Meus amigos e meus inimigos têm uma senha para me ganhar, dominar ou expor. Eles sabem que sou muuuuuito emotivo. E que choro fácil, fácil.
Isso desde criança, e não exatamente porque seja um menino mimado (pelo menos não tanto quanto outros que tenho conhecido ultimamente), mas porque talvez esse seja um daqueles traços que são da pessoa, que vêm com a história de vida e as disposições de espírito de cada um, e que não podem, mesmo com toda a terapia do mundo, ser apagados sem prejuízo da integridade.
O mais interessante - e talvez mais perigoso - dessa emotividade é que ela se associa a coisas curiosas, inusitadas e incomuns. O megaexemplo seria minha paixão pelos bichinhos: cães, gatos, coelhos, lagartixas, tigres, sapos, formigas etc. Observar os animais, para mim, é de certa forma ser absorvido por seus dramas de existência, suas lutas, suas dores, suas sortes e azares. E - perdoem-me a afirmação provavelmente exagerada - sinto-me mais humano vivenciando essa experiência do que me sentiria em certas situações cotidianas entre humanos. Talvez porque os animais são o que são, sempre; e os humanos esforçam-se, muitas vezes, em ser alguma coisa que não são, e não chegarão de fato a ser.
Eu não posso ver filmes como "Marley e eu". Eles me fazem chorar, eu fico automaticamente apaixonado pela personagem principal. Não precisam nem ser grandes filmes, como de fato esse não é, mas basta que tenham a sensibilidade de mostrar a natureza sem disfarces nem meias verdades dos bichos para que eu me entregue por inteiro. Esses dias o filme passou de novo. Consegui ver até as cenas em que ele começa a envelhecer. Depois, fui fazer outra coisa, porque sabia que desabaria no final.
A série "No reino dos Suricatos" é outro exemplo. Como me comove! Como torço por aqueles animaizinhos simpáticos, gregários e expostos à toda aridez e inospitalidade do deserto! Certos episódios são mesmo impossíveis de ver, para mim, sem chorar, ou pelo menos ficar perto de derrubar algumas lágrimas.
Um amigo meu de profissão me disse que uma das melhores sensações de sua vida era observar, por horas e horas, caracóis, formigas, caramujos percorrendo o campo aberto das terras do interior. Isso é realmente uma experiência única. Só consegui fazer isso na infância, mas reconheço-me inteiramente nesse prazer que ele me descreveu.
E eu poderia ficar aqui enumerando muitas outras situações, com gatos abandonados, cachorros de rua, pombos e pássaros caídos, e outros. Há algo em mim que se mobiliza em prol dessas criaturas.
Evidentemente, amo os seres humanos também, tanto que mergulho na cultura historicamente produzida como quem salta em uma piscina de mel. A questão é que, por alguma razão que não sei dizer, os bichinhos muitas vezes parecem mais indefesos diante do mundo, e ao mesmo tempo mais fortes e resilientes em sua batalha pela continuidade da espécie. Enfim, é inútil explicar.
Como todas as coisas da minha vida, essa facilidade de comoção está eivada de contradições. Perguntariam, com razão, vários de meus amigos: mas, se você compreende a dignidade e a integridade dos animais, por que não se torna vegano, ou vegetariano? Olha... eu tentei. Não consegui. Mas não descarto tentar de novo. Na verdade, tenho enorme admiração pela minha prima Estela e meu amigo Cesar, que levam esses princípios muito a sério em suas vidas. Talvez eu precise de mais tempo; talvez seja esse um dos meus desafios a vencer. Evidentemente, se minha saúde ficasse comprometida, ou se houvesse necessidade de consumo, para alguma carência do organismo, de elementos de origem animal, eu os consumiria, mas evitando ao máximo ampliar essa necessidade ao ponto de transformar em hábitos descuidados.
Mas essa é uma outra questão. O que quero deixar claro nesta postagem é que meu coração é dos cães, gatos e suricatos, mesmo quando não os compreendo ou tenho medo de suas reações. Ou posso até dizer: justamente porque eles guardam certo mistério da vida, que é divino em sua manifestação.
domingo, 25 de dezembro de 2011
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Deus
Se você colocasse uma câmera em um lugar qualquer do mundo não imediatamente acessível ao ser humano, provavelmente conseguiria filmar algum tipo de vida formando-se e protegendo-se em grupos e sistemas. Que tipo de vida seria esse? Poderiam ser criaturas como pequenos insetos, peixes circulando em cardumes, plantas parasitando outras plantas, mamíferos em semivigília para antecipar o ataque dos predadores. Seja qual for o formato desse ser, seja qual for a enformação dessa vida, o fato é que ela estará, sempre, fragilmente, equilibrando-se sobre uma corda bamba. Para esses notáveis batalhadores, conviver com a iminência do desaparecimento, da morte, da destruição, é parte de uma experiência evolutiva instintiva da qual, mesmo não tendo consciência, eles são os legítimos atualizadores e mantenedores em sua singularidade individual.
Quando um bando de roedores atravessa desavisadamente um caminho cheio de sinuosidades e esconderijos, onde uma serpente silenciosa posiciona-se para obter sua presa do dia, não há garantias, nem seguros, nem leis, nem justiça, nem nada. Daqueles vinte ou trinta que passarão, um ficará, e não é possível dizer qual seja. Aos outros, restará a fuga, a reorganização do grupo, a triste percepção da perda de um membro, e a continuidade da jornada. E a inteligência do instinto, a avisar: deve-se estar atento, pois é preciso que continuemos no mundo.
Por que aquele, e não outro? Por que x e y sobrevivem a uma inundação, e não a ou b? Por que, das tantas moscas que sobrevoam os restos nos matagais, justamente aquelas tinham de enredar numa teia de aranha, e outras prosseguiriam com sua rotina de alimentação e reprodução? Não sei se é possível responder a essas especulações, e talvez elas nem façam realmente sentido, uma vez que procuram encontrar padrões numa realidade ainda não suficientemente desvendada. O que considero, na verdade, mais intrigante nisso tudo é que, embora tenhamos muitas vezes a convicção de que, pelo menos no espaço de tempo em que realizamos nossas atividades cotidianas, nosso lugar no universo está garantido, estamos, provavelmente, na mesma situação dos roedores do parágrafo anterior. Vivemos num mundo em que, caminhando por dentre multidões, ou fechados em fantasias de segurança, somos absolutamente vulneráveis. Menos que as moscas, que os coelhos, que a plantas? Talvez. Mas quando um atirador anônimo invade um espaço em que você está, num momento de delírio psicótico, caberá uma mesma indagação aplicável ao reino animal: por que fiquei, e outro se foi? Por que alguns são pegos de surpresa por coisas tão absurdas quanto uma bala perdida ou uma queda aparentemente trivial, enquanto outros escapam de guerras sanguinárias e condições completamente desfavoráveis?
Creio que somos animais, antes de tudo, e que tenhamos essa bela e sábia condição de seguir em frente, sobrevivendo, dando continuidade à espécie. Mas nossa relativa segurança física para o prosseguimento da experiência da vida, construída pelo engenho de inúmeras gerações de nossos antepassados, talvez tenha nos dado uma percepção arrogante do mundo, camuflando a irmandade que temos com todos os seres subsistentes que nos rodeiam, que é baseada, justamente, na quase insignificância perante o todo, aliada à extrema singularidade de permanecer uno e respirando apesar de todas as possibilidades em contrário. É um milagre estar aqui blogando e dividindo a sensação da própria finitude com outros da mesma espécie, num planeta tão rico de vidas e experiências do existir. Se somos animais antes de tudo, somos homens, acima de tudo, e espíritos, em meio a tudo, e expressões de uma inteligência superior, a despeito de tudo.
Nisso se fundamenta meu amor por Deus.
Quando um bando de roedores atravessa desavisadamente um caminho cheio de sinuosidades e esconderijos, onde uma serpente silenciosa posiciona-se para obter sua presa do dia, não há garantias, nem seguros, nem leis, nem justiça, nem nada. Daqueles vinte ou trinta que passarão, um ficará, e não é possível dizer qual seja. Aos outros, restará a fuga, a reorganização do grupo, a triste percepção da perda de um membro, e a continuidade da jornada. E a inteligência do instinto, a avisar: deve-se estar atento, pois é preciso que continuemos no mundo.
Por que aquele, e não outro? Por que x e y sobrevivem a uma inundação, e não a ou b? Por que, das tantas moscas que sobrevoam os restos nos matagais, justamente aquelas tinham de enredar numa teia de aranha, e outras prosseguiriam com sua rotina de alimentação e reprodução? Não sei se é possível responder a essas especulações, e talvez elas nem façam realmente sentido, uma vez que procuram encontrar padrões numa realidade ainda não suficientemente desvendada. O que considero, na verdade, mais intrigante nisso tudo é que, embora tenhamos muitas vezes a convicção de que, pelo menos no espaço de tempo em que realizamos nossas atividades cotidianas, nosso lugar no universo está garantido, estamos, provavelmente, na mesma situação dos roedores do parágrafo anterior. Vivemos num mundo em que, caminhando por dentre multidões, ou fechados em fantasias de segurança, somos absolutamente vulneráveis. Menos que as moscas, que os coelhos, que a plantas? Talvez. Mas quando um atirador anônimo invade um espaço em que você está, num momento de delírio psicótico, caberá uma mesma indagação aplicável ao reino animal: por que fiquei, e outro se foi? Por que alguns são pegos de surpresa por coisas tão absurdas quanto uma bala perdida ou uma queda aparentemente trivial, enquanto outros escapam de guerras sanguinárias e condições completamente desfavoráveis?
Creio que somos animais, antes de tudo, e que tenhamos essa bela e sábia condição de seguir em frente, sobrevivendo, dando continuidade à espécie. Mas nossa relativa segurança física para o prosseguimento da experiência da vida, construída pelo engenho de inúmeras gerações de nossos antepassados, talvez tenha nos dado uma percepção arrogante do mundo, camuflando a irmandade que temos com todos os seres subsistentes que nos rodeiam, que é baseada, justamente, na quase insignificância perante o todo, aliada à extrema singularidade de permanecer uno e respirando apesar de todas as possibilidades em contrário. É um milagre estar aqui blogando e dividindo a sensação da própria finitude com outros da mesma espécie, num planeta tão rico de vidas e experiências do existir. Se somos animais antes de tudo, somos homens, acima de tudo, e espíritos, em meio a tudo, e expressões de uma inteligência superior, a despeito de tudo.
Nisso se fundamenta meu amor por Deus.
sábado, 5 de novembro de 2011
Pontos a esclarecer
Esses dias, indignado com a confusão e a loucura que se estabeleceram no prédio da faculdade responsável pela minha formação, desabafei em forma de piada no Facebook. Escrevi que a PM da USP tinha achado o assassino de Salomão Hayala (o vilão da novela das 11), com a intenção de dizer que tinha cometido exagero na atuação contra os estudantes pegos com maconha. Não sei se houve ou não exagero na abordagem, mas tenho certeza de que houve na condução.
Enfim, isso pouco importa. O que importa é que alguns leram a piada que fiz, que evidentemente implicava a incorporação de uma voz social conservadora atacando os uspianos, sem compreender a ironia das palavras, ou seja, o fato de que eu me solidarizava com os estudantes. Esse mal entendido gerou desconforto para mim, e tive de tirar a piada do ar, porque os comentários levavam a crer que eu tinha dito uma outra coisa.
Em função disso, quero esclarecer alguns pontos do meu pensamento, para que nada fique por interpretar, e as pessoas tenham clareza de algumas posições.
Primeiro, não sou a favor nem contra a PM no campus da USP. Não tenho nada, a princípio, contra a PM (talvez contra alguns PMs, mas que não creio representarem a insituição como um todo). Só que ainda não me convenci da efetiva necessidade dela, se por tantos anos tivemos uma guarda universitária que, bem ou mal, dava conta do recado. Não era mais simples equipar, preparar e reorganizar a guarda universitária? Mas, enfim, não é, no meu caso, nem questão de rancor, nem de medo, nem de nada. Apenas de entendimento.
Segundo, sou a favor da descriminalização do uso da maconha. Se o policial, na USP ou em qualquer outro lugar, ficar preocupado em prender quem está fumando um baseado, não tem polícia para tanta gente. E acredito que um sujeito enchendo a cara num barzinho e depois saindo com seu carro na madrugada é muito mais pernicioso que alguém que fuma maconha. A polícia precisa se focar em coisas mais importantes e perigosas para a sociedade.
Terceiro, não julgo o caráter das pessoas pelo uso ou não uso de nenhum tipo de droga, ou remédio, ou estimulante. Há canalhas abstêmios e pessoas indescritivelmente lindas que fumam, ou bebem, ou cheiram, ou injetam anabolizantes, ou abusam de remédios. O verdadeiro problema é o tráfico de drogas, não o usuário.
Quarto, acredito que as pessoas acabam criando, pelos padrões de comportamento socialmente observáveis dos estudantes, um estereótipo geral de quem frequenta cada faculdade. O perfil da FFLCH, para a maioria das pessoas, é de um frequentador mais desencanado, questionador, e zeloso da liberdade individual. O do Mackenzie, será outro, o da PUC, outro; e, mesmo dentro da USP, o da Medicina ou do Direito, outro e outro. Quando aconteceram as confusões dentro do campus, vi, li e ouvi pessoas querendo preconceituosamente desqualificar, com base em interpretações pobres e distorcidas derivadas desses estereótipos, tanto o aluno da FFLCH quanto o da USP como um todo. Não acho que podemos coadunar com esse tipo de pensamento. Não somos "vagabundos maconheiros", como algumas pessoas deixaram entender. Somos estudantes. Trabalhamos, lutamos por ideais, produzimos conhecimento, atuamos em vários setores da sociedade. E se alguns ou muitos de nós fumam maconha, não creio que a porcentagem seria diferente se pegássemos festas de elite nos bairros chiques de São Paulo ou pancadões na periferia, ou escolas de luxo e caríssimas e escolas públicas, como parâmetros de comparação. Fuma-se tanto na USP quanto em qualquer outra instituição de ensino, ou de qualquer outra coisa, no Brasil. Se a droga é um problema, é um problema da sociedade como um todo e não de uma suposta impertinência de um grupo social específico.
Quinta e última coisa, só para que fique claro o lugar de onde falo, e não porque eu sinta necessidade de me defender da hipocrisia alheia: eu nunca fumei maconha, eu não bebo, eu nunca utilizei drogas ilícitas. E não acho que seja melhor que ninguém por causa disso.
Enfim, isso pouco importa. O que importa é que alguns leram a piada que fiz, que evidentemente implicava a incorporação de uma voz social conservadora atacando os uspianos, sem compreender a ironia das palavras, ou seja, o fato de que eu me solidarizava com os estudantes. Esse mal entendido gerou desconforto para mim, e tive de tirar a piada do ar, porque os comentários levavam a crer que eu tinha dito uma outra coisa.
Em função disso, quero esclarecer alguns pontos do meu pensamento, para que nada fique por interpretar, e as pessoas tenham clareza de algumas posições.
Primeiro, não sou a favor nem contra a PM no campus da USP. Não tenho nada, a princípio, contra a PM (talvez contra alguns PMs, mas que não creio representarem a insituição como um todo). Só que ainda não me convenci da efetiva necessidade dela, se por tantos anos tivemos uma guarda universitária que, bem ou mal, dava conta do recado. Não era mais simples equipar, preparar e reorganizar a guarda universitária? Mas, enfim, não é, no meu caso, nem questão de rancor, nem de medo, nem de nada. Apenas de entendimento.
Segundo, sou a favor da descriminalização do uso da maconha. Se o policial, na USP ou em qualquer outro lugar, ficar preocupado em prender quem está fumando um baseado, não tem polícia para tanta gente. E acredito que um sujeito enchendo a cara num barzinho e depois saindo com seu carro na madrugada é muito mais pernicioso que alguém que fuma maconha. A polícia precisa se focar em coisas mais importantes e perigosas para a sociedade.
Terceiro, não julgo o caráter das pessoas pelo uso ou não uso de nenhum tipo de droga, ou remédio, ou estimulante. Há canalhas abstêmios e pessoas indescritivelmente lindas que fumam, ou bebem, ou cheiram, ou injetam anabolizantes, ou abusam de remédios. O verdadeiro problema é o tráfico de drogas, não o usuário.
Quarto, acredito que as pessoas acabam criando, pelos padrões de comportamento socialmente observáveis dos estudantes, um estereótipo geral de quem frequenta cada faculdade. O perfil da FFLCH, para a maioria das pessoas, é de um frequentador mais desencanado, questionador, e zeloso da liberdade individual. O do Mackenzie, será outro, o da PUC, outro; e, mesmo dentro da USP, o da Medicina ou do Direito, outro e outro. Quando aconteceram as confusões dentro do campus, vi, li e ouvi pessoas querendo preconceituosamente desqualificar, com base em interpretações pobres e distorcidas derivadas desses estereótipos, tanto o aluno da FFLCH quanto o da USP como um todo. Não acho que podemos coadunar com esse tipo de pensamento. Não somos "vagabundos maconheiros", como algumas pessoas deixaram entender. Somos estudantes. Trabalhamos, lutamos por ideais, produzimos conhecimento, atuamos em vários setores da sociedade. E se alguns ou muitos de nós fumam maconha, não creio que a porcentagem seria diferente se pegássemos festas de elite nos bairros chiques de São Paulo ou pancadões na periferia, ou escolas de luxo e caríssimas e escolas públicas, como parâmetros de comparação. Fuma-se tanto na USP quanto em qualquer outra instituição de ensino, ou de qualquer outra coisa, no Brasil. Se a droga é um problema, é um problema da sociedade como um todo e não de uma suposta impertinência de um grupo social específico.
Quinta e última coisa, só para que fique claro o lugar de onde falo, e não porque eu sinta necessidade de me defender da hipocrisia alheia: eu nunca fumei maconha, eu não bebo, eu nunca utilizei drogas ilícitas. E não acho que seja melhor que ninguém por causa disso.
domingo, 11 de setembro de 2011
O entregador
Dia desses fui com a patroa fazer compras em mercado próximo de casa, mas não tão próximo que possibilitasse trazermos os produtos no braço. Perguntamos, então, a um dos caixas, se havia serviço de entrega; isso definiria o tamanho de nossa compra. O rapaz nos mandou falar com outro empregado, que estava ali perto. Esse era o entregador. Ele garantiu que conseguiria levar os produtos se fizéssemos a compra até as 19h00.
Como bom capricorniano, disciplinado e chatíssimo, fiquei calculando o tempo até que, perto de 15 minutos antes do prazo, encostávamos nosso carrinho em um dos caixas do mercado, para passar as mercadorias. Esse processo demorou um pouco, e, enquanto esperávamos, notei que o entregador me olhava com certa constância, tentando ler algum comportamento ou sacar algum traço que lhe seria importante. Pagos todos os itens, o rapaz sinalizou o funcionário do caixa alguma coisa e me chamou. Disse-me que a entrega implicava acréscimo de 6 reais na compra (disso eu já sabia) e pediu para que eu não pagasse esse dinheiro com a conta no caixa, e sim para ele, depois. Como para mim era exatamente a mesma coisa, aceitei, e na verdade nem estava ligando muito para isso. Estava preocupado com o fato de que iríamos a pé para casa, e as compras, indo de carro, chegariam primeiro.
Foi então que descobri algo que até então não supunha: as compras não iriam de carro. O rapaz colocaria as caixas em um carrinho de entregas, desses que se usam para carregar mercadorias que abastecem o estoque. Ele carregaria as três caixas de coisas que compramos naquele carrinho até chegar em nossa casa. Portanto, caminharíamos juntos até lá.
Confesso que fiquei mais tranquilo de saber que as compras não chegariam primeiro, mas pareceu-me esforço demais para alguém andar sete a oito quarteirões movimentados e de calçadas acidentadas empurrando um carrinho rústico como aquele com tanto peso em cima. Fiquei pensando que, se eu trabalhasse nisso e fizesse vinte entregas por dia, ficaria tão cansado que dormiria umas dez horas seguidas.
No caminho, vim conversando com o rapaz. Descobri muitas coisas. Ele era paraibano, com pouco tempo de São Paulo. Ele ganhava 550 reais por mês para fazer entregas para o mercado, sem direito a vale-transporte nem vale-alimentação. Os seis reais que eu pagaria no caixa ficariam todos para a empresa, pois não importava o número de entregas realizadas para o cômputo do salário final. Ele explicou que, pagando a ele, poderia ter um troco a mais para o transporte e outras necessidades. Disse que era torcedor do Treze, na Paraíba, do Flamengo, no Brasil, e do Corinthians, em São Paulo. Disse-me também muitas outras coisas de que não lembro, pois estava andando mais rápido que o meu normal para acompanhá-lo, e estava um pouco cansado.
Chegamos em casa, e ele levou as caixas até a porta do meu apartamento, enquanto fiquei no térreo, para vigiar o carrinho, que não cabia no elevador. Quando desceu, perguntei se tudo estava entregue, e ele me disse, um tanto desconfiado, que sim, e que minha mulher lhe havia dito que eu pagaria os seis reais na saída. Não fiquei ofendido; sei quanto esse dinheiro era importante para ele.
Dei uma nota dez e não quis troco. Ele saiu contente e agradeceu, desejando-me um bom fim de semana. Mas eu não me senti nada bem. Fiquei pensando no valor das coisas, para mim e para ele. O valor econômico do serviço realizado. O valor moral de pagá-lo "por fora". O valor social de colaborar com alguém que trabalha em condições tão aviltantes. O valor político de conhecer as condições em que um trabalho é realizado, e não apenas o resultado que ele produz em meu benefício. Fiquei pensando em tudo isso, e não cheguei a nenhuma conclusão, mas solidifiquei a certeza de que ainda há muito a se fazer para que se possa promover justiça social de fato no Brasil.
Como bom capricorniano, disciplinado e chatíssimo, fiquei calculando o tempo até que, perto de 15 minutos antes do prazo, encostávamos nosso carrinho em um dos caixas do mercado, para passar as mercadorias. Esse processo demorou um pouco, e, enquanto esperávamos, notei que o entregador me olhava com certa constância, tentando ler algum comportamento ou sacar algum traço que lhe seria importante. Pagos todos os itens, o rapaz sinalizou o funcionário do caixa alguma coisa e me chamou. Disse-me que a entrega implicava acréscimo de 6 reais na compra (disso eu já sabia) e pediu para que eu não pagasse esse dinheiro com a conta no caixa, e sim para ele, depois. Como para mim era exatamente a mesma coisa, aceitei, e na verdade nem estava ligando muito para isso. Estava preocupado com o fato de que iríamos a pé para casa, e as compras, indo de carro, chegariam primeiro.
Foi então que descobri algo que até então não supunha: as compras não iriam de carro. O rapaz colocaria as caixas em um carrinho de entregas, desses que se usam para carregar mercadorias que abastecem o estoque. Ele carregaria as três caixas de coisas que compramos naquele carrinho até chegar em nossa casa. Portanto, caminharíamos juntos até lá.
Confesso que fiquei mais tranquilo de saber que as compras não chegariam primeiro, mas pareceu-me esforço demais para alguém andar sete a oito quarteirões movimentados e de calçadas acidentadas empurrando um carrinho rústico como aquele com tanto peso em cima. Fiquei pensando que, se eu trabalhasse nisso e fizesse vinte entregas por dia, ficaria tão cansado que dormiria umas dez horas seguidas.
No caminho, vim conversando com o rapaz. Descobri muitas coisas. Ele era paraibano, com pouco tempo de São Paulo. Ele ganhava 550 reais por mês para fazer entregas para o mercado, sem direito a vale-transporte nem vale-alimentação. Os seis reais que eu pagaria no caixa ficariam todos para a empresa, pois não importava o número de entregas realizadas para o cômputo do salário final. Ele explicou que, pagando a ele, poderia ter um troco a mais para o transporte e outras necessidades. Disse que era torcedor do Treze, na Paraíba, do Flamengo, no Brasil, e do Corinthians, em São Paulo. Disse-me também muitas outras coisas de que não lembro, pois estava andando mais rápido que o meu normal para acompanhá-lo, e estava um pouco cansado.
Chegamos em casa, e ele levou as caixas até a porta do meu apartamento, enquanto fiquei no térreo, para vigiar o carrinho, que não cabia no elevador. Quando desceu, perguntei se tudo estava entregue, e ele me disse, um tanto desconfiado, que sim, e que minha mulher lhe havia dito que eu pagaria os seis reais na saída. Não fiquei ofendido; sei quanto esse dinheiro era importante para ele.
Dei uma nota dez e não quis troco. Ele saiu contente e agradeceu, desejando-me um bom fim de semana. Mas eu não me senti nada bem. Fiquei pensando no valor das coisas, para mim e para ele. O valor econômico do serviço realizado. O valor moral de pagá-lo "por fora". O valor social de colaborar com alguém que trabalha em condições tão aviltantes. O valor político de conhecer as condições em que um trabalho é realizado, e não apenas o resultado que ele produz em meu benefício. Fiquei pensando em tudo isso, e não cheguei a nenhuma conclusão, mas solidifiquei a certeza de que ainda há muito a se fazer para que se possa promover justiça social de fato no Brasil.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Meu país
Dia 7 de setembro é data em que pessoas de todo o Brasil comemoram ou protestam, projetando e desejando um país melhor. Um anseio dessa ordem é sempre justo e benéfico. Mas não fico contente quando pessoas se utilizam desse anseio como guarda-chuva ideológico para falar mal do Brasil, como se não vivessem aqui ou não tivessem nenhuma relação com a nação e sua cultura.
Li recentemente alguma coisa sobre a Jante Law, conjunto de princípios que regem as relações humanas em países nórdicos europeus - aqueles que são considerados os mais felizes e tranquilos do mundo. Entre as muitas ideias interessantes que considero válidas para qualquer sociedade, tomei como aforismo uma em especial: "Não pense que você é melhor do que nós". Um pouco de bom senso e de atenção a essa constatação quase elementar sobre a natureza humana seria o suficiente para que muitos brasileiros nos poupassem das coisas estúpidas que dizem sobre meu país.
Eu não consigo mais levar a sério quando as pessoas dizem: no Brasil, nada funciona; os americanos é que são isso; os japoneses ou alemães ou italianos é que são aquilo; e coisas do gênero. Eu não consigo conceber que as pessoas ainda acreditem que corrupção, violência, tráfico ou incivilidade sejam problemas inexistentes nas sociedades que consideram melhores que a nossa. Eu não engulo quem sai do Brasil, fica lá fora um tempão, ganha dinheiro, e fica dizendo que o país não vai pra frente, que não tem vínculo com sua pátria, e coisas do tipo.
Eu nasci neste país, eu cresci nesta cultura, eu falo esta língua, eu aprendi a ser o que sou com estas pessoas. Sou louco pela música brasileira, pela culinária brasileira, pela natureza brasileira. As mulheres do Brasil são lindas, as pessoas do Brasil são acolhedoras, o ritmo do Brasil é cativante. Desejo um dia visitar Nova York, Paris, Cairo, sei lá, tantos lugares!, mas eu ainda serei filho desta experiência aqui, destes valores, desta forma de ver e viver o mundo, com muito orgulho.
Eu não tenho vergonha do meu país. Tem gente que considera o máximo tornar-se europeu ou americano ou construir a vida em outro lugar. Respeito as decisões de cada um, mas tenho convicção de que viver aqui ou em outras bandas implica as mesmas etapas de toda a experiência humana: trabalhar, criar relações, cuidar da família etc. E essas coisas podem dar certo ou não no Brasil ou em qualquer outro canto do planeta. Mas muitas pessoas não entendem assim, e acham que quem conseguiu sair do Brasil tem maior valor ou competência que quem ficou.
Por favor, se você não gosta do Brasil, não fale mal dele. É ridículo. Bem ou mal, foram estas águas e estes ares, e estes pratos de arroz com feijão e farinha, que puseram você em pé antes que sequer sonhasse em alçar outros voos. O Brasil não é o que passa no jornal de televisão, e nem o que a elite pensa do povo que trabalha para ela. Meu país é Minas, Rio, Bahia, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pará, Ceará, Pernambuco. É gente demais para generalizar de forma tão redutora e mal-intencionada. É mediocridade demais achar que toda essa gente é má, ou inferior, ou ingênua.
O Brasil não deveria ser, para as pessoas, essa concepção vazia, fabricada pela superficialidade e pelo descompromisso ético de parte da sua elite, que dá margem a todo tipo de preenchimento ideológico pejorativo. Conhecer o Brasil deveria significar, para quem insiste em falar mal de nós e de si mesmo, uma forma de conhecer o sangue que corre nas próprias veias e a sustância que orienta o próprio estar no mundo.
Eu não fui a nenhum desfile no 7 de setembro. Mas, ao pensar com carinho e profundidade no Brasil, eu fui fundo no que sou, e o orgulho que senti de me saber parte desta nação vale a empunhadura de uma bandeira, em qualquer parte do mundo, em qualquer momento da vida.
Li recentemente alguma coisa sobre a Jante Law, conjunto de princípios que regem as relações humanas em países nórdicos europeus - aqueles que são considerados os mais felizes e tranquilos do mundo. Entre as muitas ideias interessantes que considero válidas para qualquer sociedade, tomei como aforismo uma em especial: "Não pense que você é melhor do que nós". Um pouco de bom senso e de atenção a essa constatação quase elementar sobre a natureza humana seria o suficiente para que muitos brasileiros nos poupassem das coisas estúpidas que dizem sobre meu país.
Eu não consigo mais levar a sério quando as pessoas dizem: no Brasil, nada funciona; os americanos é que são isso; os japoneses ou alemães ou italianos é que são aquilo; e coisas do gênero. Eu não consigo conceber que as pessoas ainda acreditem que corrupção, violência, tráfico ou incivilidade sejam problemas inexistentes nas sociedades que consideram melhores que a nossa. Eu não engulo quem sai do Brasil, fica lá fora um tempão, ganha dinheiro, e fica dizendo que o país não vai pra frente, que não tem vínculo com sua pátria, e coisas do tipo.
Eu nasci neste país, eu cresci nesta cultura, eu falo esta língua, eu aprendi a ser o que sou com estas pessoas. Sou louco pela música brasileira, pela culinária brasileira, pela natureza brasileira. As mulheres do Brasil são lindas, as pessoas do Brasil são acolhedoras, o ritmo do Brasil é cativante. Desejo um dia visitar Nova York, Paris, Cairo, sei lá, tantos lugares!, mas eu ainda serei filho desta experiência aqui, destes valores, desta forma de ver e viver o mundo, com muito orgulho.
Eu não tenho vergonha do meu país. Tem gente que considera o máximo tornar-se europeu ou americano ou construir a vida em outro lugar. Respeito as decisões de cada um, mas tenho convicção de que viver aqui ou em outras bandas implica as mesmas etapas de toda a experiência humana: trabalhar, criar relações, cuidar da família etc. E essas coisas podem dar certo ou não no Brasil ou em qualquer outro canto do planeta. Mas muitas pessoas não entendem assim, e acham que quem conseguiu sair do Brasil tem maior valor ou competência que quem ficou.
Por favor, se você não gosta do Brasil, não fale mal dele. É ridículo. Bem ou mal, foram estas águas e estes ares, e estes pratos de arroz com feijão e farinha, que puseram você em pé antes que sequer sonhasse em alçar outros voos. O Brasil não é o que passa no jornal de televisão, e nem o que a elite pensa do povo que trabalha para ela. Meu país é Minas, Rio, Bahia, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pará, Ceará, Pernambuco. É gente demais para generalizar de forma tão redutora e mal-intencionada. É mediocridade demais achar que toda essa gente é má, ou inferior, ou ingênua.
O Brasil não deveria ser, para as pessoas, essa concepção vazia, fabricada pela superficialidade e pelo descompromisso ético de parte da sua elite, que dá margem a todo tipo de preenchimento ideológico pejorativo. Conhecer o Brasil deveria significar, para quem insiste em falar mal de nós e de si mesmo, uma forma de conhecer o sangue que corre nas próprias veias e a sustância que orienta o próprio estar no mundo.
Eu não fui a nenhum desfile no 7 de setembro. Mas, ao pensar com carinho e profundidade no Brasil, eu fui fundo no que sou, e o orgulho que senti de me saber parte desta nação vale a empunhadura de uma bandeira, em qualquer parte do mundo, em qualquer momento da vida.
sábado, 6 de agosto de 2011
Desserviço
Ganhei de presente o livro do jornalista Leandro Narloch, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, e só vou seguir adiante nesta postagem porque sei que quem me presenteou não lê meu blogue.
Sei que é um presente, e foi dado com carinho, porque a pessoa julgava que poderia ser interessante para um professor de História (agora lidando apenas com Português e Filosofia) descobrir novidades e curiosidades relacionadas às novas pesquisas realizadas nos últimos anos.
Li o livro. É um pastiche engraçadinho de trabalhos acadêmicos, contestando certas posições mais consagradas dos historiadores. Lido nessa chave, não fede nem cheira; é uma provocação, nada mais.
O problema é que mais de uma pessoa em mais de uma situação já me deu informações elencadas nesse livro como se fossem o suprassumo da fidedignidade. As pessoas dizem para mim: - Viu, Vinicius, a História dos livros está toda errada. Eu li um livro que conta a verdade sobre blá, blá, blá... e lá vem pérolas do tipo "o Aleijadinho não existiu" ou "Santos Dumont era um palhaço" ou "o Acre deveria ser jogado no lixo", ou "os índios não foram massacrados".
Quando uma provocação, ou pastiche, ou piadinha besta desse nível começa a receber esse status de "coisa séria", passa a ser necessário reagir, antes que as pessoas comecem a acreditar que há mais nesse pastel do que massa e vento.
Então, aviso aos leitores, com toda convicção: existe uma característica inerente a todo o texto cientítico, argumentativo ou dissertativo que sempre deve ser levada em conta na leitura do mesmo. Essa característica é o viés. Se o texto defende uma ideia, não a defende a partir de um lugar neutro, incolor e inodoro de enunciação. Ele a defende a partir de uma formação discursiva dada, de um conjunto de pressupostos e referências que lhe fornece algum corpo de fundamentação. Leandro Narloch não é "politicamente incorreto", como simula em sua descrição do "guia". Ele é conservador e direitista. Seu viés é direitista. Ele está alinhado a Marco Antonio Villa e outros historiadores que fundamentam sua argumentação em uma percepção reacionária e conservadora do mundo. Isso é muito importante esclarecer: o livro de Narloch não é uma mera provocação a alguns, ele é uma provocação à vertente mais progressista e esquerdista do estudo de História.
Até aí, estamos elas por elas, não é verdade? Cada um puxando brasas para sua sardinha, e ficamos na mesma em termos de saber o que realmente ocorreu, não é isso? Seria isso se lidássemos com um historiador de direita. O que eu chamo de historiador nesse caso? Um especialista que é capaz de coligir fatos e documentos a partir de pesquisas realizadas com método, a partir de uma determinada concepção de história e de filosofia da história que pudesse pautar seu trabalho. Narloch não é um historiador, é um jornalista, e isso se revela claramente em seu "guia": não há método nenhum na escolha dos fatos elencados para provar a tese x ou y. O método é a mera retirada de trechos ou frases de obras de autores que, de alguma forma, pudessem validar a lógica dos raciocínios. Narloch não pesquisa fontes, não acrescenta nada às pesquisas já realizadas, nem mesmo se dá ao trabalho saudável e mínimo de redigir um estado da questão ou um levantamento bibliográfico sobre os temas, avaliando a validade e a fidedignidade das fontes utilizadas e justificando as que não foram aproveitadas. O livrinho de Narloch, do ponto de vista da História enquanto ciência, é absolutamente irrelevante. Entretanto, quando apresentado editorialmente sem essas ressalvas fundamentais, passa a ser perigoso. E quando lido descuidadamente, por um público que não tem recursos para avaliar a cientificidade da argumentação que contém, ele se torna, infelizmente, pernicioso.
Se você leu o livro e ficou com a pulga atrás da orelha em certos trechos e em função de certas afirmações, ele terá servido para alguma coisa: para provocar em você a vontade de se aprofundar na temática que suscitou dúvidas. Mas se você estava procurando informação qualificada e julga que a encontrou nessa obra, recomendo a leitura de muitas outras obras de história do Brasil antes de usar qualquer das "descobertas" brilhantes de Narloch numa conversa entre amigos, ou para impressionar incautos. Sem isso, você pode acabar passando vergonha. Por fim, se você não leu o livro e procura novas abordagens e pesquisas sobre a história de seu país, há trocentas obras muito bem fundamentadas, redigidas por pesquisadores qualificados e respeitados no meio acadêmico, e há inúmeras revistas científicas de História que trazem pesquisas em andamento, devidamente respaldadas por uma metodologia e uma orientação científica. Leia esse material, e você entenderá por que escrevi esta postagem sobre uma obra que nem isso merecia.
Sei que é um presente, e foi dado com carinho, porque a pessoa julgava que poderia ser interessante para um professor de História (agora lidando apenas com Português e Filosofia) descobrir novidades e curiosidades relacionadas às novas pesquisas realizadas nos últimos anos.
Li o livro. É um pastiche engraçadinho de trabalhos acadêmicos, contestando certas posições mais consagradas dos historiadores. Lido nessa chave, não fede nem cheira; é uma provocação, nada mais.
O problema é que mais de uma pessoa em mais de uma situação já me deu informações elencadas nesse livro como se fossem o suprassumo da fidedignidade. As pessoas dizem para mim: - Viu, Vinicius, a História dos livros está toda errada. Eu li um livro que conta a verdade sobre blá, blá, blá... e lá vem pérolas do tipo "o Aleijadinho não existiu" ou "Santos Dumont era um palhaço" ou "o Acre deveria ser jogado no lixo", ou "os índios não foram massacrados".
Quando uma provocação, ou pastiche, ou piadinha besta desse nível começa a receber esse status de "coisa séria", passa a ser necessário reagir, antes que as pessoas comecem a acreditar que há mais nesse pastel do que massa e vento.
Então, aviso aos leitores, com toda convicção: existe uma característica inerente a todo o texto cientítico, argumentativo ou dissertativo que sempre deve ser levada em conta na leitura do mesmo. Essa característica é o viés. Se o texto defende uma ideia, não a defende a partir de um lugar neutro, incolor e inodoro de enunciação. Ele a defende a partir de uma formação discursiva dada, de um conjunto de pressupostos e referências que lhe fornece algum corpo de fundamentação. Leandro Narloch não é "politicamente incorreto", como simula em sua descrição do "guia". Ele é conservador e direitista. Seu viés é direitista. Ele está alinhado a Marco Antonio Villa e outros historiadores que fundamentam sua argumentação em uma percepção reacionária e conservadora do mundo. Isso é muito importante esclarecer: o livro de Narloch não é uma mera provocação a alguns, ele é uma provocação à vertente mais progressista e esquerdista do estudo de História.
Até aí, estamos elas por elas, não é verdade? Cada um puxando brasas para sua sardinha, e ficamos na mesma em termos de saber o que realmente ocorreu, não é isso? Seria isso se lidássemos com um historiador de direita. O que eu chamo de historiador nesse caso? Um especialista que é capaz de coligir fatos e documentos a partir de pesquisas realizadas com método, a partir de uma determinada concepção de história e de filosofia da história que pudesse pautar seu trabalho. Narloch não é um historiador, é um jornalista, e isso se revela claramente em seu "guia": não há método nenhum na escolha dos fatos elencados para provar a tese x ou y. O método é a mera retirada de trechos ou frases de obras de autores que, de alguma forma, pudessem validar a lógica dos raciocínios. Narloch não pesquisa fontes, não acrescenta nada às pesquisas já realizadas, nem mesmo se dá ao trabalho saudável e mínimo de redigir um estado da questão ou um levantamento bibliográfico sobre os temas, avaliando a validade e a fidedignidade das fontes utilizadas e justificando as que não foram aproveitadas. O livrinho de Narloch, do ponto de vista da História enquanto ciência, é absolutamente irrelevante. Entretanto, quando apresentado editorialmente sem essas ressalvas fundamentais, passa a ser perigoso. E quando lido descuidadamente, por um público que não tem recursos para avaliar a cientificidade da argumentação que contém, ele se torna, infelizmente, pernicioso.
Se você leu o livro e ficou com a pulga atrás da orelha em certos trechos e em função de certas afirmações, ele terá servido para alguma coisa: para provocar em você a vontade de se aprofundar na temática que suscitou dúvidas. Mas se você estava procurando informação qualificada e julga que a encontrou nessa obra, recomendo a leitura de muitas outras obras de história do Brasil antes de usar qualquer das "descobertas" brilhantes de Narloch numa conversa entre amigos, ou para impressionar incautos. Sem isso, você pode acabar passando vergonha. Por fim, se você não leu o livro e procura novas abordagens e pesquisas sobre a história de seu país, há trocentas obras muito bem fundamentadas, redigidas por pesquisadores qualificados e respeitados no meio acadêmico, e há inúmeras revistas científicas de História que trazem pesquisas em andamento, devidamente respaldadas por uma metodologia e uma orientação científica. Leia esse material, e você entenderá por que escrevi esta postagem sobre uma obra que nem isso merecia.
sábado, 4 de junho de 2011
Relacionamentos amorosos
Se isso ocorre pelo fato de ser eu capricorniano, não sei. Sei que tenho muito forte essa característica do signo de ser reservado no tocante à vida pessoal. Mesmo em rodas de amigos ou com familiares, não falo de conquistas amorosas, nem de perdas. Não falo das pessoas com quem me relaciono. Não falo das minhas preferências. Não toco em assuntos de foro íntimo, a não ser que meus problemas exijam, num grau desesperador de estado físico ou financeiro, ajuda alheia. Não gosto de expor ninguém. E ainda mais: acho que uma das armadilhas da sociedade do espetáculo é que você deixa de poder amar livremente quando passa a ser seguido, vigiado, julgado por sua visibilidade. Para mim, é sempre melhor amar em segredo, viver relacionamentos sem o julgamento apressado, parcial, recalcado e conservador da maioria das pessoas.
Nunca escrevi aqui sobre meus relacionamentos. Tenho o máximo respeito pelas pessoas que, algum dia por algum motivo, entenderam gostar de mim a ponto de compartilhar seu tempo, sua história, sua intimidade. Não tenho o direito de expor suas vidas e aquilo que elas dividiram comigo. Portanto, em que pese o título do texto, continuarei não falando de meus relacionamentos, no que tange à sua concretude histórica, digamos assim. Nas próximas linhas, apenas tentarei desenhar percepções mais abstratas sobre relacionamentos em geral, considerando, evidentemente, minha interiorização das experiências que tive. Alerto que as colocações que farei podem ser chocantes e surpreendentes, e que as pessoas que prezam uma determinada imagem minha de bom moço ou criatura ponderada podem se sentir imensamente frustradas com o que venham a ler.
A primeira colocação que farei parece ter fundo moral, ético, paradigmático, proverbial, mas não é nada disso. É algo que é ridiculamente óbvio, mas que só pode ser verdadeiramente apreendido com o tempo. É o seguinte: ninguém é obrigado a gostar de ninguém. Implicação primeira disso é que ninguém é obrigado a gostar de mim. Evidente, elementar? Creio que sim, mas levei muito tempo para sentir que podia lidar com isso. Sempre foi difícil para um jovem inseguro como eu compreender que as paixões são voláteis, são passageiras, são instáveis, e que as pessoas mudam, como muda a orientação de seus corações. E que isso nada tinha a ver com meu valor enquanto ser humano. Talvez por isso as separações tenham sido, na minha vida, momentos absolutamente devastadores, em que me senti imobilizado e diminuído diante de todos à minha volta. O tempo me ensinou a não procurar justificações, embora de vez em sempre eu me pegue tentando racionalizar, justificar, estabelecer causas e efeitos para acontecimentos que são refratários a essas apreensões tão mentais. Mas creio que a segunda implicação seja a mais difícil de lidar: a de que não sou obrigado a gostar de ninguém. Ou seja: os sentimentos que tenho, em determinados momentos e em determinadas configurações da marcha da vida, por determinadas pessoas, costumam ser muito mais voláteis e indeterminados e surpreendentes que os vínculos que estabeleço a partir desses sentimentos. Isso é terrível para quem tem preocupação com o outro, porque é um espaço em que a ética e a dignidade não comandam. Repare o leitor que não me refiro às ações, mas aos sentimentos propriamente ditos. Acredito que as pessoas devem, sim, honrar seus compromissos. Apenas não acredito que os compromissos, verbais ou legais, possam controlar, abafar ou modificar certos sentimentos, como os que se relacionam ao amor e à paixão amorosa. O resultado interior disso sempre foi um só, no meu caso: culpa. Sensação de pequenez moral. Autopunição. Aceitação passiva das invasões e agressões alheias. Até que foi chegando um tempo em que percebi que não havia nada de exatamente errado com as coisas do coração. Que nada havia de imoral em sentir atração por uma pessoa quando ela, ou eu, vivíamos outra relação. Que nada havia de antiético em amar ou estar apaixonado por pessoas diferentes num mesmo momento da vida. Que nada havia de surpreendente em viver fases numa relação em que não havia amor nem paixão pela pessoa com quem me relacionava, embora ainda houvesse uma respeitável história a dois e uma forte expectativa de superação desse momento. Foi nesse tempo que comecei a entender que o ciúme, a possessividade, as exigências mil de demonstrações de afeto ou consideração, as obrigações "contratuais" dos namoros e casamentos, eram brinquedinhos bobos diante da magnanimidade da vida amorosa de um ser humano.
E isso me levou a mais algumas percepções.
Passei a entender, por exemplo, que não é possível saber tudo sobre uma pessoa. Mais que isso: não é saudável nem inteligente querer saber tudo sobre uma pessoa. As pessoas precisam ter um espaço insondável, surpreendente, permitido, ainda que isso nos custe uma certa insegurança e a sensação de que não podemos controlá-las. Mas a verdade é que não podemos mesmo ter esse controle, e se os sentimentos de uma pessoa apontam numa direção que não queremos, o melhor que podemos fazer é manter uma atitude de respeito e de amizade, e aprender a conviver com isso.
Passei a entender, também, que essa ideia de alma gêmea é uma analogia poética para relacionamentos que são bons e estáveis por muito tempo, mas não é condição obrigatória da felicidade amorosa. Porque tem muita gente boa no mundo. Tem muita gente interessante. Tem muita gente inteligente, brilhante, atraente por muitos motivos. Tem muita gente que nos desperta tesão. Tem muita gente que nos desperta admiração. Pode ser que encontremos, vida afora, alguém com quem nos sentimos tão bem que esse comércio de contatos e sondagens acaba inibido por uma satisfação mais ou menos constante. Mas essa não é a regra. Simplesmente porque essas coisas do coração não têm regra. Então, é possível ser feliz encontrando uma alma gêmea, assim como também é possível ser feliz vivendo diferentes relacionamentos em diferentes períodos da vida, com diferentes graus de satisfação.
Passei a entender, também, que a única coisa que realmente importa nos relacionamentos é o perdão. Se a gente levar a ferro e fogo tudo o que o outro faz, não tem relacionamento. Tem contrato, compromisso, mas ninguém vive contratualmente, as pessoas precisam de liberdade para deixar seus sentimentos fluírem. Então (pense o que quiser, querido leitor, neste ponto, mas é o que sinto, e o que verdadeiramente decidi assumir para mim), não creio mais que faça sentido ter grandes demonstrações de raiva ou frustração ou desespero quando percebo que minha companheira teve alguma atitude menos louvável na sua conduta. As pessoas guardam sentimentos contraditórios que as levam a fazer coisas que não esperávamos. Temos de perdoar isso, se quisermos ter contato com a integridade delas, se é isso que nos apaixona. Temos de perdoar pequenas mentiras. Temos de perdoar certos desequilíbrios emocionais. Temos de tolerar a possibilidade de não sermos únicos no coração de quem amamos. Temos de passar por cima de certas mancadas. Não podemos nos desesperar com as fases em que não estamos sendo atraentes para a pessoa que nos atrai. Tudo isso é parte do jogo da vida, é parte dos relacionamentos. Evidentemente, não dá para viver uma vida baseada na agressão, na mentira e no desrespeito, mas também não podemos achar que não haverá nenhum momento em que isso não venha a acontecer, em alguma medida, no nosso namoro ou no nosso casamento. E, quando isso acontece, temos de ter o preparo e a decência de não julgar o todo pela parte, de não resumir a grandeza que todo ser humano tem a sua condição de falibilidade. Se colocássemos uma lupa no coração de cada um dos mortais, qual deles restaria sem nódoa, sem maldade, sem nenhum resquício de despudor ou oportunismo? Amamos seres humanos, ou idealizações que fazemos deles? É isso: ou se aprende a perdoar, ou o amor e o relacionamento estarão fadados ao descompasso.
É até contraditório falar em perdoar quem não tem, na verdade, culpa, mas fica entendido que se trata de desenvolver uma capacidade de relevar situações, das mais contornáveis às mais delicadas.
Isso tudo implica no seguinte: respeitar as decisões do outro, e respeitar o outro independentemente das decisões. Entender que as obrigações éticas são umas, que as obrigações contratuais são outras, e que as obrigações amorosas não existem, senão não haveria amor. Entender que a única razão legítima para uma pessoa ficar com você é que ela tenha vontade, em seu íntimo, de ficar com você. Entender que ninguém é de ninguém, ainda que tenhamos a vaidade e a presunção de julgar que controlamos os sentimentos alheios. Entender que o casamento é uma escolha, o namoro é uma opção, e o amor não costuma perguntar-nos sobre nossas escolhas e opções: ele invade e fim, como diz Djavan. E que é justamente por causa dessa não-obrigatoriedade, dessa imprevisibilidade do amor, que devemos nos sentir bem com os momentos em que ele está presente, sejam eles poucos ou muitos, permanentes ou impermanentes, longos ou curtos, dentro ou fora dos casamentos e namoros.
Nunca escrevi aqui sobre meus relacionamentos. Tenho o máximo respeito pelas pessoas que, algum dia por algum motivo, entenderam gostar de mim a ponto de compartilhar seu tempo, sua história, sua intimidade. Não tenho o direito de expor suas vidas e aquilo que elas dividiram comigo. Portanto, em que pese o título do texto, continuarei não falando de meus relacionamentos, no que tange à sua concretude histórica, digamos assim. Nas próximas linhas, apenas tentarei desenhar percepções mais abstratas sobre relacionamentos em geral, considerando, evidentemente, minha interiorização das experiências que tive. Alerto que as colocações que farei podem ser chocantes e surpreendentes, e que as pessoas que prezam uma determinada imagem minha de bom moço ou criatura ponderada podem se sentir imensamente frustradas com o que venham a ler.
A primeira colocação que farei parece ter fundo moral, ético, paradigmático, proverbial, mas não é nada disso. É algo que é ridiculamente óbvio, mas que só pode ser verdadeiramente apreendido com o tempo. É o seguinte: ninguém é obrigado a gostar de ninguém. Implicação primeira disso é que ninguém é obrigado a gostar de mim. Evidente, elementar? Creio que sim, mas levei muito tempo para sentir que podia lidar com isso. Sempre foi difícil para um jovem inseguro como eu compreender que as paixões são voláteis, são passageiras, são instáveis, e que as pessoas mudam, como muda a orientação de seus corações. E que isso nada tinha a ver com meu valor enquanto ser humano. Talvez por isso as separações tenham sido, na minha vida, momentos absolutamente devastadores, em que me senti imobilizado e diminuído diante de todos à minha volta. O tempo me ensinou a não procurar justificações, embora de vez em sempre eu me pegue tentando racionalizar, justificar, estabelecer causas e efeitos para acontecimentos que são refratários a essas apreensões tão mentais. Mas creio que a segunda implicação seja a mais difícil de lidar: a de que não sou obrigado a gostar de ninguém. Ou seja: os sentimentos que tenho, em determinados momentos e em determinadas configurações da marcha da vida, por determinadas pessoas, costumam ser muito mais voláteis e indeterminados e surpreendentes que os vínculos que estabeleço a partir desses sentimentos. Isso é terrível para quem tem preocupação com o outro, porque é um espaço em que a ética e a dignidade não comandam. Repare o leitor que não me refiro às ações, mas aos sentimentos propriamente ditos. Acredito que as pessoas devem, sim, honrar seus compromissos. Apenas não acredito que os compromissos, verbais ou legais, possam controlar, abafar ou modificar certos sentimentos, como os que se relacionam ao amor e à paixão amorosa. O resultado interior disso sempre foi um só, no meu caso: culpa. Sensação de pequenez moral. Autopunição. Aceitação passiva das invasões e agressões alheias. Até que foi chegando um tempo em que percebi que não havia nada de exatamente errado com as coisas do coração. Que nada havia de imoral em sentir atração por uma pessoa quando ela, ou eu, vivíamos outra relação. Que nada havia de antiético em amar ou estar apaixonado por pessoas diferentes num mesmo momento da vida. Que nada havia de surpreendente em viver fases numa relação em que não havia amor nem paixão pela pessoa com quem me relacionava, embora ainda houvesse uma respeitável história a dois e uma forte expectativa de superação desse momento. Foi nesse tempo que comecei a entender que o ciúme, a possessividade, as exigências mil de demonstrações de afeto ou consideração, as obrigações "contratuais" dos namoros e casamentos, eram brinquedinhos bobos diante da magnanimidade da vida amorosa de um ser humano.
E isso me levou a mais algumas percepções.
Passei a entender, por exemplo, que não é possível saber tudo sobre uma pessoa. Mais que isso: não é saudável nem inteligente querer saber tudo sobre uma pessoa. As pessoas precisam ter um espaço insondável, surpreendente, permitido, ainda que isso nos custe uma certa insegurança e a sensação de que não podemos controlá-las. Mas a verdade é que não podemos mesmo ter esse controle, e se os sentimentos de uma pessoa apontam numa direção que não queremos, o melhor que podemos fazer é manter uma atitude de respeito e de amizade, e aprender a conviver com isso.
Passei a entender, também, que essa ideia de alma gêmea é uma analogia poética para relacionamentos que são bons e estáveis por muito tempo, mas não é condição obrigatória da felicidade amorosa. Porque tem muita gente boa no mundo. Tem muita gente interessante. Tem muita gente inteligente, brilhante, atraente por muitos motivos. Tem muita gente que nos desperta tesão. Tem muita gente que nos desperta admiração. Pode ser que encontremos, vida afora, alguém com quem nos sentimos tão bem que esse comércio de contatos e sondagens acaba inibido por uma satisfação mais ou menos constante. Mas essa não é a regra. Simplesmente porque essas coisas do coração não têm regra. Então, é possível ser feliz encontrando uma alma gêmea, assim como também é possível ser feliz vivendo diferentes relacionamentos em diferentes períodos da vida, com diferentes graus de satisfação.
Passei a entender, também, que a única coisa que realmente importa nos relacionamentos é o perdão. Se a gente levar a ferro e fogo tudo o que o outro faz, não tem relacionamento. Tem contrato, compromisso, mas ninguém vive contratualmente, as pessoas precisam de liberdade para deixar seus sentimentos fluírem. Então (pense o que quiser, querido leitor, neste ponto, mas é o que sinto, e o que verdadeiramente decidi assumir para mim), não creio mais que faça sentido ter grandes demonstrações de raiva ou frustração ou desespero quando percebo que minha companheira teve alguma atitude menos louvável na sua conduta. As pessoas guardam sentimentos contraditórios que as levam a fazer coisas que não esperávamos. Temos de perdoar isso, se quisermos ter contato com a integridade delas, se é isso que nos apaixona. Temos de perdoar pequenas mentiras. Temos de perdoar certos desequilíbrios emocionais. Temos de tolerar a possibilidade de não sermos únicos no coração de quem amamos. Temos de passar por cima de certas mancadas. Não podemos nos desesperar com as fases em que não estamos sendo atraentes para a pessoa que nos atrai. Tudo isso é parte do jogo da vida, é parte dos relacionamentos. Evidentemente, não dá para viver uma vida baseada na agressão, na mentira e no desrespeito, mas também não podemos achar que não haverá nenhum momento em que isso não venha a acontecer, em alguma medida, no nosso namoro ou no nosso casamento. E, quando isso acontece, temos de ter o preparo e a decência de não julgar o todo pela parte, de não resumir a grandeza que todo ser humano tem a sua condição de falibilidade. Se colocássemos uma lupa no coração de cada um dos mortais, qual deles restaria sem nódoa, sem maldade, sem nenhum resquício de despudor ou oportunismo? Amamos seres humanos, ou idealizações que fazemos deles? É isso: ou se aprende a perdoar, ou o amor e o relacionamento estarão fadados ao descompasso.
É até contraditório falar em perdoar quem não tem, na verdade, culpa, mas fica entendido que se trata de desenvolver uma capacidade de relevar situações, das mais contornáveis às mais delicadas.
Isso tudo implica no seguinte: respeitar as decisões do outro, e respeitar o outro independentemente das decisões. Entender que as obrigações éticas são umas, que as obrigações contratuais são outras, e que as obrigações amorosas não existem, senão não haveria amor. Entender que a única razão legítima para uma pessoa ficar com você é que ela tenha vontade, em seu íntimo, de ficar com você. Entender que ninguém é de ninguém, ainda que tenhamos a vaidade e a presunção de julgar que controlamos os sentimentos alheios. Entender que o casamento é uma escolha, o namoro é uma opção, e o amor não costuma perguntar-nos sobre nossas escolhas e opções: ele invade e fim, como diz Djavan. E que é justamente por causa dessa não-obrigatoriedade, dessa imprevisibilidade do amor, que devemos nos sentir bem com os momentos em que ele está presente, sejam eles poucos ou muitos, permanentes ou impermanentes, longos ou curtos, dentro ou fora dos casamentos e namoros.
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