Esses dias, indignado com a confusão e a loucura que se estabeleceram no prédio da faculdade responsável pela minha formação, desabafei em forma de piada no Facebook. Escrevi que a PM da USP tinha achado o assassino de Salomão Hayala (o vilão da novela das 11), com a intenção de dizer que tinha cometido exagero na atuação contra os estudantes pegos com maconha. Não sei se houve ou não exagero na abordagem, mas tenho certeza de que houve na condução.
Enfim, isso pouco importa. O que importa é que alguns leram a piada que fiz, que evidentemente implicava a incorporação de uma voz social conservadora atacando os uspianos, sem compreender a ironia das palavras, ou seja, o fato de que eu me solidarizava com os estudantes. Esse mal entendido gerou desconforto para mim, e tive de tirar a piada do ar, porque os comentários levavam a crer que eu tinha dito uma outra coisa.
Em função disso, quero esclarecer alguns pontos do meu pensamento, para que nada fique por interpretar, e as pessoas tenham clareza de algumas posições.
Primeiro, não sou a favor nem contra a PM no campus da USP. Não tenho nada, a princípio, contra a PM (talvez contra alguns PMs, mas que não creio representarem a insituição como um todo). Só que ainda não me convenci da efetiva necessidade dela, se por tantos anos tivemos uma guarda universitária que, bem ou mal, dava conta do recado. Não era mais simples equipar, preparar e reorganizar a guarda universitária? Mas, enfim, não é, no meu caso, nem questão de rancor, nem de medo, nem de nada. Apenas de entendimento.
Segundo, sou a favor da descriminalização do uso da maconha. Se o policial, na USP ou em qualquer outro lugar, ficar preocupado em prender quem está fumando um baseado, não tem polícia para tanta gente. E acredito que um sujeito enchendo a cara num barzinho e depois saindo com seu carro na madrugada é muito mais pernicioso que alguém que fuma maconha. A polícia precisa se focar em coisas mais importantes e perigosas para a sociedade.
Terceiro, não julgo o caráter das pessoas pelo uso ou não uso de nenhum tipo de droga, ou remédio, ou estimulante. Há canalhas abstêmios e pessoas indescritivelmente lindas que fumam, ou bebem, ou cheiram, ou injetam anabolizantes, ou abusam de remédios. O verdadeiro problema é o tráfico de drogas, não o usuário.
Quarto, acredito que as pessoas acabam criando, pelos padrões de comportamento socialmente observáveis dos estudantes, um estereótipo geral de quem frequenta cada faculdade. O perfil da FFLCH, para a maioria das pessoas, é de um frequentador mais desencanado, questionador, e zeloso da liberdade individual. O do Mackenzie, será outro, o da PUC, outro; e, mesmo dentro da USP, o da Medicina ou do Direito, outro e outro. Quando aconteceram as confusões dentro do campus, vi, li e ouvi pessoas querendo preconceituosamente desqualificar, com base em interpretações pobres e distorcidas derivadas desses estereótipos, tanto o aluno da FFLCH quanto o da USP como um todo. Não acho que podemos coadunar com esse tipo de pensamento. Não somos "vagabundos maconheiros", como algumas pessoas deixaram entender. Somos estudantes. Trabalhamos, lutamos por ideais, produzimos conhecimento, atuamos em vários setores da sociedade. E se alguns ou muitos de nós fumam maconha, não creio que a porcentagem seria diferente se pegássemos festas de elite nos bairros chiques de São Paulo ou pancadões na periferia, ou escolas de luxo e caríssimas e escolas públicas, como parâmetros de comparação. Fuma-se tanto na USP quanto em qualquer outra instituição de ensino, ou de qualquer outra coisa, no Brasil. Se a droga é um problema, é um problema da sociedade como um todo e não de uma suposta impertinência de um grupo social específico.
Quinta e última coisa, só para que fique claro o lugar de onde falo, e não porque eu sinta necessidade de me defender da hipocrisia alheia: eu nunca fumei maconha, eu não bebo, eu nunca utilizei drogas ilícitas. E não acho que seja melhor que ninguém por causa disso.
sábado, 5 de novembro de 2011
domingo, 11 de setembro de 2011
O entregador
Dia desses fui com a patroa fazer compras em mercado próximo de casa, mas não tão próximo que possibilitasse trazermos os produtos no braço. Perguntamos, então, a um dos caixas, se havia serviço de entrega; isso definiria o tamanho de nossa compra. O rapaz nos mandou falar com outro empregado, que estava ali perto. Esse era o entregador. Ele garantiu que conseguiria levar os produtos se fizéssemos a compra até as 19h00.
Como bom capricorniano, disciplinado e chatíssimo, fiquei calculando o tempo até que, perto de 15 minutos antes do prazo, encostávamos nosso carrinho em um dos caixas do mercado, para passar as mercadorias. Esse processo demorou um pouco, e, enquanto esperávamos, notei que o entregador me olhava com certa constância, tentando ler algum comportamento ou sacar algum traço que lhe seria importante. Pagos todos os itens, o rapaz sinalizou o funcionário do caixa alguma coisa e me chamou. Disse-me que a entrega implicava acréscimo de 6 reais na compra (disso eu já sabia) e pediu para que eu não pagasse esse dinheiro com a conta no caixa, e sim para ele, depois. Como para mim era exatamente a mesma coisa, aceitei, e na verdade nem estava ligando muito para isso. Estava preocupado com o fato de que iríamos a pé para casa, e as compras, indo de carro, chegariam primeiro.
Foi então que descobri algo que até então não supunha: as compras não iriam de carro. O rapaz colocaria as caixas em um carrinho de entregas, desses que se usam para carregar mercadorias que abastecem o estoque. Ele carregaria as três caixas de coisas que compramos naquele carrinho até chegar em nossa casa. Portanto, caminharíamos juntos até lá.
Confesso que fiquei mais tranquilo de saber que as compras não chegariam primeiro, mas pareceu-me esforço demais para alguém andar sete a oito quarteirões movimentados e de calçadas acidentadas empurrando um carrinho rústico como aquele com tanto peso em cima. Fiquei pensando que, se eu trabalhasse nisso e fizesse vinte entregas por dia, ficaria tão cansado que dormiria umas dez horas seguidas.
No caminho, vim conversando com o rapaz. Descobri muitas coisas. Ele era paraibano, com pouco tempo de São Paulo. Ele ganhava 550 reais por mês para fazer entregas para o mercado, sem direito a vale-transporte nem vale-alimentação. Os seis reais que eu pagaria no caixa ficariam todos para a empresa, pois não importava o número de entregas realizadas para o cômputo do salário final. Ele explicou que, pagando a ele, poderia ter um troco a mais para o transporte e outras necessidades. Disse que era torcedor do Treze, na Paraíba, do Flamengo, no Brasil, e do Corinthians, em São Paulo. Disse-me também muitas outras coisas de que não lembro, pois estava andando mais rápido que o meu normal para acompanhá-lo, e estava um pouco cansado.
Chegamos em casa, e ele levou as caixas até a porta do meu apartamento, enquanto fiquei no térreo, para vigiar o carrinho, que não cabia no elevador. Quando desceu, perguntei se tudo estava entregue, e ele me disse, um tanto desconfiado, que sim, e que minha mulher lhe havia dito que eu pagaria os seis reais na saída. Não fiquei ofendido; sei quanto esse dinheiro era importante para ele.
Dei uma nota dez e não quis troco. Ele saiu contente e agradeceu, desejando-me um bom fim de semana. Mas eu não me senti nada bem. Fiquei pensando no valor das coisas, para mim e para ele. O valor econômico do serviço realizado. O valor moral de pagá-lo "por fora". O valor social de colaborar com alguém que trabalha em condições tão aviltantes. O valor político de conhecer as condições em que um trabalho é realizado, e não apenas o resultado que ele produz em meu benefício. Fiquei pensando em tudo isso, e não cheguei a nenhuma conclusão, mas solidifiquei a certeza de que ainda há muito a se fazer para que se possa promover justiça social de fato no Brasil.
Como bom capricorniano, disciplinado e chatíssimo, fiquei calculando o tempo até que, perto de 15 minutos antes do prazo, encostávamos nosso carrinho em um dos caixas do mercado, para passar as mercadorias. Esse processo demorou um pouco, e, enquanto esperávamos, notei que o entregador me olhava com certa constância, tentando ler algum comportamento ou sacar algum traço que lhe seria importante. Pagos todos os itens, o rapaz sinalizou o funcionário do caixa alguma coisa e me chamou. Disse-me que a entrega implicava acréscimo de 6 reais na compra (disso eu já sabia) e pediu para que eu não pagasse esse dinheiro com a conta no caixa, e sim para ele, depois. Como para mim era exatamente a mesma coisa, aceitei, e na verdade nem estava ligando muito para isso. Estava preocupado com o fato de que iríamos a pé para casa, e as compras, indo de carro, chegariam primeiro.
Foi então que descobri algo que até então não supunha: as compras não iriam de carro. O rapaz colocaria as caixas em um carrinho de entregas, desses que se usam para carregar mercadorias que abastecem o estoque. Ele carregaria as três caixas de coisas que compramos naquele carrinho até chegar em nossa casa. Portanto, caminharíamos juntos até lá.
Confesso que fiquei mais tranquilo de saber que as compras não chegariam primeiro, mas pareceu-me esforço demais para alguém andar sete a oito quarteirões movimentados e de calçadas acidentadas empurrando um carrinho rústico como aquele com tanto peso em cima. Fiquei pensando que, se eu trabalhasse nisso e fizesse vinte entregas por dia, ficaria tão cansado que dormiria umas dez horas seguidas.
No caminho, vim conversando com o rapaz. Descobri muitas coisas. Ele era paraibano, com pouco tempo de São Paulo. Ele ganhava 550 reais por mês para fazer entregas para o mercado, sem direito a vale-transporte nem vale-alimentação. Os seis reais que eu pagaria no caixa ficariam todos para a empresa, pois não importava o número de entregas realizadas para o cômputo do salário final. Ele explicou que, pagando a ele, poderia ter um troco a mais para o transporte e outras necessidades. Disse que era torcedor do Treze, na Paraíba, do Flamengo, no Brasil, e do Corinthians, em São Paulo. Disse-me também muitas outras coisas de que não lembro, pois estava andando mais rápido que o meu normal para acompanhá-lo, e estava um pouco cansado.
Chegamos em casa, e ele levou as caixas até a porta do meu apartamento, enquanto fiquei no térreo, para vigiar o carrinho, que não cabia no elevador. Quando desceu, perguntei se tudo estava entregue, e ele me disse, um tanto desconfiado, que sim, e que minha mulher lhe havia dito que eu pagaria os seis reais na saída. Não fiquei ofendido; sei quanto esse dinheiro era importante para ele.
Dei uma nota dez e não quis troco. Ele saiu contente e agradeceu, desejando-me um bom fim de semana. Mas eu não me senti nada bem. Fiquei pensando no valor das coisas, para mim e para ele. O valor econômico do serviço realizado. O valor moral de pagá-lo "por fora". O valor social de colaborar com alguém que trabalha em condições tão aviltantes. O valor político de conhecer as condições em que um trabalho é realizado, e não apenas o resultado que ele produz em meu benefício. Fiquei pensando em tudo isso, e não cheguei a nenhuma conclusão, mas solidifiquei a certeza de que ainda há muito a se fazer para que se possa promover justiça social de fato no Brasil.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Meu país
Dia 7 de setembro é data em que pessoas de todo o Brasil comemoram ou protestam, projetando e desejando um país melhor. Um anseio dessa ordem é sempre justo e benéfico. Mas não fico contente quando pessoas se utilizam desse anseio como guarda-chuva ideológico para falar mal do Brasil, como se não vivessem aqui ou não tivessem nenhuma relação com a nação e sua cultura.
Li recentemente alguma coisa sobre a Jante Law, conjunto de princípios que regem as relações humanas em países nórdicos europeus - aqueles que são considerados os mais felizes e tranquilos do mundo. Entre as muitas ideias interessantes que considero válidas para qualquer sociedade, tomei como aforismo uma em especial: "Não pense que você é melhor do que nós". Um pouco de bom senso e de atenção a essa constatação quase elementar sobre a natureza humana seria o suficiente para que muitos brasileiros nos poupassem das coisas estúpidas que dizem sobre meu país.
Eu não consigo mais levar a sério quando as pessoas dizem: no Brasil, nada funciona; os americanos é que são isso; os japoneses ou alemães ou italianos é que são aquilo; e coisas do gênero. Eu não consigo conceber que as pessoas ainda acreditem que corrupção, violência, tráfico ou incivilidade sejam problemas inexistentes nas sociedades que consideram melhores que a nossa. Eu não engulo quem sai do Brasil, fica lá fora um tempão, ganha dinheiro, e fica dizendo que o país não vai pra frente, que não tem vínculo com sua pátria, e coisas do tipo.
Eu nasci neste país, eu cresci nesta cultura, eu falo esta língua, eu aprendi a ser o que sou com estas pessoas. Sou louco pela música brasileira, pela culinária brasileira, pela natureza brasileira. As mulheres do Brasil são lindas, as pessoas do Brasil são acolhedoras, o ritmo do Brasil é cativante. Desejo um dia visitar Nova York, Paris, Cairo, sei lá, tantos lugares!, mas eu ainda serei filho desta experiência aqui, destes valores, desta forma de ver e viver o mundo, com muito orgulho.
Eu não tenho vergonha do meu país. Tem gente que considera o máximo tornar-se europeu ou americano ou construir a vida em outro lugar. Respeito as decisões de cada um, mas tenho convicção de que viver aqui ou em outras bandas implica as mesmas etapas de toda a experiência humana: trabalhar, criar relações, cuidar da família etc. E essas coisas podem dar certo ou não no Brasil ou em qualquer outro canto do planeta. Mas muitas pessoas não entendem assim, e acham que quem conseguiu sair do Brasil tem maior valor ou competência que quem ficou.
Por favor, se você não gosta do Brasil, não fale mal dele. É ridículo. Bem ou mal, foram estas águas e estes ares, e estes pratos de arroz com feijão e farinha, que puseram você em pé antes que sequer sonhasse em alçar outros voos. O Brasil não é o que passa no jornal de televisão, e nem o que a elite pensa do povo que trabalha para ela. Meu país é Minas, Rio, Bahia, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pará, Ceará, Pernambuco. É gente demais para generalizar de forma tão redutora e mal-intencionada. É mediocridade demais achar que toda essa gente é má, ou inferior, ou ingênua.
O Brasil não deveria ser, para as pessoas, essa concepção vazia, fabricada pela superficialidade e pelo descompromisso ético de parte da sua elite, que dá margem a todo tipo de preenchimento ideológico pejorativo. Conhecer o Brasil deveria significar, para quem insiste em falar mal de nós e de si mesmo, uma forma de conhecer o sangue que corre nas próprias veias e a sustância que orienta o próprio estar no mundo.
Eu não fui a nenhum desfile no 7 de setembro. Mas, ao pensar com carinho e profundidade no Brasil, eu fui fundo no que sou, e o orgulho que senti de me saber parte desta nação vale a empunhadura de uma bandeira, em qualquer parte do mundo, em qualquer momento da vida.
Li recentemente alguma coisa sobre a Jante Law, conjunto de princípios que regem as relações humanas em países nórdicos europeus - aqueles que são considerados os mais felizes e tranquilos do mundo. Entre as muitas ideias interessantes que considero válidas para qualquer sociedade, tomei como aforismo uma em especial: "Não pense que você é melhor do que nós". Um pouco de bom senso e de atenção a essa constatação quase elementar sobre a natureza humana seria o suficiente para que muitos brasileiros nos poupassem das coisas estúpidas que dizem sobre meu país.
Eu não consigo mais levar a sério quando as pessoas dizem: no Brasil, nada funciona; os americanos é que são isso; os japoneses ou alemães ou italianos é que são aquilo; e coisas do gênero. Eu não consigo conceber que as pessoas ainda acreditem que corrupção, violência, tráfico ou incivilidade sejam problemas inexistentes nas sociedades que consideram melhores que a nossa. Eu não engulo quem sai do Brasil, fica lá fora um tempão, ganha dinheiro, e fica dizendo que o país não vai pra frente, que não tem vínculo com sua pátria, e coisas do tipo.
Eu nasci neste país, eu cresci nesta cultura, eu falo esta língua, eu aprendi a ser o que sou com estas pessoas. Sou louco pela música brasileira, pela culinária brasileira, pela natureza brasileira. As mulheres do Brasil são lindas, as pessoas do Brasil são acolhedoras, o ritmo do Brasil é cativante. Desejo um dia visitar Nova York, Paris, Cairo, sei lá, tantos lugares!, mas eu ainda serei filho desta experiência aqui, destes valores, desta forma de ver e viver o mundo, com muito orgulho.
Eu não tenho vergonha do meu país. Tem gente que considera o máximo tornar-se europeu ou americano ou construir a vida em outro lugar. Respeito as decisões de cada um, mas tenho convicção de que viver aqui ou em outras bandas implica as mesmas etapas de toda a experiência humana: trabalhar, criar relações, cuidar da família etc. E essas coisas podem dar certo ou não no Brasil ou em qualquer outro canto do planeta. Mas muitas pessoas não entendem assim, e acham que quem conseguiu sair do Brasil tem maior valor ou competência que quem ficou.
Por favor, se você não gosta do Brasil, não fale mal dele. É ridículo. Bem ou mal, foram estas águas e estes ares, e estes pratos de arroz com feijão e farinha, que puseram você em pé antes que sequer sonhasse em alçar outros voos. O Brasil não é o que passa no jornal de televisão, e nem o que a elite pensa do povo que trabalha para ela. Meu país é Minas, Rio, Bahia, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pará, Ceará, Pernambuco. É gente demais para generalizar de forma tão redutora e mal-intencionada. É mediocridade demais achar que toda essa gente é má, ou inferior, ou ingênua.
O Brasil não deveria ser, para as pessoas, essa concepção vazia, fabricada pela superficialidade e pelo descompromisso ético de parte da sua elite, que dá margem a todo tipo de preenchimento ideológico pejorativo. Conhecer o Brasil deveria significar, para quem insiste em falar mal de nós e de si mesmo, uma forma de conhecer o sangue que corre nas próprias veias e a sustância que orienta o próprio estar no mundo.
Eu não fui a nenhum desfile no 7 de setembro. Mas, ao pensar com carinho e profundidade no Brasil, eu fui fundo no que sou, e o orgulho que senti de me saber parte desta nação vale a empunhadura de uma bandeira, em qualquer parte do mundo, em qualquer momento da vida.
sábado, 6 de agosto de 2011
Desserviço
Ganhei de presente o livro do jornalista Leandro Narloch, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, e só vou seguir adiante nesta postagem porque sei que quem me presenteou não lê meu blogue.
Sei que é um presente, e foi dado com carinho, porque a pessoa julgava que poderia ser interessante para um professor de História (agora lidando apenas com Português e Filosofia) descobrir novidades e curiosidades relacionadas às novas pesquisas realizadas nos últimos anos.
Li o livro. É um pastiche engraçadinho de trabalhos acadêmicos, contestando certas posições mais consagradas dos historiadores. Lido nessa chave, não fede nem cheira; é uma provocação, nada mais.
O problema é que mais de uma pessoa em mais de uma situação já me deu informações elencadas nesse livro como se fossem o suprassumo da fidedignidade. As pessoas dizem para mim: - Viu, Vinicius, a História dos livros está toda errada. Eu li um livro que conta a verdade sobre blá, blá, blá... e lá vem pérolas do tipo "o Aleijadinho não existiu" ou "Santos Dumont era um palhaço" ou "o Acre deveria ser jogado no lixo", ou "os índios não foram massacrados".
Quando uma provocação, ou pastiche, ou piadinha besta desse nível começa a receber esse status de "coisa séria", passa a ser necessário reagir, antes que as pessoas comecem a acreditar que há mais nesse pastel do que massa e vento.
Então, aviso aos leitores, com toda convicção: existe uma característica inerente a todo o texto cientítico, argumentativo ou dissertativo que sempre deve ser levada em conta na leitura do mesmo. Essa característica é o viés. Se o texto defende uma ideia, não a defende a partir de um lugar neutro, incolor e inodoro de enunciação. Ele a defende a partir de uma formação discursiva dada, de um conjunto de pressupostos e referências que lhe fornece algum corpo de fundamentação. Leandro Narloch não é "politicamente incorreto", como simula em sua descrição do "guia". Ele é conservador e direitista. Seu viés é direitista. Ele está alinhado a Marco Antonio Villa e outros historiadores que fundamentam sua argumentação em uma percepção reacionária e conservadora do mundo. Isso é muito importante esclarecer: o livro de Narloch não é uma mera provocação a alguns, ele é uma provocação à vertente mais progressista e esquerdista do estudo de História.
Até aí, estamos elas por elas, não é verdade? Cada um puxando brasas para sua sardinha, e ficamos na mesma em termos de saber o que realmente ocorreu, não é isso? Seria isso se lidássemos com um historiador de direita. O que eu chamo de historiador nesse caso? Um especialista que é capaz de coligir fatos e documentos a partir de pesquisas realizadas com método, a partir de uma determinada concepção de história e de filosofia da história que pudesse pautar seu trabalho. Narloch não é um historiador, é um jornalista, e isso se revela claramente em seu "guia": não há método nenhum na escolha dos fatos elencados para provar a tese x ou y. O método é a mera retirada de trechos ou frases de obras de autores que, de alguma forma, pudessem validar a lógica dos raciocínios. Narloch não pesquisa fontes, não acrescenta nada às pesquisas já realizadas, nem mesmo se dá ao trabalho saudável e mínimo de redigir um estado da questão ou um levantamento bibliográfico sobre os temas, avaliando a validade e a fidedignidade das fontes utilizadas e justificando as que não foram aproveitadas. O livrinho de Narloch, do ponto de vista da História enquanto ciência, é absolutamente irrelevante. Entretanto, quando apresentado editorialmente sem essas ressalvas fundamentais, passa a ser perigoso. E quando lido descuidadamente, por um público que não tem recursos para avaliar a cientificidade da argumentação que contém, ele se torna, infelizmente, pernicioso.
Se você leu o livro e ficou com a pulga atrás da orelha em certos trechos e em função de certas afirmações, ele terá servido para alguma coisa: para provocar em você a vontade de se aprofundar na temática que suscitou dúvidas. Mas se você estava procurando informação qualificada e julga que a encontrou nessa obra, recomendo a leitura de muitas outras obras de história do Brasil antes de usar qualquer das "descobertas" brilhantes de Narloch numa conversa entre amigos, ou para impressionar incautos. Sem isso, você pode acabar passando vergonha. Por fim, se você não leu o livro e procura novas abordagens e pesquisas sobre a história de seu país, há trocentas obras muito bem fundamentadas, redigidas por pesquisadores qualificados e respeitados no meio acadêmico, e há inúmeras revistas científicas de História que trazem pesquisas em andamento, devidamente respaldadas por uma metodologia e uma orientação científica. Leia esse material, e você entenderá por que escrevi esta postagem sobre uma obra que nem isso merecia.
Sei que é um presente, e foi dado com carinho, porque a pessoa julgava que poderia ser interessante para um professor de História (agora lidando apenas com Português e Filosofia) descobrir novidades e curiosidades relacionadas às novas pesquisas realizadas nos últimos anos.
Li o livro. É um pastiche engraçadinho de trabalhos acadêmicos, contestando certas posições mais consagradas dos historiadores. Lido nessa chave, não fede nem cheira; é uma provocação, nada mais.
O problema é que mais de uma pessoa em mais de uma situação já me deu informações elencadas nesse livro como se fossem o suprassumo da fidedignidade. As pessoas dizem para mim: - Viu, Vinicius, a História dos livros está toda errada. Eu li um livro que conta a verdade sobre blá, blá, blá... e lá vem pérolas do tipo "o Aleijadinho não existiu" ou "Santos Dumont era um palhaço" ou "o Acre deveria ser jogado no lixo", ou "os índios não foram massacrados".
Quando uma provocação, ou pastiche, ou piadinha besta desse nível começa a receber esse status de "coisa séria", passa a ser necessário reagir, antes que as pessoas comecem a acreditar que há mais nesse pastel do que massa e vento.
Então, aviso aos leitores, com toda convicção: existe uma característica inerente a todo o texto cientítico, argumentativo ou dissertativo que sempre deve ser levada em conta na leitura do mesmo. Essa característica é o viés. Se o texto defende uma ideia, não a defende a partir de um lugar neutro, incolor e inodoro de enunciação. Ele a defende a partir de uma formação discursiva dada, de um conjunto de pressupostos e referências que lhe fornece algum corpo de fundamentação. Leandro Narloch não é "politicamente incorreto", como simula em sua descrição do "guia". Ele é conservador e direitista. Seu viés é direitista. Ele está alinhado a Marco Antonio Villa e outros historiadores que fundamentam sua argumentação em uma percepção reacionária e conservadora do mundo. Isso é muito importante esclarecer: o livro de Narloch não é uma mera provocação a alguns, ele é uma provocação à vertente mais progressista e esquerdista do estudo de História.
Até aí, estamos elas por elas, não é verdade? Cada um puxando brasas para sua sardinha, e ficamos na mesma em termos de saber o que realmente ocorreu, não é isso? Seria isso se lidássemos com um historiador de direita. O que eu chamo de historiador nesse caso? Um especialista que é capaz de coligir fatos e documentos a partir de pesquisas realizadas com método, a partir de uma determinada concepção de história e de filosofia da história que pudesse pautar seu trabalho. Narloch não é um historiador, é um jornalista, e isso se revela claramente em seu "guia": não há método nenhum na escolha dos fatos elencados para provar a tese x ou y. O método é a mera retirada de trechos ou frases de obras de autores que, de alguma forma, pudessem validar a lógica dos raciocínios. Narloch não pesquisa fontes, não acrescenta nada às pesquisas já realizadas, nem mesmo se dá ao trabalho saudável e mínimo de redigir um estado da questão ou um levantamento bibliográfico sobre os temas, avaliando a validade e a fidedignidade das fontes utilizadas e justificando as que não foram aproveitadas. O livrinho de Narloch, do ponto de vista da História enquanto ciência, é absolutamente irrelevante. Entretanto, quando apresentado editorialmente sem essas ressalvas fundamentais, passa a ser perigoso. E quando lido descuidadamente, por um público que não tem recursos para avaliar a cientificidade da argumentação que contém, ele se torna, infelizmente, pernicioso.
Se você leu o livro e ficou com a pulga atrás da orelha em certos trechos e em função de certas afirmações, ele terá servido para alguma coisa: para provocar em você a vontade de se aprofundar na temática que suscitou dúvidas. Mas se você estava procurando informação qualificada e julga que a encontrou nessa obra, recomendo a leitura de muitas outras obras de história do Brasil antes de usar qualquer das "descobertas" brilhantes de Narloch numa conversa entre amigos, ou para impressionar incautos. Sem isso, você pode acabar passando vergonha. Por fim, se você não leu o livro e procura novas abordagens e pesquisas sobre a história de seu país, há trocentas obras muito bem fundamentadas, redigidas por pesquisadores qualificados e respeitados no meio acadêmico, e há inúmeras revistas científicas de História que trazem pesquisas em andamento, devidamente respaldadas por uma metodologia e uma orientação científica. Leia esse material, e você entenderá por que escrevi esta postagem sobre uma obra que nem isso merecia.
sábado, 4 de junho de 2011
Relacionamentos amorosos
Se isso ocorre pelo fato de ser eu capricorniano, não sei. Sei que tenho muito forte essa característica do signo de ser reservado no tocante à vida pessoal. Mesmo em rodas de amigos ou com familiares, não falo de conquistas amorosas, nem de perdas. Não falo das pessoas com quem me relaciono. Não falo das minhas preferências. Não toco em assuntos de foro íntimo, a não ser que meus problemas exijam, num grau desesperador de estado físico ou financeiro, ajuda alheia. Não gosto de expor ninguém. E ainda mais: acho que uma das armadilhas da sociedade do espetáculo é que você deixa de poder amar livremente quando passa a ser seguido, vigiado, julgado por sua visibilidade. Para mim, é sempre melhor amar em segredo, viver relacionamentos sem o julgamento apressado, parcial, recalcado e conservador da maioria das pessoas.
Nunca escrevi aqui sobre meus relacionamentos. Tenho o máximo respeito pelas pessoas que, algum dia por algum motivo, entenderam gostar de mim a ponto de compartilhar seu tempo, sua história, sua intimidade. Não tenho o direito de expor suas vidas e aquilo que elas dividiram comigo. Portanto, em que pese o título do texto, continuarei não falando de meus relacionamentos, no que tange à sua concretude histórica, digamos assim. Nas próximas linhas, apenas tentarei desenhar percepções mais abstratas sobre relacionamentos em geral, considerando, evidentemente, minha interiorização das experiências que tive. Alerto que as colocações que farei podem ser chocantes e surpreendentes, e que as pessoas que prezam uma determinada imagem minha de bom moço ou criatura ponderada podem se sentir imensamente frustradas com o que venham a ler.
A primeira colocação que farei parece ter fundo moral, ético, paradigmático, proverbial, mas não é nada disso. É algo que é ridiculamente óbvio, mas que só pode ser verdadeiramente apreendido com o tempo. É o seguinte: ninguém é obrigado a gostar de ninguém. Implicação primeira disso é que ninguém é obrigado a gostar de mim. Evidente, elementar? Creio que sim, mas levei muito tempo para sentir que podia lidar com isso. Sempre foi difícil para um jovem inseguro como eu compreender que as paixões são voláteis, são passageiras, são instáveis, e que as pessoas mudam, como muda a orientação de seus corações. E que isso nada tinha a ver com meu valor enquanto ser humano. Talvez por isso as separações tenham sido, na minha vida, momentos absolutamente devastadores, em que me senti imobilizado e diminuído diante de todos à minha volta. O tempo me ensinou a não procurar justificações, embora de vez em sempre eu me pegue tentando racionalizar, justificar, estabelecer causas e efeitos para acontecimentos que são refratários a essas apreensões tão mentais. Mas creio que a segunda implicação seja a mais difícil de lidar: a de que não sou obrigado a gostar de ninguém. Ou seja: os sentimentos que tenho, em determinados momentos e em determinadas configurações da marcha da vida, por determinadas pessoas, costumam ser muito mais voláteis e indeterminados e surpreendentes que os vínculos que estabeleço a partir desses sentimentos. Isso é terrível para quem tem preocupação com o outro, porque é um espaço em que a ética e a dignidade não comandam. Repare o leitor que não me refiro às ações, mas aos sentimentos propriamente ditos. Acredito que as pessoas devem, sim, honrar seus compromissos. Apenas não acredito que os compromissos, verbais ou legais, possam controlar, abafar ou modificar certos sentimentos, como os que se relacionam ao amor e à paixão amorosa. O resultado interior disso sempre foi um só, no meu caso: culpa. Sensação de pequenez moral. Autopunição. Aceitação passiva das invasões e agressões alheias. Até que foi chegando um tempo em que percebi que não havia nada de exatamente errado com as coisas do coração. Que nada havia de imoral em sentir atração por uma pessoa quando ela, ou eu, vivíamos outra relação. Que nada havia de antiético em amar ou estar apaixonado por pessoas diferentes num mesmo momento da vida. Que nada havia de surpreendente em viver fases numa relação em que não havia amor nem paixão pela pessoa com quem me relacionava, embora ainda houvesse uma respeitável história a dois e uma forte expectativa de superação desse momento. Foi nesse tempo que comecei a entender que o ciúme, a possessividade, as exigências mil de demonstrações de afeto ou consideração, as obrigações "contratuais" dos namoros e casamentos, eram brinquedinhos bobos diante da magnanimidade da vida amorosa de um ser humano.
E isso me levou a mais algumas percepções.
Passei a entender, por exemplo, que não é possível saber tudo sobre uma pessoa. Mais que isso: não é saudável nem inteligente querer saber tudo sobre uma pessoa. As pessoas precisam ter um espaço insondável, surpreendente, permitido, ainda que isso nos custe uma certa insegurança e a sensação de que não podemos controlá-las. Mas a verdade é que não podemos mesmo ter esse controle, e se os sentimentos de uma pessoa apontam numa direção que não queremos, o melhor que podemos fazer é manter uma atitude de respeito e de amizade, e aprender a conviver com isso.
Passei a entender, também, que essa ideia de alma gêmea é uma analogia poética para relacionamentos que são bons e estáveis por muito tempo, mas não é condição obrigatória da felicidade amorosa. Porque tem muita gente boa no mundo. Tem muita gente interessante. Tem muita gente inteligente, brilhante, atraente por muitos motivos. Tem muita gente que nos desperta tesão. Tem muita gente que nos desperta admiração. Pode ser que encontremos, vida afora, alguém com quem nos sentimos tão bem que esse comércio de contatos e sondagens acaba inibido por uma satisfação mais ou menos constante. Mas essa não é a regra. Simplesmente porque essas coisas do coração não têm regra. Então, é possível ser feliz encontrando uma alma gêmea, assim como também é possível ser feliz vivendo diferentes relacionamentos em diferentes períodos da vida, com diferentes graus de satisfação.
Passei a entender, também, que a única coisa que realmente importa nos relacionamentos é o perdão. Se a gente levar a ferro e fogo tudo o que o outro faz, não tem relacionamento. Tem contrato, compromisso, mas ninguém vive contratualmente, as pessoas precisam de liberdade para deixar seus sentimentos fluírem. Então (pense o que quiser, querido leitor, neste ponto, mas é o que sinto, e o que verdadeiramente decidi assumir para mim), não creio mais que faça sentido ter grandes demonstrações de raiva ou frustração ou desespero quando percebo que minha companheira teve alguma atitude menos louvável na sua conduta. As pessoas guardam sentimentos contraditórios que as levam a fazer coisas que não esperávamos. Temos de perdoar isso, se quisermos ter contato com a integridade delas, se é isso que nos apaixona. Temos de perdoar pequenas mentiras. Temos de perdoar certos desequilíbrios emocionais. Temos de tolerar a possibilidade de não sermos únicos no coração de quem amamos. Temos de passar por cima de certas mancadas. Não podemos nos desesperar com as fases em que não estamos sendo atraentes para a pessoa que nos atrai. Tudo isso é parte do jogo da vida, é parte dos relacionamentos. Evidentemente, não dá para viver uma vida baseada na agressão, na mentira e no desrespeito, mas também não podemos achar que não haverá nenhum momento em que isso não venha a acontecer, em alguma medida, no nosso namoro ou no nosso casamento. E, quando isso acontece, temos de ter o preparo e a decência de não julgar o todo pela parte, de não resumir a grandeza que todo ser humano tem a sua condição de falibilidade. Se colocássemos uma lupa no coração de cada um dos mortais, qual deles restaria sem nódoa, sem maldade, sem nenhum resquício de despudor ou oportunismo? Amamos seres humanos, ou idealizações que fazemos deles? É isso: ou se aprende a perdoar, ou o amor e o relacionamento estarão fadados ao descompasso.
É até contraditório falar em perdoar quem não tem, na verdade, culpa, mas fica entendido que se trata de desenvolver uma capacidade de relevar situações, das mais contornáveis às mais delicadas.
Isso tudo implica no seguinte: respeitar as decisões do outro, e respeitar o outro independentemente das decisões. Entender que as obrigações éticas são umas, que as obrigações contratuais são outras, e que as obrigações amorosas não existem, senão não haveria amor. Entender que a única razão legítima para uma pessoa ficar com você é que ela tenha vontade, em seu íntimo, de ficar com você. Entender que ninguém é de ninguém, ainda que tenhamos a vaidade e a presunção de julgar que controlamos os sentimentos alheios. Entender que o casamento é uma escolha, o namoro é uma opção, e o amor não costuma perguntar-nos sobre nossas escolhas e opções: ele invade e fim, como diz Djavan. E que é justamente por causa dessa não-obrigatoriedade, dessa imprevisibilidade do amor, que devemos nos sentir bem com os momentos em que ele está presente, sejam eles poucos ou muitos, permanentes ou impermanentes, longos ou curtos, dentro ou fora dos casamentos e namoros.
Nunca escrevi aqui sobre meus relacionamentos. Tenho o máximo respeito pelas pessoas que, algum dia por algum motivo, entenderam gostar de mim a ponto de compartilhar seu tempo, sua história, sua intimidade. Não tenho o direito de expor suas vidas e aquilo que elas dividiram comigo. Portanto, em que pese o título do texto, continuarei não falando de meus relacionamentos, no que tange à sua concretude histórica, digamos assim. Nas próximas linhas, apenas tentarei desenhar percepções mais abstratas sobre relacionamentos em geral, considerando, evidentemente, minha interiorização das experiências que tive. Alerto que as colocações que farei podem ser chocantes e surpreendentes, e que as pessoas que prezam uma determinada imagem minha de bom moço ou criatura ponderada podem se sentir imensamente frustradas com o que venham a ler.
A primeira colocação que farei parece ter fundo moral, ético, paradigmático, proverbial, mas não é nada disso. É algo que é ridiculamente óbvio, mas que só pode ser verdadeiramente apreendido com o tempo. É o seguinte: ninguém é obrigado a gostar de ninguém. Implicação primeira disso é que ninguém é obrigado a gostar de mim. Evidente, elementar? Creio que sim, mas levei muito tempo para sentir que podia lidar com isso. Sempre foi difícil para um jovem inseguro como eu compreender que as paixões são voláteis, são passageiras, são instáveis, e que as pessoas mudam, como muda a orientação de seus corações. E que isso nada tinha a ver com meu valor enquanto ser humano. Talvez por isso as separações tenham sido, na minha vida, momentos absolutamente devastadores, em que me senti imobilizado e diminuído diante de todos à minha volta. O tempo me ensinou a não procurar justificações, embora de vez em sempre eu me pegue tentando racionalizar, justificar, estabelecer causas e efeitos para acontecimentos que são refratários a essas apreensões tão mentais. Mas creio que a segunda implicação seja a mais difícil de lidar: a de que não sou obrigado a gostar de ninguém. Ou seja: os sentimentos que tenho, em determinados momentos e em determinadas configurações da marcha da vida, por determinadas pessoas, costumam ser muito mais voláteis e indeterminados e surpreendentes que os vínculos que estabeleço a partir desses sentimentos. Isso é terrível para quem tem preocupação com o outro, porque é um espaço em que a ética e a dignidade não comandam. Repare o leitor que não me refiro às ações, mas aos sentimentos propriamente ditos. Acredito que as pessoas devem, sim, honrar seus compromissos. Apenas não acredito que os compromissos, verbais ou legais, possam controlar, abafar ou modificar certos sentimentos, como os que se relacionam ao amor e à paixão amorosa. O resultado interior disso sempre foi um só, no meu caso: culpa. Sensação de pequenez moral. Autopunição. Aceitação passiva das invasões e agressões alheias. Até que foi chegando um tempo em que percebi que não havia nada de exatamente errado com as coisas do coração. Que nada havia de imoral em sentir atração por uma pessoa quando ela, ou eu, vivíamos outra relação. Que nada havia de antiético em amar ou estar apaixonado por pessoas diferentes num mesmo momento da vida. Que nada havia de surpreendente em viver fases numa relação em que não havia amor nem paixão pela pessoa com quem me relacionava, embora ainda houvesse uma respeitável história a dois e uma forte expectativa de superação desse momento. Foi nesse tempo que comecei a entender que o ciúme, a possessividade, as exigências mil de demonstrações de afeto ou consideração, as obrigações "contratuais" dos namoros e casamentos, eram brinquedinhos bobos diante da magnanimidade da vida amorosa de um ser humano.
E isso me levou a mais algumas percepções.
Passei a entender, por exemplo, que não é possível saber tudo sobre uma pessoa. Mais que isso: não é saudável nem inteligente querer saber tudo sobre uma pessoa. As pessoas precisam ter um espaço insondável, surpreendente, permitido, ainda que isso nos custe uma certa insegurança e a sensação de que não podemos controlá-las. Mas a verdade é que não podemos mesmo ter esse controle, e se os sentimentos de uma pessoa apontam numa direção que não queremos, o melhor que podemos fazer é manter uma atitude de respeito e de amizade, e aprender a conviver com isso.
Passei a entender, também, que essa ideia de alma gêmea é uma analogia poética para relacionamentos que são bons e estáveis por muito tempo, mas não é condição obrigatória da felicidade amorosa. Porque tem muita gente boa no mundo. Tem muita gente interessante. Tem muita gente inteligente, brilhante, atraente por muitos motivos. Tem muita gente que nos desperta tesão. Tem muita gente que nos desperta admiração. Pode ser que encontremos, vida afora, alguém com quem nos sentimos tão bem que esse comércio de contatos e sondagens acaba inibido por uma satisfação mais ou menos constante. Mas essa não é a regra. Simplesmente porque essas coisas do coração não têm regra. Então, é possível ser feliz encontrando uma alma gêmea, assim como também é possível ser feliz vivendo diferentes relacionamentos em diferentes períodos da vida, com diferentes graus de satisfação.
Passei a entender, também, que a única coisa que realmente importa nos relacionamentos é o perdão. Se a gente levar a ferro e fogo tudo o que o outro faz, não tem relacionamento. Tem contrato, compromisso, mas ninguém vive contratualmente, as pessoas precisam de liberdade para deixar seus sentimentos fluírem. Então (pense o que quiser, querido leitor, neste ponto, mas é o que sinto, e o que verdadeiramente decidi assumir para mim), não creio mais que faça sentido ter grandes demonstrações de raiva ou frustração ou desespero quando percebo que minha companheira teve alguma atitude menos louvável na sua conduta. As pessoas guardam sentimentos contraditórios que as levam a fazer coisas que não esperávamos. Temos de perdoar isso, se quisermos ter contato com a integridade delas, se é isso que nos apaixona. Temos de perdoar pequenas mentiras. Temos de perdoar certos desequilíbrios emocionais. Temos de tolerar a possibilidade de não sermos únicos no coração de quem amamos. Temos de passar por cima de certas mancadas. Não podemos nos desesperar com as fases em que não estamos sendo atraentes para a pessoa que nos atrai. Tudo isso é parte do jogo da vida, é parte dos relacionamentos. Evidentemente, não dá para viver uma vida baseada na agressão, na mentira e no desrespeito, mas também não podemos achar que não haverá nenhum momento em que isso não venha a acontecer, em alguma medida, no nosso namoro ou no nosso casamento. E, quando isso acontece, temos de ter o preparo e a decência de não julgar o todo pela parte, de não resumir a grandeza que todo ser humano tem a sua condição de falibilidade. Se colocássemos uma lupa no coração de cada um dos mortais, qual deles restaria sem nódoa, sem maldade, sem nenhum resquício de despudor ou oportunismo? Amamos seres humanos, ou idealizações que fazemos deles? É isso: ou se aprende a perdoar, ou o amor e o relacionamento estarão fadados ao descompasso.
É até contraditório falar em perdoar quem não tem, na verdade, culpa, mas fica entendido que se trata de desenvolver uma capacidade de relevar situações, das mais contornáveis às mais delicadas.
Isso tudo implica no seguinte: respeitar as decisões do outro, e respeitar o outro independentemente das decisões. Entender que as obrigações éticas são umas, que as obrigações contratuais são outras, e que as obrigações amorosas não existem, senão não haveria amor. Entender que a única razão legítima para uma pessoa ficar com você é que ela tenha vontade, em seu íntimo, de ficar com você. Entender que ninguém é de ninguém, ainda que tenhamos a vaidade e a presunção de julgar que controlamos os sentimentos alheios. Entender que o casamento é uma escolha, o namoro é uma opção, e o amor não costuma perguntar-nos sobre nossas escolhas e opções: ele invade e fim, como diz Djavan. E que é justamente por causa dessa não-obrigatoriedade, dessa imprevisibilidade do amor, que devemos nos sentir bem com os momentos em que ele está presente, sejam eles poucos ou muitos, permanentes ou impermanentes, longos ou curtos, dentro ou fora dos casamentos e namoros.
sábado, 14 de maio de 2011
Viva a gente diferenciada!
Eu tenho um blogue semi-inativo chamado Ação Direta Inteligente. Nele, posto, de quando em quando, informações sobre protestos e mobilizações que utilizam recursos simbólicos, artísticos e estéticos para expressar as ideias defendidas. Acredito piamente que esse deveria ser o futuro de todas as manifestações políticas na era da informação. Quando aluno da Letras, nossa greve estudantil, usando desses expedientes, alcançou a mídia e a população, foi um sucesso total; quando partimos para o enfrentamento físico tradicional, perdemos força, e a paralisação teve de acabar. Eu vivenciei isso, eu vi, eu testemunhei; não restam dúvidas para mim de que o caminho é a sensibilidade, a inteligência, a criatividade.
Por essa razão, eu não poderia deixar de mencionar aqui neste blogue a imensa alegria que senti ao ver um protesto tão inteligente, sacado e irônico quanto o que aconteceu hoje, bem perto da minha casa. Eu estava totalmente por fora da discussão sobre o metrô, mas hoje, aqui na região, todos só falavam sobre isso. O "Churrascão da Gente Diferenciada" foi genial! Chamou a atenção para a violência simbólica e econômica por meio da ironia e da ocupação pacífica de um dos símbolos da elite não-diferenciada paulistana. Lamento ter sido hoje, justo hoje, que tenho de estudar para uma prova de seleção para pós-graduação na segunda-feira.
Minha posição é bastante simples, e divide-se em dois raciocínios. Primeiro: mais metrô, menos carros, mais acesso para quem trabalha na região. Segundo: administração pública de uma cidade ou de um Estado responde aos interesses da população como um todo, e, se esses interesses entram em conflito com interesses de setores, a decisão deve contemplar o bem público e o que for melhor para o maior número de pessoas possível.
Quanto ao preconceito escancarado, ao favorecimento descarado dos interesses dos ricos, à presunção cínica de naturalizar diferenças sociais e processos de exclusão, tudo isso merece um churrascão mesmo: com ironia, com gozação, com carnaval, com todos os recursos desestabilizadores do conservadorismo que põe as asinhas para fora.
Por essa razão, eu não poderia deixar de mencionar aqui neste blogue a imensa alegria que senti ao ver um protesto tão inteligente, sacado e irônico quanto o que aconteceu hoje, bem perto da minha casa. Eu estava totalmente por fora da discussão sobre o metrô, mas hoje, aqui na região, todos só falavam sobre isso. O "Churrascão da Gente Diferenciada" foi genial! Chamou a atenção para a violência simbólica e econômica por meio da ironia e da ocupação pacífica de um dos símbolos da elite não-diferenciada paulistana. Lamento ter sido hoje, justo hoje, que tenho de estudar para uma prova de seleção para pós-graduação na segunda-feira.
Minha posição é bastante simples, e divide-se em dois raciocínios. Primeiro: mais metrô, menos carros, mais acesso para quem trabalha na região. Segundo: administração pública de uma cidade ou de um Estado responde aos interesses da população como um todo, e, se esses interesses entram em conflito com interesses de setores, a decisão deve contemplar o bem público e o que for melhor para o maior número de pessoas possível.
Quanto ao preconceito escancarado, ao favorecimento descarado dos interesses dos ricos, à presunção cínica de naturalizar diferenças sociais e processos de exclusão, tudo isso merece um churrascão mesmo: com ironia, com gozação, com carnaval, com todos os recursos desestabilizadores do conservadorismo que põe as asinhas para fora.
domingo, 1 de maio de 2011
Acerca de uma pergunta numa entrevista pós-jogo
Final do jogo SESI contra Cruzeiro, decisão da Superliga nacional de voleibol. Giovane é o técnico do SESI.
O time do SESI é melhor que o do Cruzeiro, e, embora eu torça para o Cruzeiro, recebo sem maiores dramas a indiscutível conquista do título pelos paulistas, que, ademais, já haviam sido a equipe mais bem colocada na primeira fase. O quarto set é um verdadeiro massacre.
Todos comemoram, se abraçam, repórteres entram em quadra, puxam o Murilo para entrevistar, puxam outros jogadores, puxam o técnico. O repórter se posiciona para as perguntas. Giovane também. O repórter capricha:
- O que é mais emocionante, Giovane, ganhar a Superliga como técnico ou ganhar as Olimpíadas e o Mundial como jogador?
Eu paro. Estupefato. Não é possível que o rapaz perguntou isso. Mas perguntou mesmo. Pela cara que fez o Giovane deu pra ver que ele se atreveu.
E passam milhões de coisas pela minha cabeça.
1) A não ser que eu esteja muito enganado, é preferível ser medalhista das Olimpíadas até como gandula que ganhar a Superliga nacional como jogador. Não há comparação possível. Aliás, comparar isso seria absolutamente ridículo em qualquer outra situação, quanto mais nessa!
2) Se não estou imensamente equivocado, para muitos atletas, tornar-se técnico não é exatamente a primeira opção, mas sim a alternativa de manter-se em atividade quando a carreira declina. E a postura de técnico, inclusive em termos de envolvimento e distanciamento, é absolutamente outra, impossível de ser comparada com a de jogador em atividade.
3) Ou eu estou ficando louco ou era óbvio que Giovane acabara de vencer um campeonato longo e disputado e estava no momento de saborear a conquista. Nessas condições, não seria polido, nem oportuno, nem sequer inteligente perguntar-lhe sobre outro assunto que não se relacionasse à conquista. Na verdade, a pergunta é um absoluto contraclímax do momento emocional vivenciado pelo entrevistado. É como pegar um adolescente dançando numa festa e perguntar o que a mãe dele acharia disso.
4) Imagino que o repórter esperava uma declaração bombástica do tipo: "a emoção é a mesma" ou "a emoção é maior na Superliga". Se ele obtivesse essa resposta, ela seria evidentemente falsa e demagógica, servindo apenas para alimentar polêmica ou fazer uma manchetezinha sensacionalista. E, por outro lado, se ele obtivesse a resposta óbvia, a de que a Olimpíada e o Mundial são muito mais importantes, não teria acrescentado nada à sua entrevista. O que me leva a concluir: a pergunta ou era inútil, ou capciosa.
5) Se a pergunta era inútil ou capciosa, cabe-me perguntar: por que foi feita? Se alguém me disser que fazer perguntas capciosas é importante para o jornalismo, para satisfazer a curiosidade do espectador ou surpreender o entrevistado em algum deslize, eu mudo o questionamento: afinal, para que é o jornalismo, então? Se ele serve só para isso, não é melhor não ter?
6) O Giovane respondeu de uma maneira esperta, brilhante, sagaz. Ele disse que só não estava em quadra porque já não conseguia, caso contrário estaria também. Essa resposta matou a pau. Primeiro, porque mostrou que o repórter comparara situações profissionais incomparáveis (jogador e técnico). Segundo, porque evidenciou que os títulos como jogador são mais importantes (e assim afastou, por eliminação, a necessidade de se posicionar em relação à comparação Superliga versus Olimpíada). Terceiro, porque retomou o foco na comemoração daquele título, conquistado naquele dia. Quarto, porque, desmontou a estratégia capciosa do repórter. Quinto, porque, de certa forma, ao não recuperar os termos da pergunta, a resposta explicita que aquela foi mal feita, ou nem deveria ser feita.
7) Eu estou estudando Linguística esses dias, e, ainda com essa cena impressionante na cabeça, deparei com dois trechos de textos teóricos que me ajudaram a compreender minha indignação. O primeiro é sobre a circulação do dizer na sociedade. É assim:
"(..) em estudos recentes, tem havido a preocupação de mostrar que a comunicação rompe muitas vezes o caráter intimista de um diálogo entre o eu e o tu, aqui e agora. Nesses casos, rompe-se o dialogismo mais estreito e alarga-se a circulação do dizer na sociedade. (...)
No caso das entrevistas, na televisão ou na imprensa escrita, estabelecem-se três relações de comunicação: entre o entrevistador e o entrevistado, entre o entrevistador e o público, entre o entrevistado e o público. Em outras palavras, a relação entre o entrevistador e o entrevistado, que é a única explicitada nessa comunicação 'alargada', dependerá (...) das relações dos interlocutores com o público. Na verdade, a comunicação com o público é o objetivo primeiro da comunicação entre entrevistador e entrevistado" (FIORIN, José Luiz (org.), Introdução à linguística. São Paulo: Contexto, 2010, p. 46).
Para mim, tudo ficou muito claro. O entrevistador, querendo empatia do público ou aprovação por uma atuação mais incisiva, fez a pergunta com objetivo de colocar Giovane nas cordas. Giovane, que sabe que é pessoa pública, que tem um público específico de aficcionados por ele, pelo vôlei ou pelo SESI, saiu das cordas com destreza e deixou claro, não para o repórter, mas para a audiência, que entendeu a armadilha e que não cairia nela.
Mas o público não é uma entidade passível de ser completamente conhecida. Na verdade, é uma entidade um tanto quanto abstrata. O público não é o índice do IBOPE, é algo complexo, variado, de difícil definição e apreensão. Quem lida com essa entidade tão complicada de conceituar tem de ter um norte, uma base, um fundamento. Na falta deste, vem à tona uma espécie de generalização, meio simplificadora, meio redutora, do que seriam os interesses da audiência. Essa imagem (considerada em sua complexidade ou simplicadora e generalizante) é o que, em Greimas, define-se como simulacro, ou seja, "representações das competências respectivas que se atribuem reciprocamente os participantes da comunicação e que intervêm como algo prévio, necessário a qualquer relação intersubjetiva" (FIORIN, José Luiz (org.), Introdução à linguística. São Paulo: Contexto, 2010, p. 46). O repórter forma mentalmente um simulacro do espectador, e isso guia a formulação de sua pergunta. O simulacro, nesse caso, é uma imagem negativa, aética, de mediocridade, como se o público estivesse ali para cutucar Giovane, e não para compartilhar a alegria da conquista. O entrevistado também trabalha com um simulacro de seu público, bem mais positivo. Ele entende que não é oportuno fazer comparações com outras conquistas, e, ao mesmo tempo, que é necessário ser polido e reencaminhar a entrevista que está sendo realizada, em respeito a quem o acompanha pela televisão.
Eu não trabalharia com uma imagem negativa de público, se fosse o entrevistador. Ou seja: eu não teria feito aquela pergunta. Por outro lado, se há orientação explícita ou implícita dentro do jornalismo para uma atuação tão desrespeitosa em relação ao espectador, quase o chamando de idiota, eu fico achando que algo no jornalismo se perdeu. E se essa orientação estiver correta em sua construção do simulacro da audiência, só me resta rezar.
O time do SESI é melhor que o do Cruzeiro, e, embora eu torça para o Cruzeiro, recebo sem maiores dramas a indiscutível conquista do título pelos paulistas, que, ademais, já haviam sido a equipe mais bem colocada na primeira fase. O quarto set é um verdadeiro massacre.
Todos comemoram, se abraçam, repórteres entram em quadra, puxam o Murilo para entrevistar, puxam outros jogadores, puxam o técnico. O repórter se posiciona para as perguntas. Giovane também. O repórter capricha:
- O que é mais emocionante, Giovane, ganhar a Superliga como técnico ou ganhar as Olimpíadas e o Mundial como jogador?
Eu paro. Estupefato. Não é possível que o rapaz perguntou isso. Mas perguntou mesmo. Pela cara que fez o Giovane deu pra ver que ele se atreveu.
E passam milhões de coisas pela minha cabeça.
1) A não ser que eu esteja muito enganado, é preferível ser medalhista das Olimpíadas até como gandula que ganhar a Superliga nacional como jogador. Não há comparação possível. Aliás, comparar isso seria absolutamente ridículo em qualquer outra situação, quanto mais nessa!
2) Se não estou imensamente equivocado, para muitos atletas, tornar-se técnico não é exatamente a primeira opção, mas sim a alternativa de manter-se em atividade quando a carreira declina. E a postura de técnico, inclusive em termos de envolvimento e distanciamento, é absolutamente outra, impossível de ser comparada com a de jogador em atividade.
3) Ou eu estou ficando louco ou era óbvio que Giovane acabara de vencer um campeonato longo e disputado e estava no momento de saborear a conquista. Nessas condições, não seria polido, nem oportuno, nem sequer inteligente perguntar-lhe sobre outro assunto que não se relacionasse à conquista. Na verdade, a pergunta é um absoluto contraclímax do momento emocional vivenciado pelo entrevistado. É como pegar um adolescente dançando numa festa e perguntar o que a mãe dele acharia disso.
4) Imagino que o repórter esperava uma declaração bombástica do tipo: "a emoção é a mesma" ou "a emoção é maior na Superliga". Se ele obtivesse essa resposta, ela seria evidentemente falsa e demagógica, servindo apenas para alimentar polêmica ou fazer uma manchetezinha sensacionalista. E, por outro lado, se ele obtivesse a resposta óbvia, a de que a Olimpíada e o Mundial são muito mais importantes, não teria acrescentado nada à sua entrevista. O que me leva a concluir: a pergunta ou era inútil, ou capciosa.
5) Se a pergunta era inútil ou capciosa, cabe-me perguntar: por que foi feita? Se alguém me disser que fazer perguntas capciosas é importante para o jornalismo, para satisfazer a curiosidade do espectador ou surpreender o entrevistado em algum deslize, eu mudo o questionamento: afinal, para que é o jornalismo, então? Se ele serve só para isso, não é melhor não ter?
6) O Giovane respondeu de uma maneira esperta, brilhante, sagaz. Ele disse que só não estava em quadra porque já não conseguia, caso contrário estaria também. Essa resposta matou a pau. Primeiro, porque mostrou que o repórter comparara situações profissionais incomparáveis (jogador e técnico). Segundo, porque evidenciou que os títulos como jogador são mais importantes (e assim afastou, por eliminação, a necessidade de se posicionar em relação à comparação Superliga versus Olimpíada). Terceiro, porque retomou o foco na comemoração daquele título, conquistado naquele dia. Quarto, porque, desmontou a estratégia capciosa do repórter. Quinto, porque, de certa forma, ao não recuperar os termos da pergunta, a resposta explicita que aquela foi mal feita, ou nem deveria ser feita.
7) Eu estou estudando Linguística esses dias, e, ainda com essa cena impressionante na cabeça, deparei com dois trechos de textos teóricos que me ajudaram a compreender minha indignação. O primeiro é sobre a circulação do dizer na sociedade. É assim:
"(..) em estudos recentes, tem havido a preocupação de mostrar que a comunicação rompe muitas vezes o caráter intimista de um diálogo entre o eu e o tu, aqui e agora. Nesses casos, rompe-se o dialogismo mais estreito e alarga-se a circulação do dizer na sociedade. (...)
No caso das entrevistas, na televisão ou na imprensa escrita, estabelecem-se três relações de comunicação: entre o entrevistador e o entrevistado, entre o entrevistador e o público, entre o entrevistado e o público. Em outras palavras, a relação entre o entrevistador e o entrevistado, que é a única explicitada nessa comunicação 'alargada', dependerá (...) das relações dos interlocutores com o público. Na verdade, a comunicação com o público é o objetivo primeiro da comunicação entre entrevistador e entrevistado" (FIORIN, José Luiz (org.), Introdução à linguística. São Paulo: Contexto, 2010, p. 46).
Para mim, tudo ficou muito claro. O entrevistador, querendo empatia do público ou aprovação por uma atuação mais incisiva, fez a pergunta com objetivo de colocar Giovane nas cordas. Giovane, que sabe que é pessoa pública, que tem um público específico de aficcionados por ele, pelo vôlei ou pelo SESI, saiu das cordas com destreza e deixou claro, não para o repórter, mas para a audiência, que entendeu a armadilha e que não cairia nela.
Mas o público não é uma entidade passível de ser completamente conhecida. Na verdade, é uma entidade um tanto quanto abstrata. O público não é o índice do IBOPE, é algo complexo, variado, de difícil definição e apreensão. Quem lida com essa entidade tão complicada de conceituar tem de ter um norte, uma base, um fundamento. Na falta deste, vem à tona uma espécie de generalização, meio simplificadora, meio redutora, do que seriam os interesses da audiência. Essa imagem (considerada em sua complexidade ou simplicadora e generalizante) é o que, em Greimas, define-se como simulacro, ou seja, "representações das competências respectivas que se atribuem reciprocamente os participantes da comunicação e que intervêm como algo prévio, necessário a qualquer relação intersubjetiva" (FIORIN, José Luiz (org.), Introdução à linguística. São Paulo: Contexto, 2010, p. 46). O repórter forma mentalmente um simulacro do espectador, e isso guia a formulação de sua pergunta. O simulacro, nesse caso, é uma imagem negativa, aética, de mediocridade, como se o público estivesse ali para cutucar Giovane, e não para compartilhar a alegria da conquista. O entrevistado também trabalha com um simulacro de seu público, bem mais positivo. Ele entende que não é oportuno fazer comparações com outras conquistas, e, ao mesmo tempo, que é necessário ser polido e reencaminhar a entrevista que está sendo realizada, em respeito a quem o acompanha pela televisão.
Eu não trabalharia com uma imagem negativa de público, se fosse o entrevistador. Ou seja: eu não teria feito aquela pergunta. Por outro lado, se há orientação explícita ou implícita dentro do jornalismo para uma atuação tão desrespeitosa em relação ao espectador, quase o chamando de idiota, eu fico achando que algo no jornalismo se perdeu. E se essa orientação estiver correta em sua construção do simulacro da audiência, só me resta rezar.
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