como, provo um prato e não presto atenção nisso, apenas registro mentalmente se ele é gostoso ou não. Os psicólogos dizem que precisamos ter essa tal inibição latente para não pirarmos, pois é impossível lidarmos com todos os estímulos que recebemos. Por outro lado, eles também dizem que a baixa inibição latente é característica dos indivíduos criativos, tal como dos indivíduos loucos. Perfeitamente compreensível: quem vê o mundo de maneira diferente é porque recebe e responde estímulos diferentes, em função de uma experiência interior que não é a da maioria das pessoas.
Minha memória é um primor de inibição latente. Não fotografo mentalmente as coisas, não sou bom para seus detalhes, não lembro de nomes, esqueço rostos e situações com facilidade, esqueço de coisas que acabaram de me falar. Lembro somente do que os fatos e as coisas representaram para mim no momento em que os experienciei, e quase sempre fico só com essa impressão geral (bom, ruim, legal, chato...) e olhe lá. Quando se trata de consumo, então, a inibição atinge o nível máximo, porque algumas coisas simplesmente não representaram nada, ou foram tão insignificantes que nem consegui desgostar delas, ou foram tão desgostosas que eliminei da lista de relevância. O problema é que a força do marketing, aproveitando-se da preguiça mental, é capaz de driblar essa desimportância das coisas com muita desenvoltura. E lá vai o bobão aqui ser enganado de novo, com todas as armas para não ser. E o pior é que nem tenho coragem de dizer que não acontecerá uma terceira vez. Se bobear, até escrevo sobre isso de novo no blog. Às vezes, desacredito do que sou capaz...
Assim que comecei a sorver o líquido, constatei duas coisas. Primeiro, que aquilo era um horror, não tinha gosto nem de café, nem de shake, nem de nada que me comovesse, e ainda por cima era caro pra dedéu. Mas a segunda constatação foi a mais interessante.
Tão logo o gosto terrível da bebida da moda arrepiou meus cabelos, lembrei-me de que já havia experimentado uma vez a mesma bebida, e já tinha achado horrível. Simplesmente me esqueci disso quando comprei: que o produto já havia me decepcionado. Não sei se não achei tão ruim a ponto de gravar um gigantesco "não compre" no meu cérebro, ou se justamente achei tão ruim que apaguei a sensação relacionada àquela experiência. O fato é que só fui lembrar que não gostava daquilo quando experimentei de novo.
Sou um consumidor preguiçoso e tenho dificuldade de guardar marcas, ou associá-las a características que as singularizam. Mas nunca pensei que pudesse ser tão distraído a ponto de fazer a mesma besteira duas vezes. A verdade é que nem pensei em nada, minha preguiça me disse "vai no primeiro café que você vir na frente" e fui com tanta fé que me esqueci justamente do mais importante, que não gostava daquele. O pior é que tomei quase tudo, porque sou daqueles que, depois de pagar, não aceitam jogar nada fora. E o meu nem veio com chantilly, porque estava em falta...
Li numa página da net coisas interessantes sobre inibição latente, um processo psicológico que faz com que percebamos as coisas a nosso redor de acordo com as nossas necessidades e interesses. Seria assim: um cozinheiro, por dever de profissão, prova um determinado prato e diz, pelo paladar, quais ingredientes foram utilizados e em que proporção. Eu, que não cozinho, só como, provo um prato e não presto atenção nisso, apenas registro mentalmente se ele é gostoso ou não. Os psicólogos dizem que precisamos ter essa tal inibição latente para não pirarmos, pois é impossível lidarmos com todos os estímulos que recebemos. Por outro lado, eles também dizem que a baixa inibição latente é característica dos indivíduos criativos, tal como dos indivíduos loucos. Perfeitamente compreensível: quem vê o mundo de maneira diferente é porque recebe e responde estímulos diferentes, em função de uma experiência interior que não é a da maioria das pessoas.
Minha memória é um primor de inibição latente. Não fotografo mentalmente as coisas, não sou bom para seus detalhes, não lembro de nomes, esqueço rostos e situações com facilidade, esqueço de coisas que acabaram de me falar. Lembro somente do que os fatos e as coisas representaram para mim no momento em que os experienciei, e quase sempre fico só com essa impressão geral (bom, ruim, legal, chato...) e olhe lá. Quando se trata de consumo, então, a inibição atinge o nível máximo, porque algumas coisas simplesmente não representaram nada, ou foram tão insignificantes que nem consegui desgostar delas, ou foram tão desgostosas que eliminei da lista de relevância. O problema é que a força do marketing, aproveitando-se da preguiça mental, é capaz de driblar essa desimportância das coisas com muita desenvoltura. E lá vai o bobão aqui ser enganado de novo, com todas as armas para não ser. E o pior é que nem tenho coragem de dizer que não acontecerá uma terceira vez. Se bobear, até escrevo sobre isso de novo no blog. Às vezes, desacredito do que sou capaz...
domingo, 20 de dezembro de 2009
Frases e remontagens
Passei por uma perua e estava escrito assim, na traseira: "Lutar, sempre; vencer, talvez; desistir, jamais". Frase bonita, bem construída, simétrica. Três verbos e três advérbios. Bom gosto de quem a escolheu. Entretanto, quando vejo esse tipo de lema para uso externo, fico pensando menos em seu significado imediato e mais nas razões que o indivíduo teve para adotá-lo e, sobretudo, exibi-lo.
Pode ser que ele acredite realmente nisso. Nesse caso, supõe-se que valorize o trabalho, o labor, a persistência. Que acredite que pode vencer, mas que isso não depende somente de suas forças. Que considere que a determinação individual e a fé são seus maiores valores, e que vale a pena ser conhecido e reconhecido como batalhador e convicto. Teríamos, então, um cidadão querendo mostrar ao mundo a forma como se consegue o sucesso, sintetizada num dito que toca as pessoas pelos princípios cristãos de humildade e trabalho que apregoa.
Pode ser, no entanto, que o indivíduo que escolheu esse lema não seja nada disso. Pode ser que seja uma pessoa consumida pela culpa de tomar atitudes erradas e comprometer financeiramente e estruturalmente sua família. Pode ser que seja alguém que tenha entregado os pontos já muitas vezes, e que procure constantemente, dentro e fora de si, motivações para continuar fazendo aquilo que precisa - mas não quer - fazer. Nesse caso, a frase estaria mais para consolo ou promessa. Não seria entendida como "eu luto", mas como "tenho de lutar, fazer o quê?"; não serviria para mostrar algo como "eu acredito no trabalho", mas sim "eu preciso acreditar e continuar no caminho, não tenho outra saída", ou "eu preciso lembrar constantemente que não posso esmorecer, mesmo que as soluções estejam obnubiladas".
Até aqui, supusemos que pessoas com diferentes experiências e motivações poderiam adotar, sem problemas de coerência ou sentido, um mesmo lema de vida. Consideremos agora uma criatura de configuração moral distinta da que atribuímos às gentes imaginárias já descritas. Consideremos alguém que não acredita no sucesso pela via do trabalho; alguém que procura tirar vantagem de todas as maneiras das situações; alguém que prefere o lucro advindo do menor esforço ao pagamento justo por seu mérito e empenho; alguém que, nas piores adversidades, pensa unicamente em salvar o próprio pescoço; alguém que não liga de fazer falcatruas e passar a perna nas pessoas se não houver o perigo de isso vir a público.
Se uma pessoa com essas características colasse no seu veículo um adesivo com a frase em questão, poderíamos pensar que se trata de uma contradição ou uma impropriedade. Mas, por absurdo que possa parecer, o lema teria exatamente a mesma função: mostrar aos outros indivíduos qual a concepção ideologicamente válida e aceita de sucesso. O que haveria de diferente, nesse caso, é que estaríamos diante do tipo mais comum de ser humano que encontramos em nossa vida social, aquele que separa com muita habilidade sua aparência para o mundo de sua conduta interior. Esse tipo de cidadão não acha que está mentindo, pois realmente crê que o trabalho duro deveria ser norma de conduta da sociedade, contanto que ele não fosse obrigado a adotá-la. E ambas as coisas convivem pacificamente em seu universo lógico, pois suas crenças e seus valores não têm necessariamente de ser coerentes com sua práticas cotidianas, podendo muitas vezes contradizê-las, quando convier. Porém, ele não pode assumir explicitamente que se julga exceção à necessidade de cumprir o que diz. Nossa sociedade aceita a hipocrisia, não o cinismo, e, ademais, faltariam argumentos éticos válidos para se justificar. Mas é bom que fique claro: um indivíduo com essas características poderia colocar desavergonhadamente a frase no vidro de seu carro, e por certo ganharia elogios e atenções dos que estão ao seu redor, sem nunca enfrentar qualquer mínimo questionamento sobre a coerência entre sua conduta ética e o lema que adota. Agiria, assim, tal como as inumeráveis pessoas que vestem camisetas com dizeres cujo sentido desconhecem porque as estampas ou cores estão na moda ou parecem simpáticas. As outras diriam apenas: "caiu bem em você".
O curioso é que, se remontássemos a frase, adequando-a à falta de caráter dessas figuras que citamos, poderíamos obter algo mais expressivo e veraz, "Vencer, sempre; desistir, talvez; lutar jamais", lema extremamente pertinente para o que presenciamos todos os dias nas nossas relações com o mundo. Essa reorganização semântica deixaria claro que o negócio é o sucesso, o dinheiro, a vantagem pessoal, e que, quanto menor o esforço para obtê-los, mais eles nos convêm. Isso diz muito sobre o que vemos na política, nas relações de trabalho, nas festas, no trânsito, nas escolas, nas conversas de bar, em vários setores de nossa civilização. Mas um lema como esse carrega o problema do escancaramento, do desmacaramento, da autoculpabilização. Uma pessoa pode pensar assim e até usar essa ideia como um gracejo no contexto de confissões infames a amigos próximos. O que ela não pode é admitir isso abertamente, declaradamente, exibidamente, porque a consciência coletiva lida muito mal com seus desejos reprimidos.
Sintetizando: se tudo fosse somente uma questão de escolha e bom gosto, a frase original seria, para quem acredita no trabalho, para quem precisa acreditar, e até para quem não acredita mas não pode dizer, a opção mais conveniente e correta, sempre; se a questão for a de interpretação, para qualquer cidadão que tivesse lido "Raízes do Brasil", "A ética protestante e o espírito do capitalismo" e um básico resumido de Freud, a frase original tenderia a soar mais como uma curiosidade cotidiana que como uma prescrição, e a frase remontada, mais como uma provocação válida que como um gracejo. Prefiro o segundo ponto de vista. Desacredito da seriedade desse tipo de lugar-comum. Para mim, os homens se revelam no que dizem justamente pelo que silenciam. Feridas expostas precisam ser curadas, e as pessoas preferem, por incrível que pareça, não mostrá-las, ou não reconhecê-las como feridas, a ter de tratá-las adequadamente. As pessoas aceitam sofrer sempre e mentir talvez, desde que não tenham de mostrar jamais.
Pode ser que ele acredite realmente nisso. Nesse caso, supõe-se que valorize o trabalho, o labor, a persistência. Que acredite que pode vencer, mas que isso não depende somente de suas forças. Que considere que a determinação individual e a fé são seus maiores valores, e que vale a pena ser conhecido e reconhecido como batalhador e convicto. Teríamos, então, um cidadão querendo mostrar ao mundo a forma como se consegue o sucesso, sintetizada num dito que toca as pessoas pelos princípios cristãos de humildade e trabalho que apregoa.
Pode ser, no entanto, que o indivíduo que escolheu esse lema não seja nada disso. Pode ser que seja uma pessoa consumida pela culpa de tomar atitudes erradas e comprometer financeiramente e estruturalmente sua família. Pode ser que seja alguém que tenha entregado os pontos já muitas vezes, e que procure constantemente, dentro e fora de si, motivações para continuar fazendo aquilo que precisa - mas não quer - fazer. Nesse caso, a frase estaria mais para consolo ou promessa. Não seria entendida como "eu luto", mas como "tenho de lutar, fazer o quê?"; não serviria para mostrar algo como "eu acredito no trabalho", mas sim "eu preciso acreditar e continuar no caminho, não tenho outra saída", ou "eu preciso lembrar constantemente que não posso esmorecer, mesmo que as soluções estejam obnubiladas".
Até aqui, supusemos que pessoas com diferentes experiências e motivações poderiam adotar, sem problemas de coerência ou sentido, um mesmo lema de vida. Consideremos agora uma criatura de configuração moral distinta da que atribuímos às gentes imaginárias já descritas. Consideremos alguém que não acredita no sucesso pela via do trabalho; alguém que procura tirar vantagem de todas as maneiras das situações; alguém que prefere o lucro advindo do menor esforço ao pagamento justo por seu mérito e empenho; alguém que, nas piores adversidades, pensa unicamente em salvar o próprio pescoço; alguém que não liga de fazer falcatruas e passar a perna nas pessoas se não houver o perigo de isso vir a público.
Se uma pessoa com essas características colasse no seu veículo um adesivo com a frase em questão, poderíamos pensar que se trata de uma contradição ou uma impropriedade. Mas, por absurdo que possa parecer, o lema teria exatamente a mesma função: mostrar aos outros indivíduos qual a concepção ideologicamente válida e aceita de sucesso. O que haveria de diferente, nesse caso, é que estaríamos diante do tipo mais comum de ser humano que encontramos em nossa vida social, aquele que separa com muita habilidade sua aparência para o mundo de sua conduta interior. Esse tipo de cidadão não acha que está mentindo, pois realmente crê que o trabalho duro deveria ser norma de conduta da sociedade, contanto que ele não fosse obrigado a adotá-la. E ambas as coisas convivem pacificamente em seu universo lógico, pois suas crenças e seus valores não têm necessariamente de ser coerentes com sua práticas cotidianas, podendo muitas vezes contradizê-las, quando convier. Porém, ele não pode assumir explicitamente que se julga exceção à necessidade de cumprir o que diz. Nossa sociedade aceita a hipocrisia, não o cinismo, e, ademais, faltariam argumentos éticos válidos para se justificar. Mas é bom que fique claro: um indivíduo com essas características poderia colocar desavergonhadamente a frase no vidro de seu carro, e por certo ganharia elogios e atenções dos que estão ao seu redor, sem nunca enfrentar qualquer mínimo questionamento sobre a coerência entre sua conduta ética e o lema que adota. Agiria, assim, tal como as inumeráveis pessoas que vestem camisetas com dizeres cujo sentido desconhecem porque as estampas ou cores estão na moda ou parecem simpáticas. As outras diriam apenas: "caiu bem em você".
O curioso é que, se remontássemos a frase, adequando-a à falta de caráter dessas figuras que citamos, poderíamos obter algo mais expressivo e veraz, "Vencer, sempre; desistir, talvez; lutar jamais", lema extremamente pertinente para o que presenciamos todos os dias nas nossas relações com o mundo. Essa reorganização semântica deixaria claro que o negócio é o sucesso, o dinheiro, a vantagem pessoal, e que, quanto menor o esforço para obtê-los, mais eles nos convêm. Isso diz muito sobre o que vemos na política, nas relações de trabalho, nas festas, no trânsito, nas escolas, nas conversas de bar, em vários setores de nossa civilização. Mas um lema como esse carrega o problema do escancaramento, do desmacaramento, da autoculpabilização. Uma pessoa pode pensar assim e até usar essa ideia como um gracejo no contexto de confissões infames a amigos próximos. O que ela não pode é admitir isso abertamente, declaradamente, exibidamente, porque a consciência coletiva lida muito mal com seus desejos reprimidos.
Sintetizando: se tudo fosse somente uma questão de escolha e bom gosto, a frase original seria, para quem acredita no trabalho, para quem precisa acreditar, e até para quem não acredita mas não pode dizer, a opção mais conveniente e correta, sempre; se a questão for a de interpretação, para qualquer cidadão que tivesse lido "Raízes do Brasil", "A ética protestante e o espírito do capitalismo" e um básico resumido de Freud, a frase original tenderia a soar mais como uma curiosidade cotidiana que como uma prescrição, e a frase remontada, mais como uma provocação válida que como um gracejo. Prefiro o segundo ponto de vista. Desacredito da seriedade desse tipo de lugar-comum. Para mim, os homens se revelam no que dizem justamente pelo que silenciam. Feridas expostas precisam ser curadas, e as pessoas preferem, por incrível que pareça, não mostrá-las, ou não reconhecê-las como feridas, a ter de tratá-las adequadamente. As pessoas aceitam sofrer sempre e mentir talvez, desde que não tenham de mostrar jamais.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
No show de Glenn Hughes. Valeu por ele.
Admiro de coração as pessoas que guardam um montante considerável de energia vital para os anos da maturidade. Acabo de voltar do show de Glenn Hughes, ex-baixista de Deep Purple e ex-vocalista do Trapeze. Não sei a idade dele, 50, 60, algo assim. O que me impressiona é a excelente forma física que ele demonstra ter, que se reflete no vocal afiadíssimo (talvez o mais espetacular que já vi ao vivo), na pulação praticamente constante no palco e na vivacidade com que empunha seu baixo e faz malabarismos musicais.
Aos 35 anos, eu confesso que não consigo mais entrar nesse clima. Fui para ouvir a voz de Hughes e conferir sua técnica apurada. Isso fiz, e valeu o ingresso. Mas não pulei, não chacoalhei a cabeça, não achei graça nas pessoas caindo de bêbadas e chapadas, não tive estômago para as latinhas de cerveja nojentamente abandonadas no chão e o banheiro já mais do que asqueroso a partir da segunda metade do show. Não tenho mais esse espírito de aventura, de tolerância com o incômodo, de desencanação e mergulho na onda rock'n'roll. Para mim, foi bom poder ficar encostado na parede, mãos dadas com minha namorada, vendo o que rolava no palco e ouvindo a boa música que acontecia. Tudo o mais atrapalhava: as pessoas gritando (aliás, acho incrível alguém pagar para ver um dos maiores vocalistas de todos os tempos e ficar gritando enquanto ele canta), a fumaça assassina de narizes, o cheiro de bebida que começa a impregnar no decorrer da noite, os indivíduos que vão perdendo a noção de que você também quer ver o palco. Não sirvo mais para esse tipo de programa. Tive essa impressão no show do Radiohead e confirmo-a agora.
O que foi divertido, além de andarmos meia Faria Lima para não chegarmos atrasados, foi ter tido excelente companhia para a empresa e ter podido usufruir da beleza das músicas de cuca limpa, sorvendo cada acorde, cada agudo, cada falsete, cada solo. Saldo positivo, no fim das contas.
Só para pontuar e não ser injusto: grande show de abertura do Casa das Máquinas. Mas deviam ter tocado mais da fase progressiva deles. Seria melhor ainda.
Aos 35 anos, eu confesso que não consigo mais entrar nesse clima. Fui para ouvir a voz de Hughes e conferir sua técnica apurada. Isso fiz, e valeu o ingresso. Mas não pulei, não chacoalhei a cabeça, não achei graça nas pessoas caindo de bêbadas e chapadas, não tive estômago para as latinhas de cerveja nojentamente abandonadas no chão e o banheiro já mais do que asqueroso a partir da segunda metade do show. Não tenho mais esse espírito de aventura, de tolerância com o incômodo, de desencanação e mergulho na onda rock'n'roll. Para mim, foi bom poder ficar encostado na parede, mãos dadas com minha namorada, vendo o que rolava no palco e ouvindo a boa música que acontecia. Tudo o mais atrapalhava: as pessoas gritando (aliás, acho incrível alguém pagar para ver um dos maiores vocalistas de todos os tempos e ficar gritando enquanto ele canta), a fumaça assassina de narizes, o cheiro de bebida que começa a impregnar no decorrer da noite, os indivíduos que vão perdendo a noção de que você também quer ver o palco. Não sirvo mais para esse tipo de programa. Tive essa impressão no show do Radiohead e confirmo-a agora.
O que foi divertido, além de andarmos meia Faria Lima para não chegarmos atrasados, foi ter tido excelente companhia para a empresa e ter podido usufruir da beleza das músicas de cuca limpa, sorvendo cada acorde, cada agudo, cada falsete, cada solo. Saldo positivo, no fim das contas.
Só para pontuar e não ser injusto: grande show de abertura do Casa das Máquinas. Mas deviam ter tocado mais da fase progressiva deles. Seria melhor ainda.
domingo, 13 de dezembro de 2009
Microcontos, Sérgio Sant'Anna e as "grandes novidades"
Ontem meu irmão me falou que a nova onda nos meios literários é um tal de microconto, nada mais que uma pequena história contada em menos de 240 toques, se não me engano. É interessante, mas isso não tem nada de novo.
Quem, como eu, teve a curiosidade e oportunidade de apreciar a força da escrita de Sérgio Sant'Anna em Notas de Manfredo Rangel, repórter, (a respeito de Kramer), de 1974, deve ter se impressionado com a maestria com que são contadas as pequenas histórias de amor presentes no conto "Romeu e Julieta", um dos 21 que compõem o livro. Se não me engano, dando uma fuçada no Google, dá para achar algumas delas.
Eu não sei bem o que é essa onda de microcontos, mas se a questão é apenas o tamanho e o poder de concisão, Sérgio é, sem dúvida alguma, o precursor mais ilustre disso. Minha dissertação de mestrado foi a respeito do Notas, e lembro bem que, ao analisar o conto que sugeri acima, cheguei a grafar essa classificação (microcontos) e mostrar ao meu orientador. Lembro de ele ter me dito para não usá-la, porque não era consagrada pela tradição, nem muito precisa do ponto de vista da terminologia. Risquei, e acabei nem aproveitando na redação final o que tinha escrito. Ficou lá, nas minhas anotações, nesses arquivos não publicados perdidos nos back-ups da vida. Como não publiquei, não posso dizer oficialmente que antecipei a configuração do gênero. Posso apenas brincar interiormente com aquela história do "tá vendo,eu já sabia!", e ficar elocubrando sobre minha dissertação ter sido mais lida se eu tivesse achado um jeito de incluir a análise do "Romeu e Julieta".
Mas não quero chamar a atenção para minhas sortudas intuições de análise, e sim para as competentes intuições de escrita de Sérgio. Que pelo menos reconheçam a primazia dele, a capacidade de buscar e enformar a concisão máxima de enredo num tempo em que nem se sonhava com internet, tuíter, e essas coisas.
Quem, como eu, teve a curiosidade e oportunidade de apreciar a força da escrita de Sérgio Sant'Anna em Notas de Manfredo Rangel, repórter, (a respeito de Kramer), de 1974, deve ter se impressionado com a maestria com que são contadas as pequenas histórias de amor presentes no conto "Romeu e Julieta", um dos 21 que compõem o livro. Se não me engano, dando uma fuçada no Google, dá para achar algumas delas.
Eu não sei bem o que é essa onda de microcontos, mas se a questão é apenas o tamanho e o poder de concisão, Sérgio é, sem dúvida alguma, o precursor mais ilustre disso. Minha dissertação de mestrado foi a respeito do Notas, e lembro bem que, ao analisar o conto que sugeri acima, cheguei a grafar essa classificação (microcontos) e mostrar ao meu orientador. Lembro de ele ter me dito para não usá-la, porque não era consagrada pela tradição, nem muito precisa do ponto de vista da terminologia. Risquei, e acabei nem aproveitando na redação final o que tinha escrito. Ficou lá, nas minhas anotações, nesses arquivos não publicados perdidos nos back-ups da vida. Como não publiquei, não posso dizer oficialmente que antecipei a configuração do gênero. Posso apenas brincar interiormente com aquela história do "tá vendo,eu já sabia!", e ficar elocubrando sobre minha dissertação ter sido mais lida se eu tivesse achado um jeito de incluir a análise do "Romeu e Julieta".
Mas não quero chamar a atenção para minhas sortudas intuições de análise, e sim para as competentes intuições de escrita de Sérgio. Que pelo menos reconheçam a primazia dele, a capacidade de buscar e enformar a concisão máxima de enredo num tempo em que nem se sonhava com internet, tuíter, e essas coisas.
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