sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Sem pacto. Só impacto.

Quando eu era criança, em tempos de crise e recessão, as pessoas usavam muito a expressão "pacto social", que significaria um acordo em que vários segmentos da sociedade (empregados, empregadores, governo, funcionários públicos, ricos e pobres, classes A,B,C,D) teriam de fazer concessões individualmente para que se conseguisse um quadro melhor da economia que beneficiaria a todos.
Essas concessões seriam negociadas, é bom que se entenda.
Admitindo que essa ideia nunca realmente vigorou, e que os de menor renda sempre foram mais prejudicados, devo dizer que me espanta que, no quadro atual, a desfaçatez seja tamanha que nem esse tipo de pacto tenha sido proposto. Não há negociação, as concessões são praticamente todas dos empregados e funcionários públicos, e não há sequer a preocupação de se apresentar isso como um esforço de todos de "apertar os cintos".
Pelo contrário, trata-se às vezes de ameaça e chantagem explícita, via propaganda, como quando se diz que, se não for do jeito que o governo quer, o trabalhador perderá o benefício ou o direito que até então tinha. Se não mexer nos direitos (do trabalhador), não vai ter emprego. Se não cortar benefícios (do trabalhador), não vai ter educação e saúde. Ninguém fala de rever a alíquota do IR, ou de taxar grandes fortunas, ou de limitar a especulação financeira, medidas essas que seriam concessões dos mais ricos (e de uma parcela bem pequena deles, até). Não há mais a preocupação de convencer as pessoas de que todos estão no mesmo barco. Isso ao mesmo tempo em que se paga uma dívida interna irreal, se congelam investimento sociais e se perdoam dívidas de teles, agronegócio etc.
Sem proposição de pacto, sem esforço de persuasão e sem nenhum incômodo sequer para os que têm dinheiro e poder, olha só quanta coisa tem ido pro ralo para a minha e a sua vida:
- tempo para aposentadoria aumentará (muito);
- leis trabalhistas (acordos com patronato passam a ter valor de lei);
- CLT está sob ameaça;
- o mínimo aumentou menos do que era previsto;
- as contas de tudo subiram;
- salários de funcionários públicos não são pagos;
- salários congelados por anos;
- transportes subiram;
- vagas em universidades públicas sendo diminuídas;
- orçamento da educação sendo cortado;
- contratações de funcionários suspensas;
- discute-se mudar leis para poder pagar menos e demitir funcionários estáveis;
- nem os seus atenuadores de humor, como a Netflix e outros, estão garantidos, uma vez que haverá limitação da banda larga;
- e tudo isso no mesmíssimo mar de corrupção que sempre caracterizou a coisa pública brasileira, inclusive com as mesmas figuras de sempre ocupando cargos-chave no Congresso e no Planalto.
Esqueça o teatrinho político por um momento. Não defenda a espoliação dos seus direitos em função de "gostar" ou não de governante X ou Y, o de ter defendido X em determinada ocasião e agora se sentir comprometido com as escolhas que fez então. Pense que os nomes, as pessoas e as intenções estão a serviço de ideias e ações, e são estas que ficam. Não defenda nenhuma ideia ou ação que não traga benefícios a pessoas como você, seja quem for a figura pública envolvida.
Ou nos unimos em torno de ideias e questões específicas, da defesa dos nossos direitos, ou vamos perder todas as conquistas de anos para o país sair da crise (o que não é garantido) e deixar a gente, mesmo com a economia mais saudável (o que, de novo, não é garantido), em condição bem pior do que estávamos antes (o que é garantido e permanente com essas mudanças que estão sendo feitas).

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Voto e propaganda

Quando as pessoas se digladiam em ofensas ou argumentações incisivas, às vezes fico pensando se elas acreditam que conseguirão persuadir seu interlocutor dessa maneira. Tenho observado, nesses últimos anos, um curioso fenômeno ligado ao debate político que faz com que eu coloque em dúvida essa possibilidade de convencimento.
Noto que determinadas candidaturas vencem pela simpatia do eleitor com elas. O eleitor gosta da "cara" daquela candidatura e se predispõe a dar seu voto a ela. A partir daí, esse eleitor não se preocupa mais em discutir propostas ou programas ou históricos de ação, mas apenas em defender a escolha subjetiva e emocional que realizou. 
Quando isso acontece, não há argumentação que mude aquela forma de pensar (ou não pensar). Esse eleitor "fechado" com a possibilidade que lhe inspira mais simpatia passa a colecionar argumentos para defender sua opção sem avaliá-los ou pesar sua relevância. Ele sempre tem algo a dizer sobre o candidato escolhido, mas quase nunca é uma ponderação racional, e sim a repetição de mantras publicitários, argumentos pobres (por vezes desumanos ou falaciosos) e imprecações violentas contra adversários. Para quem não conhece embate de ideias de verdade, essa massa de informações, que mais parece uma competição de prolixidade e grito que um diálogo sobre os rumos da coisa pública, ganha o estatuto imerecido e indevido de "debate político". Parece-me que essa confusão é tudo o que os marqueteiros querem, e que se configura como um dos maiores desserviços à população que se pode imaginar.
Por muitas vezes, nesse contexto, percebo a irritação e o desespero de quem leva argumentos racionais e bem construídos, baseados em fatos e informações fidedignas, aos que não querem mudar de ideia de jeito nenhum. E percebo um erro estratégico complicado, que é a ingenuidade de achar que, vencendo um debate, você muda a atitude do derrotado. Muitas pessoas que conheço ficam felizes por destruir a argumentação de um adversário nas redes sociais, como se isso mudasse uma predisposição de apoio ideológico, que tem muito mais a ver com fatores subjetivos manipulados pela propaganda. Não quero dizer, com isso, que não adianta argumentar. Quero dizer que o problema não é só argumentar, mas trazer a discussão para um patamar de interesse comum. E, ao fazer isso, mostrar que esse interesse comum não é contemplado quando a discussão é pautada pela mídia corporativa e pelos marqueteiros.
Tomemos, por exemplo, a questão da educação pública, laica, gratuita e de qualidade. Se temos essa pauta em mente, e conseguimos mostrar que é relevante também para o nosso interlocutor, partimos de um ponto em que a avaliação de candidaturas passa por compreender qual o compromisso que elas têm com essa demanda. E então podemos mostrar que nenhuma candidatura atende totalmente aos interesses comuns, tal como nenhuma os desconsidera totalmente. Podemos estabelecer graus de proximidade de interesses, que nos ajudam a buscar o que nos favorece, enquanto trabalhadores e cidadãos, dentro de qualquer gestão eleita, seja mais próxima ou mais distante de nossas preferências.
Quantas vezes eu vejo as pessoas discutirem questões dificílimas e cheias de nuances, como o aborto, os rumos da economia, a distribuição de energia, a mudanças de leis trabalhistas, todas elas trazidas para as conversas como amontoados de raciocínios incompletos repetidos sem leitura e aprofundamento, associados, via de regra, a um viés partidário de preferência? Por vezes parece que as pessoas não veem contradição alguma em apoiar medidas que as prejudicam enormemente se defendidas por candidatos de sua preferência pessoal. Por outro lado, essas mesmas pessoas não conseguem elogiar ou apoiar medidas importantíssimas para elas e para os outros quando assumidas por candidatos do campo antagonista. Fica parecendo que, se o candidato querido disser que bois voam, o seu eleitor deve repetir essa argumentação até a exaustão, mesmo que tenha consciência de que ela é ridícula. Cria-se um compromisso de torcedor, e não de cidadão politicamente participante.
Acredito no diálogo, mas não acredito que o formato de interlocução oferecido pelas redes sociais ou pelos canais de televisão e rádio seja, de fato, favorável ao aprofundamento das questões mais importantes. Não compartilho do otimismo das pessoas que citam a amplitude da rede virtual e a velocidade da circulação das informações como benefícios imediatos à construção de consciências. Precisamos ter estratégias para navegar nesse mar de vozes, e a confrontação verborrágica orgulhosa e soberba só trará mais rusgas. Para mim, é preciso voltar às bases: procurar conhecer as demandas das pessoas ANTES de configurados quaisquer processos eleitorais, estudar as questões mais prementes, fazer leituras, grupos de estudo, grupos de discussão, problematizar a pauta da mídia antes de assumir uma posição em relação ao que ela oferece, criar uma pauta comum e dialogada como alternativa àquela estabelecida pelos que podem fazê-lo.
Sem isso, ficaremos na mesma.

Esta postagem é só um desabafo pessoal. Para pensar esse tema com mais consistência, recomendo a leitura das obras políticas de Noam Chomsky.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Dylan é Nobel de Literatura, e eu aplaudo de pé

Estou em estado de grande alegria pela premiação de Bob Dylan com o Nobel de Literatura. Acredito que esse não seja um prêmio apenas de Dylan. Agraciando um compositor popular, a Academia Sueca mostrou que um trabalho profundo e comprometido com a canção pode ter impacto e relevância cultural nas mesmas dimensões de uma grande obra literária. De certa forma, entendo que esse prêmio é uma vitória da canção, esse produto pop que transcendeu a música, a poesia e a fala e transformou-se numa linguagem com possibilidades quase infinitas, inclusive de abrigar a beleza poética e a profundidade literária. Esse reconhecimento a Dylan é também um reconhecimento a Lennon, Chico Buarque, Atahualpa Yupanqui, Leonard Cohen, Violeta Parra e tantos outros que optaram por fazer o artesanato da palavra dentro da canção, no universo da música popular.
Se Dylan não se destaca por vendagem ou pela celebração de livros pela crítica, isso não o diminui enquanto artista. Muitos dirão que ele não é um escritor, é um músico, e que o prêmio deveria ser dado a alguém ligado à produção de livros reconhecidos por uma qualidade estritamente literária. Acontece que a palavra "músico" é traiçoeira quando usada para definir Dylan. Beethoven, Bach, Stravinsky são músicos imortais e espetaculares, mas ninguém em sã consciência daria um Nobel de Literatura a eles, por razões óbvias: suas sinfonias, óperas, sonetos, corais, são de excelência incontestável no plano musical, mas não os fazem mestres ou artesãos da palavra escrita, de forma alguma. Dylan é um cancionista, e a canção não é só música, como sabemos já há algum tempo. A figura de Dylan, para mim, está mais próxima dos trovadores e menestréis que dos romancistas e poetas. Escrever canções não é simplesmente colocar letras em músicas. Há todo um elemento de persuasão que passa pela possibilidade de os segmentos verbais convencerem emocionalmente, poderem ser assimilados como recortes de fala natural. Quando Dylan canta, você se convence de que ele está dizendo algo, e esse convencimento acontece por meio de recursos específicos acionados pelo fazer específico ligado à produção de canções.
O que quero dizer é que é perfeitamente possível ser um mestre ou gênio da palavra dentro da canção. E que isso tem de ser percebido por meio da fruição da canção. Não adianta pegar um monte de letras de Dylan, colocar num livro e querer que elas causem a impressão de poemas geniais (ainda que muitas possam, eventualmente, provocar essa reação). O talento do cancionista enquanto compositor popular não é revelado nessa leitura fria. Esse talento se revela na percepção de que as escolhas de palavras, de frases, de conteúdos, de ritmos, de entonações e de recursos de oralização, todas profundamente ligadas ao trabalho com a linguagem verbal, são pensadas dentro de um contexto musical, dentro de um limite de tempo de execução e de um limite associado às escolhas na melodia.
É um músico que ganhou o Nobel de Literatura? Sim. Mas um músico que não é só músico. É também um tremendo artista da palavra, num nível tal que sua produção alcança patamares geralmente associados à produção de poetas, romancistas e contistas. Mas, que fique claro, alcança esses patamares enquanto produção de canção, dentro da lógica e do artesanato das canções. Há, na premiação de Dylan, uma concessão importantíssima, que assume que o manejo inteligente da palavra dentro de roteiros de cinema, letras de canções ou discursos públicos possa ser pensado também como espaço de construção de belezas poéticas e literárias. O que não deveria ser nenhuma novidade, visto que estudamos como grandes escritores, muitas vezes, pessoas que nunca escreveram livros, e lemos como obras escritas muitos textos que eram cantados ou oralizados e só sobreviveram em virtude de registros realizados sem a participação de seus autores. Talvez um dia um roteirista de televisão ou um orador comunitário ou um outro mestre da palavra fora dos livros possa receber o reconhecimento mais que merecido de Dylan.
Entendam, por favor, que isso é muito diferente de dar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras para pessoas com grande importância política, mas que nunca produziram nada que se possa considerar minimamente literário ou de relevância intelectual. Entendam, também, que o prêmio não define os melhores, que também tem suas jogadas políticas, e que não tem como reconhecer artistas que estão tão à frente de seu tempo que só serão valorizados muito depois de sua morte, ou artistas que morreram cedo demais para receber todo o reconhecimento que mereciam. Há limites claros nessas premiações. O que não impede que eu considere justo, bacana e importante premiar o gênio extraordinário de Dylan, e elevar a canção pop ao patamar de valor literário que todos sabemos que ela historicamente tem.

sábado, 9 de abril de 2016

Coração profético


Na iminência de algo acontecer, percebe-se que sempre algo pode acontecer. A sensação de perigo é apenas a consciência das possibilidades que ora estão mais evidentes, ora mais latentes. Viver é muito perigoso, como diz Guimarães Rosa, porque viver é estar na iminência de algo que, por mais que queiramos profetizar, sempre aparece sob um véu. Não escondido, não de surpresa: apenas obnubilado.
Mas meu coração é profético, no sentido bíblico. Seus batimentos formam uma sinfonia em Braille, que às vezes nem eu mesmo consigo decifrar. E ele sente coisas que existem, ainda que eu não possa precisá-las.
Nesses dias, sinto necessidade de dizer que a maior vitória que podemos imprimir a nossos adversários no campo das ideias é a alegria de viver. Mostrar que podemos viver alegres, contentes (não digo felizes, mas iluminados pelo bom humor) e produtivos, com valores diferentes daqueles que nos querem fazer assimilar, é o ato mais revolucionário de um ser humano. E é também a forma mais sóbria de lidar com as iminências da vida. Mostrar e experimentar um caminho é também ousar e empunhar um caminho quando as mentalidades são fechadas e excludentes.
Nesses dias atuais, sinto necessidade de dizer que acredito na arte como modo de vida, e na alegria como antídoto contra a loucura. As canções, as encenações, as filmagens, os poemas, as prosas, as instalações, as intervenções, as melodias, as composições plásticas, tudo isso tem servido muito mais para abrir meus olhos que para enfeitar um mundo paralelo de alienação e fuga. Quando as pessoas entram em contato, elas sabem ser pessoas no mundo do espetáculo óbvio; quando os artistas profundos entram em contato com o público, tanto eles quanto o público desaprendem seus papéis e reescrevem suas narrativas. 
Tenho vontade de dizer que ouço vozes e vejo olhares que expõem sentimentos fortes e valorosos. E que existem, sim, boa vontade, generosidade, gratidão, desprendimento e altruísmo. Que tudo isso está difuso e perdido entre outros estímulos e projeções, mas que a determinação pode garimpar essas belezas nas margens do rio de vaidades e excessos que nos arrasta. 
Tenho confiança de que a educação e a arte podem interferir no sistema. Posturas mais críticas, mais autocríticas, mais questionadoras, mais observadoras, podem desativar o preconceito, o machismo, o hedonismo, a egolatria, a discriminação, o racismo. Sensibilizar corações não é para vender produtos nas livrarias: é para salvar vidas, salvar identidades e alteridades, congregar mais corpos na festa do presente. Sobretudo, a alegria, enquanto afirmação de outros valores, agregadores, igualitários, isentos das marcas de fabricação da sociedade ao mesmo tempo líquida e psicótica, enfim, a alegria compartilhada e compartilhável é a maior arma que temos contra o medo, o ódio e a exclusão. O fascismo bebe deles; a alegria transborda e os recobre. Precisamos ser mais altos que fascismo.
Tenho necessidade de dizer que, como os antigos, acredito ver além. Não a verdade do que está além dos olhos, mas a luz no fim do túnel que a escuridão engoliu, mas que podemos reativar antes mesmo de alcançá-la. As profecias não são do futuro. Porque o futuro não está em nenhum outro lugar que não seja matéria do presente. Nesse sentido, vale o coração profético. A dor da lucidez precisa dele.
Venha o que vier, minhas armas estão prontas. Eu sei quem tenho em mim.


sábado, 26 de dezembro de 2015

É preciso urgentemente requalificar o espaço de comentários nos blogues: ele se tornou profissionalizado, inútil e pernicioso


Para quem viveu a empolgação da possibilidade de troca de informação na internete, e mais ainda a empolgação da descoberta dos blogues como recursos de expressão baratos, rápidos, eficientes e com muitas facilidades de interação, é completamente decepcionante perceber que boa parte das conquistas em termos de liberdade e possibilidade de diálogo podem estar indo para o ralo por puríssima falta de bom senso no uso.

Alguns blogueiros e páginas que acompanho frequentemente desativaram o espaço de comentários, sem mais. Ninguém pode culpá-los nem criticá-los por isso. Eles não estão fugindo do debate de ideias, mesmo porque esse debate simplesmente não acontece. O que eles fazem é evitar o dissabor das agressões verbais e da falta de senso de internautas sem civilidade. A prova de que a coisa está nesse nível é que mesmo os grandes portais, que via de regra abrem espaço em suas publicações para comentários dos internautas, já criaram maneiras de filtrar certas inserções, bloqueando palavras, limitando intervenções ou até suprimindo a possibilidade de comentário, tal como os blogueiros a que me referi. E leve-se em conta que esses grandes portais pagam funcionários para cuidar desses espaços virtuais.

Essa tendência de intervenção desqualificada (em alguns casos, até doentia) dos leitores de textos de internete talvez seja apenas reveladora da deterioração geral da urbanidade numa sociedade individualista, competitiva, violenta e frustrada. Em grande parte, creio que isso é verdade. Por outro lado, há outras motivações por trás da mediocridade, às vezes tão medíocres quanto as intervenções agressivas, às vezes inteligentes a ponto de apenas utilizá-las, sem se confundir com elas.

Percebo em portais como UOL, Terra e Yahoo a presença maciça de comentaristas profissionais, preparados para inserir ideias fixas (verdadeiramente fixas) em quaisquer espaços em que for possível. Essas ideias são em boa parte assustadoras, em sua maioria são apenas medíocres, algumas podem ser apenas irrelevantes, e algumas poucas são válidas e sensatas. Não há muito como medir isso, depende de fazer um levantamento e uma análise minimamente isentas e fundamentadas, e eu mesmo não teria essa condição. Mas não é preciso mais que alguns minutos de leitura para que se perceba que o perfil convicto-agressivo-arrogante é o que predomina, infelizmente. 

Esse perfil de comentarista não é, de forma alguma, ingênuo, nem age de forma aleatória. Há comentaristas que emitem sua opinião, reforçam, e depois conseguem tempo para atacar sistematicamente toda e qualquer opinião divergente que seja postada. Creio que a sistematicidade seja a característica que melhor se apresenta na ação desses internautas. Parece que suas energias são claramente direcionadas para: a) ocupar um determinado espaço de escrita dentro de um veículo, seja uma postagem, seja uma notícia, seja outro espaço qualquer; b) postar ideias que reforcem determinadas visões fechadas e definitivas de mundo - raríssimas vezes você vê esse perfil equilibrando prós e contras, ou fazendo perguntas, ou questionando seu próprio raciocínio e suas limitações de compreensão; c) dar sempre a última palavra sobre um assunto ou numa sequência de argumentações, se possível desqualificando, ridicularizando e silenciando a posição adversária, colocando-a como absurda ou medíocre - as risadas, as ironias e a distorção do que foi escrito são estratégias comuns para esse fim; d) cercar os perfis com opiniões diferentes e combatê-los ou agredi-los sistematicamente, não permitindo que nenhuma ideia levantada possa ficar sem resposta; e) unir-se a perfis semelhantes e atuar de forma a estabelecer um "efeito manada", como se a quantidade de postagens ou respostas pudesse substituir a qualidade da argumentação.

Sem toda essa sistematização, essa forma de ocupar o espaço virtual não seria possível, pois estaria fadada ao fracasso ao ser identificada como autoritária, paranoica e altamente desagradável para quem lê. E essa necessária sistematização pressupõe a profissionalização do perfil comentarista: é preciso que alguém tenha tempo, incentivo e recursos para não perder nenhuma postagem adversária. Assim, quando as organizações ou estruturas de poder que sustentam esses perfis elegem um adversário ideológico, procuram adentrar seu espaço virtual e realizar uma espécie de estratégia de "terra arrasada", destruindo toda e qualquer possibilidade de equilíbrio no debate de ideias. Isso também pode ser percebido de forma muita evidente: basta acessar rapidamente a rede para notar que há notícias e blogues que ninguém comenta, ao passo que há espaços em que parece estar havendo uma nova guerra de nervos a cada publicação. 

- Ora, isso tudo é parte do embate político de ideias - poderia dizer o meu interlocutor imaginário. Concordo. Mas até a política tem de ter regras de civilidade para se estabelecer. Na história, abominações como extermínios em massa e guerras de conquista são parte de políticas de Estado, por exemplo, mas isso não as torna mais legítimas. Agressões, intimidações, humilhações são parte das estratégias de manipulação na comunicação humana, é fato. Mas não há outras estratégias? Não há uma riqueza enorme de possibilidades nesse sentido, dentro do diálogo, da interlocução respeitosa, da conversa para enriquecimento mútuo?

O que acaba acontecendo é que esse perfil de comentarista torna-se um propagador violento e autoritário de ideias fixas, às vezes polêmicas, às vezes meramente agressivas, mas nunca ingênuas nem despropositadas. E ele transforma o espaço de debate em um espaço de escrita virulenta, por vezes covarde, porque a distância física e a possibilidade do anonimato garantem uma postura irresponsável em relação ao que publica. Para quem mantém blogues, o resultado é por vezes desastroso, em especial para pessoas não profissionais como eu, que escrevem de vez em quando e não têm como abandonar as outras atividades que garantem seu sustento para cuidar do que está acontecendo em suas postagens. O que acontece, muitas vezes, é que uma postagem que seria boa, se tomássemos só o texto, torna-se intragável quando lidos os comentários. Em certos casos, os comentários nada têm a ver com o espírito nem da postagem nem do blogue, ou nada acrescentam a uma determinada questão, servindo apenas para marcar posição; são, assim, irrelevantes e inúteis. Mas pode ser ainda pior, porque muitas vezes, além de serem descartáveis para o debate, os comentários desviam da ideia principal de tal forma que acabam se focando em ataques ad hominem e agressões desvairadas. Nesse caso, eles são, sem dúvida, perniciosos para quem escreve, para quem lê e sobretudo para quem os recebe em seu blogue.

O que fazer contra esse troll profissional, que transforma um espaço de debate em um espaço de exclusão, violência e impraticabilidade do diálogo? Não há soluções fáceis, admito. Creio que, em primeiro lugar, nunca se deve entrar na "pilha" do comentador mal educado, porque isso é tudo o que ele quer. Uma vez que ele está "equipado" para a guerra, tentar confrontá-lo é dar-lhe crédito em seu campo, e perder tempo, energia e disposição. Recomendo uma frieza quase didática se se considerar que uma resposta vale a pena. Em segundo lugar, é preciso desarmá-lo de sua postura, e uma boa maneira de fazer isso é expor sua estratégia. Isso pode ser feito quando isolamos as palavras agressivas para comentá-las, ou questionamos a caixa alta e as risadas, ou detectamos o "efeito manada" na atuação de distintos perfis. De novo, é necessário sangue frio, e preparação para o revide, porque expor as inconsistências de discurso ou intenções subjacentes de um interlocutor normalmente tende a incomodá-lo. Em terceiro lugar, acredito que seja saudável e importante localizar, selecionar e divulgar, ou até mesmo construir, espaços virtuais públicos de discussão ampla sobre determinados assuntos. Quando um engraçadinho quisesse fazer um bate-boca sobre alguma questão com a intenção clara de perturbar um internauta, ele poderia ser remetido a um desses espaços, para testar suas ideias dentro de um ambiente mais amplo. Responder a uma postagem arrogante com o link de um especialista ou de um fórum sobre a questão pode ser um bom método de qualificar a discussão, ou obrigar o interlocutor a responder não aos argumentos do blogueiro, e sim aos de muitas outras pessoas que se debruçaram sobre o assunto. Por fim, acredito que seja legítimo, em grande parte dos casos, simplesmente não responder, apagar o comentário ou mesmo responder em particular, se se sentir que isso é possível. Boa parte dos blogues são espaços pessoais, embora com exposição pública. Ninguém pode ser obrigado a aceitar atitudes desrespeitosas, que acabam ganhando uma publicidade indevida, e que muitas vezes são realizadas justamente para obter essa publicidade. Ademais, o comportamento de muitos dos perfis na internete chega a ser psicótico, e não são todas as pessoas que conseguem lidar com esse padrão de comportamento. 

Em complemento a esta postagem, vou colocar alguns exemplos de comentário pernicioso nos vários portais e blogues que acompanho, apenas para que não pareça que esse é um incômodo exclusivamente meu, ou relacionado a uma situação específica. Vou fazer isso aos poucos. O importante é que decidi não mais prestigiar a ignorância. Ou será remetida a um debate qualificado, ou será desprezada. É isso.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Linguagem, escolhas e notícias

Acabei de fazer uma consulta rápida às minhas fontes e verifiquei que o continente americano possui mais de 900 milhões de habitantes. É muita gente.

Imagino que, dentro desse imenso contingente populacional americano, não sejam todas as pessoas que tenham condições de ser atletas. Muito menor deve ser o número de atletas de destaque. Muito menor ainda o de atletas em condições de representar seu país. E deve ser ínfimo, para esse contingente, o número de atletas em condições de disputar e vencer uma medalha nos Jogos Panamericanos.

Na verdade, eu não estava pensando a respeito disso até deparar com a manchete do portal Terra que aparece na figura abaixo:



Não farei aqui nenhuma avaliação sobre a conveniência ou inconveniência dos termos empregados. Mas chamo a atenção do leitor para a posição do autor da matéria em relação às informações selecionadas para compor o texto. Repare como a escolha das palavras determina um viés de interpretação em relação ao que é e o que não é importante.

Primeiro, vamos à notícia. Mayra Aguiar conquistou medalha de prata no judô no Pan. A medalha de ouro foi conquistada por Kayla Harrison. As duas já se enfrentaram anteriormente diversas vezes. Essas informações podem ser recuperadas de diversas formas, a partir de distintas escolhas de linguagem. Cada escolha reforçará uma ideia, e não será neutra, pois implicará seleção de informações mais específicas para complementar a ideia das informações principais.

Começo destacando o termo "jejum". Ele aparece como primeira palavra da manchete, e está semanticamente associado a "fome", "falta" e "período de tempo". Com sentido evidentemente negativo, ele está associado à não conquista da medalha de ouro pela atleta. Especificamente da medalha de ouro, porque Mayra Aguiar já havia conquistado prata no Pan de 2007 e bronze no Pan de 2011. Seria possível destacar a sequência histórica de conquistas de medalhas, mas a opção recai na sequência de não conquistas da medalha de ouro.

A ideia de "derrota" que se amplia no tempo (veja o uso do verbo "continua" associado a "jejum") estabelece uma direção para o texto, que tende a se uniformizar em sua construção. É importante ressaltar que essa ideia é evidentemente polêmica, como vimos, pois a definição de sucesso está atrelada tão somente à conquista da medalha de ouro. A despeito disso, a manchete permanece fiel à negatividade anunciada na primeira frase, reforçando com a expressão "perde mais uma". É como se as lutas perdidas estivessem sendo contadas, e as vencidas fossem menos importantes.

Adiante, ainda na manchete, utiliza-se o vocábulo "algoz". O Dicionário Houaiss define "algoz" como "carrasco, executor da pena de morte ou de outras penas capitais". Essa metáfora, comum no jornalismo esportivo, é dramática e hiperbólica, e poderia passar como licença poética se não reforçasse, no contexto empregado, a ideia de insucesso, atribuindo muito maior poder a quem vence (metaforicamente, aquele que mata) e muito menor poder a quem é vencido (metaforicamente, aquele que morre).

Para que não se pense que a análise atribui mais peso aos termos do que eles possuem, consideremos que não se trata de usar ou não a ideia de "algoz", mas de fazê-lo junto com as ideias de "jejum", de perder "mais uma" e de ser "novamente derrotada" (expressão presente no lide). Todas essas expressões, que semanticamente reforçam os traços relativos à derrota, são compensadas apenas pela única informação não negativa, a da medalha conquistada, de "prata". Interessante notar que mesmo a informação da medalha de prata aparece negativizada pelo texto, pois não é apresentada como conquista, e sim como consequência de um fracasso.

O texto desenvolve-se com esse viés e há poucas concessões à positividade da campanha realizada pela judoca. Quanto à ideia da série histórica de derrotas, a matéria aponta para um saldo negativo a partir de uma interpretação sobre os resultados anteriores dos confrontos entre Kayla e Mayra. Note-se que o viés adotado estabelece que dados se deve recuperar da informação e como comentar esses dados:


No caso do trecho selecionado, a primeira informação dá conta de que Mayra havia vencido sete vezes Kayla, uma a mais que a adversária. Portanto, com o resultado da final do Pan, estabelece-se um equilíbrio na disputa, um empate. Entretanto, o autor desconsidera os números da série histórica de confrontos porque, apontando esse empate, eles não reforçam sua ideia central, associada às noções de derrota e fracasso. Para manter a coerência com o viés adotado, recupera apenas duas competições indicadas como "grandes eventos", o Pan de Guadalajara e a Olímpíada de Londres. Com isso, pode falar de "retrospecto negativo": ele não se refere ao histórico dos confrontos, mas às disputas realizadas em "grandes eventos". O recorte da informação consolida a ideia negativa, que poderia ser afastada pelos dados mais amplos. Também é importante notar que a redação considera que o leitor tenha a mesma opinião do autor do texto sobre o que seriam "grandes eventos".

O que estou tentando mostrar com isso? O seguinte:

1) nenhum texto jornalístico é neutro, porque a língua não é um recorte neutro do mundo;
2) há muitas formas de lidar com dados, informações e números; portanto, é preciso cuidado quando as pessoas dizem que "contra fatos/números não há argumentos";
3) não é possível que três medalhas conquistadas em três edições do Pan por uma judoca possam ser vistas como "jejum" ou possam ser associadas a "retrospecto negativo";
4) dentre 900 milhões de americanos, a atleta brasileira habilitou-se para a conquista de uma medalha de prata em uma modalidade de judô, tendo sido derrotada apenas na final da competição por uma atleta estado-unidense, e isso é lembrado por um grande portal de mídia como fracasso;
5) não sei qual a cartilha dos jornalistas de hoje em dia, e menos ainda em relação ao portal de onde extraí a notícia, mas há claramente um viés de desvalorização do atleta na forma como a informação é noticiada; 
6) não acho que é justo estendermos a nossos atletas esse complexo de inferioridade que caracteriza boa parte do pensamento de nossa sociedade, e que não se justifica de maneira alguma.

O pior não é isso. O pior é que essas escolhas de linguagem, articuladas a matérias lidas muitas vezes de forma apressada e irrefletida, produzem um certo "senso comum" para o público em geral, que assimila esse viés de desvalorização como se ele fosse de fato uma abordagem neutra e objetiva. E aí é dose: atletas como Mayra Aguiar, medalhistas em Pan, Mundiais e Olimpíada, têm sua imagem associada ao fracasso. O que é quase um crime numa sociedade que, via de regra, só apoia com patrocínios e investimentos, no esporte, os que já venceram ou têm enormes chances de vencer, deixando em segundo plano aqueles que lutam com gigantesca dignidade, mas que não têm a oportunidade de subir em pódios.




quinta-feira, 9 de julho de 2015

O dom de cantar e o dom de saber usar esse dom



Lembro-me de ouvir, sobre meu ídolo esportivo de sempre, Roger Federer, que algumas vezes ele se perdia durante as partidas que disputava por uma razão até meio bisonha. O tenista suíço é, indiscutivelmente, o mais talentoso jogador de tênis de todos os tempos; em função disso, a cada jogada, duas ou três diferentes soluções poderiam passar por sua cabeça, todas passíveis de serem realizadas por seu braço. O que ouvi de algum comentarista cujo nome me falha na memória é que Roger, às vezes, não encontrava a melhor das soluções possíveis, e acabava perdendo para adversários que, por limitações técnicas, faziam exatamente a mesma coisa em todas as situações dadas, mas sem vacilar. 
Eu fiquei pensando sobre essa questão na tarde hoje, e refleti que o talento, ou o dom, ou a capacidade maior ou menor de fazer alguma coisa (não me importa se pensada como natural ou desenvolvida) é uma condição do indivíduo que pode ajudar ou atrapalhar. Sem dúvida, eu e muitas outras pessoas admiramos quem tem esses talentos. Gostaria muito de ter a habilidade com as palavras que vejo em muitos escritores, a potência e extensão de voz de muitos cantores, a musicalidade de muitos instrumentistas que conheço. Mas ter essas capacidades não quer dizer, de forma alguma, que eu poderia produzir com elas realizações como as que sempre sonhei para minha vida. A distância entre uma coisa e outra é muito grande.
Há algum tempo, eu e meu professor de canto, o Dudé, conversávamos sobre o fantástico Glenn Hughes, vocalista de capacidades impressionantes, virtualmente ilimitadas. O Dudé me dizia que o que havia de melhor em Hughes é que ele, mesmo podendo usar a extraterrestre voz de cinco oitavas e as dezenas de diferentes técnicas de canto, fazia escolhas que limitavam esse potencial para poder dar destaque às canções. É incrível vê-lo buscar notas absurdas em "Mistreated" ao vivo, mas também é incrível ver como respeita canções natalinas, por exemplo, quando as interpreta em um álbum como "A Soulful Christmas". Não importa, nesse trabalho, demonstrar quanto ele "pode" ou "alcança". Importa mostrar quanto ele entende que pode contribuir para o espírito de cada faixa, de cada canção. E o resultado é belíssimo.
Voltando à minha reflexão, meditei que Hughes, ao "economizar" voz e firulas na interpretação das músicas natalinas, entendeu à sua maneira aquilo a que vinha me referindo anteriormente: seus dons podem atrapalhar, nesse caso. Explorar todo o seu potencial de voz em canções singelas fere justamente o que elas têm de mais bonito, e o resultado artístico, embora pudesse ser uma verdadeira aula de canto, tornar-se-ia ao mesmo tempo uma lição de mau gosto estético. 
Dessa forma, acredito que seja missão do intérprete, vocalista ou cantor, em primeiro lugar, saber usar sua voz como recurso para um projeto estético maior. Se ocorrer o contrário, se o projeto estético for utilizado como recurso para promoção da voz, o efeito é egótico e redutor, e ainda que impressione a curto prazo, torna-se cansativo para o ouvinte. Por isso, creio que o grande talento ou dom a ser desenvolvido pelo cantor, que deve estar associado ao seu autoconhecimento e apuro técnico e à sua formação cultural e musical, é aquilo que vou chamar de talento de gerenciar os próprios talentos. Ou dom de saber usar o dom de cantar. 
O nome pode parecer meio maluco, mas acredito que ele represente uma capacidade à parte, tão importante quanto os recursos técnicos e físicos e, até diria, mais fundamental do que eles, considerando que artistas sem muitas qualidades vocais mas com grande inteligência musical para usar as que têm também podem alcançar excelentes resultados a partir da consciência das próprias limitações. Estendendo essa reflexão para além das questões da voz, penso que o artista, em geral, precisa encontrar, dentro de si, a medida da entrega que não comprometa o conjunto da obra. Talvez isso não seja tão óbvio nem tão fácil de fazer em um mundo que associa cada vez mais a arte, e principalmente a produção de consumo, a perfis individuais, isolados, artificiais e egocentrados, com os quais a sociedade individualista está apta a se identificar imediatamente. Mas se não for assim, o que se produz não se sustenta, e acaba caindo na vala comum da descartabilidade e irrelevância, como muito material que vemos por aí.