Venho acompanhando pela televisão e pela internete a terrível situação das cidades serranas do Rio de Janeiro, de vários bairros da minha cidade, e de várias localidades pelo Brasil afora que sofreram com as chuvas de janeiro. O que tenho visto e ouvido é sempre muito triste, porque as perdas humanas e materiais foram muito grandes.
Nesses momentos em que vemos pessoas perderem seus entes queridos, suas casas, seus pertences, ficamos com um sentimento de injustiça, de comiseração, pensando que as coisas poderiam e deveriam ser diferentes. Isso é natural do ser humano de bom coração, que desenvolve uma das emoções mais fundamentais para a sobrevivência social de nossa espécie, que é a compaixão.
Mas este momento é muito delicado, e a compaixão precisa se transformar em ação efetiva. E quando as emoções precisam se transformar em ações efetivas, entra o elemento racional, para organizar e tornar produtivos os investimentos de energia que estamos dispostos a empregar para minimizar esse tipo de tragédia.
Nesse momento de racionalidade, de tentativa de entendimento, de utilização da inteligência do homem para o bem do próximo, não podemos deixar que as emoções travem a lucidez, porque isso só pioraria a situação. É preciso que a compreensão dos fenômenos que causaram essas tragédias seja lúcida, transparente, minimamente desapaixonada. E o que me preocupa é que não tem havido discussão lúcida na mídia, que é a principal fonte de informação e orientação sobre os acontecimentos que se sucederam.
O que tenho visto na mídia é a substituição da lucidez por uma indignação seletiva, quando não pela simples histeria de procurar culpados pelas desgraças. Qualquer pessoa de bom senso entende que apontar culpados não contribui. Apontar culpados pode funcionar como um fator de alívio para as pessoas indignadas e chateadas com o que aconteceu; os bodes expiatórios sempre têm uma função de catalisadores da raiva e agressividade coletivas. Entretanto, obviamente acaba se tornando uma forma de compreender menos, de entender mal. Canalisar agressividade nada tem a ver com analisar racionalmente um problema e procurar paliativos, soluções e medidas eficientes.
Uma tragédia não começa no dia em que cai sobre tudo a sua volta. Ela é resultado de anos e anos de erros, de imperfeições, de problemas, que criam uma situação perigosa. Essa iminência do perigo alia-se a circunstâncias desfavoráveis em determinados momentos, e aí é que explodem os problemas graves. Mas é preciso que fique claro que uma destruição de tal extensão NÃO PODE SER OBRA DE UM ÚNICO FATOR ISOLADO. Ou são considerados os diversos fatores que levaram ao problema, ou o problema nunca será sanado nem minimizado. Quando as pessoas insistem em apontar para um fator isolado, por questões morais, políticas, ideológicas, elas estão, na verdade, atrapalhando a busca de soluções.
Vejo e ouço pessoas falarem das responsabilidades dos governos federal, estadual, municipal. Ok. É um fator a se observar. MAS NÃO É O ÚNICO. Não se resolvem problemas de infraestrutura das cidades apenas com investimentos em prevenção de tragédias, e isso por vários motivos. Em primeiro lugar, porque não é uma questão de quantidade de dinheiro investido em um período específico, mas de projeto a longo prazo, focando exatamente o problema a ser solucionado. Em segundo lugar, porque não é possível prever com toda essa exatidão qual seria exatamente o problema a ser solucionado; há certa imprevisibilidade nas tragédias naturais, que podemos minimizar com a tecnologia, mas ainda não conseguimos, nem nos países mais avançados do mundo, eliminar por completo. Em terceiro lugar, porque mesmo os investimentos em prevenção de tragédias são paliativos num contexto mundial de mudança climática constante e grandes alterações regionais. Em quarto lugar, porque há problemas estruturais que são mais profundos. São Paulo, minha cidade, é um exemplo disso. As enchentes continuarão infelizmente acontecendo por muito tempo, seja qual for o investimento do Estado ou da Prefeitura, porque a cidade foi construída de forma desordenada, sem um plano que previsse situações como as que temos vivido. Não se pode dizer que uma ou outra administração específica, ou mesmo que o Estado apenas, sejam culpados de um fenômeno cultural complexo, a saber, a ocupação anárquica da área e o crescimento sem planejamento da metrópole. Por fim, algo que é óbvio, embora o óbvio pareça às vezes uma ofensa a certas inteligências: soa completamente absurdo pensar que qualquer governante queira que essas tragédias aconteçam, ou que não queira evitá-las. Há erros, há opções discutíveis, mas não dá para imaginar uma insensibilidade tão monstruosa por parte dos nossos representantes de, intencionalmente, deixarem acontecer as perdas que vêm acontecendo.
Vejo e ouço pessoas falarem sobre a responsabilidade dos próprios habitantes que moram nas áreas alagadas. Ok. É outro fator a se observar. Ressalva-se, apenas, que é preciso verificar se foram somente residências em áreas consideradas de risco que foram atingidas, ou se os problemas foram tão graves que atingiram locais impensáveis. Mas, voltando às áreas perigosas, é certo que construir uma casa numa região de risco é, de certa forma, assumir esse risco para si e para a própria família. Mas a questão não se resolve assim, apontando as pessoas como algozes de si mesmas. Ao que me conste, ninguém quer morrer, nem perder suas pessoas amadas. É preciso saber por que as pessoas estavam nessa condição de risco. Será que todos têm alternativas? Será que todos têm informação, orientação? Será que as desocupações necessárias para salvar a vida de muitos foram barradas por serem inconvenientes politicamente? Será que os técnicos encarregados de liberar as autorizações para as construções foram profissionalmente corretos? Será que os projetos de tirar as famílias das áreas perigosas não feririam interesses econômicos de empresas, especuladores imobiliários, e até das próprias famílias? Todos esses são fatores a se considerar, antes que se aponte para a vítima como ÚNICO CULPADO de sua queda. E mesmo que se constate que houve imprudência por parte da vítima, isso nos impede, enquanto seres de mesma condição humana, de querer ajúdá-la, orientá-la, zelar por seu bem-estar? Isso nos desobriga de repensarmos as condições em que tudo aconteceu? Isso nos oferece justificativa para não nos comovermos com a situação em que as pessoas ficaram? (Sempre lembrando que é preciso saber se só pessoas em áreas consideradas de risco foram atingidas, ou se a extensão das perdas atingiu também quem estava em locais até então considerados seguros).
E há muitas outras coisas a se considerar. Há que se considerar até que ponto as mudanças climáticas que vivenciamos não são responsabilidade da humanidade como um todo, por suas opções antiecológicas. Há que se considerar a ação individual ética de cada um, ou seja, até que ponto o lixo que o indivíduo joga no bueiro achando que nada vai acontecer não se transforma em uma parte do problema mais amplo, ainda que seja uma pequena parte. Há que se considerar se o estilo de vida das pessoas, que é suicida em vários aspectos, como no trato da própria saúde, não precisa se tornar mais respeitoso em relação aos riscos em que são colocadas as próprias pessoas e as que as rodeiam: até que ponto vale a pena economizar para ter celular, roupa bonita, carro, e colocar em risco a própria integridade física - seja por tragédias naturais, ou tiroteios, ou mesmo por desatenção em relação a outros aspectos práticos da vida?
Sem considerar com muito cuidado, com muita lucidez, com muito carinho, todos esses fatores, e sem avaliar como cada um deles poderia ser minimizado para que novas tragédias não venham a acontecer, não chegaremos a nenhuma conclusão produtiva. O que teremos é demagogia, histeria, sensacionalismo.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
As subcelebridades e o nada
Numa entrevista com o professor Maurício Tavares, da UFBA, vi cunhada a expressão subcelebridade.
Adorei.
Há tempos venho me perguntando qual o interesse que certas figuras despertam na mídia, e o porquê desse interesse. Lança-se um cantor ou uma cantora qualquer, e ele rapidamente é alçado ao estrelato, ganha manchetes, factóides, destaque, enfim, um enorme espaço nos veículos de comunicação. Um espaço que é caro, que é importante, que influencia cabeças e que tem um significado coletivo muito arraigado na população.
Pois é, aí você vê o trabalho desse cantor ou cantora, e não consegue identificar nada de aproveitável. Você pesquisa sobre a vida desse cantor ou cantora, e não encontra nada: ou ele ainda nem viveu direito, ou sua experiência em nada difere dos milhares de outros na mesma profissão. Você lê entrevistas ou testemunha aparições televisivas desse cantor ou cantora e continua na mesma: nada acrescenta, nada traz de novo, nada traz de interessante, positivo, edificante ou mesmo contestador. Por fim, você fica como eu, se perguntando o que é que as pessoas viram nessa figura.
E assim acontece com cantores, cantoras, atores, atrizes, apresentadores, apresentadoras, modelos, artistas de todo o tipo.
E o que é pior é que isso começa a acontecer com pessoas que não têm nenhum trabalho, nada a apresentar, nenhum talento. Não cantam, não atuam, não sabem nada em profundidade, não apresentam ideias novas nem trabalhos artísticos consistentes. E ganham uma parcela do espaço midiático.
E o que é pior ainda é que essas pessoas sem nenhum talento se metem a cantar, atuar, apresentar-se. E por quê? Porque a mídia apostou durante anos em cantores, atores, apresentadores sem talento nenhum. Então é possível nivelar-se a essas celebridades midiáticas atuais partindo do zero, porque elas praticamente nunca saíram do zero. É óbvio que ninguém aqui está falando de cantoras de verdade, como Maria Rita, por exemplo. Mas a Maria Rita não é o que é por ser celebridade, porque NÃO PRECISA SÊ-LO SE NÃO QUISER, porque não depende disso.
Mas há uma situação ainda pior, ainda mais tosca e vergonhosa para nossa sociedade, que é quando algumas pessoas que não têm nenhum talento ganham espaço na mídia, esse espaço tão importante na formação dos jovens, para exibir exatamente seu vazio, sua falta de talento, seu "nada" pessoal. Ou seja, quando a pessoa vira celebridade porque é burra, porque é incapaz, porque é bizarra. Chegamos ao cúmulo de vibrar com a falta de talento, a estupidez e a incapacidade.
Mas talvez haja algo ainda pior, que não merece muito comentário, que é quando uma pessoa que não representa nem acrescenta nada ganha esse espaço da mídia fazendo... nada. Os fotógrafos esmeram-se em tirar fotos da pessoa fazendo... nada. As revistas trazem manchetes sobre a pessoa fazendo... nada. Você lê uma chamada na internet, ou um anúncio numa coluna de revista de jornal sobre a pessoa fazendo... nada.
É claro que surgem milhões de pessoas que decidem, de uma hora para outra, que, se não é preciso fazer nada para ganhar dinheiro e ser reconhecido, elas também podem. E essas pessoas aceitam qualquer coisa que se lhes dê, aceitam fazer qualquer papel, aceitam qualquer enrascada ou armadilha para conseguirem atingir esse nível ideal de inutilidade premiada. Isso só pode ter um nome, que o Maurício Tavares usa muito bem: subcelebridade.
É claro, também, que figuras como essas dependem muito mais do investimento midiático, da compra de espaços de aparição pública, das mentiras criadas em torno de sua vida, que da produção de algo com qualquer valor social ou estético.
Mas, voltando ao segundo parágrafo, eu me pergunto: esse espaço da mídia, que é caro, importante, influencia cabeças, tem um significado coletivo; esse espaço que guia, manipula e pauta a opinião pública; esse espaço que tem função educativa, política, ética; esse espaço pode ser ocupado pelo nada?
Adorei.
Há tempos venho me perguntando qual o interesse que certas figuras despertam na mídia, e o porquê desse interesse. Lança-se um cantor ou uma cantora qualquer, e ele rapidamente é alçado ao estrelato, ganha manchetes, factóides, destaque, enfim, um enorme espaço nos veículos de comunicação. Um espaço que é caro, que é importante, que influencia cabeças e que tem um significado coletivo muito arraigado na população.
Pois é, aí você vê o trabalho desse cantor ou cantora, e não consegue identificar nada de aproveitável. Você pesquisa sobre a vida desse cantor ou cantora, e não encontra nada: ou ele ainda nem viveu direito, ou sua experiência em nada difere dos milhares de outros na mesma profissão. Você lê entrevistas ou testemunha aparições televisivas desse cantor ou cantora e continua na mesma: nada acrescenta, nada traz de novo, nada traz de interessante, positivo, edificante ou mesmo contestador. Por fim, você fica como eu, se perguntando o que é que as pessoas viram nessa figura.
E assim acontece com cantores, cantoras, atores, atrizes, apresentadores, apresentadoras, modelos, artistas de todo o tipo.
E o que é pior é que isso começa a acontecer com pessoas que não têm nenhum trabalho, nada a apresentar, nenhum talento. Não cantam, não atuam, não sabem nada em profundidade, não apresentam ideias novas nem trabalhos artísticos consistentes. E ganham uma parcela do espaço midiático.
E o que é pior ainda é que essas pessoas sem nenhum talento se metem a cantar, atuar, apresentar-se. E por quê? Porque a mídia apostou durante anos em cantores, atores, apresentadores sem talento nenhum. Então é possível nivelar-se a essas celebridades midiáticas atuais partindo do zero, porque elas praticamente nunca saíram do zero. É óbvio que ninguém aqui está falando de cantoras de verdade, como Maria Rita, por exemplo. Mas a Maria Rita não é o que é por ser celebridade, porque NÃO PRECISA SÊ-LO SE NÃO QUISER, porque não depende disso.
Mas há uma situação ainda pior, ainda mais tosca e vergonhosa para nossa sociedade, que é quando algumas pessoas que não têm nenhum talento ganham espaço na mídia, esse espaço tão importante na formação dos jovens, para exibir exatamente seu vazio, sua falta de talento, seu "nada" pessoal. Ou seja, quando a pessoa vira celebridade porque é burra, porque é incapaz, porque é bizarra. Chegamos ao cúmulo de vibrar com a falta de talento, a estupidez e a incapacidade.
Mas talvez haja algo ainda pior, que não merece muito comentário, que é quando uma pessoa que não representa nem acrescenta nada ganha esse espaço da mídia fazendo... nada. Os fotógrafos esmeram-se em tirar fotos da pessoa fazendo... nada. As revistas trazem manchetes sobre a pessoa fazendo... nada. Você lê uma chamada na internet, ou um anúncio numa coluna de revista de jornal sobre a pessoa fazendo... nada.
É claro que surgem milhões de pessoas que decidem, de uma hora para outra, que, se não é preciso fazer nada para ganhar dinheiro e ser reconhecido, elas também podem. E essas pessoas aceitam qualquer coisa que se lhes dê, aceitam fazer qualquer papel, aceitam qualquer enrascada ou armadilha para conseguirem atingir esse nível ideal de inutilidade premiada. Isso só pode ter um nome, que o Maurício Tavares usa muito bem: subcelebridade.
É claro, também, que figuras como essas dependem muito mais do investimento midiático, da compra de espaços de aparição pública, das mentiras criadas em torno de sua vida, que da produção de algo com qualquer valor social ou estético.
Mas, voltando ao segundo parágrafo, eu me pergunto: esse espaço da mídia, que é caro, importante, influencia cabeças, tem um significado coletivo; esse espaço que guia, manipula e pauta a opinião pública; esse espaço que tem função educativa, política, ética; esse espaço pode ser ocupado pelo nada?
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
O ano que se vai
Em 2010, eu me mudei para uma casa minha e de minha mulher, no centro de São Paulo. Descobri alguns limites (físicos e psicológicos) importantes. Superei dois cálculos renais de 15mm, não sem muita luta, dor, e apoio de quem me ama. Ministrei o melhor curso de minha vida, Literatura Portuguesa 1, com foco em Camões. Descobri que posso cantar, e que tenho escritos publicáveis. Fiz uma disciplina sobre canção popular com Luiz Tatit que mudou tudo o que eu pensava sobre música popular. Divorciei-me oficialmente. Terminei todas as disciplinas EAD do curso de Pedagogia da Uninove, mas não consegui terminar todos os estágios, nem o TCC. Cuidei de seis disciplinas em plataforma EAD na FIP, e aprendi um pouco mais sobre essa modalidade de ensino.
Algumas coisas também ficaram para trás. O ano de 2010 foi meu último ano de trabalho na EMEF Dona Chiquinha Rodrigues, e meu último ano de residência no Campo Belo, alojado pelo inesquecível Senhor Alberto.
Algumas coisas que ainda não colhi em 2010 esperam-me em 2011. Continuarei meus estudos sobre canção, almejando doutorado. Esperarei algumas chamadas de concursos realizados. Resolverei minhas pendências com a Uninove e conseguirei minha terceira graduação. Tenho, ainda, muitas expectativas em relação a novas perspectivas profissionais, e em relação à pós graduação em CIEJA, que inicio em fevereiro.
2010 foi um ano de muita sementeira, muita espera, e também muito sofrimento. Para um batalhador, como eu, teimoso, insistente, sempre apto a ir até o fim em todos os assuntos da vida, foi um ano de incomparável aprendizado. Mas eu quero mais e melhor. Dos frutos que sei que colherei em 2011, ainda extrairei sementes para novas sementeiras.
A grande lição de 2010 foi: cuide bem de si mesmo, pois isso depende mais de você que de qualquer outra pessoa. Se eu não cuidar de mim, não posso cuidar de mais ninguém.
Que venha 2011. Eu me sinto pronto. Não por ter todas as armas, mas por estar apto a aceitar todos os fados.
Feliz ano novo a todos os meus leitores.
Algumas coisas também ficaram para trás. O ano de 2010 foi meu último ano de trabalho na EMEF Dona Chiquinha Rodrigues, e meu último ano de residência no Campo Belo, alojado pelo inesquecível Senhor Alberto.
Algumas coisas que ainda não colhi em 2010 esperam-me em 2011. Continuarei meus estudos sobre canção, almejando doutorado. Esperarei algumas chamadas de concursos realizados. Resolverei minhas pendências com a Uninove e conseguirei minha terceira graduação. Tenho, ainda, muitas expectativas em relação a novas perspectivas profissionais, e em relação à pós graduação em CIEJA, que inicio em fevereiro.
2010 foi um ano de muita sementeira, muita espera, e também muito sofrimento. Para um batalhador, como eu, teimoso, insistente, sempre apto a ir até o fim em todos os assuntos da vida, foi um ano de incomparável aprendizado. Mas eu quero mais e melhor. Dos frutos que sei que colherei em 2011, ainda extrairei sementes para novas sementeiras.
A grande lição de 2010 foi: cuide bem de si mesmo, pois isso depende mais de você que de qualquer outra pessoa. Se eu não cuidar de mim, não posso cuidar de mais ninguém.
Que venha 2011. Eu me sinto pronto. Não por ter todas as armas, mas por estar apto a aceitar todos os fados.
Feliz ano novo a todos os meus leitores.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Índice da série "Balanço da eleição"
Acabo de finalizar a série de postagens "Balanço da eleição". Para que não seja lida de trás para frente, esquematizei a sequência correta, já linkada, para quem tiver a disposição de acompanhar o raciocínio até o fim. Sei que o assunto já deu, mas acho que o esgotamento possibilita, no fim das contas, uma análise mais lúcida, menos apaixonada do que ocorreu. Segue a lista das postagens, conforme o prometido no plano, há mais de mês. Para ler, basta clicar em cima:
1) a campanha do medo;
2) a campanha da mídia;
3) o menosprezo do adversário;
4) a ausência geral de programas;
5) a questão do aborto;
6) as derrotas da democracia;
7) as pesquisas;
8) o presidente Lula;
9) a religião e o estado laico;
10) as escolhas que fiz e por que as fiz.
Em outro blogue: o caso da bolinha de papel.
Obrigado a todos pelas leituras.
1) a campanha do medo;
2) a campanha da mídia;
3) o menosprezo do adversário;
4) a ausência geral de programas;
5) a questão do aborto;
6) as derrotas da democracia;
7) as pesquisas;
8) o presidente Lula;
9) a religião e o estado laico;
10) as escolhas que fiz e por que as fiz.
Em outro blogue: o caso da bolinha de papel.
Obrigado a todos pelas leituras.
Balanço da eleição -10 - As minhas escolhas
Eu sempre voto, pois creio que, por mais defeitos e imperfeições que carregue, a democracia não é uma farsa. Ela pode ser insuficietne, excludente, cheia de problemas, mas ela é sempre um indicativo mais seguro e honesto que as outras formas de representação. Por isso, não voto nulo, e também tenho consciência de que faço uma escolha entre as possibilidades oferecidas, e não uma adesão cega a uma ideologia. Posso criticar quem ajudei a eleger, sem problemas. Faz parte do jogo.
Para deputado estadual, votei em Eduardo Amaral, do PSOL, porque o conheço muito bem (fui seu colega na Faculdade de Filosofia) e sei de sua defesa apaixonada pela educação pública, gratuita e de qualidade. Sei também que ele faria oposição consciente e consistente à gestão Alckmin nessa área (eu já tinha bem claro que Alckmin seria eleito). Votei na pessoa, com ressalvas em relação ao partido, e ele não se elegeu.
Para deputado federal, votei em Ivan Valente. Também um coerente defensor da educação, Ivan fez um bom papel na última legislatura, e achei que ele merecia um segundo mandato. Eu tinha dúvidas sobre a eleição de Dilma, então achei que um deputado do PSOL seria oposição em qualquer circunstância, e a causa da educação não estava bem representada em nenhuma das candidaturas com chance de vitória. As mesmas ressalvas ao partido que fiz no caso do Eduardo valem para o Ivan, que conseguiu se eleger.
Para governador, votei em Aloísio Mercadante, porque representava uma possibilidade de rompimento com a sequência de governos tucanos em São Paulo, que, para mim, já esgotou sua viabilidade. Não gosto do que Aloísio pensa em relação à educação, aprovo sua visão de segurança pública e tenho ressalvas ao PT paulista, que não se estendem ao PT nacional. As outras opções, considerei-as incógnitas políticas: Skaf e Russomano (este último, sem chance, por estar na legenda de Maluf). Aloísio não foi eleito.
Para senadores, votei em Marta Suplicy, por suas ideias sempre arrojadas e por ter gostado de sua atuação como prefeita, e em Marcelo Henrique, do PSOL, por exclusão e quase como um voto na legenda. Excluí da lista Aloysio, por ser tucano, Quércia (descanse em paz), pela administração questionável, Tuma (descanse em paz), por discordâncias fundamentais, e Netinho, embora fosse o segundo nome da coligação do PT, por considerá-lo fraco como artista, como figura pública e, principalmente, como vereador, sendo sua candidatura mero oportunismo eleitoral do PC do B. Sobrou votar na pequena esquerda, e entre PCO, PSTU, PV e PSOL, fiquei com o último. Ok, PV não é de esquerda, não nesse momento, concedo. Marta foi eleita, Marcelo Henrique, não.
Para presidente da República, votei em Dilma Roussef, porque estava satisfeito com o governo Lula e não via perspectivas reais de continuidade com melhoria nem em Serra, nem em Marina. Admiro Marina como figura pública, mas considerava impossível que ela governasse com a configuração de Congresso que se desenhava, e tinha sérias dúvidas sobre a formação de sua equipe, que, no final, é quem governa. Não considerei a hipótese de votar em José Serra porque, a despeito de respeitá-lo como figura pública e político tarimbado, entendi que sua coligação abrigava o que havia de pior e mais atrasado no conservadorismo brasileiro. Dilma foi eleita.
Não me arrependo de nenhum voto, porque papai dizia que só devemos nos arrepender do que não fizemos. Mas não estou seguro de nada, e entro em 2011 como um genuíno cidadão brasileiro, apto a cobrar resultados e exigir o cumprimento das plataformas dos nossos representantes. Espero poder continuar contribuindo com a democracia mesmo depois do final das eleições.
Para deputado estadual, votei em Eduardo Amaral, do PSOL, porque o conheço muito bem (fui seu colega na Faculdade de Filosofia) e sei de sua defesa apaixonada pela educação pública, gratuita e de qualidade. Sei também que ele faria oposição consciente e consistente à gestão Alckmin nessa área (eu já tinha bem claro que Alckmin seria eleito). Votei na pessoa, com ressalvas em relação ao partido, e ele não se elegeu.
Para deputado federal, votei em Ivan Valente. Também um coerente defensor da educação, Ivan fez um bom papel na última legislatura, e achei que ele merecia um segundo mandato. Eu tinha dúvidas sobre a eleição de Dilma, então achei que um deputado do PSOL seria oposição em qualquer circunstância, e a causa da educação não estava bem representada em nenhuma das candidaturas com chance de vitória. As mesmas ressalvas ao partido que fiz no caso do Eduardo valem para o Ivan, que conseguiu se eleger.
Para governador, votei em Aloísio Mercadante, porque representava uma possibilidade de rompimento com a sequência de governos tucanos em São Paulo, que, para mim, já esgotou sua viabilidade. Não gosto do que Aloísio pensa em relação à educação, aprovo sua visão de segurança pública e tenho ressalvas ao PT paulista, que não se estendem ao PT nacional. As outras opções, considerei-as incógnitas políticas: Skaf e Russomano (este último, sem chance, por estar na legenda de Maluf). Aloísio não foi eleito.
Para senadores, votei em Marta Suplicy, por suas ideias sempre arrojadas e por ter gostado de sua atuação como prefeita, e em Marcelo Henrique, do PSOL, por exclusão e quase como um voto na legenda. Excluí da lista Aloysio, por ser tucano, Quércia (descanse em paz), pela administração questionável, Tuma (descanse em paz), por discordâncias fundamentais, e Netinho, embora fosse o segundo nome da coligação do PT, por considerá-lo fraco como artista, como figura pública e, principalmente, como vereador, sendo sua candidatura mero oportunismo eleitoral do PC do B. Sobrou votar na pequena esquerda, e entre PCO, PSTU, PV e PSOL, fiquei com o último. Ok, PV não é de esquerda, não nesse momento, concedo. Marta foi eleita, Marcelo Henrique, não.
Para presidente da República, votei em Dilma Roussef, porque estava satisfeito com o governo Lula e não via perspectivas reais de continuidade com melhoria nem em Serra, nem em Marina. Admiro Marina como figura pública, mas considerava impossível que ela governasse com a configuração de Congresso que se desenhava, e tinha sérias dúvidas sobre a formação de sua equipe, que, no final, é quem governa. Não considerei a hipótese de votar em José Serra porque, a despeito de respeitá-lo como figura pública e político tarimbado, entendi que sua coligação abrigava o que havia de pior e mais atrasado no conservadorismo brasileiro. Dilma foi eleita.
Não me arrependo de nenhum voto, porque papai dizia que só devemos nos arrepender do que não fizemos. Mas não estou seguro de nada, e entro em 2011 como um genuíno cidadão brasileiro, apto a cobrar resultados e exigir o cumprimento das plataformas dos nossos representantes. Espero poder continuar contribuindo com a democracia mesmo depois do final das eleições.
Balanço da eleição - 9 - A religião e o Estado
A dois dias da vitória de Dilma Roussef, quando a eleição encaminhava-se já sem grandes sobressaltos para a confirmação do que as pesquisas vinham apontando nas semanas anteriores, uma orientação do papa Bento XVI indicava ser legítimo à Igreja intervir em questões políticas, guiando o voto dos fiéis. Não sou Católico, embora tenha passado por quase todos os sacramentos, e considero legítimo, sim, que as Igrejas, enquanto instituições religiosas, se pronunciem sobre os assuntos que entenderem importantes do ponto de vista da fé. Mas uma coisa me incomodou muito, muito mesmo.
O grande debate do início do segundo turno da eleição foi a já aqui analisada questão do aborto. E, dentro desse debate, víamos as instituições religiosas pronunciarem-se de forma taxativa e absoluta, por meio de seus líderes locais, dizendo que candidatos X ou Y não mereceriam o voto por se colocarem em posição não taxativa ou dúbia em relação a essa questão. Vejo desequilíbrio nesse caso. Isso não é orientação. Orientação seria pedir para que os devotos considerassem também essa questão na hora de votar. Definir para o devoto em quem ele deve votar é fazer propaganda política, é tomar partido explícito e justificar por razões de fé.
Mas esse desequilíbrio do líder parece-me ter uma raiz no desequilíbrio psicológico da sociedade em geral. Não considero normal que uma pessoa, por mais fé e devoção que tenha, defina seu voto pela fala de um padre ou de um pastor. É claro que ninguém se considera em condições de debater com Deus, mas considerar os líderes religiosos como infalíveis e inquestionáveis representantes de Deus na Terra é assustador numa sociedade democrática e pluralista. Até porque, dentro das mesmas Igrejas, diferentes pastores e padres fazem diferentes pregações, abordam diferentes temas, têm diferentes visões de mundo.
Parece-me, entretanto, que esta eleição revelou à sociedade civil seu inimigo ideológico mais nocivo: o fundamentalismo religioso. Enquanto ele foi utilizado para arrancar dinheiro de fiéis, ou garantir presença em grandes eventos, ou realizar grandes intervenções coletivas, ele não pesou politicamente, não incomodou, permaneceu como uma incógnita. Mas, convocado pela campanha de Serra, esse modo doentio de encarar a realidade revelou ser a visão de mundo de milhões de brasileiros, em várias partes do país. A relevância política do fundamentalismo religioso poderia ser encarada como mais uma das forças de mobilização da sociedade, mas existe algo nela que me incomoda em particular, que é o fato de que a palavra religiosa dos líderes não é alvo de crítica, especulação, debate, ou contestação possível.
A intervenção do papa Bento XVI é, na verdade, correspondente às dos pastores evangélicos em suas áreas de influência, com a diferença de que o Catolicismo é mais centralizado. E ela se dá num contexto histórico específico: a Igreja Católica está se aproximando do fundamentalismo e está disposta a exercer maior influência política nos países em que predomina. Essa é uma equação tão perigosa quanto a associação de quadros dos partidos às igrejas evangélicas, resultando, como se sabe, em dúzias de concessões de rádios e emissoras de TV para as mesmas.
Eu acredito em Deus e considero Jesus Cristo a figura mais fascinante da Humanidade. Posso discutir minhas crenças e meus valores relacionados ao que tenho de mais místico, sem nenhum problema. Mas entendo, perfeitamente, que a religião oferece-me uma visão alegórica, incompleta, necessariamente parcial da realidade. A religião não é o arbítrio, a religião não é a verdade. Podemos nos conduzir por ela, mas ainda seremos nós os condutores, e ela, o instrumento. O fundamentalismo religioso tira do indivíduo sua responsabilidade sobre o mundo e sobre si mesmo, porque lhe oferece escolhas prontas, e não elementos para que ele as realize.
Nesse contexto, combato, em nome da democracia, todo e qualquer tipo de fundamentalismo religioso, e toda ação que se encaminhe para isso. Assim como considerei suja e inconsequente a campanha que demonizava Dilma como abortista e Temer como anticristo (o fundamentalismo tem muito de imbecil, como nesse caso), considerei inoportuna a intervenção de Bento XVI. Ele poderia ter dito isso depois da eleição, ou bem antes dela. Não foi coincidência, foi uma tentativa de medir poder. Eu posso criticar o papa porque não sou católico, e não sou candidato a nada neste Brasil majoritariamente católico, mas acho que as palavras do católico presidente Lula são perfeitas como resposta: "o Brasil é um Estado laico". E tem de ser um Estado laico. E num Estado laico, as Igrejas são respeitadas, têm liberdade para suas pregações e seus ensinamentos. O Estado respeita a religião.
Por isso, a contrapartida precisa ser verdadeira: a Igreja precisa respeitar o Estado. Precisa respeitar os processos democráticos, que implicam divergências, debates, convivência de opiniões contrárias. Se a Igreja quer contribuir com o jogo democrático, e, em consequência, com o Estado, pode adentrar nesse campo para oferecer subsídios às divergências, aos debates, às opiniões que se contradizem. Se a Igreja, entretanto, entende que deve entrar no jogo com as cartas marcadas, aproveitando-se da liberdade que tem em relação ao Estado para diminuir o espaço do embate de ideias, creio que presta um desserviço à democracia, e desvia-se de sua função precípua, que é a condução da humanidade por um caminho mais digno e edificante.
O grande debate do início do segundo turno da eleição foi a já aqui analisada questão do aborto. E, dentro desse debate, víamos as instituições religiosas pronunciarem-se de forma taxativa e absoluta, por meio de seus líderes locais, dizendo que candidatos X ou Y não mereceriam o voto por se colocarem em posição não taxativa ou dúbia em relação a essa questão. Vejo desequilíbrio nesse caso. Isso não é orientação. Orientação seria pedir para que os devotos considerassem também essa questão na hora de votar. Definir para o devoto em quem ele deve votar é fazer propaganda política, é tomar partido explícito e justificar por razões de fé.
Mas esse desequilíbrio do líder parece-me ter uma raiz no desequilíbrio psicológico da sociedade em geral. Não considero normal que uma pessoa, por mais fé e devoção que tenha, defina seu voto pela fala de um padre ou de um pastor. É claro que ninguém se considera em condições de debater com Deus, mas considerar os líderes religiosos como infalíveis e inquestionáveis representantes de Deus na Terra é assustador numa sociedade democrática e pluralista. Até porque, dentro das mesmas Igrejas, diferentes pastores e padres fazem diferentes pregações, abordam diferentes temas, têm diferentes visões de mundo.
Parece-me, entretanto, que esta eleição revelou à sociedade civil seu inimigo ideológico mais nocivo: o fundamentalismo religioso. Enquanto ele foi utilizado para arrancar dinheiro de fiéis, ou garantir presença em grandes eventos, ou realizar grandes intervenções coletivas, ele não pesou politicamente, não incomodou, permaneceu como uma incógnita. Mas, convocado pela campanha de Serra, esse modo doentio de encarar a realidade revelou ser a visão de mundo de milhões de brasileiros, em várias partes do país. A relevância política do fundamentalismo religioso poderia ser encarada como mais uma das forças de mobilização da sociedade, mas existe algo nela que me incomoda em particular, que é o fato de que a palavra religiosa dos líderes não é alvo de crítica, especulação, debate, ou contestação possível.
A intervenção do papa Bento XVI é, na verdade, correspondente às dos pastores evangélicos em suas áreas de influência, com a diferença de que o Catolicismo é mais centralizado. E ela se dá num contexto histórico específico: a Igreja Católica está se aproximando do fundamentalismo e está disposta a exercer maior influência política nos países em que predomina. Essa é uma equação tão perigosa quanto a associação de quadros dos partidos às igrejas evangélicas, resultando, como se sabe, em dúzias de concessões de rádios e emissoras de TV para as mesmas.
Eu acredito em Deus e considero Jesus Cristo a figura mais fascinante da Humanidade. Posso discutir minhas crenças e meus valores relacionados ao que tenho de mais místico, sem nenhum problema. Mas entendo, perfeitamente, que a religião oferece-me uma visão alegórica, incompleta, necessariamente parcial da realidade. A religião não é o arbítrio, a religião não é a verdade. Podemos nos conduzir por ela, mas ainda seremos nós os condutores, e ela, o instrumento. O fundamentalismo religioso tira do indivíduo sua responsabilidade sobre o mundo e sobre si mesmo, porque lhe oferece escolhas prontas, e não elementos para que ele as realize.
Nesse contexto, combato, em nome da democracia, todo e qualquer tipo de fundamentalismo religioso, e toda ação que se encaminhe para isso. Assim como considerei suja e inconsequente a campanha que demonizava Dilma como abortista e Temer como anticristo (o fundamentalismo tem muito de imbecil, como nesse caso), considerei inoportuna a intervenção de Bento XVI. Ele poderia ter dito isso depois da eleição, ou bem antes dela. Não foi coincidência, foi uma tentativa de medir poder. Eu posso criticar o papa porque não sou católico, e não sou candidato a nada neste Brasil majoritariamente católico, mas acho que as palavras do católico presidente Lula são perfeitas como resposta: "o Brasil é um Estado laico". E tem de ser um Estado laico. E num Estado laico, as Igrejas são respeitadas, têm liberdade para suas pregações e seus ensinamentos. O Estado respeita a religião.
Por isso, a contrapartida precisa ser verdadeira: a Igreja precisa respeitar o Estado. Precisa respeitar os processos democráticos, que implicam divergências, debates, convivência de opiniões contrárias. Se a Igreja quer contribuir com o jogo democrático, e, em consequência, com o Estado, pode adentrar nesse campo para oferecer subsídios às divergências, aos debates, às opiniões que se contradizem. Se a Igreja, entretanto, entende que deve entrar no jogo com as cartas marcadas, aproveitando-se da liberdade que tem em relação ao Estado para diminuir o espaço do embate de ideias, creio que presta um desserviço à democracia, e desvia-se de sua função precípua, que é a condução da humanidade por um caminho mais digno e edificante.
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