domingo, 26 de julho de 2009
Todos choram na TV
Fiquei incomodado com o fato de muitos dos programas que vi insistirem numa mesma fórmula apelativa: fazer chorar seus participantes. Na TV por assinatura, vi dois programas relacionados à aparência das pessoas, um chamado "10 anos mais jovem" e o outro "Esquadrão da moda". As meninas que protagonizaram esses programas queriam mudanças em seu visual, para parecerem mais belas ou mais sexys. São reality-shows interessantes, sem dúvida, cujos ápices são as transformações finais e o ganho de autoestima das participantes. Pergunto: nos dois casos, qual foi a reação que coroou essa mudança para melhor diante das câmeras? Resposta: o choro agradecido de ambas.
Além desses programas estrangeiros, vi os shows de auditório de Luciano Huck, Netinho de Paula, Silvio Santos, e outros de que não me lembro o nome. Em quase todos, há alguém despossuído, pobre ou desempregado solicitando algo, que lhe será dado em frente às câmeras - em troca de alguma apresentação, ou mesmo sem contrapartida - para que esse ser humano possa se sentir melhor de alguma forma. Novamente me chamou a atenção que o clímax dessa boa-vontade televisiva é, em 100% dos casos, o choro, mais ou menos contido, do beneficiado.
É impressionante o quanto o choro das pessoas comuns é explorado nos programas de televisão a que assistimos. Se é, na maioria dos casos, um choro de comoção pela conquista de algo, menos mal. Mas, depois de algumas horas na frente da tela, o telespectador fica com a impressão de que já viu aquela cena, e não poucas vezes. Será que a comoção não perde um pouco de seu efeito quando fica inserida numa lógica tão evidente, pouco criativa e previsível?
É curioso isso me incomodar, porque sou extremamente emotivo e choro com facilidade. Se o choro parece um recurso superexplorado até para alguém como eu, é porque tem havido, por certo, exagero. Creio que há outras manifestações da emoção humana tão transbordantes quanto as que tem sido exaustivamente exploradas pelos "shows da vida" que invadem nossas casas.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Três reflexões a partir de Barry Lyndon
Com música e cenários primorosos, narra-se a pequena odisseia desse homem comum, suas aventuras, seus amores, seus desafetos, sua busca incessante de colocação. Não vou contar nada do enredo, isso é feio de fazer. Mas proponho três questões para discutir a atualidade da obra.
1) Kubrick trabalha o tempo todo com a ideia de que, para Barry, a inserção no mundo da elite europeia, ao qual aspira, depende de um esforço descomunal e de uma esperteza atenta aos vícios e concupiscências dos seus membros. Barry alcança estabilidade financeira porque se especializa no jogo de cartas e em seus truques, aproveitando-se do vício irrefreável de apostas comum a tantos nobres daquele tempo. Penso se não podemos traçar um paralelo entre esse comportamento e aquilo que vemos, por exemplo, em relação aos poderes paralelos da sociedade atual. Por exemplo, quando vemos traficantes e chefes de facções manipularem uma rede de influências que abarca advogados, juízes, policiais, deputados, empresários. Quando vemos, por exemplo, espertalhões que enriquecem com contrabando sendo chancelados, defendidos e até admirados pela alta sociedade, como no caso da Daslu. Pergunto-me se essa figura meio gatuna, meio bajuladora, meio bandida, uma espécie de penetra intocável, seria a resposta velhaca dos excluídos à hipocrisia vaidosa das elites, patente no descompasso entre o discurso de validação do poder e o violento processo histórico de consolidação dessa condição.
2) Kubrick, no finzinho do filme (isso posso contar porque não tem influência na história) coloca uma frase bonita, mais ou menos assim: "Bonitos ou feios, ricos ou pobres, bons ou maus, estes homens e mulheres aqui retratados são, hoje, todos iguais". Não sei se posso dizer que se trata da questão da morte como fator de nivelamento último dos homens. Acho que é mais que a morte: é a finitude da vida. Seja quem for, seja qual for a época em que viveu, cada ser humano é limitado por um tempo de estar no mundo, e um de seus maiores desafios é dar um sentido a essa limitação. A busca por esse sentido, que é diferente para cada indivíduo, é o que de certa forma o singulariza perante os outros. Mas, por outro lado, é também aquilo que ele tem mais evidentemente em comum com outros indivíduos, de outras épocas e lugares. Creio que, no fundo, quando nossas vidas forem olhadas da distância de séculos, pareceremos, em todas as nossas peculiaridades e escolhas, homens procurando algo, homens aprendendo a viver, homens descobrindo a si próprios. Será que essa é uma noção que não temos porque não olhamos nossas vidas de fora, nem de um tempo posterior, no qual já não estaríamos preocupados com o sentido imediato das coisas, e sim com o sentido que elas têm para o conjunto de nossa obra?
3) Barry, no filme, chega a cidades esvaziadas, onde encontra mulheres cujos maridos foram à guerra para retorno incerto. Com elas, tem relações passageiras, fugazes, desenganadas. O narrador diz que, para essas mulheres, foi necessário aprender a amar com certo despreendimento, para que pudessem tocar a vida sem a mágoa da perda (isto é uma paráfrase, mas o sentido é mais ou menos esse). Fiquei pensando se essa não seria uma reflexão sobre relacionamentos amorosos: se as formas de amar, ou aquilo que nós identificamos como amor, não dependem também, em grande medida, de nossas experiências históricas, de nossa cultura, das particularidades do tempo em que vivemos. Será que verdadeiramente compreendemos o modo de amar dos gregos, dos povos pré-colombianos, dos celtas? Se pensarmos que cada indivíduo tem uma história de vida a considerar: será que entendemos o que é o amor para outras pessoas? Se pensarmos que mesmo os conceitos têm uma história a considerar: será que isso que chamamos de amor é uma boa generalização para tantas formas diferentes de lidar com as paixões pelos outros?
Não cobro de Kubrick que essas questões sejam respondidas satisfatoriamente. Ele não precisa nem me dar pistas. Barry Lyndon tem tudo o que espero de um grande filme: ele me pede que eu reconsidere o que sou. Ele conversa com minhas inquietações.
Se você não viu, vale a pena.
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Homens bonitos
Ocorre que os anos me fizeram descobrir que as coisas não são bem assim, que há muitas belezas possíveis para um indivíduo e - a mais encantadora das descobertas que fiz nesse sentido - que as mulheres em particular têm uma sensibilidade especial para identificar atrativos diferenciados nos homens.
Há um tempo atrás, li uma postagem do Idelber em que ele falava da beleza das mulheres de BH, comparada à aparência não destacável dos homens (na verdade, Idelber não cita esse aspecto, mas a tendência de eles serem desinteressantes no geral; eu já estive em BH, e fica por minha conta afirmar, pelo que vi, que, realmente, as mulheres de lá são muito mais atraentes que os homens, rsrs), e ressaltava que, nessa cidade, era muito comum ouvir a frase "mas o que essa mulher extraordinária está fazendo com esse zé-mané?". O texto era muito divertido, falava de homens e mulheres de várias partes do mundo. Mas, de tudo o que li, foi essa frase que me ficou na cabeça, talvez porque, no fundo, em algumas das situações por que passei, achei que ela pudesse se aplicar a mim...
Penso que essa sensibilidade diferenciada feminina que citei anteriormente faz com que a figura do homem-objeto sexual, fisicamente atraente, seja menos universalmente desejada que a da mulher-objeto sexual, com as mesmas características. Na academia que frequento, há muitos homens muito sarados, alguns com corpo totalmente trabalhado. É curioso notar que boa parte deles não faria nenhum sucesso com a maioria das mulheres do meu círculo de amizades. Qualidades como gentileza, bom gosto, erudição, delicadeza, têm muito mais condição de chamar a atenção dessas mulheres que um bíceps torneado. Sei que isso está longe de ser regra, mas percebo que há vários exemplos de homens que não são padrões de beleza mas são sempre citados como atraentes, em função de certos traços de suas imagens públicas que têm um apelo intenso, por vezes indefinível. Vou citar alguns, e vou tentar explicar o que vejo neles, que pode ser o que as mulheres veem também.
1) Ferreira Gullar. Esse homem, já na casa dos 70, é um grande poeta, um grande intelectual, mas ele tem um algo mais. Ele, falando, é muito envolvente, muito bonito. Ele deixa transbordar o sentimento do que fala. Lembro de ter ido a uma palestra que ele fez na USP. Em dado momento, ele disse que era, por sorte, casado com uma poetisa bem mais jovem do que ele. Não acho que seja sorte. Gullar encanta as pessoas com sua experiência de vida e a intensidade que emite. Talvez seja sorte dos dois. A verdade é que muitas pessoas concordam comigo nesse ponto: ele é um homem bonito, com seus longos cabelos brancos e seu rosto envelhecido, que parecem trazer ainda mais intensidade à sua figura.
2) Roger Federer. Outro dia vi Federer numa lista de homens mais elegantes do mundo. Em segundo lugar, mais precisamente. Não acho que ele seja nenhum modelo fotográfico. Se você vasculhar o tênis atual, vai descobrir corpos muito bem talhados, como o de Nadal, ou caras muito bonitos no geral, como Tommy Haas. Mas pergunte às fãs de tênis qual o tenista preferido. A resposta, aposto, será Federer. A chave desse sucesso está, acredito, no charme desse cara: ele é elegante jogando, falando, caminhando, atendendo fãs, chorando, fazendo o que quer que faça. É alguém que emana boas vibrações, que se mantém sempre sereno, que respeita os adversários e que tem uma postura absolutamente invejável para quem sofre a pressão do esporte de ponta. E é alguém que tem muito sucesso no que escolheu fazer, aspecto que, de forma alguma, pode ser considerado irrevelante. É alguém que tem elementos de sobre para ser admirado. E a admiração pode muito bem servir ao desejo, como sabemos.
3) Bono Vox. Bono tem traços de rosto superfortes, e creio que não teria tanto cartaz com as garotas se só o conhecêssemos pelas fotos. Mas Bono é extremamente carismático. É um tipão, inteligente, articulado, com um ar meio sério, meio irônico, meio misterioso. Quando ele sobre no palco, não há como desgrudar os olhos dele. Sem contar que se trata de um ser humano muito rico, cheio de ideias e boas intenções, e de um cara talentoso pra burro. Admito, ele sabe construir uma imagem bacana também, com um figurino sempre meio rebelde, e aparições constantes nos mais diversos eventos politicamente corretos. Eu acrescentaria uma outra coisa: acho que ele tem algo de intenso, de bruto, de explosivo, que também contribui para a construção de um aspecto másculo de sua personalidade.
Vou ficar com esses três exemplos, mas teria muitos outros. Em relação a estes, o que fica para mim é a noção de que, se as mulheres são, como dizem, misteriosas em seus desejos, talvez haja uma chance de homens que não são padrões de beleza terem alguma coisa mais intimamente deles e menos visivelmente de todos capaz de dialogar com esse mistério feminino.
Eu diria, assim, que a expressão que o Idelber citou como comum em BH é perfeitamente justificável em relação aos homens a que me referi. Se, para esses casos, eu ouvisse um: "Como pode aquela mulher com aquele cara?", teria como responder: "Pode, sim, meu amigo".
O machismo muitas vezes nos cega para a beleza dos outros homens, nas várias formas que ela pode tomar. Ter descoberto isso depois de adulto pode não ter sido tão grande vantagem no fim das contas, mas com certeza serve para orientar uma opção permanente pela autenticidade e pela confiança no próprio potencial, e para repensar essa paranóia coletiva da indústria do corpo perfeito.
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A Manu também leu a postagem do Idelber, e se manifestou aqui, como boa belorizontina que é. Obrigado, Manu. Seu comentário, aliás, me fez perceber que a parte final do texto, mais especificamente o vocativo "meu amigo", pode dar a entender que estou criticando o Idelber, como se ele subscrevesse o machismo a que me refiro adiante no texto. Só para não ficar parecendo outra coisa: o "meu amigo" é para o indivíduo que não se permite ver as belezas não padrão de outros homens. O Idelber, como fica bem claro na postagem, não é desse tipo, e não usa a expressão que destaquei no sentido que eu quis aproveitar aqui no blog. Para deixar isso mais evidente no texto, fiz umas alterações em azul, mantendo o original em negro, tanto quanto possível, e recuperando o que o Idelber escreveu com mais justiça e precisão.
Viva, Manu! Saúde e felicidade a minha querida amiga de BH!
domingo, 28 de junho de 2009
O povo
Mas uma frase do Paulo nas entrevistas gravadas para o filme foi o que mais me chamou atenção. Ele diz, logo no começo, alguma coisa como: "O povo todo mundo, desse eu gosto bastante. Eu não gosto do povo cada um".
Essa sacada eu achei genial, não só pelas expressões "povo todo mundo" e "povo cada um", que sintetizam com poesia os aspectos de todo e parte do conjunto dos cidadãos. O que me pegou foi a percepção de uma questão de fundo filosófico muito presente na obra de um compositor tão ligado à sua cidade. A questão é: é possível gostar do povo sem entender o que é o povo? Quando julgamos captar a "essência" disso que é o povo, não acabamos perdendo os aspectos da diversidade, da individualidade, da exceção?
Quero tentar fazer aqui, a partir desse viés de interpretação, um exercício de reflexão bem particular . Sinto que, para mim, a frase de Vanzolini poderia se inverter. Tenho dificuldade de gostar do "povo todo mundo", e facilidade em gostar do "povo cada um". Sempre fiquei ponderando, mesmo antes de estudar Filosofia, que amar a humanidade, o povo, a nação, é muito difícil, a não ser que eu amasse apenas aquilo que os simboliza. É possível, por exemplo, uma mesma pessoa chorar ao ouvir o Hino Nacional e afirmar que "lugar de nortista é fora de São Paulo". Conheci muitas pessoas assim, e tenho dúvidas se elas realmente amam a nação. O que é nação para elas? A seleção brasileira jogando, a bandeira hasteada, a palavra "Brasil"? Não deveria ser a compreensão da necessária integração cultural entre as pessoas de diferentes partes do país?
Por outro lado - e repito, isso é uma visão muito particular - acho que o preconceito, o medo, a intolerância diminuem muito, mas muito mesmo, com a convivência e a troca. Viajei ao Rio de Janeiro há dois anos, e fiquei na casa de amigos de minha família. A companhia dessas pessoas, o carinho com que me trataram, a disposição de me levarem para conhecer lugares foram coisas que fizeram com que minha impressão sobre o Rio fosse absolutamente positiva. Mas ainda assim não sei se posso dizer que "amo o Rio". Porque o Rio é imenso, tem muita gente, muitos lugares que não são tão turísticos, muitos problemas, e não sei se tudo isso está fora ou dentro de minha forma de sentir essa cidade tão complexa. O que posso afirmar com convicção é que fiz muitos amigos no Rio, e deles gosto sem reservas. Foi assim em Vitória da Conquista. Foi assim em Gramado. E isso me faz crer que tenho muito mais facilidade de gostar das pessoas quando as conheço mais intimamente do que quando nada sei sobre elas. Então, considero mais difícil para mim dizer que gosto do "povo todo mundo".
Admito ter um pé atrás em relação às generalizações. Algumas parecem-me demasiado gratuitas. Como professor, não gosto muito de falas do tipo "o aluno de hoje é assim", "o professor de hoje tem de ser assado", "a criança se comporta de forma X". Uma das coisas que aprendi em sala de aula é que, se você não quer excluir, deve tentar ver as pessoas como são, e não como deveriam ou parecem ser. Alunos são diferentes, classes também, escolas idem. Fora do âmbito profissional, também não gosto de coisas como "quem faz isso é porque é aquilo", ou "isso é coisa de x, y ou z". Toda pessoa comporta um universo de coisas interessantes (quem disse isso foi a Beatriz Bracher, numa gravação do programa Letra Livre da TV Cultura à qual tive a felicidade de assistir), e isso é o que mais me estimula a viver cercado de gente de todo a sorte.
Há uma citação do genial Mikhail Gorbachev no livro de História com o qual trabalho nas 8ªs. séries (História, Sociedade e Cidadania, de Alfredo Boulos) que gostaria de trazer como contribuição. Consta que ela tenha sido extraída do livro Perestroika: novas ideias para o meu país e o mundo:
Penso que aqui seja adequado destacar uma característica especial do
socialismo: o alto grau de proteção social. (...) Mas constatamos também que
pessoas desonestas tentam explorar essas vantagens do socialismo. Conhecem
apenas seus direitos, mas não querem saber de seus deveres. Trabalham mal,
esquivam-se do trabalho e bebem demais. Há um grande número de indivíduos que adaptou as leis e costumes vigentes para servir seus próprios interesses
egoístas. Dão pouco à sociedade mas conseguem, apesar disso, obter tudo o que é
possível dela, e até mesmo o que parece ser impossível: vivem de rendas
imerecidas.
Essa parece-me ser uma outra forma de pensar a dicotomia entre "povo todo mundo" e "povo cada um". E vê-se aqui que essa não é uma questão qualquer: determinou o fim de uma era na história de nosso tempo. O grande estadista russo percebe, com clareza, que não há um "povo geral" para ser governado, e que aquilo que foi feito pensando no benefício de todos não é, necessariamente, valorizado por cada um. Percebe, ainda, que há diferenças individuais, notadamente as de mérito e de caráter, e que é preciso governar considerando essas diferenças. Percebe, enfim, que uma das grandes falhas do socialismo foi desconsiderar os indivíduos em função do conjunto que constituem, como se esse conjunto fosse homogêneo e unitário.
Poetas são poetas porque percebem primeiro. Vanzolini canta aquilo que é comum a muitos paulistanos, e consegue descobrir expressões simbólicas eficientes para dramas cotidianos de milhões de pessoas. Suas personagens são todo mundo, mas ele sabe que não são, ao fim, ninguém em particular. Gorbachev, por sua vez, homem público, não lida com personagens de canções. Lida com criaturas concretas de carne, osso e espírito, às vezes de porco. Em sua experiência, o povo "poético" dá lugar ao povo "político", um conjunto de forças que se unem e digladiam conforme a conveniência. Eu não tenho como olhar tão de cima, como eles. Mas em minha convivência com exemplares avulsos dessa coisa chamada "povo", posso entender um pouco do sentimento que quiseram passar.
sábado, 20 de junho de 2009
Interpretações
Seguindo este link, este e este, você se deparará com uma certa pesquisa que indica uma relação entre os sorrisos das pessoas nas fotos de quando eram crianças e o índice de divórcios dessas mesmas pessoas no decorrer de suas vidas.
Antes de qualquer desenvolvimento a respeito do assunto, quero dizer que não considero a pesquisa nem um pouco confiável, e sequer acho que os índices percentuais mostrados (repare: os 10% mais sorridentes, os 10% menos sorridentes, 5% de divórcios, 25% de divórcios) possam servir para quaisquer suposições a respeito dessa relação alardeada pelas matérias. Do ponto de vista científico, é temerário e até irresponsável traçar conclusões com evidências tão tênues, opções tão pouco rigorosas (o que é sorrir, afinal? pessoas que moram juntas mas se odeiam estão casadas ou divorciadas? etc.) e dados estatísticos tão inconclusivos. Além disso, as comparações entre quem sorriu mais ou menos se ativeram a um décimo dos pesquisados em cada caso, ou seja, não se construiu um gráfico de proporção entre sorrisos e casamentos com o universo de pesquisa, apenas compararam-se dois estratos desse universo entre si. E, não bastasse tudo isso, soa estúpido saber que "pesquisadores olharam os álbuns escolares de pessoas e analisaram seus sorrisos, atribuindo notas de 1 a 10 de acordo com a 'intensidade'", como se houvesse forma de quantificar algo tão subjetivo, pessoal e dependente de traços fisionômicos particulares.
A veiculação de matérias desse teor já é, por si só, mau jornalismo. Primeiro, porque dá visibilidade ao irrelevante, produzindo manchetes e suposições que não se sustentam. Segundo, porque apresenta o que é questionável até pelo bom senso como se fosse uma verdade científica. Por último, porque induz a raciocínios preconceituosos e redutores. Um exemplo dessa indução é o comentário abaixo, presente numa das matérias que linkei:
“Talvez o sorriso mostre uma atitude otimista em relação à vida” explica Matthew Heinestein, um psicólogo da Universidade DePauwn, no Indiana. “Ou talvez sorrir para as pessoas atraia outras pessoas felizes e, daí, surja uma união boa”.
Ou talvez as pessoas que mais sorriem nas fotos (visto que sorrir em fotos não é, de forma alguma, sinal de otimismo ou de felicidade, mas uma prática social convencionada) sejam justamente aquelas que mais se preocupam com a aparência, a forma como são vistas pelos outros. Por essa razão, também seriam as que mais dificilmente se divorciam, tentando sempre acreditar ou fazer acreditar numa imagem positiva de seus relacionamentos. Por que não considerar essa hipótese também?
Simples: porque ela não serve para a reportagem que se pretendia fazer. Se a divulgação midiática da pesquisa já é, em si, lamentável, a opção de interpretação da mesma, fechada, obtusa, acrítica, serve apenas para confirmar a opção pelo mau jornalismo. Os dados apresentados não permitem nenhuma conclusão, e, por isso mesmo, a interpretação psicologizante dos mesmos acima transcrita é tão válida quanto zilhões de outras, porque nenhuma se sustenta. Estamos, nesse caso, totalmente imersos na chave do talvez, e é fácil perceber que as análises dizem mais sobre predisposições mentais de quem analisa do que sobre os objetos investigados.
Alguns blogs que li e a própria matéria do Fantástico que linkei chegam a sugerir que as fotos das pessoas na infância deveriam ser vistas para se calcular as possibilidades de sucesso do casamento. Nem de brincadeira aceito isso. Apesar de divorciado (e extremamente sorridente em tudo quanto é foto, diga-se de passagem), ainda considero casamento uma coisa muito séria. Séria demais para ser tratada com preconceitos: o sucesso do casamento, obviamente, não está associado à sua duração, e a felicidade de um indivíduo e sua positividade em relação à vida nada têm a ver com o número de casamentos que ele faz. Essas pseudoverdades científicas, expostas com esse viés normativo e conservador, ao espalharem-se pelas mentes das pessoas menos esclarecidas e mais passivas em relação à mídia, produzem encanações, autojustificações e temores infundados que, ironicamente, em nada contribuem para "uma visão otimista da vida" ou um casamento "de sucesso".
Só não foi uma total perda de tempo ter lido as matérias sobre a pesquisa porque no fim produzi esta postagem, este desabafo. Da próxima vez, vou propor às empresas jornalísticas que exijam, anexadas ao currículo dos pleiteantes a vagas, fotos dos mesmos quando eram crianças. Talvez seja um critério coerente com a seriedade dos conteúdos que veiculam.
domingo, 7 de junho de 2009
De volta - 4 coisas
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A segunda é que Federer igualou Sampras e ganhou Roland Garros. Fiquei mais feliz por isso que pela goleada do Brasil sobre o Uruguai no Centenário de Montevidéu. Vi quanto Roger queria esse título, e todos sabem o quanto merece. Há atletas que são excelentes como atletas, que eu respeito e admiro, como Phelps, Pelé, Schumacher, e outros; mas não tenho paixão por eles. A diferença, para mim, no caso de Federer, é ver um SER HUMANO que admiro chegar ao panteão dos maiores de todos os tempos. Ele está ao lado de Muhammad Ali no meu coração. Sempre foi o melhor tenista de todos os tempos; agora, é também o maior.
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Outro dia vi num anúncio sobre Dom Casmurro a seguinte chamada: o livro que inspirou a minissérie Capitu. Ué? Alguém achava que fosse outro? Isso agora vai alavancar as vendas da obra? Ou eu estou ficando ultrapassado em relação à cultura de massa?
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Encontrei uma ex-aluna no Extra, aqui perto de casa. A mãe tirou a menina da escola, porque ela tinha dificuldades mentais. Não deixou que fizesse o médio, só o fundamental.
Três anos depois, reconheço a menina mais tímida, menos comunicativa, e com o olhar mais triste. Olhar que só se alegrou ao reconhecer minha namorada, que foi professora dela.
Se você, professor, às vezes julga que não faz diferença, é porque não vivenciou uma cena como essa em sua vida. Lamento pela atitude da mãe. A escola tem de ser, mais do que nunca, o lugar da inclusão, mesmo com todos os problemas.
sábado, 4 de abril de 2009
Currículo
Pensando nessas coisas todas, tentarei nas próximas linhas rascunhar um currículo que seja de fato vitae (ou seja, de vida), cuidando para que não fique parecido com os perfis de rede social, que são apenas uma outra forma de transformar aspectos irrelevantes em elementos de autodefinição. Aí vai:
1 - Sou paulistano, amo São Paulo, vivi em São Paulo todos os 35 anos de minha vida, e teria muita dificuldade de me adaptar a qualquer cidade culturalmente pacata.
2 - Trabalhei como voluntário no Socorro Emocional de Vila Maria por 2 anos, em um trabalho semelhante ao do CVV. Desisti por me sentir muito aquém do que me era exigido.
3 - Aprendi violão na raça, com meu pai e meu avô, e montei diversas bandas, sem nunca conseguir consolidar nada de efetivo. Toquei em muitos pequenos festivais, fiz uma curta e esporádica carreira como cantor de barzinho (ou músico de apoio do meu grande amigo Daniel Munhoz) e até hoje tenho como objetivo para algum dia gravar minhas composições e disponibilizá-las.
4 - Sou completamente apaixonado por música, uma das poucas coisas capazes de me enlevar. Pink Floyd, Sigur Ros, Madredeus, Beethoven.
5 - Consta que estudei telecomunicações na Escola Técnica Federal, mas lembro apenas que fiz excelentes amigos nessa época.
6 - Ganhei dois concursos literários na época do colégio. Depois, nunca mais ganhei nada, mas continuei produzindo poemas e textos curtos. Não sei por que, certa feita resolvi criar um blog de poemas, no qual coloquei um poema por dia de minha autoria durante um ano, entre 2004 e 2005.
7 - Sou de esquerda, sem radicalismos. Tive nojo de colegas que comemoraram o 11 de setembro, na época de faculdade. Recuso-me a celebrar a morte, a guerra, a infâmia e a desgraça, ainda que se relacionem a adversários políticos. Fiquei muito feliz com a eleição de Lula, embora tenha me decepcionado com alguns petistas. Não acredito nas soluções neoliberais, e ainda considero o povo capaz de gerenciar e fiscalizar o Estado segundo seu interesse.
8 - Votei em Lula, Marta, Eduardo Suplicy, Carlos Giamnazzi, Carlos Neder, Aloisio Mercadante, Covas (contra Rossi), Covas (contra Maluf), Cristóvão Buarque, Ivan Valente, Soninha, e outros que não foram eleitos. No geral, não me arrependi de nenhum desses votos.
9 - Moro sozinho, não sei cozinhar, meu quarto de dormir é uma bagunça, e vivo cercado de livros.
10 - Choro frequentemente. Há filmes que me pegam. Há livros que releio, chorando na releitura. Há músicas que me arrancam lágrimas. Há situações que me emocionam. E há vezes em que fico imaginando coisas que nunca aconteceram nem acontecerão, chegando a chorar nesses devaneios.
11 - Respeito e admiro todas as pessoas em suas orientações, opções e experiências sexuais. Quanto a mim, sempre me soube heterossexual e louco por mulheres. Acrescento que acho bonitas quase todas as pessoas que vejo, e sinto atração por uma quantidade enorme de mulheres, de todas as idades e etnias.
12 - Tive número razoável de paixões na vida. Considero possível apaixonar-se por pessoas de ambos os sexos, por animais de estimação, por ídolos, por filmes, por hobbies, e por muitas outras coisas. Minha primeira namorada talvez não tenha sido o porquinho da Índia (salve Bandeira!), mas há grandes chances de que fosse o jogo de botão.
13 - Casei-me com uma mulher extraordinária, mas nossa paixão esmoreceu rapidamente. Das paixões não oficialmente documentadas, e que envolviam, além da paixão em si, grande dose de desejo carnal e de admiração, uma pude desenvolver até os dias atuais, com muita satisfação. Considero possível amar apaixonadamente mais de uma pessoa ao mesmo tempo, ou em tempos diferentes, tanto quanto, por outro lado, considero possível não amar a ninguém durante toda uma existência. Quanto a manter relacionamentos concomitantes, acho mais difícil. A vida ainda é feita de escolhas, e as pessoas ainda precisam muito de segurança.
14 - Torço para o Cruzeiro, para a seleção brasileira, para o Roger Federer, para o Nilmar, para o Juventus, para o Barcelona, para o Massa, e para as meninas do futebol feminino.
15 - Vejo pouquíssima televisão (quase nada na TV aberta, excetuando-se a Cultura).
16 - Não gosto de saber de tudo um pouco, nem da angústia de me "manter informado". Não preciso saber a cotação do dólar todo dia. Desprezo o noticiário político, quase sempre partidário, fútil, preocupado com escândalos e fofocas e totalmente por fora das votações no Congresso e das decisões governamentais que nos afetam. Em compensação, fico muito tempo na internet, lendo blogs, entrando e saindo do Orkut e procurando notícias que me interessem. Já assinei jornais e revistas, mas já não acho que valha tanto a pena. Leio muitos livros, até por força da profissão.
17 - Poucas coisas me dão mais prazer na vida do que ministrar uma aula de literatura.
18 - Preciso aprender a ter menos vergonha e medo do ridículo. Não gosto de errar, nem de ser ridicularizado. Sou inseguro, e a opinião alheia me afeta negativamente. Isso geralmente configura-se como uma limitação.
19 - Odeio que me imitem.
20 - Se eu chegar a não gostar de uma pessoa (o que é raríssimo), não há retorno.
21 - Sou umas das pessoas mais sensíveis que conheço, e até hoje não sei se isso é bom ou ruim.
Bom, se o leitor chegou até aqui, acho que já sabe mais do meu caráter e da minha personalidade do que qualquer funcionário de RH que porventura vier a ler meu currículo. Dir-me-ão, por certo, que pouco do que afirmei pode ser documentado. Bem sei. Mas, no caso de uma entrevista voltada para o conhecimento de Carlos Vinicius como indivíduo, acredito que posso oferecer meu olhar como garantia.