domingo, 28 de junho de 2009

O povo

Excelente o filme "Um homem de moral", sobre a obra musical de Paulo Vanzolini. Além de resgatar as canções do cara, com comentários sobre situações que inspiraram as letras, há uma série de cenas do cotidiano de São Paulo, em vários bairros diferentes, mostrando o dia e a noite da minha cidade natal. A música é a perfeita trilha sonora para as imagens escolhidas.

Mas uma frase do Paulo nas entrevistas gravadas para o filme foi o que mais me chamou atenção. Ele diz, logo no começo, alguma coisa como: "O povo todo mundo, desse eu gosto bastante. Eu não gosto do povo cada um".

Essa sacada eu achei genial, não só pelas expressões "povo todo mundo" e "povo cada um", que sintetizam com poesia os aspectos de todo e parte do conjunto dos cidadãos. O que me pegou foi a percepção de uma questão de fundo filosófico muito presente na obra de um compositor tão ligado à sua cidade. A questão é: é possível gostar do povo sem entender o que é o povo? Quando julgamos captar a "essência" disso que é o povo, não acabamos perdendo os aspectos da diversidade, da individualidade, da exceção?

Quero tentar fazer aqui, a partir desse viés de interpretação, um exercício de reflexão bem particular . Sinto que, para mim, a frase de Vanzolini poderia se inverter. Tenho dificuldade de gostar do "povo todo mundo", e facilidade em gostar do "povo cada um". Sempre fiquei ponderando, mesmo antes de estudar Filosofia, que amar a humanidade, o povo, a nação, é muito difícil, a não ser que eu amasse apenas aquilo que os simboliza. É possível, por exemplo, uma mesma pessoa chorar ao ouvir o Hino Nacional e afirmar que "lugar de nortista é fora de São Paulo". Conheci muitas pessoas assim, e tenho dúvidas se elas realmente amam a nação. O que é nação para elas? A seleção brasileira jogando, a bandeira hasteada, a palavra "Brasil"? Não deveria ser a compreensão da necessária integração cultural entre as pessoas de diferentes partes do país?

Por outro lado - e repito, isso é uma visão muito particular - acho que o preconceito, o medo, a intolerância diminuem muito, mas muito mesmo, com a convivência e a troca. Viajei ao Rio de Janeiro há dois anos, e fiquei na casa de amigos de minha família. A companhia dessas pessoas, o carinho com que me trataram, a disposição de me levarem para conhecer lugares foram coisas que fizeram com que minha impressão sobre o Rio fosse absolutamente positiva. Mas ainda assim não sei se posso dizer que "amo o Rio". Porque o Rio é imenso, tem muita gente, muitos lugares que não são tão turísticos, muitos problemas, e não sei se tudo isso está fora ou dentro de minha forma de sentir essa cidade tão complexa. O que posso afirmar com convicção é que fiz muitos amigos no Rio, e deles gosto sem reservas. Foi assim em Vitória da Conquista. Foi assim em Gramado. E isso me faz crer que tenho muito mais facilidade de gostar das pessoas quando as conheço mais intimamente do que quando nada sei sobre elas. Então, considero mais difícil para mim dizer que gosto do "povo todo mundo".

Admito ter um pé atrás em relação às generalizações. Algumas parecem-me demasiado gratuitas. Como professor, não gosto muito de falas do tipo "o aluno de hoje é assim", "o professor de hoje tem de ser assado", "a criança se comporta de forma X". Uma das coisas que aprendi em sala de aula é que, se você não quer excluir, deve tentar ver as pessoas como são, e não como deveriam ou parecem ser. Alunos são diferentes, classes também, escolas idem. Fora do âmbito profissional, também não gosto de coisas como "quem faz isso é porque é aquilo", ou "isso é coisa de x, y ou z". Toda pessoa comporta um universo de coisas interessantes (quem disse isso foi a Beatriz Bracher, numa gravação do programa Letra Livre da TV Cultura à qual tive a felicidade de assistir), e isso é o que mais me estimula a viver cercado de gente de todo a sorte.

Há uma citação do genial Mikhail Gorbachev no livro de História com o qual trabalho nas 8ªs. séries (História, Sociedade e Cidadania, de Alfredo Boulos) que gostaria de trazer como contribuição. Consta que ela tenha sido extraída do livro Perestroika: novas ideias para o meu país e o mundo:
Penso que aqui seja adequado destacar uma característica especial do
socialismo: o alto grau de proteção social. (...) Mas constatamos também que
pessoas desonestas tentam explorar essas vantagens do socialismo. Conhecem
apenas seus direitos, mas não querem saber de seus deveres. Trabalham mal,
esquivam-se do trabalho e bebem demais. Há um grande número de indivíduos que adaptou as leis e costumes vigentes para servir seus próprios interesses
egoístas. Dão pouco à sociedade mas conseguem, apesar disso, obter tudo o que é
possível dela, e até mesmo o que parece ser impossível: vivem de rendas
imerecidas.

Essa parece-me ser uma outra forma de pensar a dicotomia entre "povo todo mundo" e "povo cada um". E vê-se aqui que essa não é uma questão qualquer: determinou o fim de uma era na história de nosso tempo. O grande estadista russo percebe, com clareza, que não há um "povo geral" para ser governado, e que aquilo que foi feito pensando no benefício de todos não é, necessariamente, valorizado por cada um. Percebe, ainda, que há diferenças individuais, notadamente as de mérito e de caráter, e que é preciso governar considerando essas diferenças. Percebe, enfim, que uma das grandes falhas do socialismo foi desconsiderar os indivíduos em função do conjunto que constituem, como se esse conjunto fosse homogêneo e unitário.

Poetas são poetas porque percebem primeiro. Vanzolini canta aquilo que é comum a muitos paulistanos, e consegue descobrir expressões simbólicas eficientes para dramas cotidianos de milhões de pessoas. Suas personagens são todo mundo, mas ele sabe que não são, ao fim, ninguém em particular. Gorbachev, por sua vez, homem público, não lida com personagens de canções. Lida com criaturas concretas de carne, osso e espírito, às vezes de porco. Em sua experiência, o povo "poético" dá lugar ao povo "político", um conjunto de forças que se unem e digladiam conforme a conveniência. Eu não tenho como olhar tão de cima, como eles. Mas em minha convivência com exemplares avulsos dessa coisa chamada "povo", posso entender um pouco do sentimento que quiseram passar.

sábado, 20 de junho de 2009

Interpretações

Tive a curiosidade de pesquisar a respeito de um tema esquisito, veiculado numa chamada de matéria televisiva que acabei não vendo.
Seguindo este link, este e este, você se deparará com uma certa pesquisa que indica uma relação entre os sorrisos das pessoas nas fotos de quando eram crianças e o índice de divórcios dessas mesmas pessoas no decorrer de suas vidas.
Antes de qualquer desenvolvimento a respeito do assunto, quero dizer que não considero a pesquisa nem um pouco confiável, e sequer acho que os índices percentuais mostrados (repare: os 10% mais sorridentes, os 10% menos sorridentes, 5% de divórcios, 25% de divórcios) possam servir para quaisquer suposições a respeito dessa relação alardeada pelas matérias. Do ponto de vista científico, é temerário e até irresponsável traçar conclusões com evidências tão tênues, opções tão pouco rigorosas (o que é sorrir, afinal? pessoas que moram juntas mas se odeiam estão casadas ou divorciadas? etc.) e dados estatísticos tão inconclusivos. Além disso, as comparações entre quem sorriu mais ou menos se ativeram a um décimo dos pesquisados em cada caso, ou seja, não se construiu um gráfico de proporção entre sorrisos e casamentos com o universo de pesquisa, apenas compararam-se dois estratos desse universo entre si. E, não bastasse tudo isso, soa estúpido saber que "pesquisadores olharam os álbuns escolares de pessoas e analisaram seus sorrisos, atribuindo notas de 1 a 10 de acordo com a 'intensidade'", como se houvesse forma de quantificar algo tão subjetivo, pessoal e dependente de traços fisionômicos particulares.
A veiculação de matérias desse teor já é, por si só, mau jornalismo. Primeiro, porque dá visibilidade ao irrelevante, produzindo manchetes e suposições que não se sustentam. Segundo, porque apresenta o que é questionável até pelo bom senso como se fosse uma verdade científica. Por último, porque induz a raciocínios preconceituosos e redutores. Um exemplo dessa indução é o comentário abaixo, presente numa das matérias que linkei:

“Talvez o sorriso mostre uma atitude otimista em relação à vida” explica Matthew Heinestein, um psicólogo da Universidade DePauwn, no Indiana. “Ou talvez sorrir para as pessoas atraia outras pessoas felizes e, daí, surja uma união boa”.

Ou talvez as pessoas que mais sorriem nas fotos (visto que sorrir em fotos não é, de forma alguma, sinal de otimismo ou de felicidade, mas uma prática social convencionada) sejam justamente aquelas que mais se preocupam com a aparência, a forma como são vistas pelos outros. Por essa razão, também seriam as que mais dificilmente se divorciam, tentando sempre acreditar ou fazer acreditar numa imagem positiva de seus relacionamentos. Por que não considerar essa hipótese também?
Simples: porque ela não serve para a reportagem que se pretendia fazer. Se a divulgação midiática da pesquisa já é, em si, lamentável, a opção de interpretação da mesma, fechada, obtusa, acrítica, serve apenas para confirmar a opção pelo mau jornalismo. Os dados apresentados não permitem nenhuma conclusão, e, por isso mesmo, a interpretação psicologizante dos mesmos acima transcrita é tão válida quanto zilhões de outras, porque nenhuma se sustenta. Estamos, nesse caso, totalmente imersos na chave do talvez, e é fácil perceber que as análises dizem mais sobre predisposições mentais de quem analisa do que sobre os objetos investigados.
Alguns blogs que li e a própria matéria do Fantástico que linkei chegam a sugerir que as fotos das pessoas na infância deveriam ser vistas para se calcular as possibilidades de sucesso do casamento. Nem de brincadeira aceito isso. Apesar de divorciado (e extremamente sorridente em tudo quanto é foto, diga-se de passagem), ainda considero casamento uma coisa muito séria. Séria demais para ser tratada com preconceitos: o sucesso do casamento, obviamente, não está associado à sua duração, e a felicidade de um indivíduo e sua positividade em relação à vida nada têm a ver com o número de casamentos que ele faz. Essas pseudoverdades científicas, expostas com esse viés normativo e conservador, ao espalharem-se pelas mentes das pessoas menos esclarecidas e mais passivas em relação à mídia, produzem encanações, autojustificações e temores infundados que, ironicamente, em nada contribuem para "uma visão otimista da vida" ou um casamento "de sucesso".
Só não foi uma total perda de tempo ter lido as matérias sobre a pesquisa porque no fim produzi esta postagem, este desabafo. Da próxima vez, vou propor às empresas jornalísticas que exijam, anexadas ao currículo dos pleiteantes a vagas, fotos dos mesmos quando eram crianças. Talvez seja um critério coerente com a seriedade dos conteúdos que veiculam.

domingo, 7 de junho de 2009

De volta - 4 coisas

A primeira é que acabou o semestre mais produtivo de minha carreira como professor. Estou muito cansado ainda, mas creio que agora terei mais tempo para as coisas que quero desenvolver.

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A segunda é que Federer igualou Sampras e ganhou Roland Garros. Fiquei mais feliz por isso que pela goleada do Brasil sobre o Uruguai no Centenário de Montevidéu. Vi quanto Roger queria esse título, e todos sabem o quanto merece. Há atletas que são excelentes como atletas, que eu respeito e admiro, como Phelps, Pelé, Schumacher, e outros; mas não tenho paixão por eles. A diferença, para mim, no caso de Federer, é ver um SER HUMANO que admiro chegar ao panteão dos maiores de todos os tempos. Ele está ao lado de Muhammad Ali no meu coração. Sempre foi o melhor tenista de todos os tempos; agora, é também o maior.

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Outro dia vi num anúncio sobre Dom Casmurro a seguinte chamada: o livro que inspirou a minissérie Capitu. Ué? Alguém achava que fosse outro? Isso agora vai alavancar as vendas da obra? Ou eu estou ficando ultrapassado em relação à cultura de massa?

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Encontrei uma ex-aluna no Extra, aqui perto de casa. A mãe tirou a menina da escola, porque ela tinha dificuldades mentais. Não deixou que fizesse o médio, só o fundamental.
Três anos depois, reconheço a menina mais tímida, menos comunicativa, e com o olhar mais triste. Olhar que só se alegrou ao reconhecer minha namorada, que foi professora dela.
Se você, professor, às vezes julga que não faz diferença, é porque não vivenciou uma cena como essa em sua vida. Lamento pela atitude da mãe. A escola tem de ser, mais do que nunca, o lugar da inclusão, mesmo com todos os problemas.

sábado, 4 de abril de 2009

Currículo

Vez por outra temos de preencher, formatar, enviar, reformular currículos. Hoje em dia há vários modelos diferentes, do Catho ao Lattes, do impresso ao virtual, do sucinto ao prolixo. Sempre fico imaginando, quando estou empenhado em produzir mais um dos muitos currículos sobre minha carreira, como escreveria uma apresentação que valorizasse, em lugar do aspecto profissional, minhas opiniões, opções, decisões e ideias mais relevantes. Muitas vezes chego a pensar que é mais importante saber que sou apaixonado por música que conhecer a lista dos numerosos cursos que fiz e dos quais não me recordo sequer do tema. Minhas inquietações acadêmicas valem muito mais que meu desempenho no histórico. Minhas posições políticas são muito mais determinantes para um bom desempenho nas escolas em que trabalho que minha eventual disposição para cumprir as normas regimentais. As pessoas gostam de mim como profissional não apenas porque sei fazer meu trabalho, mas também porque elas conseguem reconhecer um ser humano decente por detrás do trabalho realizado.
Pensando nessas coisas todas, tentarei nas próximas linhas rascunhar um currículo que seja de fato vitae (ou seja, de vida), cuidando para que não fique parecido com os perfis de rede social, que são apenas uma outra forma de transformar aspectos irrelevantes em elementos de autodefinição. Aí vai:

1 - Sou paulistano, amo São Paulo, vivi em São Paulo todos os 35 anos de minha vida, e teria muita dificuldade de me adaptar a qualquer cidade culturalmente pacata.
2 - Trabalhei como voluntário no Socorro Emocional de Vila Maria por 2 anos, em um trabalho semelhante ao do CVV. Desisti por me sentir muito aquém do que me era exigido.
3 - Aprendi violão na raça, com meu pai e meu avô, e montei diversas bandas, sem nunca conseguir consolidar nada de efetivo. Toquei em muitos pequenos festivais, fiz uma curta e esporádica carreira como cantor de barzinho (ou músico de apoio do meu grande amigo Daniel Munhoz) e até hoje tenho como objetivo para algum dia gravar minhas composições e disponibilizá-las.
4 - Sou completamente apaixonado por música, uma das poucas coisas capazes de me enlevar. Pink Floyd, Sigur Ros, Madredeus, Beethoven.
5 - Consta que estudei telecomunicações na Escola Técnica Federal, mas lembro apenas que fiz excelentes amigos nessa época.
6 - Ganhei dois concursos literários na época do colégio. Depois, nunca mais ganhei nada, mas continuei produzindo poemas e textos curtos. Não sei por que, certa feita resolvi criar um blog de poemas, no qual coloquei um poema por dia de minha autoria durante um ano, entre 2004 e 2005.
7 - Sou de esquerda, sem radicalismos. Tive nojo de colegas que comemoraram o 11 de setembro, na época de faculdade. Recuso-me a celebrar a morte, a guerra, a infâmia e a desgraça, ainda que se relacionem a adversários políticos. Fiquei muito feliz com a eleição de Lula, embora tenha me decepcionado com alguns petistas. Não acredito nas soluções neoliberais, e ainda considero o povo capaz de gerenciar e fiscalizar o Estado segundo seu interesse.
8 - Votei em Lula, Marta, Eduardo Suplicy, Carlos Giamnazzi, Carlos Neder, Aloisio Mercadante, Covas (contra Rossi), Covas (contra Maluf), Cristóvão Buarque, Ivan Valente, Soninha, e outros que não foram eleitos. No geral, não me arrependi de nenhum desses votos.
9 - Moro sozinho, não sei cozinhar, meu quarto de dormir é uma bagunça, e vivo cercado de livros.
10 - Choro frequentemente. Há filmes que me pegam. Há livros que releio, chorando na releitura. Há músicas que me arrancam lágrimas. Há situações que me emocionam. E há vezes em que fico imaginando coisas que nunca aconteceram nem acontecerão, chegando a chorar nesses devaneios.
11 - Respeito e admiro todas as pessoas em suas orientações, opções e experiências sexuais. Quanto a mim, sempre me soube heterossexual e louco por mulheres. Acrescento que acho bonitas quase todas as pessoas que vejo, e sinto atração por uma quantidade enorme de mulheres, de todas as idades e etnias.
12 - Tive número razoável de paixões na vida. Considero possível apaixonar-se por pessoas de ambos os sexos, por animais de estimação, por ídolos, por filmes, por hobbies, e por muitas outras coisas. Minha primeira namorada talvez não tenha sido o porquinho da Índia (salve Bandeira!), mas há grandes chances de que fosse o jogo de botão.
13 - Casei-me com uma mulher extraordinária, mas nossa paixão esmoreceu rapidamente. Das paixões não oficialmente documentadas, e que envolviam, além da paixão em si, grande dose de desejo carnal e de admiração, uma pude desenvolver até os dias atuais, com muita satisfação. Considero possível amar apaixonadamente mais de uma pessoa ao mesmo tempo, ou em tempos diferentes, tanto quanto, por outro lado, considero possível não amar a ninguém durante toda uma existência. Quanto a manter relacionamentos concomitantes, acho mais difícil. A vida ainda é feita de escolhas, e as pessoas ainda precisam muito de segurança.
14 - Torço para o Cruzeiro, para a seleção brasileira, para o Roger Federer, para o Nilmar, para o Juventus, para o Barcelona, para o Massa, e para as meninas do futebol feminino.
15 - Vejo pouquíssima televisão (quase nada na TV aberta, excetuando-se a Cultura).
16 - Não gosto de saber de tudo um pouco, nem da angústia de me "manter informado". Não preciso saber a cotação do dólar todo dia. Desprezo o noticiário político, quase sempre partidário, fútil, preocupado com escândalos e fofocas e totalmente por fora das votações no Congresso e das decisões governamentais que nos afetam. Em compensação, fico muito tempo na internet, lendo blogs, entrando e saindo do Orkut e procurando notícias que me interessem. Já assinei jornais e revistas, mas já não acho que valha tanto a pena. Leio muitos livros, até por força da profissão.
17 - Poucas coisas me dão mais prazer na vida do que ministrar uma aula de literatura.
18 - Preciso aprender a ter menos vergonha e medo do ridículo. Não gosto de errar, nem de ser ridicularizado. Sou inseguro, e a opinião alheia me afeta negativamente. Isso geralmente configura-se como uma limitação.
19 - Odeio que me imitem.
20 - Se eu chegar a não gostar de uma pessoa (o que é raríssimo), não há retorno.
21 - Sou umas das pessoas mais sensíveis que conheço, e até hoje não sei se isso é bom ou ruim.

Bom, se o leitor chegou até aqui, acho que já sabe mais do meu caráter e da minha personalidade do que qualquer funcionário de RH que porventura vier a ler meu currículo. Dir-me-ão, por certo, que pouco do que afirmei pode ser documentado. Bem sei. Mas, no caso de uma entrevista voltada para o conhecimento de Carlos Vinicius como indivíduo, acredito que posso oferecer meu olhar como garantia.

domingo, 1 de março de 2009

Oscar 2009

O Oscar é uma festa estranha para mim. Lembro-me de não ter perdido praticamente nenhuma premiação desde que era pequeno. Sempre vejo, sempre aprecio a alegria dos vencedores, sempre fico imaginando o grande prazer que é estar ali. Mas acho esquisito porque, geralmente, assisto os filmes depois da premiação. Isso me obriga a "torcer errado", ou seja: às vezes, por causa do clima da festa, ou da comparação de semblantes, ou mesmo da lembrança de um um trabalho anterior de determinado artista, fico na expectativa de que alguém seja premiado, mesmo sem saber se merece ou não por aquele trabalho que concorre.
Foi o caso, por exemplo, do diretor Ridley Scott. Quando Gladiador ganhou como melhor filme, achei uma injustiça ele não ter recebido o prêmio de melhor diretor. Eu o associava a duas obras que muito me chamaram a atenção, Alien, o oitavo passageiro e Blade Runner. Eu queria que ele ganhasse.
Passado algum tempo, tive oportunidade de ver Traffic, de Steven Soderbergh, e também Gladiador. E cheguei à conclusão de que não só estava correto premiar a direção deSoderbergh, como também teria sido justo Traffic receber a estatueta de melhor filme. Scott, por certo, mereceria até o Oscar por outros filmes; não por Gladiador. E Soderbergh, de quem nada conhecia até então, sobrava na direção de atores e na condução da trama de seu filme.
Mas como eu poderia saber, sem ter visto nenhum dos dois e confiando apenas nos sucintos comentários da transmissão brasileira? É nessa situação que sempre me encontro quando atravesso a madrugada acompanhando a festa: escolho alguém com quem simpatize e torço para que ganhe o prêmio. Mas com um pé atrás, porque sei que posso me arrepender depois.
Este ano, por exemplo, fiquei feliz de ver tantos indianos recebendo prêmios por causa do Quem quer ser um milionário?. Eles pareciam simpáticos, e estavam radiantes (é gostoso ver a alegria alheia). Mas não vi o filme, não sei se é filme para oito Oscars, ou mais, ou menos. Torci por eles, sei lá por que razão, mas pode ser que os outros tenham sido melhores. Mais pra frente saberei.
O que pude confirmar, este ano - com certo atraso, bem sei - foi a injustiça da premiação de 1991, referente a 1990. Admito que Dança com Lobos é um filme bacana, bonito, com uma mensagem edificante. Nunca o vi como um filme para ganhar Oscars, quanto mais sete. Hoje, posso afirmar com tranquilidade: não dá para compará-lo a O poderoso chefão III. O filme de Coppola é muito melhor, mais dinâmico, mais questionador, mais profundo. Fecha com vigor, embora com menos impacto, a trilogia mais instigante do cinema moderno. Pude vê-lo esta madrugada, depois de ter revisto as partes I e II, de uma caixinha remasterizada que ganhei de presente.
Lembro-me de que essa cerimônia, de 2001, foi uma das poucas que perdi. Talvez tenha sido indignação posterior intuída. De qualquer forma, recomendo a fruição comparativa dos dois filmes, para quem quiser tirar a prova.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A confissão de Lúcio

Terminei há pouco a leitura dessa obra sensacional de Mário de Sá-Carneiro. Denso, profundo, mas ao mesmo tempo vibrante e vivaz, o livro me remeteu ao que mais gostava e gosto em todos os eventos do mundo gay aos quais já estive presente: a atmosfera de liberdade para os sentimentos e as possibilidades que eles trazem. A personagem principal tem uma percepção elevada, acurada e detalhista das pessoas que a rodeiam, o que deixa transparecer uma postura de admiração e atração pelas mesmas. Lúcio, em sua paixão pelos outros, não faz distinção de gênero. A paixão de Lúcio não é sempre, nem necessariamente, sexual, remetendo às diversas formas de amar que se transformam, por nossas convenções de sociabilidade, em amizades, casamentos, casos, quedas, simpatias, companheirismos, e outros nomes para situações que não estão tão rigidamente empacotadas em nossos corações. Isso torna Lúcio belo: a sensibilidade à beleza alheia, a capacidade de identificar o ponto exato em que as pessoas o tocam.
Pensei muitas coisas da minha vida enquanto lia o livro de Sá-Carneiro. Sou um cidadão relativamente enquadrado no que a sociedade entende como sadio: heterossexual, com um relacionamento estável, nunca cometi crime por amor nem cultivei fantasias que prejudicassem outras pessoas. Mas o custo dessa normalidade envolveu, desde sempre, um certo receio de expor sentimentos e pensamentos que pudessem soar polêmicos em relação aos parâmetros de moralidade e imoralidade que me foram ensinados. A figura fictícia de Lúcio revolve a verdade desses sentimentos incovenientes com doçura e filosofia, o que lhe dá grandeza e força interior. Nesse sentido, a personagem afigura-se como mais real, verdadeira e verossímil,no que se refere à vida psicológica, que a maioria das personagens não-fictícias que encontro no meu dia-a-dia.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Noite chuvosa de domingo

É curiosa a fascinação que tenho pela chuva. Gosto do barulho que ela faz quando cai sobre os telhados e escorre pelas telhas e pelas canaletas, gosto de observar as formas que são constituídas nos pequenos riozinhos das sarjetas, gosto até de sentir a força dos pingos contra meu corpo, quando estou perto de casa e posso correr a qualquer momento para um chuveiro quente. Para mim, a chuva é ainda mais bonita quando há árvores e animais na paisagem, porque eles têm um jeito especial de recebê-la e absorvê-la.
Ao mesmo tempo, tenho medo da chuva. O som dos trovões me arrepia. Não sou muito amigo de relâmpagos. Sempre passam na minha cabeça as raras, mas marcantes, histórias de pessoas atingidas por raios. E as tempestades escurecem o céu, deixando o dia com aspecto sombrio, carregado, tenso.
Mas se fosse só fascinação e medo da natureza, estaria tudo bem. Ainda tem o problema de que chuvas prolongadas são sempre motivo de preocupação em São Paulo. As pessoas que moram em barracos nas favelas sofrem bastante. Várias regiões inundam, e famílias perdem seus bens, às vezes suas habitações. Muitas vias ficam intransitáveis, o trânsito piora muito, o metrô anda mais devagar. Eu mesmo me preocupo com minha residência, pois convivo com uma goteira bem no meio da minha cama, obrigando-me a colocar panelas e outros recipientes para evitar a destruição do colchão e do estrado.
Não sei somar e subtrair os prós e os contras, os medos e os deslumbramentos, o conveniente e o inconveniente da chuva. Como todo fenônemo da natureza que se preze, ela não pergunta pelos sentimentos humanos. Por isso, quando ela vem, preparo-me para uma ocasião de abrandamento, que consiste em ver o que ela quer, aceitá-la, absorvê-la, e refletir sobre minha precariedade diante das coisas, como sói aos que se querem razoáveis e sensatos.