sábado, 14 de maio de 2011

Viva a gente diferenciada!

Eu tenho um blogue semi-inativo chamado Ação Direta Inteligente. Nele, posto, de quando em quando, informações sobre protestos e mobilizações que utilizam recursos simbólicos, artísticos e estéticos para expressar as ideias defendidas. Acredito piamente que esse deveria ser o futuro de todas as manifestações políticas na era da informação. Quando aluno da Letras, nossa greve estudantil, usando desses expedientes, alcançou a mídia e a população, foi um sucesso total; quando partimos para o enfrentamento físico tradicional, perdemos força, e a paralisação teve de acabar. Eu vivenciei isso, eu vi, eu testemunhei; não restam dúvidas para mim de que o caminho é a sensibilidade, a inteligência, a criatividade.
Por essa razão, eu não poderia deixar de mencionar aqui neste blogue a imensa alegria que senti ao ver um protesto tão inteligente, sacado e irônico quanto o que aconteceu hoje, bem perto da minha casa. Eu estava totalmente por fora da discussão sobre o metrô, mas hoje, aqui na região, todos só falavam sobre isso. O "Churrascão da Gente Diferenciada" foi genial! Chamou a atenção para a violência simbólica e econômica por meio da ironia e da ocupação pacífica de um dos símbolos da elite não-diferenciada paulistana. Lamento ter sido hoje, justo hoje, que tenho de estudar para uma prova de seleção para pós-graduação na segunda-feira.
Minha posição é bastante simples, e divide-se em dois raciocínios. Primeiro: mais metrô, menos carros, mais acesso para quem trabalha na região. Segundo: administração pública de uma cidade ou de um Estado responde aos interesses da população como um todo, e, se esses interesses entram em conflito com interesses de setores, a decisão deve contemplar o bem público e o que for melhor para o maior número de pessoas possível.
Quanto ao preconceito escancarado, ao favorecimento descarado dos interesses dos ricos, à presunção cínica de naturalizar diferenças sociais e processos de exclusão, tudo isso merece um churrascão mesmo: com ironia, com gozação, com carnaval, com todos os recursos desestabilizadores do conservadorismo que põe as asinhas para fora.

domingo, 1 de maio de 2011

Acerca de uma pergunta numa entrevista pós-jogo

Final do jogo SESI contra Cruzeiro, decisão da Superliga nacional de voleibol. Giovane é o técnico do SESI.
O time do SESI é melhor que o do Cruzeiro, e, embora eu torça para o Cruzeiro, recebo sem maiores dramas a indiscutível conquista do título pelos paulistas, que, ademais, já haviam sido a equipe mais bem colocada na primeira fase. O quarto set é um verdadeiro massacre.
Todos comemoram, se abraçam, repórteres entram em quadra, puxam o Murilo para entrevistar, puxam outros jogadores, puxam o técnico. O repórter se posiciona para as perguntas. Giovane também. O repórter capricha:
- O que é mais emocionante, Giovane, ganhar a Superliga como técnico ou ganhar as Olimpíadas e o Mundial como jogador?
Eu paro. Estupefato. Não é possível que o rapaz perguntou isso. Mas perguntou mesmo. Pela cara que fez o Giovane deu pra ver que ele se atreveu.
E passam milhões de coisas pela minha cabeça.
1) A não ser que eu esteja muito enganado, é preferível ser medalhista das Olimpíadas até como gandula que ganhar a Superliga nacional como jogador. Não há comparação possível. Aliás, comparar isso seria absolutamente ridículo em qualquer outra situação, quanto mais nessa!
2) Se não estou imensamente equivocado, para muitos atletas, tornar-se técnico não é exatamente a primeira opção, mas sim a alternativa de manter-se em atividade quando a carreira declina. E a postura de técnico, inclusive em termos de envolvimento e distanciamento, é absolutamente outra, impossível de ser comparada com a de jogador em atividade.
3) Ou eu estou ficando louco ou era óbvio que Giovane acabara de vencer um campeonato longo e disputado e estava no momento de saborear a conquista. Nessas condições, não seria polido, nem oportuno, nem sequer inteligente perguntar-lhe sobre outro assunto que não se relacionasse à conquista. Na verdade, a pergunta é um absoluto contraclímax do momento emocional vivenciado pelo entrevistado. É como pegar um adolescente dançando numa festa e perguntar o que a mãe dele acharia disso.
4) Imagino que o repórter esperava uma declaração bombástica do tipo: "a emoção é a mesma" ou "a emoção é maior na Superliga". Se ele obtivesse essa resposta, ela seria evidentemente falsa e demagógica, servindo apenas para alimentar polêmica ou fazer uma manchetezinha sensacionalista. E, por outro lado, se ele obtivesse a resposta óbvia, a de que a Olimpíada e o Mundial são muito mais importantes, não teria acrescentado nada à sua entrevista. O que me leva a concluir: a pergunta ou era inútil, ou capciosa.
5) Se a pergunta era inútil ou capciosa, cabe-me perguntar: por que foi feita? Se alguém me disser que fazer perguntas capciosas é importante para o jornalismo, para satisfazer a curiosidade do espectador ou surpreender o entrevistado em algum deslize, eu mudo o questionamento: afinal, para que é o jornalismo, então? Se ele serve só para isso, não é melhor não ter?
6) O Giovane respondeu de uma maneira esperta, brilhante, sagaz. Ele disse que só não estava em quadra porque já não conseguia, caso contrário estaria também. Essa resposta matou a pau. Primeiro, porque mostrou que o repórter comparara situações profissionais incomparáveis (jogador e técnico). Segundo, porque evidenciou que os títulos como jogador são mais importantes (e assim afastou, por eliminação, a necessidade de se posicionar em relação à comparação Superliga versus Olimpíada). Terceiro, porque retomou o foco na comemoração daquele título, conquistado naquele dia. Quarto, porque, desmontou a estratégia capciosa do repórter. Quinto, porque, de certa forma, ao não recuperar os termos da pergunta, a resposta explicita que aquela foi mal feita, ou nem deveria ser feita.
7) Eu estou estudando Linguística esses dias, e, ainda com essa cena impressionante na cabeça, deparei com dois trechos de textos teóricos que me ajudaram a compreender minha indignação. O primeiro é sobre a circulação do dizer na sociedade. É assim:

"(..) em estudos recentes, tem havido a preocupação de mostrar que a comunicação rompe muitas vezes o caráter intimista de um diálogo entre o eu e o tu, aqui e agora. Nesses casos, rompe-se o dialogismo mais estreito e alarga-se a circulação do dizer na sociedade. (...)
No caso das entrevistas, na televisão ou na imprensa escrita, estabelecem-se três relações de comunicação: entre o entrevistador e o entrevistado, entre o entrevistador e o público, entre o entrevistado e o público. Em outras palavras, a relação entre o entrevistador e o entrevistado, que é a única explicitada nessa comunicação 'alargada', dependerá (...) das relações dos interlocutores com o público. Na verdade, a comunicação com o público é o objetivo primeiro da comunicação entre entrevistador e entrevistado" (FIORIN, José Luiz (org.), Introdução à linguística. São Paulo: Contexto, 2010, p. 46).

Para mim, tudo ficou muito claro. O entrevistador, querendo empatia do público ou aprovação por uma atuação mais incisiva, fez a pergunta com objetivo de colocar Giovane nas cordas. Giovane, que sabe que é pessoa pública, que tem um público específico de aficcionados por ele, pelo vôlei ou pelo SESI, saiu das cordas com destreza e deixou claro, não para o repórter, mas para a audiência, que entendeu a armadilha e que não cairia nela.
Mas o público não é uma entidade passível de ser completamente conhecida. Na verdade, é uma entidade um tanto quanto abstrata. O público não é o índice do IBOPE, é algo complexo, variado, de difícil definição e apreensão. Quem lida com essa entidade tão complicada de conceituar tem de ter um norte, uma base, um fundamento. Na falta deste, vem à tona uma espécie de generalização, meio simplificadora, meio redutora, do que seriam os interesses da audiência. Essa imagem (considerada em sua complexidade ou simplicadora e generalizante) é o que, em Greimas, define-se como simulacro, ou seja, "representações das competências respectivas que se atribuem reciprocamente os participantes da comunicação e que intervêm como algo prévio, necessário a qualquer relação intersubjetiva" (FIORIN, José Luiz (org.), Introdução à linguística. São Paulo: Contexto, 2010, p. 46). O repórter forma mentalmente um simulacro do espectador, e isso guia a formulação de sua pergunta. O simulacro, nesse caso, é uma imagem negativa, aética, de mediocridade, como se o público estivesse ali para cutucar Giovane, e não para compartilhar a alegria da conquista. O entrevistado também trabalha com um simulacro de seu público, bem mais positivo. Ele entende que não é oportuno fazer comparações com outras conquistas, e, ao mesmo tempo, que é necessário ser polido e reencaminhar a entrevista que está sendo realizada, em respeito a quem o acompanha pela televisão.
Eu não trabalharia com uma imagem negativa de público, se fosse o entrevistador. Ou seja: eu não teria feito aquela pergunta. Por outro lado, se há orientação explícita ou implícita dentro do jornalismo para uma atuação tão desrespeitosa em relação ao espectador, quase o chamando de idiota, eu fico achando que algo no jornalismo se perdeu. E se essa orientação estiver correta em sua construção do simulacro da audiência, só me resta rezar.

terça-feira, 8 de março de 2011

As perguntas certas

Às vezes eu aparecia em casa com uma novidade amorosa, e as pessoas, como bem se sabe, logo espalhavam aos quatro ventos. Eu era tímido e sensível, e, por consequência, muito recatado em relação aos meus relacionamentos. Meus amigos não eram nada disso. Fazia parte da masculinidade falar e falar e falar, e contar vantagens tanto quanto possível. Então, pode-se imaginar o rol de perguntas que eram constantes nessas situações:

- E aí, já comeu?
- Ela é gostosa?
- Ela tem um bundão? Ela tem peitão?
- Ela faz de tudo?
- Ela tem ciúme de você?
- Ela se veste bem?
- A família dela aceitou normalmente? A família dela é liberal?
- Ela tem grana?


E outras afins, que durante algum tempo acreditei serem uma forma razoável de medir as aspirações em relação a uma garota.
Acreditei, mas no fundo nunca aceitei. Algum anjo torto me fez diferente, e a verdade é que nunca me fizeram as perguntas certas, que não eram essas. As perguntas certas, que ninguém me faria, eram as que eu, no fundo, me fazia todas as vezes, porque nunca gostei realmente de "garotas", e sim de mulheres. Eu queria que me perguntassem:

- Como ela trata você? Como um namorado, um bibelô, ou um ser humano, digno de elogios e broncas?
- Ela se dispõe a dividir coisas, opiniões, a conceder, a ser razoável?
- Ela trabalha em algo admirável, construtivo, bacana? Ela defende causas nobres, luta por pessoas indefesas, protege seus familiares e dependentes?
- Ela acredita em seu próprio potencial como pessoa, e em sua personalidade, mais que em sua imagem pública, para ser atraente?
- Ela é carinhosa? Ela aceita que você seja carinhoso?
- Ela compreende quando você chora, e sabe acalmar quando você se enerva?
- Quando ela quer alguma coisa, ela vai atrás, ou fica esperando você descobrir que ela quer?
- Quando ela gostou de você, ela teve a firmeza de assumir isso sem joguinhos?
- O que ela faria se você não manifestasse interesse a princípio? Desisitiria, ou insistiria?
- O que ela faria se não tivesse interesse em princípio? Esnobaria, ou seria clara, sincera e, ainda assim, delicada?
- Você sente que poderia perdoá-la por qualquer coisa que ela fizesse, sem ressentimentos?
- Você deixaria de fazer algo muito estimulante para não magoá-la, não porque sinta que ela descobriria, mas porque sente que ela não merece?
- Ela é capaz de encarar fases ruins? De manter um laço de ternura e respeito com você mesmo quando o sexo, o stress cotidiano e a rotina tornaram-se problemas?
Por fim, a maior perguntas de todas: - Você teria vontade de ter filhos com essa mulher?


Não, ninguém entenderia isso. E ninguém entenderia que essas perguntas não implicavam, em nenhum momento, um vínculo institucional, como o casamento, ou sequer a busca disso. Porque o amor, a admiração, a percepção de que alguém é especial, independe da sorte de ter essa pessoa a seu lado. Uma grande mulher não precisa gostar de você, ela só precisa ser o que é, com integridade. Se eu tivesse levado a sério as perguntas certas; ou melhor, se eu simplesmente tivesse conseguido formulá-las conciente e explicitamente, teria sido muito mais homem, e muito mais digno das mulheres que me amaram e que eu amei no decorrer da minha vida. Hoje, arrogo-me a intenção de transformar esse "se" em "sim", manter-me amando apesar de meus erros, e ser digno do amor de quem sempre esteve ao meu lado.
Hoje é o Dia Internacional da Mulher, e eu gostaria de deixar claro, nesta postagem, o quanto admiro, amo e respeito as mulheres de minha vida (minha esposa, minha mãe, minha irmã, minha sobrinha), as mulheres que conviveram comigo e as mulheres em sua generalidade, para além dos meus interesses imediatos ou da função que o mundo - ainda machista - lhes atribuiu.

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Homenagem mais bela e tocante é a do meu amigo Flávio Mello, nesta indefectível postagem.
Vale conferir.

domingo, 6 de março de 2011

Cuidar de mim

Venho cumprindo rigorosamente uma das decisões de ano novo que estariam, noutros tempos, fadadas ao esquecimento: cuidar da minha saúde.
Em anos anteriores, minha insaciável necessidade de aprovação externa fez com que eu tentasse abraçar o mundo com as pernas, e todos sabem que o preço disso costuma ser dramaticamente alto.
Resolvi, então, mudar de rumo. Venho me alimentando melhor, evitando trash food e investindo em refeições no lugar de lanches.
Venho frequentando com assiduidade a academia de musculação, sem pressa de resultados, porque não tenho mais 20 anos, e porque sei que minhas belezas vêm de fontes diversas, às vezes invisíveis.
Tratei de fazer alguns exames preventivos de problemas que volta e meia reaparecem. O primeiro resultado foi animador: não tenho mais cálculos renais a eliminar, o que mostra que o novo hábito de beber líquidos constantemente deu resultado. O segundo foi engraçado: pensei que tinha um monte de verrugas novas, mas na verdade são erupções de pele que aparecem em pessoas que engordam muito (o médico precisava ser tão claro? ;-)). Nada que um tratamentozinho não resolva, ainda que implique em dez dias sem perder calorias na esteira, já que a área envolvida localiza-se entre as coxas. (Aproveito esse tempinho que sobrou para atualizar o blogue.)
Decidi, também, não fazer nenhuma loucura profissional. Limitei as aulas noturnas a três dias por semana, vou fazer os estágios que devo na Uninove na medida do possível e vou me permitir cortar ou adiar tudo o que interferir diretamente em minha saúde.
Esses dias, alguém me disse algo bacana. Disse que ter quarenta anos hoje equivale a ter vinte em outros tempos, porque as pessoas chegam mais inteiras a esse período da vida, e podem, com a estabilidade profissional, empreender iniciativas até então podadas pela falta de dinheiro ou por outras urgências. Gostei muito desse raciocínio. Caiu como uma luva neste que vos escreve, que vai publicar um tão sonhado livro nos próximos meses e planeja construir, finalmente, um trabalho musical consistentemente produzido.
Eliminadas as pressões da busca do sucesso a qualquer preço, da insegurança em relação aos próprios potenciais, da necessidade de aprovação social explícita, da instabilidade emocional interior da juventude, parece que tudo começa a se encaixar na mente da gente, e os passos são menores, mas mais firmes e calculados. O saber acumulado, a saúde física, a confiança na capacidade profissional e o autoconhecimento somam-se, formando um todo maior que as partes. Tenho vontade de fazer muitas coisas boas, não somente porque sejam boas para mim, mas também porque são boas em si mesmas. Posso aturar fases mais difíceis e tarefas menos gloriosas, porque não preciso mais brigar com o que a vida me oferece. Enfim, quero estar melhor comigo mesmo, e romper em definitivo os contratos com as expectativas dos que não sabem quem realmente sou.
Tenho o compromisso de terminar 2011 inteiro, por dentro e por fora. Já consegui a sexta parte disso. E foi muito bom.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Tempestades

Na minha religião, as tempestades são respeitadas. Quando os primeiros estrondos surgem depois do céu escurecido, preparo-me para um recolhimento espiritual. Desligo todos os aparelhos eletrônicos, todas as lâmpadas, todas as invenções humanas que utilizam eletricidade. Bem sei que a ousadia de mantê-las ligadas pode ser punida com a raiva divina, capaz de ceifar suas vidas úteis de forma definitiva. Dentro de mim, desligo também uma série de coisas. O choque constante e violento da água contra as janelas fechadas deve ser ouvido com atenção, em tudo o que tem a dizer. Os raios e os trovões merecem ser observados e ouvidos, mas sem que percebam. O medo de ser atingido deve levar a uma imobilidade física catártica. Só é possível sentir os arrepios de susto depois dos relâmpagos se nos mantivermos silenciosamente atentos, deitados ou sentados, desprovidos de qualquer intenção posterior (seja sair, lavar louça, ler, ver televisão) ou incômodo anterior (seja culpa, ansiedade, raiva, tédio). É preciso abandonar a mente ao temor primitivo de nossos ancentrais nas cavernas. É preciso pensar que nossos escudos de proteção (o teto, as paredes, os para-raios) poderiam, como todas as criações da espécie humana, falhar diante da perene demonstração de força dos elementos. Só quem compreende misticamente o sentido da tempestade é capaz de beber desse estranho e belo medo entranhado no inconsciente coletivo, poderoso como o que sentimos ao imaginar os piores vilões, os maiores heróis, e os deuses em fúria.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Trote

Quando era criança e meus amigos me chamavam para jogar bola, bolinha de gude ou taco na rua, não foram raras as vezes em que preferi ficar em casa, isolado de todos, lendo. Para algumas coisas, acho que sempre fui uma alma velha; a idade madura, na verdade, não foi mais que o reconhecimento de uma identidade que, por vezes, neguei.
Talvez seja essa falta de espírito de adolescente a grande razão de meus fracassos na juventude e minhas conquistas na maturidade. Mas isso é questão para uma postagem mais longa. O que me importa, aqui, é revelar como essa tendência`prematura à seriedade e ao comedimento sempre me impediu de dar aval a um dos ritos de passagem de nossa sociedade.
Critiquem-me, discordem, vituperem, riam de mim, pouco importa. Serei sincero: sempre achei o trote uma babaquice. Nunca entendi, nunca vi graça, nunca quis fazer com os outros. Para mim, a única coisa que ele representava era a possibilidade de exercitar preponderância física e psicológica sobre um grupo de novatos, e, não raro, de descarregar instintos mais violentos. Talvez eu tenha me divertido com uma ou outra situação, mas aquilo nunca foi importante para mim.
Fui "trotado" três vezes: quando entrei na escola técnica, quando entrei na Filosofia da USP e quando retornei à USP para fazer Letras. A terceira não conta, porque os veteranos praticamente nada fizeram comigo, visto que eu tinha mais tempo de Universidade que a maioria deles e aquilo não era exatamente um ingresso para mim. Mas eles pintaram meu braço, numa estúpida concessão que fiz, apenas para parecer menos antipático. A segunda foi estimulada por uma ex-namorada, que me levou aos veteranos de Filosofia e Sociais. Fui para casa todo pintado, para não ter de contrariá-la e parecer menos ranzinza do que sou; outra vez, fui bobo. O primeiro trote era bem mais violento e invasivo. Além de me pintarem, jogaram um creme(?) metálico no meu rosto, que causou irritação na pele por alguns dias. Dessas experiências, que vivi de forma submissa e passiva, não tirei nada, nem em termos de integração com os veteranos, nem em termos de satisfação pessoal por participar da brincadeira.
Sou muito chato, admito. Não bebo, sou tímido e abomino atitudes invasivas e ameaças. Para mim, trote não serve para nada, só para encher o saco, e me deixar com raiva por não ter enfrentado com coragem a intimidação que sofri. Mas esta não é uma posição apenas em relação à minha vivência de trotes. Eu não vejo graça neles em absoluto. Hoje, vi trotes sendo aplicados na USP, no Mackenzie (em frente à minha casa) e no caminho do ônibus que tomei à tarde. A mesma coisa de sempre. Calouros intimidados, alguns poucos se divertindo, voltando para casa cobertos de tinta e sem descobrir nada de novo, produtivo ou interessante sobre a graduação em que acabavam de ingressar. Veteranos usando os mais novos como marionetes de espetáculos cretinos e constrangedores. Honestamente, fiquei chateado com aquilo. Vinte anos de universidade e as pessoas ainda não conseguiram criar uma recepção que não passe por essas brincadeiras surradas.
Respeito as pessoas que gostam do trote e entendem que ele representa uma perspectiva de integração e uma forma de tornar marcante o primeiro contato de um estudante com sua nova casa. Sinceramente, acho que há muitas experiências que são positivas em relação a isso, e conheço gente que gostou de levar trote e gosta de aplicá-lo. Mas isso depende de uma certa disposição de espírito para a novidade e uma certa tolerância com a brincadeira que, definitivamente, não possuo e nunca possuí. E respeitar a posição alheia não significa concordar com ela.
Eu passei pelos meninos hoje com vontade de ter em mãos um pano ou guardanapo qualquer e uma garrafa com água, para ajudá-los a limpar a sujeira que ficou sobre seus corpos. Pensei que, se fosse uma pessoa corajosa, sabotaria o trote da FFLCH oferecendo condições para os calouros se limparem e voltarem para casa com a aparência que quisessem voltar. Como não tenho essa coragem toda, limito-me a manifestar minhas discordâncias neste espaço protegido da internete. Mas, pelo menos, tenho coragem de admitir que sou um careta conservador em relação a recepções de calouros. E que, se nunca consegui relativizar essa opinião, foi simplesmente porque nunca quis, e nunca ninguém me convenceu a querer.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Torcer, acompanhar, apreciar

Dividi algumas opiniões no Facebook com um amigo meu sobre o Australian Open. O mais bacana desse nosso diálogo internético foi que ninguém ficou agitado, defendendo um ou outro atleta, fazendo bravata ou exagerando observações. Parece-me que ambos queríamos ver bom tênis, esporte bem praticado, jogadas disputadas, enfim, algo que valesse a pena curtir na madrugada.
Eu fiquei pensando comigo mesmo, depois, se não seria esse o jeito certo de torcer. Então concluí que não se trata de certo e de errado, não se pode predeterminar como as pessoas devem "sentir" um espetáculo esportivo. Trata-se, na verdade, de entender as formas de envolvimento do espectador.
Acho que a própria palavra "espectador" no lugar de "torcedor" já antecipa um pouco meu raciocínio. É que eu acredito que algumas pessoas, quando estão vendo futebol, vôlei, F1, basquete, hóquei, etc., torcem, ou seja, escolhem um lado e vibram com jogadas que beneficiam o lado escolhido e com jogadas que prejudicam o adversário. Esse comportamento é característico do torcedor fanático, das torcidas organizadas, do sujeito que "veste a camisa", simbolicamente ou literalmente. Há gradações, evidentemente, que vão do cara que não usa uma camiseta verde por ser corintiano até o sujeito que nem torce tanto assim e quando vê que seu time está perdendo, já se desinteressa. Mas acho que é possível identificar o comportamento geral do torcedor como de um espectador que tem alterações emocionais mais fortes conforme seu time/atleta de coração aproxime-se ou distancie-se da vitória.
Nem todo mundo é assim. Existem também pessoas que gostam de um clube, de um atleta, de uma equipe ou seleção, mas não consideram importante nem prazeroso ter reações emocionais fortes. Torcem para o Corinthians, o São Paulo, o Flamengo, o Santos, o Cruzeiro, mas não vestem camisetas do clube, não compram chaveirinhos, não sabem quais são as chances de título, não se inscrevem no tuíter, nem nada. Essas pessoas não se enquadram no comportamento anterior. Elas acompanham um jogo de futebol ou vôlei ou basquete até onde têm paciência e consideram produtivo, mas podem perfeitamente ser interrompidas por telefonemas e chamados, ou simplesmente ir fazer outra coisa.
No mesmo balaio desses "torcedores mornos", eu incluiria aquelas pessoas que não têm uma equipe de coração específica, ou um atleta que admirem em especial. Comportam-se como o gremista assistindo a um jogo da terceira divisão de Pernambuco: apenas observam o que está acontecendo, gostam de uma ou outra jogada, pegam no sono quando a coisa está muito feia. Não assistem ao espetáculo esportivo para torcer para um lado, mas sim para acompanhar alguma narrativa que faz algum sentido no meio do vazio do não-fazer-nada (mais ou menos como os que veem os capítulos intermediários e sem peripécias de novelas e seriados). Esse comportamento geral eu classificaria como o do "acompanhador": ele segue a narrativa do jogo, do desempenho da equipe, das conquistas/derrotas de um atleta, mas isso não o mobiliza emocionalmente a ponto de colocá-lo em estado de tensão, ou de fazê-lo vibrar emocionalmente fora do que lhe é comum.
Por fim, acho que há um terceiro comportamento geral em relação a espetáculos esportivos. Esse comportamento pode aparecer tanto no torcedor como no "acompanhador", mas precisa de uma brecha: no caso do primeiro, precisa de menos fanatismo e envolvimento emocional; no caso do segundo, precisa de mais investimento de atenção e maior atribuição de importância ao espetáculo. Trata-se da apreciação (apreciar é, etimologicamente, "colocar preço em", ou seja, atribuir valor a), forma de se relacionar com o acontecimento esportivo que implica reconhecimento de aspectos estéticos e poéticos no desenvolvimento do mesmo.
Apreciar um jogo de futebol é diferente de torcer. Quando simplesmente torcemos, podemos odiar Zidane, porque seus gols nos derrubaram numa final de Copa do Mundo. Quando apreciamos um jogo de futebol, somos obrigados a reconhecer a beleza e o talento de Zidane, mesmo que ele vista a camisa adversária. Assim também ocorre em outros esportes. Podemos torcer para a Rússia, mas temos de aplaudir o Dream Team. Podemos torcer para Ben Johnson, mas não é possível aplaudi-lo por vencer dopado. Quando apreciamos um espetáculo esportivo (e é por isso que gosto de usar a noção de "espetáculo"), é porque valorizamos a história daquele esporte, a competição dentro das regras, a inteligência de procurar estratégias, o empenho de se dedicar até o último momento, a decência de proporcionar a quem pagou ingresso ou faz parte da plateia eletrônica civilidade e respeito em relação ao adversário.
Apreciar também é diferente de meramente acompanhar. Quem meramente acompanha, cria uma certa distância do espetáculo, perde determinadas concentração e capacidade de observação que são próprias de quem está envolvido com o que vê. Podemos acompanhar o Brasil na Copa do Mundo por n razões, mas, se realmente apreciamos o futebol como espetáculo, não nos desinteressamos imediatamente após a eliminação. Ainda persistimos como espectadores para ver gols bonitos, jogadas empolgantes, nós táticos. E principalmente para ver talento, venha de onde vier (Messi, Cristiano Ronaldo, Zidane, Maradona..).
Creio que a apreciação, como é menos irracional que a torcida, não seja tão conveniente à forma como o esporte, em geral, é vendido na sociedade do espetáculo. A apreciação não fideliza o cliente em relação à marca. O cliente torna-se questionador: "sou corintiano, mas o futebol que meu time joga não vale pagar 500 reais num ingresso"; "gosto do tênis do Murray, mas Djoko mereceu vencer"; "o nado de Ian Thorpe é mais bonito que o de Phelps, mesmo que este último seja realmente invencível"; "ganhamos a Copa do Mundo em 94, mas o futebol da seleção de 82 era mais vistoso". E o cliente questionador quer qualidade, não preenchimento de suas angústias emocionais. Talvez seja por isso que nunca me dei bem com o estilo Galvão Bueno de narrar, nem com a obrigação de entregar-se de corpo e alma a um time só (comprei, por achar bonitas e coloridas, camisas de vários times diferentes de futebol), nem com a falta de educação de algumas hordas estúpidas que agridem verbalmente ou fisicamente os atletas, e muito menos com a transformação do esporte em palco alegórico de disputas políticas e babaquices nacionalistas. Talvez seja por isso que eu e meu amigo pudemos comentar, com equilíbrio e bom humor, tantos jogos bonitos, que vimos por serem bonitos, acima de tudo.