Deve haver um volume da antiga coleção Primeiros Passos (muito boa, por sinal)com esse título. Se há, eu não li, e lerei quando tiver acesso, pela curiosidade em relação ao assunto. Disso o leitor pode depreender, de imediato, que sou um leigo abordando uma questão da qual pouco sei. Mas considero minhas dúvidas pertinentes.
Lamento por meus amigos jornalistas, pessoas sérias e competentes, que não merecem ler isto, mas a pauta jornalística com que me deparo diariamente parece fictícia. Durante muito tempo, entre as décadas de 80 e 90, circulou a fantasiosa noção de que qualquer criança pequena dos tempos atuais estaria lidando com uma gama muito mais ampla e complexa de informações que os adultos do passado. Sempre achei isso um exagero, mas é incrível como a maioria das pessoas creem piamente que seus filhos são mais brilhantes porque sabem lidar melhor com novas tecnologias e coisas que os circundam. Não é que eu tenha dúvidas a esse respeito: eu tenho certeza de que isso é bobagem. Essa certeza vem da experiência de longos anos ministrando aulas para meninos e meninas na Prefeitura de São Paulo.
Fato: há mais mídia, e maior presença da mídia. Você senta num restaurante, e a TV está ligada. Você anda nas ruas, e elas estão repletas de pessoas com fones de ouvido e celulares. Você liga o computador, e ele tem quase infinitas possibilidades para seu entretenimento ou para sua atualização. Você tem mais opções de mídia em casa, fora de casa, no caminho de casa...
Além disso, é perceptível que a mídia torna determinadas questões importantes, em detrimento de outras. E que isso passa a ser não uma questão de escolha dos indivíduos, mas uma questão de possibilidade social de interação. As pessoas sabem que se não assistem determinados programas, se não repetem determinados chavões e se não embarcam em determinadas ondas, não conseguem se comunicar.
É nesse ponto que entra o questionamento que venho me fazendo: como fica a informação nesse contexto? Digamos que um coelhinho atravesse um vagão de metrô na Tailândia, e isso se torne um hit no YouTube ou seja um quadro do Fantástico. Isso é informação? Isso é relevante? Eu quero falar disso com meus amigos? Provavelmente não. Não é informação porque não acrescenta nada em termos de conhecimento, e nem é realmente útil para o que faço. Não é relevante porque não se relaciona a nenhum dos valores sobre os quais é pertinente refletir sempre. Não quero falar disso com as pessoas porque valorizo o tempo que tenho em suas companhias, e quero compartilhar o que tiver de melhor, e não isso. Mas, em determinado momento, você conversa com as pessoas, e elas falam desse vídeo de coelhinho. E esperam que você se posicione em relação a isso, que compartilhe dessa experiência, que pelo menos saiba algo a respeito para poder sustentar a conversação. E você não sabe.
Quando você se dá conta de que vai ficar isolado se não estiver "por dentro" dessas falsas informações, você começa a tentar conhecê-las. Se você possuir uma monstruosa inteligência emocional, conseguirá articulá-las como itens de comunicação interpessoal, na mesma categoria do "bom dia" ou "vai chover hoje". Mas se você afrouxar a vigilância interior, logo vai concordar com o festival de afirmações cretinas, disparatadas e sem noção que o rodeia. E lá se vão as pessoas repetindo coisas como "o problema do Brasil são os marajás", "o bug do milênio destruirá tudo", "funcionário público é tudo vagabundo" e coisas do gênero. Afirmações que cinco minutos de raciocínio simples, ou dez minutos de leitura de informação de verdade, destruiriam sem deixar vestígios.
Não, amigos, nada disso é informação. Isso é distração, entretenimento travestido de informação.
E é muito duro ficar sozinho no meio de tudo isso. Mas o dia chega. E quando ele chega, você não consegue mais achar que é preciso saber das últimas fofocas da rabuda da vez, ou da última porcaria sem letra nem melodia que "todo mundo está ouvindo". Você quer falar de bandas com músicas sensíveis e trabalhadas, mas as pessoas não conhecem, e - pior - têm medo de que conhecer e gostar delas torne-se fator de isolamento. Você quer falar de livros, mas as pessoas não leem nada, e evitam aquilo que pode ser relevante e, consequentemente, polêmico. Você quer falar de religião, política, futebol, mas as pessoas não querem lidar com discordâncias. Você quer contar histórias, mas ninguém está disposto a ouvir mais do que cinco minutos de absolutamente nada. As pessoas têm tanta pressa de preencher seus vazios que acabam esquecendo de conferir se eles realmente foram preenchidos.
A não ser que você considere que se possa chamar de informação a compra de um mamão na feira por uma celebridade, ou declarações completamente estapafúrdias de pseudoespecialistas, eu creio que não estamos sendo bombardeados de informação pela mídia. Nós estamos sendo enganados, e estamos aprendendo a desconfiar dessa enganação. Mas ainda de forma muito tímida, e com alguns retrocessos, como se pode perceber pelas últimas "febres" nas redes sociais.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
sábado, 14 de janeiro de 2012
Reciclagem de lixo (a que funciona)
O lixo aparece. Feio, sem graça, sem trazer nada de novo, sem acrescentar nada. Era simples: jogar na lata ou na trituradora.
Aí, o espertalhão vem com uma excelente ideia: por que não ganhar dinheiro com esse lixo? Os não-espertalhões argumentam: ora, porque isso é lixo; é feio, não tem graça, não traz nada de novo e não acrescenta nada. O espertalhão preferiria não responder, mas responde: "e daí? O importante é que eu vou ganhar dinheiro!".
E então o lixo, em vez de ir para a lata ou a trituradora, vai para o computador. O computador se esforça: melhora infinitamente a imagem, melhora o som, melhora a narrativa. O lixo fica parecendo produto. Continua feio, sem graça, sem trazer nada de novo e sem acrescentar nada. Mas vira um lixo apresentável.
O problema é que geralmente o lixo tem um dono. E não dá para reciclar o lixo sem reciclar o dono. O computador sabe que, para achar mais lixo, as pessoas procurarão o dono. As pessoas não sabem que, para achar mais lixo, podem procurar milhares de outros donos de lixo, tão competentes em fazer coisas feias, sem graça, sem trazer nada de novo e sem acrescentar nada quanto quaisquer outras.
Mas o computador tem até fórmulas para o dono do lixo: assessoria de imprensa, aulas de etiqueta e um monte de coisas, respostas padrão para jornalistas não encomendados. O computador manda colocar uma roupinha da moda, se é dono, e uns silicones, se é dona. Pronto, o dono já é tão apresentável quanto seu lixo.
Agora é hora de replicar o lixo. Não, não é reciclar: é replicar. É mostrar o lixo na mão de gente sorrindo. É jogar o lixo na mídia. É fazer gente conhecida dizer que o lixo é bom. É associar o lixo a "estar na onda" ou "estar por dentro". É tornar impossível a quem não liga para o lixo de ficar indiferente a ele. Aos que tentarem resistir, replicar, mais e mais. Naturalizar o lixo. Fazer com que o lixo seja um padrão, algo a ser copiado. Parabenizar publicamente o dono do lixo. Pagar puxa-sacos e liberar otários para pedirem mais lixo ao dono do lixo. Convocar intelectuais para afirmarem o direito ao lixo e condenarem como antidemocráticos e atrasados os que chamam o lixo de lixo. Criar uma polêmica sobre a qualidade do lixo, e obrigar os que não gostam do lixo a consumir o lixo para terem autoridade ao criticá-lo. Escrever sobre o lixo, justificando-o, reconhecendo que ele tem aspectos sadios para a cultura, apesar de ser feio, sem graça, sem novidade e sem nada a acrescentar.
E se o dono do lixo concordar em continuar revirando seus estrumes e porcarias para oferecer lixo dentro desse esquema, ele pode se tornar um verdadeiro lixo humano. Uma celebridade, idolatrada, querida. Feia, sem graça, sem trazer nada de novo e sem acrescentar nada a ninguém, mas querida.
Mas pode ser que o dono do lixo julgue ter direitos. Ou o direito de criar mais lixo sem recurso ao computador, ou o direito de não fazer mais lixo. Então, está na hora de procurar outro lixo para reciclar. De pegar o dono do lixo e jogar na lata ou na trituradora. De jogá-lo fora e ainda continuar lucrando com o lixo dele. Porque o espertalhão não curte lixo. Ele vende lixo para poder comprar o que não é lixo. Ele pode se desfazer do dono do lixo, porque o espertalhão é dono de algo maior: da estrutura toda da reciclagem. Então, não é preciso nem muito esforço. Basta ele parar o processo, e dono do lixo não é mais apresentável. As pessoas não procurarão mais o dono do lixo, porque os jornalistas não farão mais perguntas, os puxa-sacos não aparecerão mais, não haverá mais orientação para nada. Mas o lixo continuará apresentável e apresentado, gerando dinheiro. Feio, sem graça, sem trazer nada de novo e sem acrescentar nada, mas gerando dinheiro.
E quando o lixo gastar (porque a embalagem feita pelo computador é rapidamente degradável), não tem problema. O espertalhão sabe que lixo é fácil de achar, daqui a pouco aparece mais.
E aparece o lixo. E começa tudo de novo. Por isso é que se chama reciclagem.
Aí, o espertalhão vem com uma excelente ideia: por que não ganhar dinheiro com esse lixo? Os não-espertalhões argumentam: ora, porque isso é lixo; é feio, não tem graça, não traz nada de novo e não acrescenta nada. O espertalhão preferiria não responder, mas responde: "e daí? O importante é que eu vou ganhar dinheiro!".
E então o lixo, em vez de ir para a lata ou a trituradora, vai para o computador. O computador se esforça: melhora infinitamente a imagem, melhora o som, melhora a narrativa. O lixo fica parecendo produto. Continua feio, sem graça, sem trazer nada de novo e sem acrescentar nada. Mas vira um lixo apresentável.
O problema é que geralmente o lixo tem um dono. E não dá para reciclar o lixo sem reciclar o dono. O computador sabe que, para achar mais lixo, as pessoas procurarão o dono. As pessoas não sabem que, para achar mais lixo, podem procurar milhares de outros donos de lixo, tão competentes em fazer coisas feias, sem graça, sem trazer nada de novo e sem acrescentar nada quanto quaisquer outras.
Mas o computador tem até fórmulas para o dono do lixo: assessoria de imprensa, aulas de etiqueta e um monte de coisas, respostas padrão para jornalistas não encomendados. O computador manda colocar uma roupinha da moda, se é dono, e uns silicones, se é dona. Pronto, o dono já é tão apresentável quanto seu lixo.
Agora é hora de replicar o lixo. Não, não é reciclar: é replicar. É mostrar o lixo na mão de gente sorrindo. É jogar o lixo na mídia. É fazer gente conhecida dizer que o lixo é bom. É associar o lixo a "estar na onda" ou "estar por dentro". É tornar impossível a quem não liga para o lixo de ficar indiferente a ele. Aos que tentarem resistir, replicar, mais e mais. Naturalizar o lixo. Fazer com que o lixo seja um padrão, algo a ser copiado. Parabenizar publicamente o dono do lixo. Pagar puxa-sacos e liberar otários para pedirem mais lixo ao dono do lixo. Convocar intelectuais para afirmarem o direito ao lixo e condenarem como antidemocráticos e atrasados os que chamam o lixo de lixo. Criar uma polêmica sobre a qualidade do lixo, e obrigar os que não gostam do lixo a consumir o lixo para terem autoridade ao criticá-lo. Escrever sobre o lixo, justificando-o, reconhecendo que ele tem aspectos sadios para a cultura, apesar de ser feio, sem graça, sem novidade e sem nada a acrescentar.
E se o dono do lixo concordar em continuar revirando seus estrumes e porcarias para oferecer lixo dentro desse esquema, ele pode se tornar um verdadeiro lixo humano. Uma celebridade, idolatrada, querida. Feia, sem graça, sem trazer nada de novo e sem acrescentar nada a ninguém, mas querida.
Mas pode ser que o dono do lixo julgue ter direitos. Ou o direito de criar mais lixo sem recurso ao computador, ou o direito de não fazer mais lixo. Então, está na hora de procurar outro lixo para reciclar. De pegar o dono do lixo e jogar na lata ou na trituradora. De jogá-lo fora e ainda continuar lucrando com o lixo dele. Porque o espertalhão não curte lixo. Ele vende lixo para poder comprar o que não é lixo. Ele pode se desfazer do dono do lixo, porque o espertalhão é dono de algo maior: da estrutura toda da reciclagem. Então, não é preciso nem muito esforço. Basta ele parar o processo, e dono do lixo não é mais apresentável. As pessoas não procurarão mais o dono do lixo, porque os jornalistas não farão mais perguntas, os puxa-sacos não aparecerão mais, não haverá mais orientação para nada. Mas o lixo continuará apresentável e apresentado, gerando dinheiro. Feio, sem graça, sem trazer nada de novo e sem acrescentar nada, mas gerando dinheiro.
E quando o lixo gastar (porque a embalagem feita pelo computador é rapidamente degradável), não tem problema. O espertalhão sabe que lixo é fácil de achar, daqui a pouco aparece mais.
E aparece o lixo. E começa tudo de novo. Por isso é que se chama reciclagem.
domingo, 25 de dezembro de 2011
Por que os bichinhos me comovem?
Meus amigos e meus inimigos têm uma senha para me ganhar, dominar ou expor. Eles sabem que sou muuuuuito emotivo. E que choro fácil, fácil.
Isso desde criança, e não exatamente porque seja um menino mimado (pelo menos não tanto quanto outros que tenho conhecido ultimamente), mas porque talvez esse seja um daqueles traços que são da pessoa, que vêm com a história de vida e as disposições de espírito de cada um, e que não podem, mesmo com toda a terapia do mundo, ser apagados sem prejuízo da integridade.
O mais interessante - e talvez mais perigoso - dessa emotividade é que ela se associa a coisas curiosas, inusitadas e incomuns. O megaexemplo seria minha paixão pelos bichinhos: cães, gatos, coelhos, lagartixas, tigres, sapos, formigas etc. Observar os animais, para mim, é de certa forma ser absorvido por seus dramas de existência, suas lutas, suas dores, suas sortes e azares. E - perdoem-me a afirmação provavelmente exagerada - sinto-me mais humano vivenciando essa experiência do que me sentiria em certas situações cotidianas entre humanos. Talvez porque os animais são o que são, sempre; e os humanos esforçam-se, muitas vezes, em ser alguma coisa que não são, e não chegarão de fato a ser.
Eu não posso ver filmes como "Marley e eu". Eles me fazem chorar, eu fico automaticamente apaixonado pela personagem principal. Não precisam nem ser grandes filmes, como de fato esse não é, mas basta que tenham a sensibilidade de mostrar a natureza sem disfarces nem meias verdades dos bichos para que eu me entregue por inteiro. Esses dias o filme passou de novo. Consegui ver até as cenas em que ele começa a envelhecer. Depois, fui fazer outra coisa, porque sabia que desabaria no final.
A série "No reino dos Suricatos" é outro exemplo. Como me comove! Como torço por aqueles animaizinhos simpáticos, gregários e expostos à toda aridez e inospitalidade do deserto! Certos episódios são mesmo impossíveis de ver, para mim, sem chorar, ou pelo menos ficar perto de derrubar algumas lágrimas.
Um amigo meu de profissão me disse que uma das melhores sensações de sua vida era observar, por horas e horas, caracóis, formigas, caramujos percorrendo o campo aberto das terras do interior. Isso é realmente uma experiência única. Só consegui fazer isso na infância, mas reconheço-me inteiramente nesse prazer que ele me descreveu.
E eu poderia ficar aqui enumerando muitas outras situações, com gatos abandonados, cachorros de rua, pombos e pássaros caídos, e outros. Há algo em mim que se mobiliza em prol dessas criaturas.
Evidentemente, amo os seres humanos também, tanto que mergulho na cultura historicamente produzida como quem salta em uma piscina de mel. A questão é que, por alguma razão que não sei dizer, os bichinhos muitas vezes parecem mais indefesos diante do mundo, e ao mesmo tempo mais fortes e resilientes em sua batalha pela continuidade da espécie. Enfim, é inútil explicar.
Como todas as coisas da minha vida, essa facilidade de comoção está eivada de contradições. Perguntariam, com razão, vários de meus amigos: mas, se você compreende a dignidade e a integridade dos animais, por que não se torna vegano, ou vegetariano? Olha... eu tentei. Não consegui. Mas não descarto tentar de novo. Na verdade, tenho enorme admiração pela minha prima Estela e meu amigo Cesar, que levam esses princípios muito a sério em suas vidas. Talvez eu precise de mais tempo; talvez seja esse um dos meus desafios a vencer. Evidentemente, se minha saúde ficasse comprometida, ou se houvesse necessidade de consumo, para alguma carência do organismo, de elementos de origem animal, eu os consumiria, mas evitando ao máximo ampliar essa necessidade ao ponto de transformar em hábitos descuidados.
Mas essa é uma outra questão. O que quero deixar claro nesta postagem é que meu coração é dos cães, gatos e suricatos, mesmo quando não os compreendo ou tenho medo de suas reações. Ou posso até dizer: justamente porque eles guardam certo mistério da vida, que é divino em sua manifestação.
Isso desde criança, e não exatamente porque seja um menino mimado (pelo menos não tanto quanto outros que tenho conhecido ultimamente), mas porque talvez esse seja um daqueles traços que são da pessoa, que vêm com a história de vida e as disposições de espírito de cada um, e que não podem, mesmo com toda a terapia do mundo, ser apagados sem prejuízo da integridade.
O mais interessante - e talvez mais perigoso - dessa emotividade é que ela se associa a coisas curiosas, inusitadas e incomuns. O megaexemplo seria minha paixão pelos bichinhos: cães, gatos, coelhos, lagartixas, tigres, sapos, formigas etc. Observar os animais, para mim, é de certa forma ser absorvido por seus dramas de existência, suas lutas, suas dores, suas sortes e azares. E - perdoem-me a afirmação provavelmente exagerada - sinto-me mais humano vivenciando essa experiência do que me sentiria em certas situações cotidianas entre humanos. Talvez porque os animais são o que são, sempre; e os humanos esforçam-se, muitas vezes, em ser alguma coisa que não são, e não chegarão de fato a ser.
Eu não posso ver filmes como "Marley e eu". Eles me fazem chorar, eu fico automaticamente apaixonado pela personagem principal. Não precisam nem ser grandes filmes, como de fato esse não é, mas basta que tenham a sensibilidade de mostrar a natureza sem disfarces nem meias verdades dos bichos para que eu me entregue por inteiro. Esses dias o filme passou de novo. Consegui ver até as cenas em que ele começa a envelhecer. Depois, fui fazer outra coisa, porque sabia que desabaria no final.
A série "No reino dos Suricatos" é outro exemplo. Como me comove! Como torço por aqueles animaizinhos simpáticos, gregários e expostos à toda aridez e inospitalidade do deserto! Certos episódios são mesmo impossíveis de ver, para mim, sem chorar, ou pelo menos ficar perto de derrubar algumas lágrimas.
Um amigo meu de profissão me disse que uma das melhores sensações de sua vida era observar, por horas e horas, caracóis, formigas, caramujos percorrendo o campo aberto das terras do interior. Isso é realmente uma experiência única. Só consegui fazer isso na infância, mas reconheço-me inteiramente nesse prazer que ele me descreveu.
E eu poderia ficar aqui enumerando muitas outras situações, com gatos abandonados, cachorros de rua, pombos e pássaros caídos, e outros. Há algo em mim que se mobiliza em prol dessas criaturas.
Evidentemente, amo os seres humanos também, tanto que mergulho na cultura historicamente produzida como quem salta em uma piscina de mel. A questão é que, por alguma razão que não sei dizer, os bichinhos muitas vezes parecem mais indefesos diante do mundo, e ao mesmo tempo mais fortes e resilientes em sua batalha pela continuidade da espécie. Enfim, é inútil explicar.
Como todas as coisas da minha vida, essa facilidade de comoção está eivada de contradições. Perguntariam, com razão, vários de meus amigos: mas, se você compreende a dignidade e a integridade dos animais, por que não se torna vegano, ou vegetariano? Olha... eu tentei. Não consegui. Mas não descarto tentar de novo. Na verdade, tenho enorme admiração pela minha prima Estela e meu amigo Cesar, que levam esses princípios muito a sério em suas vidas. Talvez eu precise de mais tempo; talvez seja esse um dos meus desafios a vencer. Evidentemente, se minha saúde ficasse comprometida, ou se houvesse necessidade de consumo, para alguma carência do organismo, de elementos de origem animal, eu os consumiria, mas evitando ao máximo ampliar essa necessidade ao ponto de transformar em hábitos descuidados.
Mas essa é uma outra questão. O que quero deixar claro nesta postagem é que meu coração é dos cães, gatos e suricatos, mesmo quando não os compreendo ou tenho medo de suas reações. Ou posso até dizer: justamente porque eles guardam certo mistério da vida, que é divino em sua manifestação.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Deus
Se você colocasse uma câmera em um lugar qualquer do mundo não imediatamente acessível ao ser humano, provavelmente conseguiria filmar algum tipo de vida formando-se e protegendo-se em grupos e sistemas. Que tipo de vida seria esse? Poderiam ser criaturas como pequenos insetos, peixes circulando em cardumes, plantas parasitando outras plantas, mamíferos em semivigília para antecipar o ataque dos predadores. Seja qual for o formato desse ser, seja qual for a enformação dessa vida, o fato é que ela estará, sempre, fragilmente, equilibrando-se sobre uma corda bamba. Para esses notáveis batalhadores, conviver com a iminência do desaparecimento, da morte, da destruição, é parte de uma experiência evolutiva instintiva da qual, mesmo não tendo consciência, eles são os legítimos atualizadores e mantenedores em sua singularidade individual.
Quando um bando de roedores atravessa desavisadamente um caminho cheio de sinuosidades e esconderijos, onde uma serpente silenciosa posiciona-se para obter sua presa do dia, não há garantias, nem seguros, nem leis, nem justiça, nem nada. Daqueles vinte ou trinta que passarão, um ficará, e não é possível dizer qual seja. Aos outros, restará a fuga, a reorganização do grupo, a triste percepção da perda de um membro, e a continuidade da jornada. E a inteligência do instinto, a avisar: deve-se estar atento, pois é preciso que continuemos no mundo.
Por que aquele, e não outro? Por que x e y sobrevivem a uma inundação, e não a ou b? Por que, das tantas moscas que sobrevoam os restos nos matagais, justamente aquelas tinham de enredar numa teia de aranha, e outras prosseguiriam com sua rotina de alimentação e reprodução? Não sei se é possível responder a essas especulações, e talvez elas nem façam realmente sentido, uma vez que procuram encontrar padrões numa realidade ainda não suficientemente desvendada. O que considero, na verdade, mais intrigante nisso tudo é que, embora tenhamos muitas vezes a convicção de que, pelo menos no espaço de tempo em que realizamos nossas atividades cotidianas, nosso lugar no universo está garantido, estamos, provavelmente, na mesma situação dos roedores do parágrafo anterior. Vivemos num mundo em que, caminhando por dentre multidões, ou fechados em fantasias de segurança, somos absolutamente vulneráveis. Menos que as moscas, que os coelhos, que a plantas? Talvez. Mas quando um atirador anônimo invade um espaço em que você está, num momento de delírio psicótico, caberá uma mesma indagação aplicável ao reino animal: por que fiquei, e outro se foi? Por que alguns são pegos de surpresa por coisas tão absurdas quanto uma bala perdida ou uma queda aparentemente trivial, enquanto outros escapam de guerras sanguinárias e condições completamente desfavoráveis?
Creio que somos animais, antes de tudo, e que tenhamos essa bela e sábia condição de seguir em frente, sobrevivendo, dando continuidade à espécie. Mas nossa relativa segurança física para o prosseguimento da experiência da vida, construída pelo engenho de inúmeras gerações de nossos antepassados, talvez tenha nos dado uma percepção arrogante do mundo, camuflando a irmandade que temos com todos os seres subsistentes que nos rodeiam, que é baseada, justamente, na quase insignificância perante o todo, aliada à extrema singularidade de permanecer uno e respirando apesar de todas as possibilidades em contrário. É um milagre estar aqui blogando e dividindo a sensação da própria finitude com outros da mesma espécie, num planeta tão rico de vidas e experiências do existir. Se somos animais antes de tudo, somos homens, acima de tudo, e espíritos, em meio a tudo, e expressões de uma inteligência superior, a despeito de tudo.
Nisso se fundamenta meu amor por Deus.
Quando um bando de roedores atravessa desavisadamente um caminho cheio de sinuosidades e esconderijos, onde uma serpente silenciosa posiciona-se para obter sua presa do dia, não há garantias, nem seguros, nem leis, nem justiça, nem nada. Daqueles vinte ou trinta que passarão, um ficará, e não é possível dizer qual seja. Aos outros, restará a fuga, a reorganização do grupo, a triste percepção da perda de um membro, e a continuidade da jornada. E a inteligência do instinto, a avisar: deve-se estar atento, pois é preciso que continuemos no mundo.
Por que aquele, e não outro? Por que x e y sobrevivem a uma inundação, e não a ou b? Por que, das tantas moscas que sobrevoam os restos nos matagais, justamente aquelas tinham de enredar numa teia de aranha, e outras prosseguiriam com sua rotina de alimentação e reprodução? Não sei se é possível responder a essas especulações, e talvez elas nem façam realmente sentido, uma vez que procuram encontrar padrões numa realidade ainda não suficientemente desvendada. O que considero, na verdade, mais intrigante nisso tudo é que, embora tenhamos muitas vezes a convicção de que, pelo menos no espaço de tempo em que realizamos nossas atividades cotidianas, nosso lugar no universo está garantido, estamos, provavelmente, na mesma situação dos roedores do parágrafo anterior. Vivemos num mundo em que, caminhando por dentre multidões, ou fechados em fantasias de segurança, somos absolutamente vulneráveis. Menos que as moscas, que os coelhos, que a plantas? Talvez. Mas quando um atirador anônimo invade um espaço em que você está, num momento de delírio psicótico, caberá uma mesma indagação aplicável ao reino animal: por que fiquei, e outro se foi? Por que alguns são pegos de surpresa por coisas tão absurdas quanto uma bala perdida ou uma queda aparentemente trivial, enquanto outros escapam de guerras sanguinárias e condições completamente desfavoráveis?
Creio que somos animais, antes de tudo, e que tenhamos essa bela e sábia condição de seguir em frente, sobrevivendo, dando continuidade à espécie. Mas nossa relativa segurança física para o prosseguimento da experiência da vida, construída pelo engenho de inúmeras gerações de nossos antepassados, talvez tenha nos dado uma percepção arrogante do mundo, camuflando a irmandade que temos com todos os seres subsistentes que nos rodeiam, que é baseada, justamente, na quase insignificância perante o todo, aliada à extrema singularidade de permanecer uno e respirando apesar de todas as possibilidades em contrário. É um milagre estar aqui blogando e dividindo a sensação da própria finitude com outros da mesma espécie, num planeta tão rico de vidas e experiências do existir. Se somos animais antes de tudo, somos homens, acima de tudo, e espíritos, em meio a tudo, e expressões de uma inteligência superior, a despeito de tudo.
Nisso se fundamenta meu amor por Deus.
sábado, 5 de novembro de 2011
Pontos a esclarecer
Esses dias, indignado com a confusão e a loucura que se estabeleceram no prédio da faculdade responsável pela minha formação, desabafei em forma de piada no Facebook. Escrevi que a PM da USP tinha achado o assassino de Salomão Hayala (o vilão da novela das 11), com a intenção de dizer que tinha cometido exagero na atuação contra os estudantes pegos com maconha. Não sei se houve ou não exagero na abordagem, mas tenho certeza de que houve na condução.
Enfim, isso pouco importa. O que importa é que alguns leram a piada que fiz, que evidentemente implicava a incorporação de uma voz social conservadora atacando os uspianos, sem compreender a ironia das palavras, ou seja, o fato de que eu me solidarizava com os estudantes. Esse mal entendido gerou desconforto para mim, e tive de tirar a piada do ar, porque os comentários levavam a crer que eu tinha dito uma outra coisa.
Em função disso, quero esclarecer alguns pontos do meu pensamento, para que nada fique por interpretar, e as pessoas tenham clareza de algumas posições.
Primeiro, não sou a favor nem contra a PM no campus da USP. Não tenho nada, a princípio, contra a PM (talvez contra alguns PMs, mas que não creio representarem a insituição como um todo). Só que ainda não me convenci da efetiva necessidade dela, se por tantos anos tivemos uma guarda universitária que, bem ou mal, dava conta do recado. Não era mais simples equipar, preparar e reorganizar a guarda universitária? Mas, enfim, não é, no meu caso, nem questão de rancor, nem de medo, nem de nada. Apenas de entendimento.
Segundo, sou a favor da descriminalização do uso da maconha. Se o policial, na USP ou em qualquer outro lugar, ficar preocupado em prender quem está fumando um baseado, não tem polícia para tanta gente. E acredito que um sujeito enchendo a cara num barzinho e depois saindo com seu carro na madrugada é muito mais pernicioso que alguém que fuma maconha. A polícia precisa se focar em coisas mais importantes e perigosas para a sociedade.
Terceiro, não julgo o caráter das pessoas pelo uso ou não uso de nenhum tipo de droga, ou remédio, ou estimulante. Há canalhas abstêmios e pessoas indescritivelmente lindas que fumam, ou bebem, ou cheiram, ou injetam anabolizantes, ou abusam de remédios. O verdadeiro problema é o tráfico de drogas, não o usuário.
Quarto, acredito que as pessoas acabam criando, pelos padrões de comportamento socialmente observáveis dos estudantes, um estereótipo geral de quem frequenta cada faculdade. O perfil da FFLCH, para a maioria das pessoas, é de um frequentador mais desencanado, questionador, e zeloso da liberdade individual. O do Mackenzie, será outro, o da PUC, outro; e, mesmo dentro da USP, o da Medicina ou do Direito, outro e outro. Quando aconteceram as confusões dentro do campus, vi, li e ouvi pessoas querendo preconceituosamente desqualificar, com base em interpretações pobres e distorcidas derivadas desses estereótipos, tanto o aluno da FFLCH quanto o da USP como um todo. Não acho que podemos coadunar com esse tipo de pensamento. Não somos "vagabundos maconheiros", como algumas pessoas deixaram entender. Somos estudantes. Trabalhamos, lutamos por ideais, produzimos conhecimento, atuamos em vários setores da sociedade. E se alguns ou muitos de nós fumam maconha, não creio que a porcentagem seria diferente se pegássemos festas de elite nos bairros chiques de São Paulo ou pancadões na periferia, ou escolas de luxo e caríssimas e escolas públicas, como parâmetros de comparação. Fuma-se tanto na USP quanto em qualquer outra instituição de ensino, ou de qualquer outra coisa, no Brasil. Se a droga é um problema, é um problema da sociedade como um todo e não de uma suposta impertinência de um grupo social específico.
Quinta e última coisa, só para que fique claro o lugar de onde falo, e não porque eu sinta necessidade de me defender da hipocrisia alheia: eu nunca fumei maconha, eu não bebo, eu nunca utilizei drogas ilícitas. E não acho que seja melhor que ninguém por causa disso.
Enfim, isso pouco importa. O que importa é que alguns leram a piada que fiz, que evidentemente implicava a incorporação de uma voz social conservadora atacando os uspianos, sem compreender a ironia das palavras, ou seja, o fato de que eu me solidarizava com os estudantes. Esse mal entendido gerou desconforto para mim, e tive de tirar a piada do ar, porque os comentários levavam a crer que eu tinha dito uma outra coisa.
Em função disso, quero esclarecer alguns pontos do meu pensamento, para que nada fique por interpretar, e as pessoas tenham clareza de algumas posições.
Primeiro, não sou a favor nem contra a PM no campus da USP. Não tenho nada, a princípio, contra a PM (talvez contra alguns PMs, mas que não creio representarem a insituição como um todo). Só que ainda não me convenci da efetiva necessidade dela, se por tantos anos tivemos uma guarda universitária que, bem ou mal, dava conta do recado. Não era mais simples equipar, preparar e reorganizar a guarda universitária? Mas, enfim, não é, no meu caso, nem questão de rancor, nem de medo, nem de nada. Apenas de entendimento.
Segundo, sou a favor da descriminalização do uso da maconha. Se o policial, na USP ou em qualquer outro lugar, ficar preocupado em prender quem está fumando um baseado, não tem polícia para tanta gente. E acredito que um sujeito enchendo a cara num barzinho e depois saindo com seu carro na madrugada é muito mais pernicioso que alguém que fuma maconha. A polícia precisa se focar em coisas mais importantes e perigosas para a sociedade.
Terceiro, não julgo o caráter das pessoas pelo uso ou não uso de nenhum tipo de droga, ou remédio, ou estimulante. Há canalhas abstêmios e pessoas indescritivelmente lindas que fumam, ou bebem, ou cheiram, ou injetam anabolizantes, ou abusam de remédios. O verdadeiro problema é o tráfico de drogas, não o usuário.
Quarto, acredito que as pessoas acabam criando, pelos padrões de comportamento socialmente observáveis dos estudantes, um estereótipo geral de quem frequenta cada faculdade. O perfil da FFLCH, para a maioria das pessoas, é de um frequentador mais desencanado, questionador, e zeloso da liberdade individual. O do Mackenzie, será outro, o da PUC, outro; e, mesmo dentro da USP, o da Medicina ou do Direito, outro e outro. Quando aconteceram as confusões dentro do campus, vi, li e ouvi pessoas querendo preconceituosamente desqualificar, com base em interpretações pobres e distorcidas derivadas desses estereótipos, tanto o aluno da FFLCH quanto o da USP como um todo. Não acho que podemos coadunar com esse tipo de pensamento. Não somos "vagabundos maconheiros", como algumas pessoas deixaram entender. Somos estudantes. Trabalhamos, lutamos por ideais, produzimos conhecimento, atuamos em vários setores da sociedade. E se alguns ou muitos de nós fumam maconha, não creio que a porcentagem seria diferente se pegássemos festas de elite nos bairros chiques de São Paulo ou pancadões na periferia, ou escolas de luxo e caríssimas e escolas públicas, como parâmetros de comparação. Fuma-se tanto na USP quanto em qualquer outra instituição de ensino, ou de qualquer outra coisa, no Brasil. Se a droga é um problema, é um problema da sociedade como um todo e não de uma suposta impertinência de um grupo social específico.
Quinta e última coisa, só para que fique claro o lugar de onde falo, e não porque eu sinta necessidade de me defender da hipocrisia alheia: eu nunca fumei maconha, eu não bebo, eu nunca utilizei drogas ilícitas. E não acho que seja melhor que ninguém por causa disso.
domingo, 11 de setembro de 2011
O entregador
Dia desses fui com a patroa fazer compras em mercado próximo de casa, mas não tão próximo que possibilitasse trazermos os produtos no braço. Perguntamos, então, a um dos caixas, se havia serviço de entrega; isso definiria o tamanho de nossa compra. O rapaz nos mandou falar com outro empregado, que estava ali perto. Esse era o entregador. Ele garantiu que conseguiria levar os produtos se fizéssemos a compra até as 19h00.
Como bom capricorniano, disciplinado e chatíssimo, fiquei calculando o tempo até que, perto de 15 minutos antes do prazo, encostávamos nosso carrinho em um dos caixas do mercado, para passar as mercadorias. Esse processo demorou um pouco, e, enquanto esperávamos, notei que o entregador me olhava com certa constância, tentando ler algum comportamento ou sacar algum traço que lhe seria importante. Pagos todos os itens, o rapaz sinalizou o funcionário do caixa alguma coisa e me chamou. Disse-me que a entrega implicava acréscimo de 6 reais na compra (disso eu já sabia) e pediu para que eu não pagasse esse dinheiro com a conta no caixa, e sim para ele, depois. Como para mim era exatamente a mesma coisa, aceitei, e na verdade nem estava ligando muito para isso. Estava preocupado com o fato de que iríamos a pé para casa, e as compras, indo de carro, chegariam primeiro.
Foi então que descobri algo que até então não supunha: as compras não iriam de carro. O rapaz colocaria as caixas em um carrinho de entregas, desses que se usam para carregar mercadorias que abastecem o estoque. Ele carregaria as três caixas de coisas que compramos naquele carrinho até chegar em nossa casa. Portanto, caminharíamos juntos até lá.
Confesso que fiquei mais tranquilo de saber que as compras não chegariam primeiro, mas pareceu-me esforço demais para alguém andar sete a oito quarteirões movimentados e de calçadas acidentadas empurrando um carrinho rústico como aquele com tanto peso em cima. Fiquei pensando que, se eu trabalhasse nisso e fizesse vinte entregas por dia, ficaria tão cansado que dormiria umas dez horas seguidas.
No caminho, vim conversando com o rapaz. Descobri muitas coisas. Ele era paraibano, com pouco tempo de São Paulo. Ele ganhava 550 reais por mês para fazer entregas para o mercado, sem direito a vale-transporte nem vale-alimentação. Os seis reais que eu pagaria no caixa ficariam todos para a empresa, pois não importava o número de entregas realizadas para o cômputo do salário final. Ele explicou que, pagando a ele, poderia ter um troco a mais para o transporte e outras necessidades. Disse que era torcedor do Treze, na Paraíba, do Flamengo, no Brasil, e do Corinthians, em São Paulo. Disse-me também muitas outras coisas de que não lembro, pois estava andando mais rápido que o meu normal para acompanhá-lo, e estava um pouco cansado.
Chegamos em casa, e ele levou as caixas até a porta do meu apartamento, enquanto fiquei no térreo, para vigiar o carrinho, que não cabia no elevador. Quando desceu, perguntei se tudo estava entregue, e ele me disse, um tanto desconfiado, que sim, e que minha mulher lhe havia dito que eu pagaria os seis reais na saída. Não fiquei ofendido; sei quanto esse dinheiro era importante para ele.
Dei uma nota dez e não quis troco. Ele saiu contente e agradeceu, desejando-me um bom fim de semana. Mas eu não me senti nada bem. Fiquei pensando no valor das coisas, para mim e para ele. O valor econômico do serviço realizado. O valor moral de pagá-lo "por fora". O valor social de colaborar com alguém que trabalha em condições tão aviltantes. O valor político de conhecer as condições em que um trabalho é realizado, e não apenas o resultado que ele produz em meu benefício. Fiquei pensando em tudo isso, e não cheguei a nenhuma conclusão, mas solidifiquei a certeza de que ainda há muito a se fazer para que se possa promover justiça social de fato no Brasil.
Como bom capricorniano, disciplinado e chatíssimo, fiquei calculando o tempo até que, perto de 15 minutos antes do prazo, encostávamos nosso carrinho em um dos caixas do mercado, para passar as mercadorias. Esse processo demorou um pouco, e, enquanto esperávamos, notei que o entregador me olhava com certa constância, tentando ler algum comportamento ou sacar algum traço que lhe seria importante. Pagos todos os itens, o rapaz sinalizou o funcionário do caixa alguma coisa e me chamou. Disse-me que a entrega implicava acréscimo de 6 reais na compra (disso eu já sabia) e pediu para que eu não pagasse esse dinheiro com a conta no caixa, e sim para ele, depois. Como para mim era exatamente a mesma coisa, aceitei, e na verdade nem estava ligando muito para isso. Estava preocupado com o fato de que iríamos a pé para casa, e as compras, indo de carro, chegariam primeiro.
Foi então que descobri algo que até então não supunha: as compras não iriam de carro. O rapaz colocaria as caixas em um carrinho de entregas, desses que se usam para carregar mercadorias que abastecem o estoque. Ele carregaria as três caixas de coisas que compramos naquele carrinho até chegar em nossa casa. Portanto, caminharíamos juntos até lá.
Confesso que fiquei mais tranquilo de saber que as compras não chegariam primeiro, mas pareceu-me esforço demais para alguém andar sete a oito quarteirões movimentados e de calçadas acidentadas empurrando um carrinho rústico como aquele com tanto peso em cima. Fiquei pensando que, se eu trabalhasse nisso e fizesse vinte entregas por dia, ficaria tão cansado que dormiria umas dez horas seguidas.
No caminho, vim conversando com o rapaz. Descobri muitas coisas. Ele era paraibano, com pouco tempo de São Paulo. Ele ganhava 550 reais por mês para fazer entregas para o mercado, sem direito a vale-transporte nem vale-alimentação. Os seis reais que eu pagaria no caixa ficariam todos para a empresa, pois não importava o número de entregas realizadas para o cômputo do salário final. Ele explicou que, pagando a ele, poderia ter um troco a mais para o transporte e outras necessidades. Disse que era torcedor do Treze, na Paraíba, do Flamengo, no Brasil, e do Corinthians, em São Paulo. Disse-me também muitas outras coisas de que não lembro, pois estava andando mais rápido que o meu normal para acompanhá-lo, e estava um pouco cansado.
Chegamos em casa, e ele levou as caixas até a porta do meu apartamento, enquanto fiquei no térreo, para vigiar o carrinho, que não cabia no elevador. Quando desceu, perguntei se tudo estava entregue, e ele me disse, um tanto desconfiado, que sim, e que minha mulher lhe havia dito que eu pagaria os seis reais na saída. Não fiquei ofendido; sei quanto esse dinheiro era importante para ele.
Dei uma nota dez e não quis troco. Ele saiu contente e agradeceu, desejando-me um bom fim de semana. Mas eu não me senti nada bem. Fiquei pensando no valor das coisas, para mim e para ele. O valor econômico do serviço realizado. O valor moral de pagá-lo "por fora". O valor social de colaborar com alguém que trabalha em condições tão aviltantes. O valor político de conhecer as condições em que um trabalho é realizado, e não apenas o resultado que ele produz em meu benefício. Fiquei pensando em tudo isso, e não cheguei a nenhuma conclusão, mas solidifiquei a certeza de que ainda há muito a se fazer para que se possa promover justiça social de fato no Brasil.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Meu país
Dia 7 de setembro é data em que pessoas de todo o Brasil comemoram ou protestam, projetando e desejando um país melhor. Um anseio dessa ordem é sempre justo e benéfico. Mas não fico contente quando pessoas se utilizam desse anseio como guarda-chuva ideológico para falar mal do Brasil, como se não vivessem aqui ou não tivessem nenhuma relação com a nação e sua cultura.
Li recentemente alguma coisa sobre a Jante Law, conjunto de princípios que regem as relações humanas em países nórdicos europeus - aqueles que são considerados os mais felizes e tranquilos do mundo. Entre as muitas ideias interessantes que considero válidas para qualquer sociedade, tomei como aforismo uma em especial: "Não pense que você é melhor do que nós". Um pouco de bom senso e de atenção a essa constatação quase elementar sobre a natureza humana seria o suficiente para que muitos brasileiros nos poupassem das coisas estúpidas que dizem sobre meu país.
Eu não consigo mais levar a sério quando as pessoas dizem: no Brasil, nada funciona; os americanos é que são isso; os japoneses ou alemães ou italianos é que são aquilo; e coisas do gênero. Eu não consigo conceber que as pessoas ainda acreditem que corrupção, violência, tráfico ou incivilidade sejam problemas inexistentes nas sociedades que consideram melhores que a nossa. Eu não engulo quem sai do Brasil, fica lá fora um tempão, ganha dinheiro, e fica dizendo que o país não vai pra frente, que não tem vínculo com sua pátria, e coisas do tipo.
Eu nasci neste país, eu cresci nesta cultura, eu falo esta língua, eu aprendi a ser o que sou com estas pessoas. Sou louco pela música brasileira, pela culinária brasileira, pela natureza brasileira. As mulheres do Brasil são lindas, as pessoas do Brasil são acolhedoras, o ritmo do Brasil é cativante. Desejo um dia visitar Nova York, Paris, Cairo, sei lá, tantos lugares!, mas eu ainda serei filho desta experiência aqui, destes valores, desta forma de ver e viver o mundo, com muito orgulho.
Eu não tenho vergonha do meu país. Tem gente que considera o máximo tornar-se europeu ou americano ou construir a vida em outro lugar. Respeito as decisões de cada um, mas tenho convicção de que viver aqui ou em outras bandas implica as mesmas etapas de toda a experiência humana: trabalhar, criar relações, cuidar da família etc. E essas coisas podem dar certo ou não no Brasil ou em qualquer outro canto do planeta. Mas muitas pessoas não entendem assim, e acham que quem conseguiu sair do Brasil tem maior valor ou competência que quem ficou.
Por favor, se você não gosta do Brasil, não fale mal dele. É ridículo. Bem ou mal, foram estas águas e estes ares, e estes pratos de arroz com feijão e farinha, que puseram você em pé antes que sequer sonhasse em alçar outros voos. O Brasil não é o que passa no jornal de televisão, e nem o que a elite pensa do povo que trabalha para ela. Meu país é Minas, Rio, Bahia, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pará, Ceará, Pernambuco. É gente demais para generalizar de forma tão redutora e mal-intencionada. É mediocridade demais achar que toda essa gente é má, ou inferior, ou ingênua.
O Brasil não deveria ser, para as pessoas, essa concepção vazia, fabricada pela superficialidade e pelo descompromisso ético de parte da sua elite, que dá margem a todo tipo de preenchimento ideológico pejorativo. Conhecer o Brasil deveria significar, para quem insiste em falar mal de nós e de si mesmo, uma forma de conhecer o sangue que corre nas próprias veias e a sustância que orienta o próprio estar no mundo.
Eu não fui a nenhum desfile no 7 de setembro. Mas, ao pensar com carinho e profundidade no Brasil, eu fui fundo no que sou, e o orgulho que senti de me saber parte desta nação vale a empunhadura de uma bandeira, em qualquer parte do mundo, em qualquer momento da vida.
Li recentemente alguma coisa sobre a Jante Law, conjunto de princípios que regem as relações humanas em países nórdicos europeus - aqueles que são considerados os mais felizes e tranquilos do mundo. Entre as muitas ideias interessantes que considero válidas para qualquer sociedade, tomei como aforismo uma em especial: "Não pense que você é melhor do que nós". Um pouco de bom senso e de atenção a essa constatação quase elementar sobre a natureza humana seria o suficiente para que muitos brasileiros nos poupassem das coisas estúpidas que dizem sobre meu país.
Eu não consigo mais levar a sério quando as pessoas dizem: no Brasil, nada funciona; os americanos é que são isso; os japoneses ou alemães ou italianos é que são aquilo; e coisas do gênero. Eu não consigo conceber que as pessoas ainda acreditem que corrupção, violência, tráfico ou incivilidade sejam problemas inexistentes nas sociedades que consideram melhores que a nossa. Eu não engulo quem sai do Brasil, fica lá fora um tempão, ganha dinheiro, e fica dizendo que o país não vai pra frente, que não tem vínculo com sua pátria, e coisas do tipo.
Eu nasci neste país, eu cresci nesta cultura, eu falo esta língua, eu aprendi a ser o que sou com estas pessoas. Sou louco pela música brasileira, pela culinária brasileira, pela natureza brasileira. As mulheres do Brasil são lindas, as pessoas do Brasil são acolhedoras, o ritmo do Brasil é cativante. Desejo um dia visitar Nova York, Paris, Cairo, sei lá, tantos lugares!, mas eu ainda serei filho desta experiência aqui, destes valores, desta forma de ver e viver o mundo, com muito orgulho.
Eu não tenho vergonha do meu país. Tem gente que considera o máximo tornar-se europeu ou americano ou construir a vida em outro lugar. Respeito as decisões de cada um, mas tenho convicção de que viver aqui ou em outras bandas implica as mesmas etapas de toda a experiência humana: trabalhar, criar relações, cuidar da família etc. E essas coisas podem dar certo ou não no Brasil ou em qualquer outro canto do planeta. Mas muitas pessoas não entendem assim, e acham que quem conseguiu sair do Brasil tem maior valor ou competência que quem ficou.
Por favor, se você não gosta do Brasil, não fale mal dele. É ridículo. Bem ou mal, foram estas águas e estes ares, e estes pratos de arroz com feijão e farinha, que puseram você em pé antes que sequer sonhasse em alçar outros voos. O Brasil não é o que passa no jornal de televisão, e nem o que a elite pensa do povo que trabalha para ela. Meu país é Minas, Rio, Bahia, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pará, Ceará, Pernambuco. É gente demais para generalizar de forma tão redutora e mal-intencionada. É mediocridade demais achar que toda essa gente é má, ou inferior, ou ingênua.
O Brasil não deveria ser, para as pessoas, essa concepção vazia, fabricada pela superficialidade e pelo descompromisso ético de parte da sua elite, que dá margem a todo tipo de preenchimento ideológico pejorativo. Conhecer o Brasil deveria significar, para quem insiste em falar mal de nós e de si mesmo, uma forma de conhecer o sangue que corre nas próprias veias e a sustância que orienta o próprio estar no mundo.
Eu não fui a nenhum desfile no 7 de setembro. Mas, ao pensar com carinho e profundidade no Brasil, eu fui fundo no que sou, e o orgulho que senti de me saber parte desta nação vale a empunhadura de uma bandeira, em qualquer parte do mundo, em qualquer momento da vida.
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